domingo, 26 de setembro de 2010

POEMAS EM RASCUNHO





I.


EU –
a teus pés;

TU –
em meus braços.



II.

Notei a sua ausência
mas
Não senti a sua falta.



III.

E o seu silêncio
esgarçou
a minha alma,
suave e leve,
como o roçar
d’ uma navalha



IV.

Houve um tempo
(em que o meu gostar
se conjugava como amar)
que não mais se ouve.



V.

Antes:
a necessidade, a falta.
Só você.

Agora:
o cansaço, o alívio.
 Apenas eu.



VI.

Como um monarca,
deposto,
saíste do meu coração.



VII.

Entre mim e você,
uma união,
amalgamada,
por minhas concessões.



VIII.

No diário antigo,
o bilhete perdido,
o sonho esquecido:
Sentir, no calor
do corpo,
o afeto da alma.



IX

Dos seus vazios,
fiz os meus
espaços
de movência.


        X

Da manga,
o cheiro maduro:
saudades
de você.

terça-feira, 30 de março de 2010

CARTA PORTUGUESA APÓCRIFA

I


  
Gostaria de começar dizendo que, ao escrever para ti, insiro-me naquela tradição de missivistas ridículos a que se refere Álvares de Campos, ao dizer que todas as cartas de amor são ridículas. No entanto, como ele mesmo trata de se justificar, somente aqueles que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículos. Ridículo ou não, eu precisava escrever-te. Queria que cada palavra compusesse uma parte de ti que sonhei em ter para mim. Inútil paisagem. Mas cada uma delas é uma tentativa vã de preencher a tua ausência em mim, vazio que me corrói, mas hiância de que me alimento.
Cada palavra, pensada, antes de ser escrita, era uma forma de eu tentar entender como cheguei ao estado em que estou, neste exato momento em que escrevo estas palavras que queria que fossem tuas, mas que são apenas minhas. Estas palavras que deveriam ser para ti, porém, são para mim mesmo. Ainda que eu queira, não escrevo para ti. Escrevo para mim mesmo, para alimentar a dor que me causaste, única marca de ti em mim.  
Espero o dia em que as lembranças dessas palavras soem a mim ridículas. Todavia, até lá, vou, passo a passo, afundando-me nessa ausência que me sufoca. Como posso sofrer por algo que não foi meu? Queria tanto que respondesses às minhas perguntas! Mas elas morrerão comigo. Não cometerei duas vezes o mesmo erro. Pelo primeiro, que foi gostar de ti, ainda sofro. Pelo segundo, que foi perguntar por que me recusaste, tive mais ainda intensificada a dor advinda do primeiro.
Desde então, meu telos é sofrer. Mas para que tanto sofrimento? !Não sei responder, ainda que eu tenha na alma dilacerada os esboços de uma resposta. Eu que não aprendi a sofrer a minha dor resignadamente! Com ela, a ti só fiz acentuar o ridículo em que me tornei. Confessas que me achavas assim: RIDÍCULO. Queria poder ouvir gritares para mim. Mas não, insistias em fazer-te presente. E não sabes como a tua presença aumentava a minha dor! Queria poder fugir, mas algo me tragava a ti.  Era inútil lutar contra o que não se queria lutar. Era inútil dizer que me afastaria de ti ou pedir que te afastasses de mim. Qualquer tentativa minha de fuga era em vão. Não adiantava fugir, quando eu queria estar próximo, sentir, mais do que o seu corpo, a sua presença! Foste a metade que era preciso arrancar de mim, mas que eu queria que ficasse colada ao peito, ainda que me fizesse doer. Eu suportaria o latejar da dor para que tu não te fizesses em mim ausência. Ausente era eu, que precisava de ti para me preencher! Ah, Mariana, agora entendo o teu sofrer! Eu, que rias de ti, vejo-me em situação deplorável! Sóror Mariana, intercede por mim para que, se não aplacada, seja, ao menos, a minha dor aliviada!       
Olha, não quero que penses que eu estou com raiva de ti. Enviei-te aquela mensagem porque achei que aquele seria o momento de saber o porquê de uma pergunta cuja razão de ser nem sei se existe mais ou se existiu alguma vez. Deve ter existido, pelo menos em minha cabeça. Por que não eu? O que me faltava? Essa pergunta foi um fantasma que me rondou durante muito tempo. Se, ao menos, tivesses me dito que em mim não faltava nada. Que eu não te servia não por falta, mas por excesso! De amor, de atenção, de entrega. E que tu não estavas preparado para ser responsável por aquele cuja vida estava a depositar em tuas mãos. Talvez, seja essa a única queixa que eu tenho de ti.
