terça-feira, 23 de setembro de 2008

Júlia Lopes de Almeida [1] – a sagrada família: uma leitura de A isca


Marcelo Medeiros da Silva
Universidade Federal da Paraíba – PPGL



Nascida no século XIX, Júlia Lopes de Almeida, assim como muitas de suas coetâneas oitocentistas, escreveu obras que versam, sobretudo, a respeito da esfera doméstica onde muitas mulheres permaneceram fechadas dentro de casas e sobrados, mocambos e senzalas, construídos por seus pais, maridos, senhores. O privado foi, então, o cenário escolhido por essas autoras para fazer desfilarem, na ficção, mulheres que, igualmente como as da realidade, eram confinadas no mundo interior da família e mantidas sob o jugo patriarcal. Sendo assim, voltadas para o espaço doméstico, o privado, as mulheres, ao construírem o seu universo ficcional ou poético, deram prioridades aos laços familiares:

Estes laços, protetores e constritivos, são, freqüentemente, elementos estruturantes dos conflitos narrados. A família é, de fato, um tema que se impõe àqueles(as) que se interessam pela problemática feminina, seja ela abordada pelos mais diferentes campos do saber (XAVIER, 1998, p. 13).

A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem “a moral e os bons costumes”, daí serem recorrentes na produção delas temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a “esfera perfumada de sentimento e singeleza”, não abordassem nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública, isto é, assuntos de homem. Assim, não nos causa estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e planejados pela arquitetura masculina, as mulheres escolhessem justamente esses espaços para falarem, dizerem quem eram, são e foram.
Esses escritos, ainda que tenham tomado a esfera privada como cenário, são registros de “modos específicos de dramatização do crescimento urbano, da expansão industrial e da modernização dos costumes, nas primeiras décadas do século 20” (RAGO, 2005, p. 196). Por outro lado, esses mesmo escritos revelam também os efeitos individualizadores da crença nas tradicionais divisões entre os papéis sexuais e entre as esferas pública e privada, já que os assuntos mais recorrentes eram vistos, sob a óptica masculina, como simples coisas de mulher e, portanto, desprovidos de qualquer valor. Entretanto, “essas simples coisas de mulher” são uma preciosa fonte de informações sobre a família, a vida doméstica, a visão dos oprimidos e trouxeram para o espaço público assuntos ligados ao campo da moral, do cotidiano e dos costumes, mas também ao campo da sexualidade, do amor, do casamento e da prostituição.
A isca de Júlia Lopes de Almeida é um bom exemplo de como assuntos da esfera do privado vieram para o espaço público sob a ótica de um olhar feminino. Apresentada como livro de contos pelo Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (2002), A isca (1911) é, no entanto, classificada, conforme edição da Livraria Leite Ribeiro, publicada em 1922, como um conjunto de novelas que, além da que dá título ao livro, é composto por mais três: O homem que olha para dentro, O laço azul e O dedo do velho. Deter-nos-emos apenas na primeira dessas quatro novelas.
A isca é uma novela cuja trama gira em torno de duas forças igualmente poderosas: o amor e o dinheiro. Nesse caso, parece que Júlia Lopes dá continuidade ao que José de Alencar fizera em Senhora (1875). Ratificam essa nossa impressão o fato de o personagem criado por Júlia Lopes trazer o mesmo sobrenome do personagem criado por Alencar e o fato de o enredo de A isca ser muito semelhante ao de Senhora, romance em que se narra o processo de compra de um marido. Lembremos que o romance é estruturado em quatro partes que representam as etapas dessa compra: “O preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”.
Na primeira, Alencar fala do dote oferecido por Aurélia para casar-se com Seixas. Como ela “precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas”, Seixas estava disponível no mercado e ela podia pagar por ele. O casamento seria, então, a forma mediante a qual Seixas, rapaz casadoiro e possuidor de economias corroídas e de posses escassas, poderia inserir-se noutra classe social e elevar-se. No dizer de Antonio Candido, “Fernando Seixas é um intelectual elegante e pobre, que, incapaz da ascese comercial de Jorge da Silva, [personagem de A Viuvinha], resolve o problema da posição social trocando por cem contos a liberdade de solteiro numa transação escusa” (CANDIDO, 2000, p. 205).
Na segunda parte do romance, estabelecida a realidade de mulher traída e a de homem vendido, o narrador mostra como Aurélia despertava “a fome de ouro nos cavalheiros do lansquenete matrimonial” até que veio a comprar um marido. Adquirido o esposo, Aurélia, entretanto, fugia do mercenário, “como se receasse o contágio do homem a quem unira” e que se lhe apresentava “reduzido à mercadoria ou traste” cuja cotação era feita no mercado, assim como “se usava outrora com os lotes de escravos”.
Na terceira parte, feita a transação matrimonial, não acontece a tão esperada consumação carnal do dito “santo amor conjugal”, pois Seixas, transformado de sujeito a objeto, e Aurélia vivem separados por um divórcio moral. Por fim, na última parte, expiada a culpa de Seixas, ele é restituído à sua natureza generosa e, regenerado, está pronto para tornar-se livre mais uma vez, só que, agora, ao lado da esposa que, em nome do amor, foi também redimida de seu orgulho.
Em A isca, Antônio Seixas, tal qual Fernando de Senhora, é uma espécie de arrivista social. Entretanto, Alencar narra a história da compra de um marido, Júlia Lopes de Almeida em sua novela nos narra os fatos acontecidos depois de o negócio firmado. Guardadas as devidas diferenças, ambos os autores procuram enfatizar o aspecto comercial do casamento, como se fosse mais um negócio a ser realizado. Se Alencar fala da compra de um marido, Júlia Lopes fala da caça a uma esposa rica. Neste caso, o título da novela é bastante sintomático, pois, de acordo com o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o vocábulo isca significa “chamariz que se põe no anzol para atrair e capturar peixes”. Lida a novela, perceberemos que a personagem Isabel de Mendonça será a isca de que se valerá Antonio Seixas para conseguir a sua ascensão social. Dessa forma Isabel de Mendonça e Antonio Seixas constituem os vértices de um triângulo cuja outra ponta é composta por Vera Landim.
Quando a narrativa inicia-se, Isabel e Antonio já estão de casamento marcado. Vera nos é apresentada como a noiva abandonada por Antonio, já que este preterira Isabel a ela. Isabel tinha sido, na opinião de Dionísio, personagem que tenha consolar Vera, o objeto que Antônio ambicionara:

– Deixe-os dançar e pensar que são felizes. Para eles a vida está toda dentro daquele ritmo vagaroso. Viverão sempre assim, para trás e para diante, para diante e para trás, sem vôos de imaginação e nem poesia ... Até aqui o Antonio ainda tinha uma certa expressão interessante, porque era ambicioso. Casando rico tornar-se ha um apático (AI, p. 6-7).

Assim como Aurélia, Vera é abandonada porque o dote de Isabel Mendonça é muito maior. Entretanto, ao contrário da personagem de Alencar, Vera resigna-se e resolve ir morar na fazenda dos avós, embora seja cortejada por Dionísio cujas investidas ela descarta, uma vez que ele é casado:

