quarta-feira, 26 de abril de 2017

O MENINO, O ADULTO E A BICICLETA: SOBRE UMA TELA DE VALCI OLIVEIRA


Quando digo que não sei andar de bicicleta, as pessoas se espantam. Algumas, inclusive, chegam a perguntar se eu não tive infância. Não sei bem o que essas pessoas entendem por infância. Só sei que ela não é a mesma para todas as crianças, assim como nunca foi a mesma em todas as épocas. Mas, por muito tempo, ante aquela pergunta, eu respondia dizendo que não tive infância porque precisei trabalhar.
Desde os seis anos de idade, vendi jornal na rodoviária nova em Campina Grande. Logo, as brincadeiras de infância foram trocadas pela necessidade de trazer dinheiro para casa. Era um tempo em que comprávamos meio quilo de feijão, de açúcar. Em que se vendia mercado de óleo. Nessa época, o meu brincar era conseguir a garantia de poder prosseguir no jogo da vida. Por isso, eu saia do Bairro das Cidades para o Terminal Rodoviário Argemiro de Figueiredo muito cedo, quase de madrugada, em uma época em que Campina Grande tinha  empresas de transportes como a Dantas, espaços como o velho “Pela Poico” e os ônibus tinham roletas por baixo da qual se passava para não pagar a passagem. Enquanto alguns colegas brincavam, andavam de bicicleta, eu acordava de madrugada para não perder o embarque das cinco, já que esse era um horário em que mais se podia vender jornal aos passageiros que, na pressa para honrar os compromissos, passavam voando indiferentes ao que estava ao seu redor.
Lembro-me de que, uma vez, até tentei aprender a andar de bicicleta. Era uma caloi cujo quadro, pintado de preto, tinha alguns detalhes na cor verde limão e laranja. Nesse dia, talvez um domingo à tarde, ou um feriado, meu irmão, o dono da bicicleta, ia me ensinar a pedalar, mas tinha de ser na frente de casa porque mãe poderia brigar. Montei na bicicleta, ajeitei-me na cela e desci pela rua da bueira na Vila Cabral de Santa Teresinha, onde morei por mais de dez anos.
Lembro-me ainda da alegria de conseguir pedalar por alguns segundos antes de cair. Nada grave. Mas, se me levantei da queda, o sonho de andar de bicicleta ficou no chão. Meu irmão me disse ante meu fracasso: “Sai daí, tu és burro demais. Não aprende. Devolve”. Disse-lhe umas palavras de revolta, devolvi a bicicleta com raiva e voltei para casa. Desse tempo para cá, nunca mais tentei aprender a pedalar. Andar de bicicleta ficou naqueles sonhos de infância. Se a infância ficou perdida, aquele sonho se perdeu também até que, ao ver a tela abaixo, pude me lembrar um pouco do menino que fui e dos sonhos que ele sonhou. Alguns concretizados; outros olvidados:




A tela acima foi pintada pela artista Valci Oliveira, faz parte de um projeto dela de registrar brincadeiras de infância e integrou um conjunto de telas em uma exposição de arte contemporânea organizada pela Secretaria de Cultura de Campina Grande – SECULT – na década de 1980, creio.
O colorido intenso aponta para um traço da produção da artista que, além de pintora, é também ceramista, inclusive premiada pelo TOP 100 Sebrae de Artesanato. As casas ao fundo da tela lembram o estilo art déco que é a marca de boa parte dos prédios que compõem o centro comercial de Campina Grande.   Além disso, a presença de formas circulares é outro traço da artista. Aliás, na pintura de Valci Oliveira já se prefiguram traços que ela vai transpor para suas peças em cerâmica, o que se configurará como uma singularidade de seu estilo. Além do brilho das cores fortes, a tela tem movimento. A impressão que nos passa, como espectador, é de estarmos diante de uma criança em uma bicicleta em movimento. A rua em azul, da perspectiva em que foi pintada, passa-me a ideia de que a criança, solitária em seu brincar, parece ser o dono da rua, ou melhor, o dono da terra, porque a rua lembra, de certa forma, o próprio planeta terra. A tela capta, a partir de certo encantamento e poeticidade, um momento lúdico da infância, momento esse que para algumas crianças fez falta e que, em alguns adultos, se faz sentir como ausência.  
Um menino em uma bicicleta. De imediato, o leitor deste texto pode perceber a ligação entre o que eu vinha dizendo no início e a tela de Valci Oliveira. Aquele menino em cima da bicicleta, desde que vi a tela pela primeira vez, era uma espécie de projeção de mim mesmo. Ele era o que sonhei ser, mas não pude. No menino da tela, eu me vi pedalando. Na tela de Valci, mais uma vez, vejo confirmada a assertiva de que “a arte é uma confissão de que a vida não basta”. Que bom que existe arte para alimentar as nossas faltas, para nos preencher as nossas necessidades de fantasia e de desejo! Com essa tela, trago para dentro de minha casa, um pouco daquele menino para quem o futuro era incerto e o presente era uma luta pela sobrevivência diária. Enfim, O menino e a bicicleta, de Valci Oliveira, é uma tela que me comove pela sensibilidade com que flagrou um matiz de uma infância. Para mim, perdida; para outros, a tela venha, talvez, mostrar que o menino de antes (re)vive no adulto de hoje.  