Hoje não me interessa mais saber por quê. Se não te pronunciasses, era porque achavas que não era preciso dizer nada. Mas não sabes o quanto sofri com o teu silêncio que me doía muito mais do que a tua recusa, a tua indiferença, a tua confissão de novos amores, de teus encontros fortuitos aos quais eu me entregava a imaginar!
Quando, naquela mensagem, eu te falei que deverias ter sido mais claro e objetivo, estava referindo-me ao fato de que, quando percebeste o meu interesse, que estava descambando para algo bem diferente de uma amizade, poderias ter tido uma conversa franca e ter-me dito: “Não se iluda, eu não gosto de você do jeito que você pensa ou que você quer que eu goste”. Teria sido menos doloroso e já teríamos resolvido coisas que hoje ainda empurramos e que talvez ameace aquilo que mais prezo em ti: a amizade, ainda que seja essa a grande mentira de que eu me alimentava. Terias encurtado tanto o meu sofrer! Mas não, calavas-te e, assim, alimentavas-me as minhas projeções. Não digo esperanças. Essas morreram nos primeiros meses alimentadas pela tua indiferença. Desde, então, pesa-me viver.
Ainda assim, não vou negar que gosto de ti, que sinto ciúmes e até mesmo falta.  Tu sabes que qualquer negativa seria falsa. Queria tanto que soubeste a falta que me fazes! Como algo que não nos pertenceu pode fazer tanta falta?! Creio que por isso mesmo, por nunca ter te tido, é que me tornaste mais e mais necessário, objeto precioso por ser-me inacessível. A falta do que poderia ter sido, mas não foi dói mais do que a falta do que foi e hoje não é mais! Estranho labirinto da saudade.
Passados esses anos todos, gosto, ainda, de ti de um jeito que não sei explicar, de uma maneira que só pode ser expressa respondendo, como Montaigne o fez diante do amigo morto: “Porque és tu; porque sou eu”. Não sei o que vi. Apenas que gosto.
Não sei por que não tiveste aquela conversa por que ansiei mais do que os teus próprios beijos. Ainda me lastimo por isso, muito mais do que por tua recusa. Talvez preferisses calar-te pelo mesmo motivo por que eu também me calei, recusando-me a ter aquela conversa, e que me fez, de certa forma, adiar declarar-te que tu eras desejado por mim: o medo de perder alguém que, de repente, se me tornou importante. Como eu queria que, de repente, a dor que sinto por ti se dissipasse em mim! Mas ela, irremediavelmente, resiste a todas as formas de que me valho para aplacá-la.
Só que o meu medo não tinha razão de ser: eu não temia perder-te. Eu temia perder a imagem de ti que eu criara em mim. O doloroso não foi perceber que não me “amavas”, uso esse verbo na falta de outro melhor, na mesma proporção em que eu te amava. Não vou dizer que não sentiste nada por mim. Sentias, sim. Quero acreditar que sentias! Não te quero atribuir a culpa da indiferença completa a mim. Mas fui egoísta de mais, exigindo só para mim o que também dividias com os outros: carinho, atenção, amizade.
 Eu não soube amar sem exigir nada em troca. Eu amava, mas queria como recompensa a ti, somente a ti. Strani amore. Mas o doloroso foi perceber que eu amava uma projeção criada por mim mesmo. Se tiveste culpa, e não queria aqui achar culpados nem inocentes, foi apenas de teres sido escolhido por mim para seres o centro de minhas projeções. Mas neste caso a culpa não foi tua, ela foi minha mesmo.  E hoje sou juiz e algoz de minha própria dor! 
Vendo os fatos agora, acho engraçado que, apesar de desejar de ti um único beijo, só isso apenas, eu não desejei ou imaginei nada, além disso. Ainda não te desloquei do meu centro de projeção. Não sei quando farei isso. Mas quero que saibas que, independentemente de ainda seres ou não esse centro, ainda tu me importas. Procurei sofrer a minha dor resignadamente. Entretanto, não consegui. Falhei todas as vezes em que tentei.  
Queria tanto que me tivesses ensinado a não gostar de ti como eu ainda estou a gostar! Ensina-me a desprender-me de ti, a soltar-me, a deixar que vás embora. Na falta dessas lições, inicia-se para mim um novo tempo: o de recolher-me. O da revolta já passou! Preciso, tal qual fênix, renascer. Por enquanto estou a sobrevoar o hades, a desviar-me das chamas em que me consumo desde quando o meu olhar mirou o teu. Olhos nos olhos. OLHARES. Minha perdição. Se eu soubesse o que me iria acontecer, teria desviado os meus olhos dos teus aos quais me prendi como se tivesse sido petrificado pelos olhos da medusa e, por isso, ainda vivo a arder neste inferno que é te amar.         