– Ainda não chegou a hora. Repare que estamos sós. E sós estaremos toda a vida um em face do outro. O senhor é casado. Eu sou honesta. A nossa comédia seria, além de um crime, uma vergonha. Procure amar a sua esposa. eu procurarei resignar-me ao meu sofrimento (AI, p.11).
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O dote, durante muito tempo, foi um costume entre as famílias proprietárias que consistia em dotar as filhas, oferecendo-lhes, na maioria das vezes, casa, gado e escravos (índios) para que assim, com esses bens, elas pudessem estabelecer família própria. Com o dote, a mulher não só contribuía para o sustento do casal, como também deixava o marido em situação de devedor, ainda que a administração dos bens do casal ficasse sob a responsabilidade do marido. O dote era, portanto, elemento bastante significativo para o sustento do novo casal, além de ser um atrativo a mais das moças de família rica desejosas por casar. Quanto maior fosse o dote, mais pretendentes a moça poderia ter na bolsa de valores do mercado matrimonial. Esse era o caso de Maria Isabel, personagem de A isca, conhecida por ser muito rica. Por isso, seu pai um homem sensato e pacato, a advertia: “– Os pretendentes a dotes gordos surgem de todos os cantos, são os cogumelos da humanidade. Sê prudente e não te deixes cair no anzol sem mais nem menos ... ”(AI, p. 15-16).
Apesar dos conselhos do pai e da vigilância da tia Milu, Isabel Maria não ficou muito tempo longe do anzol do caçador de dotes Antonio Seixas. Eles se conheceram de relance durante uma temporada de verão em Petrópolis. Tornaram-se a encontrar em um dos saraus musicais realizados na casa da Silveirinha, nome de um personagem que dá título a um romance homônimo de Júlia Lopes. Nesse segundo encontro, a indiferença que marcara o primeiro cedera lugar a uma certa contemplação muito expressiva. Por essa época, Isabel estava comprometida com André Sales, de quem só sabemos essa informação, e Antonio Seixas era noivo de Vera Landim, boa pianista e bastante exímia em ciências naturais. A união de Isabel e Antonio parece demonstrar que o amor como estímulo para o casamento ocupou lugar de menor importância. O enlace deles representa bem os moldes das relações amorosas entre final dos oitocentos e limiar dos novecentos: do noivado, curto e que nem sempre sucedia ao namoro, seguia-se o casamento.
Antonio é-nos apresentado como um homem que se acostumara a hábitos de rico. Por isso, “uma preocupação qualquer, mais forte do que todos os deleites espirituais, lhe distraía o pensamento” (AI, p. 20). Antonio, inserido num grupo de pessoas cuja maior qualidade eram “os mesmos gostos dispersivos”, estava absorto “em duas coisas: o amor e o dinheiro”. Para manter os hábitos que criara e que lhe custavam caro, Antonio precisava fazer uma grande fortuna. Alternativa que lhe aparece mais vantajosa é casar-se “com uma mulher muito mais rica do que a Vera Landim” (AI, p. 21) e, assim, não fazer figura triste entre os amigos. Antonio, então, decide que a solução para aumentar os seus exíguos rendimentos estava no casamento com Isabel. Ressentia-se por não se casar com Vera; mas Isabel podia concretizar muito mais rápido os sonhos dele de luxo e ascensão social. Casando-se com ela, Antonio poderia desfrutar da influência política e econômica do sogro.
Homem para quem o amor é apenas um dos produtos de uma transação mercantil, Aas procura capturar a sua isca Lamdimma fazer uma grande fortuna.certa contemplaçmatromonial.ntonio Seixas procura capturar a sua isca. E, assim, aproveitando que era época de carnaval, num dos passeios a que foram, “Antonio sentou-se ao lado de Isabel e tocava de vez em quando com a dela a sua taça de Champagne. Depois ofereceu-lhe um cigarrinho. Ela fez uma careta, mas aceitou. Ele ria-se e ela já o tratava, embaralhadamente, por tu e por você... Dias depois estavam noivos” (AI, p. ). O que une Antonio a Isabel é, portanto, o interesse material e econômico dele. O interesse sentimental e afetivo mal começara a brotar, eles estavam de casamento marcado. O enlace matrimonial com a filha do rico industrial se afigura a Antonio como substancialmente vantajoso, como um negócio da China.
Como dote, ser-lhe-iam oferecidos duzentos contos (o dobro do que recebera Fernando Seixas, de Senhora) e uma casa, além de sociedade na fábrica do futuro sogro. Decepcionado, Antonio alegrou-se, entretanto, ao lembrar que Vera Landim não possuía dote sequer a oferecer a ele. Embora não fosse o esperado, Antonio ainda saíra lucrando: Isabel lhe traria, de uma só vez, fortuna e importância. Assim, mais para alimentar os seus hábitos de rico do que para comemorar o seu casamento, “Antonio julgou-se um príncipe e atirou-se para a ourivesaria a comprar a crédito diamantes e perolas para a noiva. Pagaria depois, com o dinheiro que ela trouxesse, mas teria desde logo o prazer de se mostrar generoso e de a ver lisonjeada...” (AI, p. 32).
Todavia, se rápida foi a fisgada de Antonio, mais rápida ainda foi a sua decepção com o casamento. Do que ele sonhara ao contrair compromisso com Isabel, restaram-lhe apenas os duzentos contos e a casa da rua Marquês de Abrantes. Tudo o mais fora dilapidado pelo sogro antes de morrer. O dote recebido era insuficiente, depois de tantos gastos, para cobrir as despesas que Antonio fizera, uma vez que ia ser genro de um grande industrial. Até mesmo tia Milu, que vivera sob a proteção do pai de Isabel e que devotara a sua vida à família dela, foi dispensada e se viu “como uma mosca numa teia, sem saber para que lado mover-se, para não cair de todo nas garras da miséria” (AI, p. 55).
Tia Milu representa o papel de mulher desprestigiada por ser solteira. Como o casamento se apresentava para as mulheres, na maioria das vezes, como a única possibilidade de carreira, “permanecer solteira, além de pouco atraente e financeiramente inviável na maioria das vezes, implicava um desprestígio para a mulher” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 83). Devido à situação de dependência econômica absoluta, Tia Milu era a criatura mais obediente e explorada da casa onde prestava os mais muito relevantes: consideração, respeitabilidade, comodidade, economia, vigilância de mãe, noites mal dormidas, os quais não eram suficientes para modificarem a sua condição de parente pobre que vive à custa de favores. Aliás, como bem notara Schwarz (2000), a prática do favor foi uma das marcas de nosso Brasil oitocentista foi a prática do favor, a qual condicionava a ascensão social e “, ponto por ponto, pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração e serviços pessoais”. Apesar disso, a prática do favor era uma estratégia mediante a qual se alimentava a ilusão de que nenhuma das partes envolvidas era escrava da outra. Como afirma Schwarz (2000, p. 20), “Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecido nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma”. Isso se aplica muito bem à Tia Milu, cuja situação dentro da casa dos Mendonça se modificou após a morte do cunhado:

Milu sentia-se desconsiderada e arrependida. O seu luto, feito com tecidos baratos e cosido pelas suas próprias mãos, dava-lhe a impressão de atestar aos olhos de todo mundo a sua decadência. Do que se arrependia era de ter passado a maior parte da sua vida no período da grande energia, como parasita de uma casa rica, a gastar a sua atividade em vigilâncias que não lhe tinham deixado nenhuma compensação pessoal... (AI, p. 43).

Ainda assim, tia Milu não deixou de visitar Isabel em cujo comportamento ela começava a perceber algumas mudanças. Com a morte do pai, sem o dinheiro esperado que viria como herança, Isabel se inquietava com as dívidas vultosas que foram contraídas por Antonio e por ela. Entretanto, tia Milu percebia que as preocupações de Isabel não eram as contas a pagar, e, sim, Antonio. Ela sabia que ele se casara pensando no dote de Isabel. Por isso, soam irônicas as seguintes frases da tia dita à sobrinha::

– E o amor? Perguntou então tia Milu, com tão encoberta ironia, que a outra não compreendeu.
– Ele ama-me muito.
– Pois isso é tudo. Quando há amor, que importa o resto?
– Quem ama não come?
– Apenas para sustentar-se, se não tem para mais, e com isso se deve sentir satisfeito. Que melhor dote para um homem que ama, que possuir a escolhida do seu coração e vê-la assim tão perfeita, tão boazinha como tu és? O Antonio não se casou com o teu dinheiro; casou-se contigo, e deve considerar-se o homem mais feliz do mundo, porque tu és uma mulher encantadora. Deves dizer-lhe isto mesmo, quando ele desesperar (AI, p.47).

O leitor, pelo que já vem acompanhando ao alo da narrativa, perceberá que tudo o que Tia Milu está dizendo soa como irônico porque o que moveu o casamento de Antonio e de Isabel foi exatamente o fato de ele ver a futura esposa como capital simbólico imprescindível à ascensão social dele. Se no imaginário da época, o corpo feminino era o mercado por onde circulavam os bens da família, Isabel era esse corpo de que Antonio queria tornar posse. Para ele, o matrimônio era visto como um contrato de natureza político-sócio-econômica. Aliás, essa foi a forma sob a qual o casamento foi concebido anterior à ascensão burguesa. Só com o advento da burguesia, emerge, dentre outras coisas, o conceito de amor conjugal e, neste caso, casa-se não mais por interesses políticos, econômicos e sociais, mas por interesses do coração.
Entretanto, como o casamento não evitou o fantasma de uma demonstração pública de penúria, era preciso a Antonio vislumbrar outras saídas a fim de que não se pudesse chegar a esse tipo de humilhação. Por isso, a ele só restava usar o que de mais caro lhe havia: sua esposa Isabel. Esta deveria, usando das artimanhas femininas, conseguir, sob as orientações do próprio marido, um emprego para ele com o Sr. Ministro Dr. Jordão. Assim como muitas outras mulheres, além das atividades estritamente ligadas à casa, a Isabel foi delegada uma outra função: estimular e ajudar, com sua simples presença e demonstração de dotes físicos, o seu marido na conquista de êxitos. Isabel é, portanto, utilizada como instrumento para favorecer os interesses do marido, ou seja, como capital e como expressão do êxito comercial de Antonio a fim de conquistar uma boa posição social e econômica para ele. Isabel, assim como muitas outras mulheres, passou a ser a responsável pelo sucesso e bom êxito de Antonio, que se valeu da habilidade e da demonstração dos dotes femininos da esposa como elementos decisivos na sua elevação social. Dessa forma, assim como muitas outras personagens da ficção oitocentista, Isabel tem seu papel social redefinido. A ela não bastava a atuação apenas no seio da família. Era preciso atuar também em sociedade:

– O Dionísio pediu-me para entrar com eles numa grande negociata com uma empresa americana. Aceitei. Estamos só à espera de umas instruções de Nova York. Entretanto, não seria mau que eu fosse ocupar o tal lugar no ministério... Convém-me mesmo estar do lado de dentro, o que me facilitará depois qualquer manobra. Isto são minúcias que não vêm ao caso: o principal agora é conseguir que o Vasco me dê o lugar, e para isso preciso de ti.
– De mim?!
– Pois então? Que melhor advogado poderei ter do que a minha mulherzinha? (AI, p. 63).

