Conheci
o trabalho de Valci Oliveira no Salão de Artesanato da Paraíba, em 2015, na
cidade de Campina Grande. Como sempre faço toda vez em que visito uma edição do
salão, percorri, primeiro, cada estande para ver o que de novidade havia. Depois,
em uma segunda passada de vista, mais detida, deparei-me com atenção em uma
peça que me cativou: era este São João de cerâmica.
Não sabia por que, mas a obra me fisgara. Para minha tristeza, ela já estava vendida. Informou-me o senhor que cuidava do estande e que, ante meu interesse, me passou o contato da artista para que eu pudesse ver se ela não tinha nenhuma outra peça. Liguei
para o número e outra surpresa: não era a artesã que estava do outro lado da
linha. Era um amigo com quem ela desenvolve ações educativas a partir de oficinas
de reciclagem. Expliquei-lhe que estava no salão de artesanato e que queria falar
com ela sobre a peça que me chamara a atenção salão. Hermógenes, esse era o
nome do amigo, que também é artesão, me passou o contato de Valci, para quem liguei e expliquei o que já falara a Hermógenes: que me encantara pelo São João,
mas que, como a peça estava vendida, queria saber se não havia outra que eu pudesse
levar.
Lembro-me
de que lhe disse que morava longe (estratégia para ver se me repassava a peça
que já estava vendida!), mas não contava que fosse me perguntar onde. Como perguntou,
pensei em até lhe dizer que morava em Belo Horizonte, mas, como me incomoda
mentir, disse-lhe que morava em Monteiro. Então, ela me falou que poderia me
fazer uma peça semelhante à que eu tinha visto, mas isso demoraria mais um
pouco porque estava muito ocupada com as demandas do salão. Eu disse que entendia
e que aguardaria que entrasse em contato comigo para dizer quando a peça
estaria pronta.
Voltei
meio resignado para casa porque queria aquela peça. Semanas depois,
recebi uma ligação. Era Valci, dizendo que estava com a peça pronta. Finalmente, eu
teria o meu São João! Por telefone, enquanto combinávamos o local para entrega, perguntei por outra peça que estava exposta no salão. Valci me
respondeu que ainda a possuía. Pedi-lhe que também a separasse para mim. Na
hora de pegar as peças, deparei-me com outra e acabei adquirindo três peças de
uma só vez.
Desde
então, venho aumentando meu acervo de peças assinadas pela artista ao mesmo
tempo em que tenho acompanhado a produção dela e visto o reconhecimento que está passando a ter em nosso estado, onde, à semelhança de outros, é pouco o
incentivo para o artista viver de seu próprio ofício. Mas isso é outra história. Mesmo assim, as lentes, em especial da TV, voltaram-se para Valci desde que ela foi uma das premiadas com o TOP 100 SEBRAE de Artesanato.
Das três peças que receberam o prêmio TOP100, duas fazem parte do meu acervo,
digo isso com muito orgulho!
Conversando
com Valci e pedindo que me fizesse uma ou outra peça a partir de temas
específicos, de lá até cá, passamos a cultivar uma amizade e desde então me veio
a vontade de escrever algo sobre as esculturas dela pelas quais sou encantado. Mas o desejo de escrever, por si só, não
basta. Eu desejava escrever sobre o apego que passei a nutrir pela arte dela,
mas não sabia como até que me deparei, lendo um livro de Mario Vargas Llosa,
com a seguinte citação de Louis Bouilhet:
“Ao enunciar um juízo, talvez pudéssemos simplificar a crítica se
declarássemos nossos gostos; porque toda obra de arte encerra uma coisa
particular à pessoa do artista e que faz, a despeito de sua execução, com que
nos sintamos seduzidos ou irritados. Também nossa admiração não se completa
senão por obras que satisfaçam ao mesmo tempo nossos temperamento e nosso
espírito. Esquecer essa distinção preliminar é causa de uma grande injustiça”.