sábado, 20 de março de 2010

O ÚLTIMO ENCONTRO

Para FVMP

     Acordara ao som do telefone. Ainda sonolento, do outro lado da linha, ouviu uma voz que há muito ele resolvera esquecer. “Preciso vê-lo mais uma vez. Por favor, venha logo”, pôde escutar, enquanto o som ia, paulatinamente, tornando-se quase inaudível. Pensou que estivesse ainda dormindo. Pegou o telefone: “– Alô! Alô! Quem é? Isso não são horas de passar um trote. Quem é?”, perguntou meio que irritado.
     Do outro lado, já não era a mesma voz. Por isso, viu-se obrigado a pedir desculpas. Era feminina a voz  que se identificou como sendo atendente do Hospital Regional. Pensou, logo, na mãe ou no irmão com os quais há tempos não falara. Mas não era sobre eles de que se tratava.
     A moça perguntou-lhe se podia comparecer à unidade de terapia intensiva ainda naquela manhã. Havia um paciente que insistia em vê-lo. Era bom que não se demorasse. Ao ouvir o nome que a atendente lhe dissera, vieram-lhe várias lembranças que, há muito, empenhara-se em esquecer. Repassou-lhe os dados que lhe foram pedidos e confirmou que iria ao hospital ainda durante aquela manhã. Não se demoraria. Anotou o número da enfermaria: 227. Procurou vestir-se o mais rápido possível, enquanto telefonava para o serviço de táxi.
     Depois de tantos anos, quando ele pensava que o passado havia sido apagado, a vida, de súbito, lho trazia naquela manhã de dois de agosto, como tristes trastes deixados escondidos em algum canto de uma antiga gaveta de guardados perdida entre as velhas tralhas largadas no sótão da memória. Ele ainda tinha guardado o seu número de telefone. “Por que, nesses anos todos, nunca ligara?”. Era inevitável aquele encontro. Talvez, agora, pudesse ajeitar as coisas que ficaram pendentes e que eles, ao invés do ponto final, resolveram sustentar à base de reticências. “Bem que poderia ser em outro local”, pensou consigo, enquanto penteava o cabelo de frente ao espelho. Desde criança, sentia ojeriza a ambientes hospitalares. O cheiro de morte a percorrer cada um dos corredores o espantava. Sentia-se intimidado. Temia ser uma daquelas pessoas para quem a vida não era mais incerteza alguma.
     “ – Estou cansado”, dissera-lhe. Teve vontade de completar a frase: “Estou cansado de mim, de você, de saber que só liga para mim quando precisa de algo. Enfim, cansei de estar sempre presente para você e receber como recompensa as suas ausências temperadas com o que era pior: a sua indiferença. Estou cansado de ser usado à minha revelia”. Disse-lhe apenas aquela primeira frase, enquanto fechava a porta, deixando de lado um mundo que já era para ter ficado para trás.
     Passaram-se mais de dez anos depois daquela última conversa. A vida foi seguindo seu rumo. Nos primeiros meses, as lembranças batiam ao peito que latejava, mas, depois, cessava: aprendera a curtir a dor da separação, a fazer das recordações acalanto para uma dor que, pouco a pouco, foi deixando de doer, que perdera a sua razão de ser. Os anos vieram e, só uma vez ou outra, é que lhe vinham à memória o nome, a lembrança do sentimento acalentado, mas as imagens não eram tão mais nítidas como antes. Embaçara-se algo. Vago, fluido, tudo parecia ser, agora, a paisagem de um quadro impressionista.
     “– Por que você está ao meu lado, se todos, inclusive você mesmo, dizem que eu não presto?”, foi a frase que lhe veio à memória, enquanto, já no táxi, dirigia-se a caminho do hospital.