Assim, para contribuir no projeto familiar de mobilidade social, Isabel precisa convencer o ministro a dar o cargo que interessava a Antonio, que manteria o seu prestígio social e que empurraria o status de sua família mais e mais para cima. Para tanto, Isabel é instruída pelo próprio marido. Ela precisa se vestir bem, fingir que partiu dela mesma a idéia de ter uma conversa com o ministro. Ardiloso, Antônio precisava dirigir muito bem a mulher para representar o papel que ele mesmo escrevera para ela. Para Isabel, “era a primeira vez que ela entrava em cena para representar um papel estudado: devia procurar modelo para as sua atitudes. E aquele parecia-lhe excelente”.
Dias depois, a nomeação de Antonio foi recebida com espanto pelos amigos que ficaram curiosos para saberem como ele conseguira um dos cargos mais importantes da secretaria do ministro Vasco cuja assiduidade à casa de Antonio e de Isabel deram por desconfiar, fazer suposições. De Isabel, só quem olhasse bem para os seus olhos é que “teria a impressão de que atrás deles flutuava a sombra de um segredo íntimo, muito pessoal. Esse mistério, esse não sei quê de intátil e sutil, como que a tornava mais mulher e mais interessante” (AI, p.76). Antonio, por sua vez, estava bastante “excitado pela onda grossa dos bons negócios, que se avolumavam diante de si, mal percebia o traço de fel que se ia pouco a pouco acentuando nos lábios, antes sempre doces, da sua Isabel” (AI, p. 76).
Passado o embevecimento da fortuna conquistada, Antonio se via em uma situação delicada: livra-se do Vasco, “de quem já não precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado” (AI, p.77
()precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado pouco a pouco acentuando nos l). Com receio de ter o seu nome arrastado na lama, Antonio repreende Isabel pelo excesso de confiança que ela estava dando ao Vasco:

– Bem sabes que esse [o Vasco] vem todos os dias.
– Bem sei, bem sei! Todos, todos os dias! A mim isso me parece demais. Bastou! apre, bastou! Já não o posso tolerar nem quero tornar a vê-lo em minha casa!
– Agora . . .?! Retorquiu-lhe a mulher com ironia.
– Agora e sempre!
– Mas por quê?
– Porque não quero que arrastem o meu nome pela lama das ruas, entendeste? Tu bem sabes por quê! As suas assiduidades nesta casa estão tomando um caráter de intimidade que me desagrada imensamente e podem ser comentadas lá fora de modo desairoso para ambos nós. Eu não admito que isso suceda; eu não admito, ouviste? E a culpa tem sido tua, que lhe dás confiança. (AI, p. 82).


E Isabel, numa das cenas mais interessantes e de maior força dramática da novela, exaspera-se com Antonio:

– Minha?
– Sim, tua.
[...]
– Não me faças perder a cabeça, não me faças perder a cabeça, repetiu ele, de punhos cerrados, apoplético e terrível. Supus ter casado com uma mulher honesta e afinal...
[...]
– E afinal, acaba!
– Que és tu? . . . dize!
– Ah! pois ignoravas? Eu sou a isca. Eu fui a isca ... e não tenho sido outra cousa desde que me conheceste, e deves saber disso muito melhor do que eu mesma, que não compreendi as cousas senão depois delas passadas e irremediáveis.
– Cala-te.
– Agora está dito. Serviu-te o meu dote; serviu-te a minha beleza. Estás rico, estás farto, não precisas de mais nada, podes zangar-te e defender a tua honra; mas a ingênua morreu e a outra mulher que existe dentro de mim, melhor é que a não provoques, para que te não diga verdades desagradáveis.
Antonio levantou as mãos e cresceu para a mulher, lívido de raiva.
– Bate, concluiu Isabel, sem se mover do lugar em que estava. (AI, p. 84).

Arrefecidos os ânimos, Antonio e Isabel foram passar um tempo no interior. Quando regressaram, o Vasco já não mais assistia no Rio. Ele, que já estava se aborrecendo com a “insaciável avidez de negócios lucrativos, de que [Antonio] andava sempre à caça”, havia casado com uma viúva e fora morar nos estados Unidos. Para Antonio, a distância do antigo “amigo” alimentou-lhe a esperança de um novo horizonte. As relações com Vasco eram coisas do passado e lá deviam ficar enterradas lá como ficaram os ressentimentos de Isabel e pelo esposo. O coração dela arrefecera e estava unido ao do esposo pela ternura que ambos estavam sentindo pelo filho que estava por nascer:

O bebê esperado enlaçara o coração arrefecido dos pais numa corrente de ternura. Tinham-se perdoado tudo; viviam dele, por ele, na esperança de sua graça, da sua perfeição, da sua beleza. Tudo o que ficara no passado estava bem enterrado; agora só olhavam para frente, onde o vulto do filhinho lhes aparecia de diversos modos, em diversas idades . . .
Foi quando a criancinha veio ao mundo e que lhe deram o nome de Antonia Isabel, para que no próprio nome eles estivessem nela reunidos [...] (AI, p. 87).


Com esse adorável epílogo, podemos tecer algumas considerações últimas.Assim como muitas outras obras escritas anteriormente à sua publicação, A isca trata do casamento como um contrato social e coloca o dinheiro no cerne da trama. Essas mesmas obras, em sua maioria, representam o amor como um bálsamo capaz de restaurar o caráter moral perdido e de vencer os interesses econômicos no casamento. Ao contrário dessas obras, A isca, entretanto, vem apresentar um outro lenitivo: a família. Ou melhor, A isca vem reforçar a importância do amor familiar.
Em nome dos laços familiares, e não mais dos sagrados laços do matrimônio, Antonio e Isabel deixam de lado as rusgas e os dissabores do passado. Essa nova família, alicerçada nos moldes burgueses, vem reconfigurar os papéis do homem e da mulher no ambiente privado. Instaura-se, a partir daí, uma outra reorganização das vivências familiares e domésticas: um sólido ambiente familiar, um lar acolhedor. Dentro desse novo molde familiar, se a mulher possuía instintivamente o amor aos filhos e estava naturalmente preparada para se dedicar a eles, o homem não era mais apenas o provedor do lar. Tornara-se o pai, o chefe da família cuja incumbência maior era zelar pela felicidade e bem-estar da esposa e dos filhos. Revestidos dessa nova função, Antonio e Isabel parecem ter encontrado a sua mais alta realização humana. E assim, com essa cena familiar, a narrativa encerra-se com sabor de happy end.