As
palavras acima dizem muito do que vejo nas obras de Valci Oliveira: uma
satisfação que me alimenta certo apego. São obras que falam ao meu espírito e creio que ao espírito de muitos que possam vir a apreciá-las.
Falam não apenas por que suas peças, em grande maioria, são representações de
mulheres, tema de interesse particular em minha vida de professor de Literatura.
Ouso a arriscar que, guardadas as devidas diferenças entre as peças, elas são
manifestações de um mesmo arquétipo: um feminino que se liga à terra, à vida em
harmonia com os animais e que remete, a meu ver, ao lado positivo do arquétipo
da Grande Mãe, uma das várias formas de representação do Feminino em sociedades
primitivas e civilizações milenares muitas das quais anteriores ao advento do
Patriarcado. Não
é à toa que as peças produzidas por Valci tem na argila o seu material
principal, o qual é um dos mais antigos elementos associados ao feminino, como
nos lembra a professora Maria Nazareth Alvim de Barros:
“O primeiro elemento cultuado pelo homem foi a terra; e a terra foi
gerada por ela mesma. Era ela que produzia frutos, os animais, o próprio homem.
A vida surgia de sua carne rasgada – grutas e fendas; de suas manifestações de
força – rochas, montanhas, florestas, árvores, desertos; de suas profundezas
líquidas – mares, rios, poços, nascentes; trazida por animais aquáticos e
introduzida no ventre feminino após o contato da mulher com esses elementos ou animais.
[...]. Como Tellus Mater, Terra Mãe, [a terra] foi considerada a divindade da fertilidade.
[...] A evolução vai transformar a Terra Mãe na Deus Mãe e todo simbolismo com
o qual a terra foi investida não desaparece, ao contrário, incorpora-se à Deusa”
(BARROS, 2004, p. 17).
Além do elemento de que são feitas ser ligado
ao feminino, já que, não custa reiterar, “o culto à Grande Deusa, muito anterior
à palavra escrita, manifesta-se em arcaicas esculturas de argila” (LEVY E
MACHADO, 1995, p. 15), todas as peças de Valci recebem um mesmo nome. São todas
chamadas pela artista de Franciscas, nome esse que faz alusão ao padroeiro dos animais, São Francisco de Assis, de quem a artista é devota, e estão sempre acompanhadas
de um animal: ora é um gato, ora é um cachorro, mas na maioria das vezes esses
animais são pássaros. Na figura abaixo, a Francisca não só está carregando consigo um gatinho, mas tem em sua camisa desenhados pequenos pássaros:
Aqui,
é pertinente lembrar que, em sociedade primitivas, “eram frequentes também
representações da Grande Deusa como Senhora dos Animais (com seus animais
sagrados), como Deusa-Mãe coruja, ou como Madona com seu filho ao colo” (LEVY E
MACHADO, 1995, p. 15). Nessa outra imagem, além de animais, aparece uma Francisca com uma criança:
Não estou querendo dizer que o que estou “intuindo” da obra de
Valci Oliveira seja uma ação deliberada da própria artista, mas estou buscando
compreender um aspecto que é recorrente em sua obra: a presença de figuras
femininas acompanhadas de animais. Nem sei se a artista conhece algo sobre
arquétipo. Se não conhece, melhor ainda porque a sua produção aponta para a
vitalidade do próprio arquétipo, já que esse, ao se mostrar por imagens, revela,
por sua vez, “um mundo que é regido de signos, símbolos, metáforas e imagens,
repleto de significados” (DOWNING, 1998, p. 11), os quais estão submersos no
inconsciente coletivo.