     Aquela pergunta, durante o jantar na casa dele, quando ainda podiam sorver da companhia um do outro, continuava a reverberar em sua cabeça. Feita assim, de chofre, ela havia-lhe desconcertado, deixando-o sem resposta alguma. Mas, renitente, a pergunta persistia, como a resistir ao esquecimento, e exigia-lhe uma resposta que creio ainda ele não ter, mesmo depois de passados tantos anos. Veio-lhe à mente ter sido aquela uma das poucas vezes em que o Outro o deixara sem resposta. Ainda assim, depois de muito pensar, ao longo desse tempo todo em que nem mais se lembrava da imagem daquele que, agora, agonizava, embora a imagem dele já estivesse há muito corroída pelo tempo, pelo esquecimento necessário, aquela pergunta manteve-se viva; incólume, ela resistia qual enigma semelhante ao da esfinge, a esperar seu Édipo.
     Das vezes em que se detivera sobre o que lhe fora perguntado naquele dia, ele, não encontrando resposta, pensava que poderia ter dito, simplesmente, que vivia ao seu lado porque gostava dele. Sim, gostava de uma forma que, ainda hoje, não sabia explicar. Apenas, sentia-se bem ao lado daquele de quem, em tempos outros, gostava com uma intensidade muito maior do que naquele tempo em que lhe fora feita aquela pergunta: “– Por que você vive ao meu lado, se eu não presto?”. “Ah, se fosse fácil, desfazer-se de quem gostamos!”, suspirou com tal intensidade que o motorista do táxi perguntou se ele estava bem.
     Lembrou-se das muitas palavras que, em noites de mais aguda tristeza, escrevera e que, mesmo reveladas, passaram indiferentes ao Outro: “Tornei-me a noite, enquanto você tornou-se-me o orvalho, negro orvalho, por que passei a ansiar, apesar. De tanto amá-lo, não só ofereci o que eu era, como também tentei oferecer o que eu não era e, talvez, o que eu nem chegasse a ser. Agi da forma que só aos loucos é dado a entender. Por isso, não me preocupei que me entendesse, apenas queria ser amado na mesma proporção em que eu amava.
     Agora, em que a vida lhe chamava para aquela prestação de contas, ele tinha a certeza de que, naquela época, dia a dia, afundava-se, cada vez mais, em suas próprias projeções. As cartas escritas, os bilhetes enviados, as músicas ouvidas, os cheiros sentidos, as lembranças guardadas, tudo fora parte de uma só lancinante sinfonia: a dor de quem não podia ter a quem elegera como o escolhido.
     Agora, não mais temia deparar-se com o passado. Era preciso ajustar as contas, resolver aquilo que fora deixado olvidado, arrastado, por muito tempo, como uma ferida que, fechada, nunca cicatrizara de vez. O tempo de sofrer já passara. Ainda, assim, o perdido lhe deixava confundido, porque não mais lhe doía, como antes, mas lhe deixava a saudade das coisas findas, amigável fantasma com quem somos obrigados a aprender a conviver.
     “Houve um tempo em que aquele meu gostar se conjugava como amar. Eu amava inclusive tudo o que doía em você porque era o que também doía em mim. Mas o meu não era o amor liquefeito a que você estava acostumado a dar e a receber. O risco era inevitável em um bordado cujo centro eu queria que fosse só você. Paguei o preço, mas não sei se recebi o troco merecido. Também não o quero mais saber. Hoje, bordado não mais há; ficou-me apenas o risco. Houve um tempo em que os sentimentos gestados não mais se ouvem. E por me ter feito sofrer, mais e mais eu aprendi a amá-lo. Tanto que, àquela época, só podia ver em você virtudes, mas vício nenhum”.
     “Foi-se o tempo em que você fazia-me falta. Você tornou-se apenas um corpo que agora se despede da vida”, ressentido, pensou em dizer aquelas palavras, mas não havia mais tempo para ressentimentos e também não era isso que ele queria dizer. A hora da despedida também era a hora para o encontro. Estava ali para dizer ao Outro que já podia partir tranqüilo. E, o que mais lhe queria falar, porém, é que guardaria sempre as lembranças daqueles dias anteriores à separação, das conversas que, hoje, tinham cheiro e gosto de jogado fora, mas que, ainda, resistiam ao tempo e à distância, como o cheiro suave de um perfume a preencher, em vão, as faltas de que e para as quais somos feitos.