[1] A primeira parte do título do presente trabalho é retirada de um texto da prof. Dra. Elódia Xavier, o qual se encontra no livro Declínio do patriarcado: a família no imaginário feminino, de autoria da referida professora. Além disso, este texto foi escrito para uma aula ministrada durante o meu estágio docência. Por isso, ainda precisa passar por algumas alteraçoes que serão feitas posteriormente.

domingo, 21 de setembro de 2008

"Em torno de um jarro" ou uma geografia sentimental da infância: estudo crítico

Marcelo Medeiros da Silva
Universidade Federal da Paraíba



I. Literatura infato(il)-juvenil: à guisa de uma introdução


A literatura infantil surgiu em meados do século XVIII. Nesse momento, a criança passou a ser vista como um ser diferente do adulto e, por isso, precisava receber uma educação especial que a preparasse para a vida adulta, o que fez com que, aliado à literatura infantil, surgisse uma preocupação pedagógica que revestiu muitas das obras voltadas ao público infanto-juvenil. Sendo assim, para a constituição de uma literatura destinada à infância e à juventude, criaram-se adaptações dos clássicos e procurou-se apropriar-se dos contos folclóricos, como fizeram Perrault e os irmãos Grimm. Ademais, surgiram em outros países novas propostas de obras literárias infantis. Entre os mais importantes escritores estavam: Andersen, Lewis Carroll, Mark Twain, Charles Dickens.
No Brasil, a maioria das obras destinadas ao público infanto-juvenil, além do caráter pedagógico, eram adaptações de obras portuguesas. Merecem destaque aqui os seguintes autores: Carlos Jansen, Figueiredo Pimentel, Coelho Neto, Olavo Bilac e Tales de Andrade. Foi, porém, Monteiro Lobato quem impulsionou a literatura infantil brasileira e abriu espaço para que, em sua esteira, viessem escritores com talento para escreverem obras direcionadas a crianças e a adolescentes.
Delineado, ainda que rapidamente, esse cenário, permitam-nos o luxo de uma digressão: o que significa o termo “infantil”? existe, realmente, uma literatura infantil? Para a primeira pergunta, antes de qualquer resposta, é preciso refletir sobre “esse ‘infantil’ como qualificativo especificador de uma determinada espécie dentro de uma categoria mais ampla e geral do fenômeno literário” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 05). Essa reflexão se torna imprescindível porque falar à criança no Ocidente é falar a uma classe sem voz e cujos valores são ditados pelos adultos; é colocar a obra literária entre duas figuras: o dominador e o dominado, o que faz com que a obra literária infantil seja revestida de um caráter utilitário-pedagógico, num processo de catequização da criança por meio de uma literatura infantil. Ao proceder assim, esqueceu-se que a arte e a própria criança têm outros desígnios e desejos, e que ela, a criança, não é um ser dependente, nem um adulto em miniatura; mas um ser que, na sua linguagem, privilegia o lado espontâneo, intuitivo e concreto da natureza humana.
Como resposta à segunda pergunta, Cunha (2003), ao comentar as posições em torno da literatura infantil, diz que a existência dessa literatura é questionada por muitos educadores e literatos, e que muitos autores se esquivam dizendo que escrevem simplesmente sem destinatário – esses são, conforme a referida a autora, os que, na maioria, escrevem só para crianças. Outros preferem afirmar que, durante o processo de elaboração da obra, já a imaginavam se era para criança ou não. Esses escrevem, então, tanto para crianças quanto para adultos.
Mesmo assim, continuamos sem uma resposta precisa sobre o que significa o termo infantil atrelado ao vocábulo literatura e constituindo, assim, o sintagma literatura infantil. Entretanto, parece ser inquestionável o fato de que a literatura infantil, hoje, existe e que possui características próprias. Nessa perspectiva, os debates e as reflexões não devem se voltar mais em torno de questões que ainda estão preocupadas em saber se existe uma literatura infantil, mas precisam se voltar para “definir pontos de contato e de afastamento entre literatura para crianças e para adultos. Se o afastamento se der na essência do fenômeno literário, então haverá literatura infantil. Nesse caso, a própria expressão ‘literatura infantil’ torna-se absurda, pois não podemos imaginar literatura sem arte” (CUNHA, 2003, p.26).
No entanto, não podemos esquecer que, desde os primórdios, a literatura infantil é vista como subliteratura, como um gênero ou forma literária menor cuja função deve estar revestida de um caráter utilitário-pedagógico, o qual a torna uma pretensa literatura infantil (nesse caso é mais pedagógica do que literária) cuja função é criar determinados modelos lingüísticos. Essa suposta literatura infantil é, nas palavras de Paolo e Oliveira (1986), “linguagem carregada de ideologia que permeia cada fala do narrador, cada diálogo das personagens, e tem um destinatário certo: o leitor infantil, cujo pensamento se pretende capturar”. Nesse caso, reverbera-se ainda a voz da lei pedagógica em exercício literário. Diante dessa voz que traz determinado enfoque da realidade social, a criança tem a função de aprendiz passivo.
Ao contrário dessa pretensa literatura infantil a que aludimos anteriormente, a verdadeira literatura infantil deve procurar sintonizar-se, assim como faz o pensamento infantil, com o pulsar pelas vias do imaginário e ser uma “leitura que segue trilhas, lança hipóteses, experimenta, duvida, num exercício contínuo de experimentação e de descoberta. Como a vida” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 10). Em outras palavras, deve procurar investir na inteligência e na sensibilidade da criança. Ao proceder assim, ou seja, ao abordar os textos de literatura infantil sob a dominante estética, põe-se em risco a categoria infantil, visto que “não se trata mais de falar a esta ou àquela faixa etária de público, mas sim de operar com determinadas estruturas de pensamento – as associações por semelhança – comuns a todo ser humano” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 12).
É por isso que muitas obras não-elaboradas com a intenção de falar ao público infantil foram direcionadas à criança. É o caso de, por exemplo, Aventuras de Robson Crusoé, de Viagens de Gulliver, de Lewis Carrol e suas Alices, de Guimarães Rosa em muitos de seus contos, de alguns poemas concretistas e oswaldianos, ou de alguns poemas escritos por Paulo Leminski. Por outro lado, muitas obras destinadas à criança agradam muitos adultos. Diante disso, Cunha (2003, p. 28) chega a postular que:

a literatura infantil não só existe, como também é mais abrangente (apesar do adjetivo restritivo da expressão); na realidade, toda obra literária para criança pode ser lida (e reconhecida como obra de arte, embora eventualmente não agrade, como ocorre com qualquer obra) pelo adulto: ela é também para crianças. A literatura para adultos, ao contrário, só serve a eles. É, portanto, menos abrangente do que a infantil.

Aliado a isso, acrescentemos que, na compreensão do fenômeno literário, nada é mais importante do que a “consciência da natureza universal da arte literária, que a liberta desse ou daquele público específico – e, nesse ponto, com o qual concordamos, Paolo e Oliveira divergem de Cunha – para propor-se como generalizadora e regeneradora de sentimentos [...]” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 13).
Delineado o campo melindroso da literatura infantil, passemos agora à análise de uma obra destinada ao público infantil: Em torno de um jarro, escrita por Edmundo de Oliveira Gaudêncio e ganhadora do prêmio Novos Autores Paraibanos na categoria de Literatura Infantil, versão de 1999.