domingo, 23 de abril de 2017

Franciscas-Aves: Notas Ligeiras sobre Valci Oliveira


Conheci o trabalho de Valci Oliveira no Salão de Artesanato da Paraíba, em 2015, na cidade de Campina Grande. Como sempre faço toda vez em que visito uma edição do salão, percorri, primeiro, cada estande para ver o que de novidade havia. Depois, em uma segunda passada de vista, mais detida, deparei-me com atenção em uma peça que me cativou: era este São João de cerâmica.
 Não sabia por que, mas a obra me fisgara. Para minha tristeza, ela já estava vendida. Informou-me o senhor que cuidava do estande e que, ante meu interesse, me passou o contato da artista para que eu pudesse ver se ela não tinha nenhuma outra peça. Liguei para o número e outra surpresa: não era a artesã que estava do outro lado da linha. Era um amigo com quem ela desenvolve ações educativas a partir de oficinas de reciclagem. Expliquei-lhe que estava no salão de artesanato e que queria falar com ela sobre a peça que me chamara a atenção salão. Hermógenes, esse era o nome do amigo, que também é artesão, me passou o contato de Valci, para quem  liguei e expliquei o que já falara a Hermógenes: que me encantara pelo São João, mas que, como a peça estava vendida, queria saber se não havia outra que eu pudesse levar.
Lembro-me de que lhe disse que morava longe (estratégia para ver se me repassava a peça que já estava vendida!), mas não contava que fosse me perguntar onde. Como perguntou, pensei em até lhe dizer que morava em Belo Horizonte, mas, como me incomoda mentir, disse-lhe que morava em Monteiro. Então, ela me falou que poderia me fazer uma peça semelhante à que eu tinha visto, mas isso demoraria mais um pouco porque estava muito ocupada com as demandas do salão. Eu disse que entendia e que aguardaria que entrasse em contato comigo para dizer quando a peça estaria pronta.
Voltei meio resignado para casa porque queria aquela peça. Semanas depois, recebi uma ligação. Era Valci, dizendo que estava com a peça pronta. Finalmente, eu teria o meu São João! Por telefone, enquanto combinávamos o local para entrega, perguntei por outra peça que estava exposta no salão. Valci me respondeu que ainda a possuía. Pedi-lhe que também a separasse para mim. Na hora de pegar as peças, deparei-me com outra e acabei adquirindo três peças de uma só vez. 
Desde então, venho aumentando meu acervo de peças assinadas pela artista ao mesmo tempo em que tenho acompanhado a produção dela e visto o reconhecimento que está passando a ter em nosso estado, onde, à semelhança de outros, é pouco o incentivo para o artista viver de seu próprio ofício. Mas isso é outra história. Mesmo assim, as lentes, em especial da TV,  voltaram-se para Valci desde que ela foi uma das premiadas com o TOP 100 SEBRAE de Artesanato. Das três peças que receberam o prêmio TOP100, duas fazem parte do meu acervo, digo isso com muito orgulho! 
Conversando com Valci e pedindo que me fizesse uma ou outra peça a partir de temas específicos, de lá até cá, passamos a cultivar uma amizade e desde então me veio a vontade de escrever algo sobre as esculturas dela pelas quais sou encantando.  Mas o desejo de escrever, por si só, não basta. Eu desejava escrever sobre o apego que passei a nutrir pela arte dela, mas não sabia como até que me deparei, lendo um livro de Mario Vargas Llosa, com a seguinte citação de Louis Bouilhet:

“Ao enunciar um juízo, talvez pudéssemos simplificar a crítica se declarássemos nossos gostos; porque toda obra de arte encerra uma coisa particular à pessoa do artista e que faz, a despeito de sua execução, com que nos sintamos seduzidos ou irritados. Também nossa admiração não se completa senão por obras que satisfaçam ao mesmo tempo nossos temperamento e nosso espírito. Esquecer essa distinção preliminar é causa de uma grande injustiça”.

As palavras acima dizem muito do que vejo nas obras de Valci Oliveira: uma satisfação que me alimenta certo apego. São obras que falam ao meu espírito e creio que ao espírito de muitos que possam vir a apreciá-las. Falam não apenas por que suas peças, em grande maioria, são representações de mulheres, tema de interesse particular em minha vida de professor de Literatura. Ouso a arriscar que, guardadas as devidas diferenças entre as peças, elas são manifestações de um mesmo arquétipo: um feminino que se liga à terra, à vida em harmonia com os animais e que remete, a meu ver, ao lado positivo do arquétipo da Grande Mãe, uma das várias formas de representação do Feminino em sociedades primitivas e civilizações milenares muitas das quais anteriores ao advento do Patriarcado. Não é à toa que as peças produzidas por Valci tem na argila o seu material principal, o qual é um dos mais antigos elementos associados ao feminino, como nos lembra a professora Maria Nazareth Alvim de Barros:

“O primeiro elemento cultuado pelo homem foi a terra; e a terra foi gerada por ela mesma. Era ela que produzia frutos, os animais, o próprio homem. A vida surgia de sua carne rasgada – grutas e fendas; de suas manifestações de força – rochas, montanhas, florestas, árvores, desertos; de suas profundezas líquidas – mares, rios, poços, nascentes; trazida por animais aquáticos e introduzida no ventre feminino após o contato da mulher com esses elementos ou animais. [...]. Como Tellus Mater, Terra Mãe, [a terra] foi considerada a divindade da fertilidade. [...] A evolução vai transformar a Terra Mãe na Deus Mãe e todo simbolismo com o qual a terra foi investida não desaparece, ao contrário, incorpora-se à Deusa” (BARROS, 2004, p. 17).

 Além do elemento de que são feitas ser ligado ao feminino, já que, não custa reiterar, “o culto à Grande Deusa, muito anterior à palavra escrita, manifesta-se em arcaicas esculturas de argila” (LEVY E MACHADO, 1995, p. 15), todas as peças de Valci recebem um mesmo nome. São todas chamadas pela artista de Franciscas, nome esse que faz alusão ao padroeiro dos animais, São Francisco de Assis, de quem a artista é devota, e estão sempre acompanhadas de um animal: ora é um gato, ora é um cachorro, mas na maioria das vezes esses animais são pássaros. Na figura abaixo, a Francisca não só está carregando consigo um gatinho, mas tem em sua camisa desenhados pequenos pássaros:



 Aqui, é pertinente lembrar que, em sociedade primitivas, “eram frequentes também representações da Grande Deusa como Senhora dos Animais (com seus animais sagrados), como Deusa-Mãe coruja, ou como Madona com seu filho ao colo” (LEVY E MACHADO, 1995, p. 15). Nessa outra imagem, além de animais, aparece uma Francisca com uma criança:


 Não estou querendo dizer que o que estou “intuindo” da obra de Valci Oliveira seja uma ação deliberada da própria artista, mas estou buscando compreender um aspecto que é recorrente em sua obra: a presença de figuras femininas acompanhadas de animais. Nem sei se a artista conhece algo sobre arquétipo. Se não conhece, melhor ainda porque a sua produção aponta para a vitalidade do próprio arquétipo, já que esse, ao se mostrar por imagens, revela, por sua vez, “um mundo que é regido de signos, símbolos, metáforas e imagens, repleto de significados” (DOWNING, 1998, p. 11), os quais estão submersos no inconsciente coletivo.
Para mim, as esculturas de Valci Oliveira são, pois, produtos de “uma força além do seu controle” porque advinda do inconsciente coletivo, o que as faz poderem ser vistas como um motivo arquetípico. No caso, o da Grande Mãe. Para encerrar, por ora, esse ponto, gostaria de lembrar que, em uma de nossas conversas, Valci deu-me uma chave para interpretação de suas peças. Disse-me que todas as suas Franciscas eram animais antropomorfizados. A peça abaixo é uma das que, para mim, representa melhor essa antropomorfização:


                A Francisca acima traz consigo uma lagartixa. O rosto da boneca lembra a cara do animal, em especial os olhos, assim como as costas da Francisca possuem certo afundamento que lembra parte do corpo do réptil. Entretanto,  a maioria de suas Franciscas parece-se com aves. Os rostos circulares, os narizes pontiagudos, as mãos sem os detalhes bem definidos dos dedos, as quais se assemelham mais a asas, as bocas pequenas podem ser tomadas como  bicos de pássaros ou, segundo a própria Valci,  bocas de peixes, como, acredito, podemos perceber na peça abaixo. O rosto desta Francisca rendeira, seu olhar, boca e nariz lembram o de uma ave:







Há nas peças essa harmonia entre o racional e o irracional, entre o humano e o animal, como se a artista procurasse recuperar uma integração há muito perdida, como se fosse possível reestabelecer “uma conscientização do homem em relação a seus pares e à Mãe-Terra”. É, pois, um gesto sutil, quase político, de luta e de respeito aos animais que conosco partilham a Casa Mundo e com os quais, certamente, já mantivemos elos de parentesco ancestral, como advoga a sabedoria xamanística e como representa bem a Francisca dormindo abaixo:

.      
      Se o que disse até agora pode parecer fantasioso, produto de uma mente criativa, creio que é possível concordar com o que se segue adiante. Começo dizendo que quem vê as peças de Valci é, de imediato, fisgado pelas formas: cabeças retorcidas com inclinação de 90° (noventa graus), braços circulares que parecem mais grandes linhas espessas. Esses são, de primeira, traços que marcam o estilo de Valci Oliveira. Um estilo que é próprio e que apresenta uma “ingenuidade”, advinda da arte popular, possui um traço próprio, o volume, e não deixa de lado certos traços acadêmicos que remetem à escola cubista, em especial a nomes como Picasso e Portinari.
Nas formas e cores das peças de Valci Oliveira, há certa aura, uma energia que traz paz e tranquilidade que apazígua o espírito de quem a contempla, o que lembra certa marca dos artistas naïfs.  Isso, a meu ver, se manifesta a partir de outro traço muito particular nas peças da artista: o olhar de suas Franciscas. Olhares de dentro. Bastante expressivo, não diria que esse olhar é de tristeza simplesmente, mas, sim, que é um olhar que se fixa para algo que não sabemos bem o que pode ser, é um olhar que, talvez, procure não enxergar o exterior, mas, sim, o interior. Olhar distante que, aparentemente, parece ser triste, mas é, sobretudo, pensativo. É um olhar que olha para dentro, que procura levar o seu espectador para o mundo dos sentidos. Talvez seja esse um dos traços mais singulares das peças de Valci e que o espectador ligeiro por deixar passar despercebido. Mas, uma vez fisgado, o espectador não pode escapar desse olhar inquietante. Das peças que a artista produziu até agora, no que toca à expressividade do olhar e desse incômodo que ele pode causar porque nos prescruta em nossas mais recônditas reentrâncias, acredito ser a Francisca abaixo a mais emblemática, talvez, por isso mesmo, uma das vencedoras do TOP 100 SEBRAE de Artesanato:



Nesse sentido, se a arte é algo que se vê,  que se dá simplesmente a ver, e, por isso mesmo, impõe a sua específica presença, o olhar das peças de Valci Oliveira é algo que se impõe como traço peculiar, sua sutil assinatura de artista. É um olhar olhante. A suas peças, podemos aplicar as seguintes palavras de Georges Didi-Huberman: “o que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos olha”. E as Franciscas de Valci não só nos olham, mas nos falam ao espírito, nos tocam. Seus olhares são frases do (ou para o) espírito de quem as vê, de quem nelas se mira e se queda absorto na contemplação de seus olhares. Enfim, é um olhar a que não se consegue ficar indiferente.