quarta-feira, 17 de março de 2010

DIZENDO ADEUS

“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Essa frase, há muito, trago-a na memória. E dela me aproprio para dizer que rememorar é preciso, viver não é preciso. Ou seja, é preciso trazer à memória aquilo que estava imerso nas densas águas do rio Lete. E quando empreendemos singrar contrários ao curso desse rio, navegamos por mares sempre desde antes esquecidos. Nessa demanda em busca desse graal, que desconhecemos e que é sempre um eterno devir, somos impulsionados sem nem sequer sabermos que estamos nessa empreitada. E assim com fios que muitas vezes desconhecemos, seja porque invisíveis, seja porque, mesmo visíveis, não os percebemos, vamos tecendo um bordado no qual somos mais o desenho que, ponto a ponto, está sendo confeccionado do que o próprio bordador. Espécie de Penélope, tecemos não a fim de que Ulisses retorne, mas a fim de nos conhecermos a si próprios. Ulisses somos nós mesmos. Por isso, o nosso bordado é um contínuo traçar e destecer fios a fim de compor um desenho que se nos afigura como inefável. Mesmo assim, numa empresa que não é vã, tecemos e no traçado das quase sempre nem bem traçadas linhas, um ponto une-se a outro que, por sua vez, liga-se a mais outro e, assim, vão compondo esse bordado que me revela, me desvela, me esconde, me expõe. E como sempre estamos bordando novos bordados para este grande tecido a que chamamos vida, bordamos uns, destecemos outros. Guardamos estes, escondemos aqueles. Mas todos esses bordados trazem em si as marcas não só de nós mesmos como de outras pessoas. Pessoas que nos trouxeram alguns novelos, sugeriram pontos, cores para o nosso bordado, ouviram nossas angústias diante da dificuldade em algum ponto, compartilharam nossas alegrias quando o bordado estava pronto e era preciso começar mais um outro, em um novo tecido, com novas cores, pontos novos, desenhos ainda a serem pensados. Sendo assim, gostaria de agradecer às pessoas que com um sorriso, um abraço, uma palavra de incentivo fizeram com o ano de 2009 fosse bordado com cores alegres, tão alegres que ofuscaram os matizes de tristezas que vez por outra tentavam borrar o contorno de nosso bordado de 2009.  Se, ao longo deste ano que finda, pudemos pintar o sete e desenhar o oito, acreditamos que o mais que fizemos foi bordar. E assim, pude bordar um novo cenário para mim em Monteiro, onde pude, durante os meses em que fiquei hospedado por Raquel, firmar os laços de uma amizade que começara a ser bordada nas aulas da UFCG. E hoje, eis que aquela menina que ainda pensava em trabalhar com Virgilio Ferreira (ou era outro português?) encontra-se como água para chocolate, tecendo um bordado que a eternize em vida: seja bem vinda Laurinhaaaaaaaaa. Se Raquel foi a ponta de meu bordado, a outra ponta (não sei se a direita ou a esquerda) foi Aldinida. Minha cara super-ego. Apesar de não gostar dessa forma pós-moderna de afeto, sempre receosa de me dar conselhos, tão bem vindos, para determinadas partes de meu bordado. Creio que, em Monteiro, pudemos firmar os laços que deixamos entrelaçar quando estávamos fazendo o concurso de 2007 e eu a vi andando pelas ruas de Campina como uma lady. Hoje a vejo como Inês a esperar seu Pedro. Joana, minha querida leitora, com você pude compartilhar as minhas alegrias e tristezas plasmadas esteticamente, confessando certos segredos via literatura. Também não posso esquecer dos copos de cerveja, de vinho que, solidariamente, compartilhamos, seja na pizzzaria, no Saborear, em Sertânia, ou simplesmente lá em casa. Obrigado pela sua atenção, seu carinho, seu jeito canceriano de ser. Que 2010 seja pródigo em novos contos!!! Shirley, que, antes rainha da perimetral, veio, das terras da Galícia, ser a outra ponta do meu bordado onde ficaram desenhadas as imagens e os sons da palhoça Zé Marcolino, nosso portal para o umbral onde deixamos as luzes de nossos sorrisos e o calor de nossas danças. Por fim, a você, que poderia ter sido o centro do meu bordado, mas se satisfez com um dos quadrados à sua escolha. Gostei de tê-lo conhecido, Victor, dos momentos em que assistimos a filmes, em que falamos de nossas alegrias e tristezas, mas sobretudo do momentos em que, unidos, procurávamos criar imunidade a Monteiro, tentando, quem sabe, escrever os esboços de uma estética de (nossa) existência. Se este texto se abre com dando adeus, é porque o nosso bordado de 2009 está quase concluído, é preciso escolher novos tecidos, novos fios, novas tintas para o bordado de 2010. Tudo pode ser novo, mas espero que, nas cartografias que hei de desenhar no meu bordado de 2010, vocês estejam presentes para que, aos poucos, possamos ir juntando um ponto, tecendo outro deste bordado que ainda não terminei, que ainda está se constituindo, que, a cada girar da roca de fiar, toma formas que nem sempre foram previstas por mim. Enfim, o texto é escrito é um único parágrafo, porque espero que estejamos unidos e possamos continuar compartilhando alegrias (e as inevitáveis tristezas) nessa trajetória de roteiros vários, ainda, sem ponto final, apenas reticências...    