II. Rememorando a infância perdida: aspectos temático-estruturais de “Em torno de um jarro”



Quando o espaço da narração abrange a consciência, não só a personagem se percebe como representação, mas também o próprio narrador passa a se perceber como construtor de sua história para um possível leitor. Assim, há uma busca pela reconstrução de sua própria história, uma busca pela identidade através da memória. Na obra em análise, o narrador mergulha nessa busca por sua identidade e, mediante a memória, procura, voltando à infância, reconstruir sua história a partir de uma das fases de sua vida, o que faz com que o tempo seja distorcido em função das vivências subjetivas desse narrador, havendo, assim, entre a urdidura dos fatos rememorados, a predominância do tempo psicológico. Por isso, toda a narrativa é construída a partir das lembranças desse narrador e marcada pela atemporalidade de um “era uma vez”, afastando, assim, a narrativa da realidade, atitude essa que o narrador explica da seguinte forma: “esta estória começa [...] com isto de era uma vez, somente porque o menino que fui, hoje não sou”.
A passagem seguinte (“à esquerda, o relógio do frontão – você é capaz de enxergar detalhes onde todos vêem nada? – marcava sete e dez que tanto poderiam ser de domingo ou de sábado”), ao lado do “era uma vez”, atesta a pouca importância dada ao tempo cronológico e a preferência pelo tempo indefinido, que, sendo também subjetivo, é relativo e irregular, dependendo, sobretudo, dos diferentes estados subjetivos do personagem/narrador. Além disso, esta mesma passagem faz lembrar Joana, personagem de Perto do Coração Selvagem, que, diante do relógio, quando sentia dor, “via então que os minutos no relógio iam passando e a dor continuava doendo. Ou, senão, mesmo quando não lhe doía nada, se ficava defronte ao relógio espiando, o que ela não estava sentindo também era maior que os minutos contados no relógio. Agora, quando acontecia uma alegria ou uma raiva, corria para o relógio e observava os segundos em vão”.
Contudo, ao contrário de Joana, o personagem gaudenciano não pára diante do relógio para refletir sobre o seu tempo subjetivo, isto é, enquanto os minutos são paralisados quando Joana sente alguma emoção, no texto do autor paraibano, o tempo é posto em suspenso para que a personagem possa “caminhar pela pontezinha que unia os dois lados da cidade, correr pelo ancoradouro, banhar-se no rio de porcelana do jarro de sua infância”. A personagem não é um contemplador do tempo, mas um viajante que procura se encontrar atando presente e passado.
No texto em prosa, prosseguindo, a construção do espaço é representada por meio de descrições. É no espaço que a ação se desenvolve e também é nele que as personagens, que aparecem integradas com o lugar físico, circulam. Ademais, a unidade de espaço é decorrente da circunstância de apenas determinado ambiente encerrar importância dramática, daí por que os acontecimentos ocorrerem sempre em ambientes curtos. Sob esse aspecto, no texto em pauta, há a predominância do espaço psicológico que reporta o narrador à casa de sua infância onde morava com seu pai, sua mãe e sua avó e que lhe permite, ao vasculhar a sua intimidade, passear pelos meandros daquele jarro que jaz em sua memória, podendo, inclusive, entrar “numa das casas, a maior do lado direito, às margens do velho rio. Lá dentro não encontrei qualquer pessoa e por isso subi até o sótão, onde encontrei muita coisa, a maior parte imprestável: uma velha espada de ferro, uma adaga cega de prata e uma caixinha de música que ao ser acionada, por trás de toda a ferrugem, tocou triste melodia ao compasso de leves pés de fantasma da bailarinaria, podendo, inclusive, entrar "@r pelos meandros daquele jarro que jaz em sua memrro de sua inf”. Nessa passagem, adjetivos como “velho” ou “imprestável”, assim como os substantivos “ferrugem”, “fantasma”, vêm reiterar a idéia de tempo passado, o qual revive como “uma triste melodia” que vem permear as lembranças da personagem com uma certa nota de nostalgia.
A personagem é um ser fictício que se refere a uma pessoa. Historicamente, antes de essa categoria passar, por analogia, à literatura, a personagem era a representação da pessoa no teatro. Entretanto, a personagem da narrativa não é a pessoa. Consoante lição de Roland Barthes, a personagem é um ser de papel e construído, portanto, de e por palavras. No conto aqui analisado, são poucas as personagens que intervêm nos fatos narrados. Tem-se o protagonista (a personagem central da narrativa) que é ao mesmo tempo o narrador da estória que, quando criança, contracenava com a avó (personagem adjuvante que desempenha um papel secundário, auxiliando o protagonista), a qual era “a única que me entendia, de fato [...]: deixa o menino sonhar...! Sonhar é bom...! Vai ver e será poeta...!”.
Além dessas personagens, há ainda o pai e a mãe do protagonista, personagens secundárias. Esta última ralhava “irritada com aquilo de dia e noite ficar espiando o jarro, isso sim, onde já se viu ... Devia ir brincar lá fora...!”. Acrescentemos que, no tocante ainda às personagens, no texto gaudenciano, todas elas são destituídas de nomes. Essa supressão onomástica pode ser interpretada como um recurso de que se valeu o autor para conferir a sua narrativa o anonimato comum tanto ao conto popular quanto à grande parte das formas de narratividade.
Quanto à linguagem, no conto em tela, verificamos a coexistência das três formas do discurso, a saber:
– Discurso direto: “Você finda quebrando isso, ela ralhava. Talvez fosse até melhor, arrematava, só assim levava vida sabia que nem faz todo moleque...!”.
– Discurso indireto: “Tentando consolar-me, minha mãe argumentou que estavam ambos muito velhos e que por certo homem não chora e que já era quase um homem feito [...]”.
– Discurso Indireto livre: “E a minha avó me dizia que neste jarro você ainda vai descobrir uma coisa muito valiosa...!”; “À esquerda, o relógio do frontão – você é capaz de enxergar detalhes onde todos vêem nada? – marcava sete-e-dez que tanto poderiam ser de domingo ou de sábado”; “Uma ocasião fiquei doente, piorando muito da asma. Tosse, febre, e minha mãe, pensando em chamar o médico, ralhou que vai ver, é porque não come, o da inteiro olhando para esse jarro...!”.
Entretanto, essa coexistência entre as três formas de discurso não é tão pacífica assim. Lendo a obra, temos a impressão de que essas formas se entrelaçam de tal maneira que se toma impossível distinguir uma da outra. Recurso esse bem apropriado a um texto que se erige a partir da memória. Esta permite ao narrador estabelecer uma relação com o passado e, portanto, com uma dimensão do tempo e com uma dimensão da vida, já que a memória é esse olhar em direção ao passado, um olhar que é lançado em busca de coisas distantes e ausentes, o que faz “tranqüilizar as águas revoltas do presente pelo alargamento de suas margens” e, dessa forma, “[...] permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações. Pela memória, o passado não vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas. Como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência” (BOSI, 2004, p. 47). A memória é, então, uma atualização do passado e é também um registro do presente para que permaneça como lembrança. Neste processo, é o ato de narrar que vai manter passado e presente amalgamados. Sendo assim, o narrador deseja, no contar a história, (re)encontrar-se, mas, para isso, é preciso, intercambiando experiências, reconstruir, num processo em que, mediante o ato de narrar, se mergulha na vida do narrador-personagem da obra em apreço para que, assim, se possa retirar, de dentro dele mesmo, a coisa a ser narrada.
Nessa empresa de presentificação de um conjunto de lembranças hauridas de experiências também passadas, o ato de narrar corporifica o eterno re-fazer que o ato de lembrar representa, já que, conforme assevera Chauí (2004, p. 20), “[...] lembrar não é reviver, mas re-fazer. É uma reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição”. Narrar é, portanto, para o narrador gaudenciano, lapidar um diamante feito de lembranças, esgarçadas pelo tempo, o que exige dele o trabalho da reflexão e da localização, sem o qual a lembrança seria imagem fugidia. Essa exigência, por sua vez, implica que o ato de lembrar deve vir acompanhado de certo sentimento para que a lembrança vinda à tona não seja uma repetição do estado antigo, mas reaparição (CHAUÍ, 2004).
O sentimento que reveste o narrador gaudenciano nessa sua incursão ao passado é a saudade, ou seja, “sobras do que não fica, [aquilo] que fica do que não sobra”. Enfim, para lembrar Chico Buarque, se “a saudade é o pior tormento”, “é pior que o esquecimento”, “é pior do que se entrever”, se ela é “o revés de um parto”, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”; ela o é porque “saudade é perder de vista, é não ter mais sob os olhos, é nunca mais olho-no-olho. E porque desejo é falta – somente desejamos o que não temos –, saudade é viva percepção da incompletude, castração, amputação, hiância, espaço vazio em que nos tornamos e de que passamos a ser feitos” (GAUDÊNCIO, 2007, p. 72). Sendo a saudade esse perder que se ganha em se cuidar, ela reveste as lembranças do narrador gaudenciano de uma aguda nostalgia que não se torna mais lancinante porque o ato de narrar oferece ao narrador a possibilidade de entrar em contato com esse passado que de alguma forma se conservou e de cuja rememorização o narrador se vale para poder reencontrar, habitar ocasiões outra vez favoráveis, encontrando, nesse processo, o conforto do reencontro nos espaços da memória.
No conto gaudenciano, a ação, à semelhança dos contos de fadas, inicia-se marcada pela atemporalidade de um “era uma vez”, para a partir dela serem apresentados os personagens: “era uma vez um menino magricela, asmático, feio e muito só. E era uma vez, também, um jarro grande no centro da casa de minha infância onde vivi com eu pai, minha mãe e minha avó...”.
Feita essa apresentação, outra semelhança com os contos maravilhosos, o narrador prossegue a narrativa, lembrando-se do tempo em que era criança, e vai relatando as suas aventuras dentro do jarro, que foi “... pintado por um mago ou feiticeiro que ali havia apreendido a luz com pinceladas” e em cuja pintura apareciam “um rio, uma ponte, os dois lados de uma cidade dividida pelo rio”, onde uma vez “quase fiquei preso para sempre lá dentro de tal pintura... nas outras viagens, não, que eu parava defronte às casas para além da ponte e não entrava em nenhuma delas, que em casa alheia não se pode ir, assim, entrando sem mais, nem menos, mesmo quando seja apenas uma casinha de pintura em porcelana...”.
No entanto, certo dia, o jarro, esse objeto com propriedades mágicas em cujo interior se acha(va) construído uma mundo mágico, semelhante ao da parságada de Bandeira, com suas encruzilhadas e atalhos visíveis apenas “para quem tem olhos de inventar o escondido” quebrou-se: “foi o vento, disse minha mãe, recolhendo meus segredos nos milhões de caquinhos do meu jarro colorido...”.
Com a quebra do jarro e com a morte da avó, encerra-se o rito de passagem da infância à vida adulta, o qual já vinha sendo percebido pelo narrador: “[...] descobri não sei como que de crescendo em crescendo eu havia crescido muito [...]” e “por incrível que pareça, não chorei pelo meu jarro: não era mais menino, havia ficado grande”. A chegada à vida adulta, porém, não lhe roubou a capacidade de sonhar, “esta capacidade de sonhar, que um sonho, por si só, é quase tudo [...]” e é, exatamente, esta capacidade de sonhar que alimenta o sonho dele de que um dia “seremos outra vez juntos, eu, meu pai, minha mãe, minha avó, aquele jarro [...]”.
Permitam-nos, mais uma vez, o luxo de outra digressão referente, agora, à relação entre as imagens e o texto infantil. Nessa relação, a ilustração é vista como porta de entrada para a leitura, havendo, neste caso, um diálogo profícuo entre texto verbal e imagens, ou como uma primeira experiência com a imagem como expressão artística (SILVA, 2000). No texto em análise, as ilustrações estão relacionadas com o texto verbal, de tal forma que há uma integração entre as formas de leituras da escrita e da imagem. À medida que se vai lendo o texto escrito, a figura do jarro mantém com o texto verbal uma fina sintonia, funcionando como uma sombra que ganhará cores somente no final do texto. Nesse momento, o leitor já sabe, pelo que está escrito no texto verbal, que “uma jarro é mais que um jarro, / e muito mais quando se quebra”, o que é sugerido pela gravura da página 29, na qual, em vez do desenho, temos a imagem recortada de um jarro cuja gravura, presente na página posterior, é uma reprodução de uma paisagem do século XVII, intitulada de “Vista de Delft”, de Vermeer:


Ao lado de A Viela ou Rua de Delft (1660), a Vista de Delft foi pintada por Vermeer e se enquadra no gênero paisagem. Na Vista de Delft, a mais famosa, encontramos uma descrição primorosa da cidade holandesa de Delft, cuja iluminação natural é captada por Vermeer em sua pintura. Além disso, ao pintar o céu da cidade, Vermeer procurou reunir características climáticas da Holanda, cujo sol e nuvens claras são surpreendidos por nuvens mais escuras. As casas, as torres e os telhados recebem, ao fundo, uma maior incidência da luz solar. A Vista de Delft é, portanto, um amálgama de efeitos perspectivos, cromáticos, tonais e de luz. Isso lhe confere o lugar de uma das paisagens urbanas mais extraordinárias de toda a pintura européia. É, portanto, essa paisagem que, a partir de fragmentos verbais, juntamente com a repetição da imagem do jarro pintada em preto e branco, o narrador vai procurando construir. Quando está quase construída, é-nos apresentada a fusão da imagem verbal (as palavras) com a imagem pictórica; fusão essa que culmina com a construção do jarro, o qual não mais se encontra despido de cor. Pelo contrário, agora, aquela imagem que integrava o jarro e que, antes, fora apresentada por meio de vocábulos verbais, assume a forma pictural e juntamente com o esboço do jarro, construído a partir de signos verbais e de uma imagem pictórica, constituem uma só imagem. Com isso, parece que o trabalho de rememorar está findado, já que conseguiu chegar ao seu objetivo, isto é, reconstruir um objeto perdido: o jarro, metáfora da própria infância pretérita. No entanto, embora cheguemos ao fim da narrativa, ficamos com a impressão de que tudo começará novamente e de que o narrador adentrará em si para ver se encontra a si mesmo e, não se encontrando, nostalgicamente, reinicia a busca de si mesmo. Ao proceder assim, o narrador se torna, portanto, um prisioneiro da linguagem, e, dessa forma, o que seria uma forma de libertação se torna um meio de encarcerar o sujeito (o narrador-personagem) que permanecerá preso a um passado que não o liberta para viver o presente, num processo eterno de retorno ao tempo passado.



III. CONSIDERAÇÕES FINAIS



Ao terminarmos de ler o conto “Em torno de um jarro”, fica-nos a impressão de que a todos nós acontece, pelo menos uma vez na vida, (re)pensar sobre a infância, buscar lá no passado explicações que venham a auxiliar na compreensão do que somos hoje e, talvez, do que seremos amanhã. Nessa empresa, Edmundo de Oliveira Gaudêncio realiza um verdadeiro passeio por uma geografia sentimental da sua infância, o que confere um aspecto autobiográfico a sua narrativa, cujo percurso só pode ser descoberto se levarmos em consideração o valor simbólico atribuído ao jarro. E é justamente procurando descobrir esse valor simbólico, do qual o jarro é portador, que o que temos é um homem que diante de si procura refletir sobre a sua própria condição humana, lançando um olhar sobre o passado. Todavia, consoante lição de Huberman (1998), como o ato de ver acha-se bifurcado, visto que o que vemos só é válido pelo que nos olha e como o ato de ver só se realiza no tocar, a personagem gaudenciana procura ver esse passado, embora não consiga tocá-lo, pois tal passado é fruto de lembranças, muitas delas esgarçadas pelo tempo e apenas acessíveis através da memória. Em virtude disso, tudo o que se apresenta ao narrador é olhado pela perda do passado, que é a infância rememorada.
Dessa forma, lançar um olhar para trás, a fim de buscar o que aí se acha perdido, é fruto do fato de que ver é perder. Nessa perspectiva, o jarro é o objeto visual que vem mostrar a perda, a destruição, o desaparecimento de um corpo (e o narrador tem consciência disso, pois logo no início da história ele diz: “Esta estória começa deste modo, com isto de era uma vez, somente porque o menino que fui, hoje não sou [...]”). Nesse caso, o jarro é a representação simbólica de um túmulo (cujos aspectos mórbidos são realçados pelas cores preto e branco e pela própria forma do jarro que mais parece uma urna funerária) diante do qual o narrador se acha face a face e sobre o qual põe os olhos. Sendo assim, por um lado, há aquilo que se vê do jarro, ou seja, a evidência de um volume, em geral, uma massa de argila ou porcelana trabalhada: “um jarro é argila, fogo, suor e pronto: eis um jarro”; por outro lado, há aquilo que nos olha e, de certa forma, é uma espécie de esvaziamento: “um jarro é um vazio cercado de porcelana”, este vazio, por sua vez, não tem nada de evidente.
Sob esse aspecto, sendo um túmulo, o jarro encerra em si mesmo um sentido que é perturbador, pois olha o narrador até o seu âmago e perturba-o, mostrando-lhe que ali nele, no narrador, mais precisamente em suas lembranças, jaz aquela criança que pelos caminhos do jarro um dia passeou. Por isso, diante do jarro, o narrador tomba, cai na angústia e contempla o passado. Diante disso, a única atitude lúcida se chama melancolia, a qual provoca um esvaziamento no narrador que, para preencher tal vazio, se lança ao passado onde ele, o narrador, busca reconstruir, a partir de aspectos positivos, a sua infância, visto que o passado é a fonte onde repousam as memórias da infância. Preso a esse passado que ele tenta reconstruir narrando a si mesmo, o narrador gaudenciano desencadeia um processo cíclico do qual não pode escapar: “nada tem fim ou começo: tudo é continuar-se eternamente”. Isso confere à narrativa uma nota de melancolia, já que, embora atualize eventos do passado, o ato de narrar reafirma o caráter pretérito de tais eventos. Narrar é, portanto, para o narrador gaudenciano, uma forma de lidar com a inevitável e grande perda de um objeto denominado tempo passado.
Por fim, resta reiterarmos que Edmundo de Oliveira Gaudêncio, com “Em torno de um Jarro”, constrói uma obra calcada em palavras carregadas de significação e possuidoras de alto poder de sensibilização, uma obra que exige muito mais do que um simples leitor passivo, pois investe na criatividade do leitor e o convida a atualizar os sentidos de uma obra na qual o autor, assumindo uma postura eivada de lirismo e nostalgia, erigiu, com a argamassa da palavra, um mundo para o qual convergem uma miríade de imagens sinestésicas e no qual o próprio autor revela os seus mais (in)conscientes desejos, os quais podem também ser os do próprio leitor. È uma obra que desponta altaneira na grande seara de obras destinadas ao público infanto-juvenil, mas uma obra que, desde a sua concepção, se singulariza, pois é fruto de um processo em que o exercício artístico e as experiências pessoais se amalgamam. E como se isso não bastasse, “Em torno do jarro” é uma obra em que a palavra, trabalhada com rara inventividade, é silêncio, paixão, memória e, sobretudo, poesia.



IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS



ABDALA JUNIOR, Benjamin. Introdução à analise da narrativa. São Paulo: Scipione, 1995.

BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 12.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CHAUÍ, Marilena. Apresentação. In: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 12.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.

CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura Infantil – Teoria & Prática. São Paulo: Ática, 2003.

GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. 19. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.

GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. Em torno de um jarro. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1999.

GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. Cartografia da saudade: apontamentos para a clínica do luto. In: RIBEIRO, Maria Goretti, SILVEIRA, Maria de Fátima de Araújo e OLIVEIRA, José Alex Nogueira de. Corpo e alma: terapia biopsicossociais. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2007.

HUBERMAN, Georges Didi. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998.

KHÉDE, Sonia Salomão. Personagens da Literatura Infanto-juvenil. São Paulo: Ática, 1990.

LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin – Tradução e Melancolia. São Paulo: Edusp, 2002.

MOISÉS, Massaud. A criação literária (Prosa I). São Paulo: Cultrix, 2000.

MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo: Cultrix, 2000.

PAOLO, Maria José e OLIVEIRA, Maria Rosa D. Literatura infantil – voz da criança. São Paulo: Ática, 1985.

SILVA, Márcia Tavares. Brincar com palavras e imagens. In: PINHEIRO, Hélder (org.). Poemas para crianças: reflexões, experiências, sugestões. São Paulo: Duas Cidades, 2000.

SILVA, Marcelo Medeiros da. O verbal se fez imagem, e a imagem era o verbal: a infância verbo-visualizada na obra Em torno de um Jarro, de Edmundo de Oliveira Gaudêncio. Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba, 2004. (Monografia de Graduação em Letras).

SILVA, Marcelo Medeiros da. Da página à tela e da tela à página: uma leitura da infância em Edmundo de Oliveira Gaudêncio. I Encontro Nacional sobre Literatura Infanto-Juvenil e Ensino. 14 a 17 de junho de 2006. Campina Grande: Bagagem, 2006.

domingo, 31 de agosto de 2008

Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem comportada?

Júlia Lopes de Almeida

Carolina Nabuco com seus irmãos e sua mãe


ESCREVER v.t.d. 1 representar por sinais gráficos (pensamentos, idéia etc.); redigir 2 riscar sobre uma superfície (palavras, frases, letras, caracteres etc.) 3 inscrever, gravar 4 B infrm. aplicar multa a (infrator de trânsito) t.d. e int. 5 criar (obra escrita); compor, redigir (e. um romance) (e. diariamente para o jornal) t.i. e t.d.i 6 (prep. a, para) enviar (carta, bilhete etc.).
Visto meramente como uma palavra em estado de dicionário, não nos apercebemos dos outros matizes de que se reveste este ou aquele verbete. Dicionarizada, a palavra pode nos apresentar as suas “essências”, mas deixa de nos passar outros efeitos que ela adquire quando posta em ação. Escrever, verbete que abre o presente texto, bem mais do que as acepções apresentadas, quando conjugado, quando posto em ação, quando mergulhado na intrigante rede ideológica que tece a sociedade em que vivemos, é, inevitavelmente, um ato político e ideológico por meio do qual aquele que escreve vai, sobretudo, se inscrevendo, imprimindo a sua marca, por mais indelével que seja, naquilo que escreve. Jean Genet, escritor francês, definiu muito bem o ato de escrever da seguinte forma:

A página que no início era branca, agora está cruzada de alto a baixo por minúsculos sinais negros, as letras, as palavras, as vírgulas, os pontos de exclamação, e é graças a eles que se diz que esta página é legível. Contudo, há uma espécie de inquietação do espírito, há essa vontade de vomitar muito próxima da náusea, há uma oscilação que me faz hesitar em escrever... seria a realidade esta totalidade de sinais negros? O branco, aqui, é um artifício que substitui a translucidez do pergaminho, o ocre marcado dos tabletes de argila, mas este ocre em relevo, como a translucidez e o branco, talvez tenha uma realidade mais forte que os sinais que o desfiguram.