Para
mim, as esculturas de Valci Oliveira são, pois, produtos de “uma força além do seu
controle” porque advinda do inconsciente coletivo, o que as faz poderem ser
vistas como um motivo arquetípico. No caso, o da Grande Mãe. Para encerrar, por
ora, esse ponto, gostaria de lembrar que, em uma de nossas conversas, Valci
deu-me uma chave para interpretação de suas peças. Disse-me que todas as suas
Franciscas eram animais antropomorfizados. A peça abaixo é uma das que, para
mim, representa melhor essa antropomorfização:
A Francisca acima traz consigo uma
lagartixa. O rosto da boneca lembra a cara do animal, em especial os olhos, assim como as costas da Francisca
possuem certo afundamento que lembra parte do corpo do réptil. Entretanto, a maioria de suas Franciscas parece-se com aves. Os rostos circulares, os
narizes pontiagudos, as mãos sem os detalhes bem definidos dos dedos, as quais
se assemelham mais a asas, as bocas pequenas podem ser tomadas como bicos de
pássaros ou, segundo a própria Valci, bocas de peixes, como, acredito,
podemos perceber na peça abaixo. O rosto desta Francisca rendeira, seu olhar, boca e nariz lembram o de uma ave:
Há
nas peças essa harmonia entre o racional e o irracional, entre o humano e o
animal, como se a artista procurasse recuperar uma integração há muito perdida,
como se fosse possível reestabelecer “uma conscientização do homem em relação a
seus pares e à Mãe-Terra”. É, pois, um gesto sutil, quase político, de luta e
de respeito aos animais que conosco partilham a Casa Mundo e com os quais,
certamente, já mantivemos elos de parentesco ancestral, como advoga a sabedoria
xamanística e como representa bem a Francisca dormindo abaixo:
.
Se o
que disse até agora pode parecer fantasioso, produto de uma mente criativa, creio
que é possível concordar com o que se segue adiante. Começo dizendo que quem vê
as peças de Valci é, de imediato, fisgado pelas formas: cabeças retorcidas com
inclinação de 90° (noventa graus), braços circulares que parecem mais grandes
linhas espessas. Esses são, de primeira, traços que marcam o estilo de Valci
Oliveira. Um estilo que é próprio e que apresenta uma “ingenuidade”, advinda da
arte popular, possui um traço próprio, o volume, e não deixa de lado certos
traços acadêmicos que remetem à escola cubista, em especial a nomes como Picasso e Portinari.
Nas
formas e cores das peças de Valci Oliveira, há certa aura, uma energia que traz
paz e tranquilidade que apazígua o espírito de quem a contempla, o que lembra
certa marca dos artistas naïfs. Isso, a
meu ver, se manifesta a partir de outro traço muito particular nas peças da artista: o olhar de suas Franciscas. Olhares de dentro. Bastante expressivo, não diria que esse olhar é de tristeza simplesmente, mas, sim, que é um olhar
que se fixa para algo que não sabemos bem o que pode ser, é um olhar que,
talvez, procure não enxergar o exterior, mas, sim, o interior. Olhar distante
que, aparentemente, parece ser triste, mas é, sobretudo, pensativo. É um olhar
que olha para dentro, que procura levar o seu espectador para o mundo dos
sentidos. Talvez seja esse um dos traços mais singulares das peças de Valci e que
o espectador ligeiro por deixar passar despercebido. Mas, uma vez fisgado, o espectador não pode escapar desse olhar inquietante. Das peças que a artista produziu até agora,
no que toca à expressividade do olhar e desse incômodo que ele pode causar porque nos prescruta em nossas mais recônditas reentrâncias, acredito ser a Francisca abaixo
a mais emblemática, talvez, por isso mesmo, uma das vencedoras do TOP 100 SEBRAE de Artesanato:
Nesse
sentido, se a arte é algo que se vê, que se dá simplesmente a ver, e, por isso
mesmo, impõe a sua específica presença, o olhar das peças de Valci Oliveira é
algo que se impõe como traço peculiar, sua sutil assinatura de artista. É um
olhar olhante. A suas peças, podemos aplicar as seguintes palavras de Georges
Didi-Huberman: “o que vemos só vale – só vive – em nossos olhos pelo que nos
olha”. E as Franciscas de Valci não só nos olham, mas nos falam ao espírito, nos
tocam. Seus olhares são frases do (ou para o) espírito de quem as vê, de quem nelas se mira e se queda absorto na contemplação de seus olhares. Enfim, é um olhar a que não se consegue ficar indiferente.