Obrigado,
Brâmane de ouro e prata.
Monteiro, noite fria de 20 de dezembro de 2009

Porque escrevo

Como resolvi postar novamente os meus contos, acho interessante (para mim) postar também esta carta-resposta que escrevi a uma amiga que me fez algumas perguntas sobre os meus contos. Segue, portanto, a resposta.




Jackelaine,


Sinto-me numa situação incômoda ao ter de falar sobre os meus escritos, os quais, pensei, não deveriam ter saído da minha gaveta de guardados; mas a vaidade de ser lido foi maior e eu mandei para um ou outro amigo que foram lendo e gostando, dando uma sugestão aqui, um pitaco acolá sem que eu nem sempre concordasse com eles. Esse incentivo fez com que eu retirasse da gaveta de guardados os textos. Olhe que uns, os da época do Premen, realmente passaram muito tempo de molho. Como uma de suas perguntas era sobre qual ou quais desses contos escrevi no tempo de estudante de ensino médio, digo-lhe que “A partida” e “Prestação de Contas” surgiram de esboços de redação pedida numa das aulas de português. Eles foram reformulados e encontram-se na versão que você leu.
O conto “A partida” foi publicado na Revista Cordeletras, como sendo de ..., um dos meus pseudônimos. Ainda não cheguei a ter a criatividade de Fernando Pessoa para a criação de heterônimos. Os meus são sempre pseudônimos. Eu me escondo por detrás deles. Mas voltando à gênese dos contos, afora aqueles dois a que me referi antes, os demais foram produzidos entre 2007 e 2008. Apenas os dois últimos foram escritos este ano, já estando eu aqui em Monteiro.
Você poderia me perguntar por que resolvi escrever. A primeira resposta seria: escrevo como conseqüência do fato de eu ser um leitor, não diria ávido, mas um leitor acima da média. Tenho verdadeira compulsão por livros. E, como você sabe um pouco de minha vida, deve saber também que a leitura foi um subterfúgio para que, apesar de todas as agruras que marcaram a minha vida, eu continuasse a acreditar na vida, mesmo havendo tantos apesares: as parcas condições econômicas, a relação nem um pouco amistosa com meu padrasto, a falta de afeto em casa. Desde pequeno, senti-me meio que deslocado do mundo. Por isso, eu lia. Ler era uma forma de compartilhar as alegrias de que eu não podia desfrutar com pessoas de carne e osso, apenas com aqueles seres de papel.
As personagens dos romances, contos não só dividiam alegrias comigo, mas me ensinavam a conviver com as minhas tristezas, as minhas dores. Daí vem o segundo motivo por que, de súbito, eu resolvi escrever. Os contos são formas de eu exercitar as minhas alegrias, as minhas tristezas. Como eu me sinto um ser triste, melancólico, apesar de não aparentar, os meus textos são permeados de tristeza, de melancolia. Ora, quem só encontrou tristezas pode falar de alegria? Mas calma, e aqui talvez seja o professor de literatura que está a falar, tudo isso que eu disse sobre os meus contos pode ser uma encenação. Escrevo sobre coisas tristes porque, como disse numa de minhas aulas, a tristeza só me é bela se plasmada artisticamente e, só assim, ela vale a pena ser vivida.
Você me pergunta se as vozes em meus contos são todas femininas. Eu diria que não. Existem vozes femininas e vozes masculinas. O problema é que as vozes, quando masculinas, se assemelham às vozes femininas porque, em alguns casos, ambas falam de suas dores advindas dos desencontros amorosos, da indiferença do ser amado. No caso das vozes masculinas, o outro do seu afeto é do mesmo sexo. E falar de um homem que gosta de outro homem não me fácil. Por isso, como espécie de escamotear essa homoafetividade que permeia uma parte significativa dos contos deste livro, é a possível não sei se diria ambigüidade ou neutralidade, agora não sei, da utilização do par ele X outro.
Não sei se isso seria suficiente para dizer que esses contos são literatura gay. Até porque não sei o que de fato caracteriza uma literatura gay. Se for pela temática, os contos podem ser enquadrados. De qualquer forma, creio que podemos falar na presença de uma homoafetividade nesses contos. Só posso dizer isso, porque não entendo nada dos estudos queer. Apenas o desejo de estudar mais sobre o assunto, assim que terminar o doutorado.
Agora me lembrei de uma pergunta sua sobre as pessoas a quem eu dediquei os contos. Todas elas são pessoas com quem eu convivi ou com quem convivo. Os contos não foram escritos pensando nelas. Apenas dois ou três foram escritos tendo na mente a pessoa a quem eu dediquei, seja porque me pediu para escrever o conto, seja porque eu me senti encantado pela pessoa e quis escrever o conto como um presente que queremos dar quando estamos embevecidos por alguém. Os outros foram dedicados como uma simples forma de demonstração de afeto que sinto pela pessoa cujo nome consta na dedicatória, mas foram escritores sem ter em mente esta pessoa.
            Por fim, ainda relacionado à questão das vozes em meus textos, se são masculinas, se são femininas, digo-lhe que são vozes humanas que busquei representar. Acho que é isso: todos os textos que você leu buscam representar o humano, com suas alegrias, mas, sobretudo, com suas tristezas e angústias diante da recusa ou decepção amorosas ou diante do próprio existir. Talvez, essa seja, de fato, a grande temática do livro, algo que, como um vitral, é composto de pequenos cacos. Na construção desses personagens, de seus dramas, busquei encontrar-me a mim mesmo. E o pleonasmo aqui é bem intencional.  Se há alguém que se sentiu tocado é porque deve trilhar, ainda que por outras veredas, esse longo caminho que é a existência que se torna menos árdua quando encontramos alguém com quem compartilhá-la, seja como companheiro, seja como leitor, mas sendo sempre uma companhia.