Como estávamos dizendo, cristalizada nas páginas de um dicionário, a palavra perde “uma realidade mais forte”; escapa-lhe, portanto, essa “inquietação do espírito”, “essa vontade de vomitar próxima da náusea”. Essas realidades nos fazem, apropriando-nos ainda das palavras de Jean Genet, hesitar em escrever. Agora, pensemos nas escritoras do passado. Pensemos no quanto elas hesitaram em escrever e no quanto escrever pode ter-lhes sido nauseante. Para elas, escrever era muito mais do que representar (e representar o quê?) por sinais gráficos, era muito mais do que gravar, redigir. Escrever era uma luta por algo que lhes era amiúde negado: o poder de, pela escrita, dizer que eram, conhecerem-se a si mesmas e reconhecerem-se no Outro, ainda que esse Outro fossem elas mesmas.
E por que será que o “simples” ato de escrever era negado às mulheres? Primeiro, escrever pressupõe, no mínimo, saber dar contorno à tinta e fazê-la, portanto, assumir a forma de determinados caracteres no branco do papel. Temendo, talvez, que as mulheres (se) sujassem (n)as (im)purezas do branco, a elas era “concedido” o direito de não poderem escrever. Em decorrência disso, eis o segundo motivo por que a escrita, durante muito tempo, se apresentou às mulheres como um território selvagem, escrever era coisa de homem. As mulheres tinham atividades mais importantes com que se preocupar. Para que querer conjugar o verbo escrever se os homens já o faziam em seu lugar e se elas tinham outros verbos mais interessantes a conjugar: agradar, obedecer, calar, casar, parir, resignar-se...?
Dessa forma, tornar a escrita uma prática efetiva foi um exercício bastante doloroso para “o belo sexo”. Como escrever, se até então essa era uma atividade eminentemente masculina? Por outro lado, mesmo sabendo exercitar a escrita, escrever sobre o quê, se se deveria escrever sobre grandes feitos? E de que grandes feitos as mulheres haviam participado? Diante disso, escrever foi, antes de tudo, não só um exercício de descoberta de si, mas também um doloroso exercício de penetração num mundo onde ser mulher era ficar às margens das ações que estavam acontecendo, era trilhar por mares nunca dantes navegados porque os mapas estavam (ou eram escritos por) com os homens, era ser aspirante a coadjuvante em enredos escritos por homens e para homens. Sendo assim, como se tornar visível nesse mundo, sem ser vista como uma intrusa? Como manejar a pena, objeto fálico, para dela poder gozar daquilo que só aos homens era dado conhecer?
Diante de mais essa dificuldade, ou seja, sobre o que escrever, muitas mulheres, quando começaram a adentrar no universo da escrita, passaram a falar daquilo a que elas estavam mais próximas: o espaço privado, onde, assim como muitas das personagens que passaram a construir, permaneceram fechadas em casas e sobrados, mocambos e senzalas, espaços construídos por seus pais, maridos, senhores. Dentro desse universo do privado, essas mulheres falaram, sobretudo, dos laços familiares. A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem “a moral e os bons costumes”. Por isso, são recorrentes nessas produções temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a “esfera perfumada de sentimento e singeleza”, não abordavam nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública e competiam apenas aos homens. Entretanto, mesmo falando sobre assuntos aparentemente inocentes, essas mulheres estavam, para lembrar os versos de Júlia Cortines que servem como epígrafe a este trabalho, levantando a pálpebra, atendendo ao imperativo de falar, de deixar abrir a boca há muito emudecida e trazer à tona segredos guardados entre palavras até então inauditas.
Noutras palavras, na busca por vista e por voz, as mulheres, ao escreverem sobre aquilo a que estavam próximas, foram, paulatinamente, adentrando no universo da escrita, dominus masculino, mesmo que seus escritos fossem marginalizados ou desvalorizados, visto que versavam sobre atividades que traziam em si as marcas que deveriam ser ocultadas: a desvalorização e a marginalização femininas. Assim, não deveria nos causar estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e delineados pela arquitetura masculina, as mulheres tenham escolhido justamente esses espaços para falarem, dizerem que eram, são e foram.
Nesse sentido, dentre essas mulheres que ousaram fazer da pena instrumento de expressão de sua intelectualidade e de construção de aspectos de nosso imaginário, podemos citar Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981), cuja trajetória de vida se confunde muito mais do que se separa. Pertencentes à elite do país, uma era filha de um Visconde e a outra de um deputado do Império, elas foram mulheres que se assemelham por terem percorrido um difícil caminho na busca por se firmarem como escritoras, processo esse em que contaram com a ajuda dos pais e do marido, no caso de Júlia Lopes de Almeida, pois Carolina Nabuco, vivendo na casa da Rua Marquês do Botafogo, no Rio de Janeiro, nunca chegou a se casar.
Parece que elas se assemelham também por terem, desde cedo, sentido a inclinação para a escrita. Se isso foi, a princípio, angustiante para Júlia Lopes de Almeida, que, ao escrever seus versos, se sentia como se estivesse cometendo um grande crime; escrever para Carolina Nabuco foi um sonho acalentado desde muito cedo, sem que com ele viesse o receio por estar fazendo uma atividade proibida ou o desejo pelo sucesso que viria alcançar com a publicação de uma valiosa obra como romancista, memorialista e biógrafa.
No plano da ficção, mais convergindo do que propriamente divergindo, tanto Júlia Lopes de Almeida quanto Carolina Nabuco escreveram uma obra marcada pela valorização do cotidiano das prendas domésticas e pela reduplicação dos valores tradicionais e pela imitação dos modelos da cultura dominante. Esse último aspecto faz-nos pensar que essas autoras exerceram o que estamos chamando de uma escrita bem comportada. Falar desse tipo de escrita implica dizer que, opondo-se a ela, existe também uma escrita mal comportada? Não enfrentemos, por ora, essa ferida. Atenhamos apenas ao que estamos chamando de escrita bem comportada, ou seja, um tipo de escrita cuja composição, temas e estrutura não se opõem ao que já vinham, em termos literários, sendo feito e era tomado como modelo aceito. Esse tipo de escrita dá forma a um conjunto de obras cujos temas e enredos não buscam, na fatura dos textos, nenhuma ruptura e, por isso, apresentam um esquema bem comportado de escritura, o qual se repete de uma escritora para a outra.
Além disso, os temas abordados por essas escritoras também podem ser vistos como bem comportados, já que reiteram os valores patriarcais vigentes à época. Entretanto, a análise do valor dessas escritoras a partir dos temas recorrentes na prosa delas deve ser algo feito com certo cuidado. Vivendo entre as paredes da casa, adornadas como o anjo do lar ou coroadas como rainhas, a essas autoras resta escrever sobre o quê? Como abordar temas que transcendessem as treliças do lar, se este era o ponto de partida e de chegada para muitas dessas nossas bandeirantes das letras? Se precisavam escrever para, conforme versos de Beatriz Francisca de Assis Brandão, poetisa mineira do século XVIII, trazer à tona “raros dotes [que] talvez vivem ocultos/que o receio de expor faz ignorados”, por que não escrever sobre o angustiante exercício de “lavar pratos e enxugar prantos todos os dias”? Pois bem, foi escrevendo sobre essa líquida rotina que as mulheres, em sua maioria, começaram a se inscrever no difícil, porque masculino, mundo da escrita. Isso não quer dizer que elas só tenham falado da casa e dos afazeres domésticos. Inúmeras foram as mulheres que escreveram sobre outros temas que iam de reflexões políticas até perquirições filosóficas.
Ademais, o olhar voltado à obra dessas autoras não deve procurar cobras delas aquilo que, social-cultural e historicamente, não podia ser ofertado a elas. Exigir-lhes uma ruptura com uma ordem dentro da qual e para a qual elas haviam sido educadas ou exigir-lhes a produção de uma obra que já nascesse sem nenhum senão estético é um tanto quanto descabido. Além disso, a própria categoria de estético deve ser (re)pensada, uma vez que ela foi criada para aferir a qualidade de textos escritos, em sua maioria, por homens. Sendo assim, será que esta categoria é válida para ser aplicada aos textos de autoria feminina de séculos anteriores ao nosso?
Ao pensarmos assim, não estamos querendo ser condescendentes com essas autoras; mas também, por outro lado, estamos querendo (re)lembrar que a nossa análise não pode deixar de lado as condições e as injunções sob as quais essas autoras produziram seus escritos. Essa postura procura reconhecer a importância dessas escritoras na constituição de uma tradição literária feminina em nossa história, principalmente por desbravarem caminhos para outras autoras que lhes vieram na esteira e que, uma vez sedimentadas determinadas condições, puderam romper com a ordem estabelecida e, na busca por inclusão em novos espaços sociais, intentaram alterar as relações de gênero.
Como aponta Schmidit (2007, p.123), ao estudar a poesia de Delfina Benigna da Cunha, querer cobrar de uma obra o que ela, devido a determinados condicionantes histórico-estéticos, “não pode oferecer, é uma questão no mínimo polêmica, que deve ser colocada em pauta no quadro do revisionismo crítico da literatura produzida por mulheres e da própria história literária”. Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco, considerando-se o que dissemos em parágrafos anteriores, produziram uma obra bem comportada. Falaram do cotidiano das lides domésticas e de mulheres presas a esse cotidiano. Todavia, apesar de terem produzido uma obra bem comportada, essas escritoras não podem ter o seu valor diminuído. Sua obra reflete um período interessante de nossa sociedade, principalmente no que tange à condição feminina, e, como tal, é produto dessa sociedade, a qual não oferecia a essas escritoras as condições para outro tipo de escrita tampouco para outros temas. Elas, portanto, sofreram, em seu trabalho nas letras, do mal da época. Entretanto, devemos verificar, dentro da moldura do tempo, o esforço dessas mulheres que, herdeiras de uma tradição de séculos de silenciamento, procuraram fazer da escrita um meio de obter vista e voz.

Maria das Águas - Lúcio Lins


eu sou
Maria das Águas
nome e fado
que a mim
me foram dados
pelo movimento
dos barcos

eu sou
Maria das Águas
desde Maria menina
quando só Maria
e ainda
pelo mangue
sob os céus
brincava
de transportar nuvens
em barcos de papel

dos meus
nada sei
salvo o talvez
tenham ido
nos barcos de antes

e tenho
uma vaga
na lembrança
que ainda de laços
sargaços e transas
já tentava esse mar
sem ser de mãos dadas

a cada maré
que vinha
Maria eu ia
tomando corpo
e o cais
tomando gosto
pelos prazeres Maria
que ao porto
fui servindo
antes do vinho
da primeira sangria

e foram tantos
quantos os barcos

que a mim
me chegaram
com suas almas
nos mastros hasteados

e foram tantos
quantos os barcos
que em mim
me deixaram
sem velas
e com enjôo dos mares

me chegavam
com suas falas
diferentes
com seus falos
urgentes
e me vestiam
a rigor
para suas fantasias

eu me despia
eu me vestia
eu me trocava
(enquanto suas mãos
em meu corpo
faziam cruzeiros
eu contava estrelas)

onde sou lodo
fui veludo
leito de tantos
deleites
pelos quatro
cantos do porto
para os quatro
cantos do mundo

confesso que vivi
confesso que bebi
goles e goles
de mar
até o mar derradeiro
ate saber-me sozinha
até beber-me Maria
garrafa sem mensagem

de mim
todos os barcos

já partiram
e eu sou só ruínas
de um corpo antigo
onde marujos
saciaram suas sedes
aos beijos
do gargalo
de minha boca

resta
em mim
o que esqueceram
em mim

as marcas
de mastros e dentes
a ferrugem
das âncoras tatuadas
um iceberg
no copo d’água
e o endereço de um mar

veio de mim
esse mar
que hoje bebo

veio de mim
esse mar
de amar sobejo

veio de mim
ser Maria
Maria das Águas

Maria que canto
encontro
de sede e água

e quando rio
eu rio doce
arco-íris nos lábios

Maria que canto
com os olhos
que olhos d’água

e quando rio
eu rio doce
orvalho na lágrima

Era um rato - Resposta a Augusto R.

Era um rato que procurava fugir.
Sabia que, em cada esquina,
à sua espreita, uma sombra o seguia.
Podia ouvir os seus ruídos.
Ela se tornava mais densa.
Desse enorme gato,
Se esquivava o rato.
O que ele queria, no entanto,
Era se esquivar
Da mais lancinante lição:
Aprender a trocar de queijo.

sábado, 30 de agosto de 2008

Depois de escrita a primeira obra,
o pior para um escritor é conviver
com a expectativa, alimentada pelos leitores,
de uma outra obra que ele, o escritor, saber
que nunca virá.
Ah, minha dona, pediste a este teu servo
o que para ele é impossível: (ins)escrever-te
Como, entre palavras, condensar o teu retrato?
Obediente, ensaiei alguns versos rotos,
que foram, de chofre, rasgados.
Procurei pedir ajuda a Poesia,
mas ela, com inveja de tua beleza,
escreveu um enorme NÃO.