Monteiro, 03 de outubro de 2009
    

terça-feira, 16 de março de 2010

DOCE NOVEMBRO

                                                 
Para Leucio de Farias Guilherme 
                                       
Há pessoas que nem as escutamos, há pessoas que nos ferem e nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.
                                                                                      Cecília Meireles


     Depois de uma desilusão somada a mais uma, enfim a dezenas de tantas outras desilusões, Marcos, como lhe aconselhara uma velha amiga, resolvera cair na real. Apostava que, daquele momento para frente, tudo seria diferente. Aquele por quem se apaixonara deveria cair no esquecimento há muito necessário, como aquelas coisas que é preciso que perder pela vida. Prometia isso a si mesmo. Era preciso acreditar nisso, ainda que pudesse vir a ser mais uma de suas vãs ilusões.
     Na junção de suas carências, amalgamando ausências e ansiando por afetos há muito negados, deixara, sem perceber a dubiedade dos gestos e a ambigüidade dos olhares, deslumbrar-se por aquele a quem, como ele mesmo lhe dissera, devia ter visto como apenas um amigo. Fora condenado pelo simples fato de que, à revelia de sua vontade, se apaixonara por aquele de quem se aproximara sem nada esperar, esperando, depois, tudo. De tanta convivência, esperava que brotasse mais intimidade; viera-lhe a recusa a pôr em ruínas todo o seu inventário de ilusões.
     Colecionador de corpos, o Outro que ele quis dividia o coração com outros e também lhes ofertava o seu corpo, exceto com ele a quem sequer as migalhas eram oferecidas. Sofrera, principalmente porque não havia aprendido (ou não queria?) esquecer. “O amor é uma grande ilusão e nós não temos razão...”, dizia para si mesmo, deixando o pensamento incompleto, buscando consolo nas horas em que sentia o peito apertado.
Mas já estava se encerrando o tempo de chorar, sofrer e lamentar. Havia aprendido a tirar proveito de sua dor e ela já estava a dar sinais de cansaço. Pouco a pouco, pararia de sofrer com aquela ausência e não mais viveria à base de tristezas, morrendo de saudades. Começava a esboçar-se para ele um novo tempo em que deveria deixar para trás o que precisava ficar para trás: era hora de fugir do inferno, em busca de seus girassóis. Do coração despedaçado, estava aprendendo a fazer, a partir dos cacos, um mosaico. Saíra fortalecido: amalgamara na dor a alegria.
     Estava esperançoso de que chegasse o momento em que poderia dizer ao Outro de sua dor: “houve um tempo em que eu disse ser você importante para mim, ainda o é, embora não mais com a mesma intensidade tanto que, hoje, noto a sua ausência, mas não mais sinto a sua falta”. Vivia na esperança desse dia em que, enfim, poderia perceber-se cansado do Outro, não necessariamente do Outro, mas, como disse a poeta, cansado de si através do Outro.
     E de tanto esperar, eis que ela, não dura, mas caroável, há muito ausente, se fez presente. As coisas que a vida faz. Há horas em que ela destece qualquer possibilidade de esperança; outras vezes, reúne todos os fios e voltamos a acreditar naquilo que, antes, era só uma possibilidade remota. Entre esses mistérios que a mão do acaso nos oferece como alento, vamos, com fios que muitas vezes desconhecemos, seja porque invisíveis, seja porque, mesmo visíveis, não os percebemos, tecendo uma esperança aqui, outra ali, deixando mais uma outra acolá e, no traçado das quase sempre nem bem traçadas linhas, um ponto une-se a outro que, por sua vez, liga-se a mais outro e, assim, vão dando contornos àquilo que, muitas vezes, se nos afigura como mistério e que, entretanto, nos revela, nos desvela, nos esconde, nos expõe. A vida e seus sortilégios.
    Para Marcos, a esperança não veio verde, não tinha a forma de um ortópdero. Veio de carne e osso: estudante, vinte anos, magro, alto, lisos cabelos castanhos alourados, cicatriz no braço direito. Lúcio era o seu nome. Ele chegara quando, retalhado, o coração de Marcos, depois de tantas vezes enganado e sem mais nenhum marco, apenas marcas, ensimesmara-se. Estando Marcos à deriva, Lúcio lhe aparecera como um farol, renovando-lhe as esperanças de guarida em meio às tormentas contra as quais ainda lutava contabilizando perdas e caçando ausências.
     Era novembro. Subia pela Rua Treze de Maio quando lhe deu vontade de entrar numa lan house. Mais do que ler emails, Marcos precisava distrair-se enquanto não chegava a hora de embarcar para a cidade onde estava morando. Campina agora lhe era só um porto de passagem, mas ele sentia saudades do tempo em que aqui vivera. Percorrer as ruas daquela que ainda era a sua cidade, ouvir o barulho da buzina dos carros e das motos, desviar-se deles ou sentir-lhes a fumaça a rasgar as narinas era encontrar-se com velhos hábitos com os quais, desde que se mudara, não tivera mais contato.
     A nova cidade tinha aspecto de uma cidadezinha qualquer parada no tempo e marcada por uma vida cotidiana e tributável. Toda vez que viajava de lá, Marcos procurava, antes do retorno, reter a passagem das horas. Por isso, andava a esmo enquanto o tempo lhe resolvera presentear arrastando-se lentamente. Como não sabia o que fazer e lhe sobrava muito tempo antes da viagem, veio-lhe a vontade de acessar qualquer coisa na internet que lhe pudesse servir de distração. Pensou em ir à velha lan house a que sempre ia quando morava por aqui. Entretanto, de súbito, resolvera entrar numa outra a que não costuma ir. De todas as existentes ali, ele havia sido impulsionado, sabe-se lá por quem ou por que, a entrar naquela.
     Havia sentado numa das cabines da lan quando seu olhar cruzou-se como o do jovem rapaz na cabine da frente. Sentiu aquele frenesi. Com vergonha, desviou a vista, mas o jovem rapaz, aqui e acolá, lançava-lhe furtivos olhares. Naquele hora, o desejo de um passara a ser o desejo do outro. Passada mais de meia hora, entre um flerte e outro, Marcos criara coragem e, com as mãos, fizera-lhe gestos a indicar que queria encontrar-se com ele. Lúcio não entendera. Por isso, Marcos pegou o celular e apontou-lhe, como índice de que queria o seu número. Lúcio, agora, entendera. Pouco a pouco, foi lhe dizendo os números. Anotados, Marcos cuidou de passar-lhe uma mensagem: “Pode encontrar-se comigo, agora?”. Lúcio respondeu afirmativamente com um meneio da cabeça. Dali a pouco, saiam, ambos. Subiram a Rua Treze de Maio a conversarem como se fossem velhos amigos. Convite feito; convite aceito. Almoçaram. Nomes revelados, telefones trocados, desejos em confluência. O tempo que, antes, se arrastava, agora, aligeirava-se. Era preciso partir, mas não se via nota de despedida: havia a promessa de um novo encontro. Deram-se as mãos. Olhos nos olhos: luminescências.No ônibus, de volta para a cidadezinha qualquer, Marcos pegou o celular e passou a escrever uma mensagem: “Gostei de tê-lo conhecido. Ainda que não seja nada sério, espero que não tenha sido apenas um encontro casual. Aguardarei a sua visita. Beijo, o mesmo que eu senti vontade de dar, mas não tive coragem”.
     E o doce daquele novembro estendeu-se por todo o dezembro, depois o janeiro próximo e todos os outros meses que vieram em seguida.

MEMÓRIA

Para você, a cuja altura nunca pude estar, deixo com saudosas lembranças estas últimas palavras.


KF, meu retórico favorito,



     Queria ter-te aqui ao meu lado, contemplar o teu rosto e sentir-me feliz. Mas de ti o que tenho é a vaga lembrança de um corpo que não foi meu e o pesadelo de imaginá-lo em outras bocas, outras mãos, por cima ou por baixo de outros corpos, nas carícias de outros pêlos.
     Se soubesses o quanto me és precioso... Devo, entretanto, contentar-me em te ter apenas como essa lembrança que, apesar do tempo, ainda persiste, indelevelmente, na minha memória, no meu corpo, como uma ferida que, embora cicatrizada, ainda dói, lateja. Por isso, para te ter meu, precisei distanciar-me de ti. Acreditar que a distância podia conservar-me um pouco de ti, para que eu não te perdesse de vez, era o meu grande alento. Ah, este inferno de amar, como ainda te amo! Ter de controlar-me os instintos, quando queria jogar-me aos teus pés e pedir-te um beijo apenas. Sentir, por mais efêmero que fosse, o roçar, afável, de meus lábios, lado a lado, dos teus.
     Devo, entretanto, mirar-me no espelho da impossibilidade, de consumir-me no inferno da cálida interdição. Pathos devia ser o meu sobrenome. Deves saber o mal que me fazes (“Mas te divertes com isso. Adoras tripudiar, quando tens a certeza de que és desejado. Comprazes-te em ser a fonte das dores deste outro que sou eu”). As palavras duras, os gestos bruscos, os nãos, quando esperavas um sim, eram reações amargas de um amor de mão única. Na não correspondência de teus afetos, eu gestava em mim uma miríade de desafetos. Entretanto, quanto mais eu tentava ferir-te, mais eu feria a mim mesmo.
      Tornastes para mim a dose diária de que necessita um paciente em estado terminal. Ter-te em meus braços, sorver os teus beijos alimentavam-me esperanças, as mesmas que sentem aqueles que já estão condenados à morte. Poderias ter-me servido de salvação, mas, por amor a ti, cada dia, cada hora, eu marchava por um caminho desconhecido, mas que levava a uma única direção: a dor, a tristeza, a solidão, a possibilidade de te ter apenas como um desejo, nunca como uma realização. Mais cruel do que a tua recusa em me dar, ainda que em migalhas, o teu afeto, era ficar questionando-me sobre o porquê de tua recusa. O que me faltava? Por que eu não estava ao alcance de teus desejos? Perguntas e mais perguntas dilaceravam o meu peito, faziam sangrar o pobre coração doente. A falta de respostas era uma música lancinante a entoar em meus ouvidos dia-a-dia.
      E assim abri espaço para que o sofrimento ditasse as regras de meu viver. Eu passei a me enganar, pensando que sofria não por ti, mas por mim mesmo, que eu precisava provar na pele a dor da indiferença, do desprezo, do não poder ser objeto de desejo, mas apenas sujeito desejante. Queria poder me enganar, acreditando que me eras apenas “o motivo de alimento da minha paixão, a quem talvez bem mais queira do que a ti”, mas era tudo uma ilusão. Eu não amava te amar, eu ama a ti, somente a ti. Fostes, e talvez continues a ser, não a razão de meu viver, mas toda a minha vida. Por isso, mais e mais, eu alimentava-me o desejo de estar ao teu lado, de te ter perto de mim, de saber com quem andavas e com quem dividias as carícias por que eu tanta ansiava. Fui-te fiel, amei-te, fostes-me indiferente. Quis acreditar, como dizia a letra de uma velha canção, que não valias a pena, que não valias uma fisgada de minha dor, que não me servias, como rima de um poema, de tão pequeno.
      Entretanto, eu estava, mais e mais, exercitando a minha dor na vã tentativa de que, depois de bem curtida, como um bom vinho que se guarda, durante longos anos, em barris de carvalho, eu pudesse expurgar-te de mim. Tanto que hoje eu queria que persistisses em mim como uma ausência, mas não como uma falta. Resistindo à tua perda, (“Sei que te perdi e me afundo, me perco também dentro de minha total ausência de poder em que me queiras”), escrevi estas palavras, única memória de ti em mim. Queria poder dizer-tas, mas elas persistirão guardadas comigo, porque não consigo enganar a mim mesmo. Se viesses a descobri-las, sabe-se lá por intermédio de quem ou do quê, acreditas que tudo aqui não passou de uma encenação, que, como bem disse o poeta, que “todas as cartas de amor são ridículas”. Não esqueces também que, segundo o mesmo poeta, “só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”. Queria poder não ter as respostas para as seguintes perguntas: nunca te amei ou te amei demasiadamente?! Ao pensar que te amava, eu estava amando a mim mesmo?! Foste apenas objeto para eu descobrir a humanidade em mim?! Que melhor prova de que somos humanos do que o exercício de amar?
        Mas não adianta formular a pergunta, quando a resposta é evidente. Assim, fui me enganando dizendo para mim, como numa espécie de mantra, que, pensando estar a te amar, eu estava, egoisticamente, amando a mim mesmo. Isso me servia de lenitivo, acalentava-me nas horas mais difíceis do dia, sobretudo quando te via a falar com outros que podiam ter aquele que me fora negado ter como senhor. E assim, fui criando um inventário de ilusões, tanto que cheguei a pensar em dizer-te que nunca foste razão de nada, apenas projeção para aquilo que em mim existia como desconhecido, inefável, como um território selvagem. Só nessa condição, quero acreditar?, persistes em mim. Entretanto, percebo que começas a cair no esquecimento, o mesmo a que sucumbo agora, ainda que releguemos para ele as coisas que, apesar, nos foram importantes. Não esqueces, porém: tudo foi encenação. Restas saber o quê. O meu amor em demasia ou a negação desse amor demasiado? A resposta, talvez, encontres quando, de volta, ouvires as palavras que aqui deixei serem entoadas como uma balada de amor ao vento.