terça-feira, 16 de março de 2010

DESPEDIDA

Para Marlos Régis Araújo


        Olhou ao redor de si e viu que aumentara o maço de papéis amassados. Horas a fio escrevendo e não conseguira ainda terminar aquela carta. Findado o primeiro período, o segundo sumia de tal forma que ele ou se irritava e rasgava o papel; ou ficava dispondo palavras soltas que, logo depois, formavam um amontoado que era amassado e jogado fora. Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica. Escrever, riscar, amassar, essa era uma seqüência que ele já estava executando mecanicamente. Me dê uma abraço, venha me apertar, tô chegando (ou será indo de vez?). Poderia parar e dar por vencida a questão. Para que escrever aquela carta, pedindo desculpas, se o seu pedido, certamente, seria indeferido? Coisa que gosto é poder partir sem ter planos. Também não iria escrever sobre os seus erros. Temia que, à lembrança do que fizera, o Outro, de quem dependia o seu perdão, ressentisse-se e, reacendida a ferida da mágoa, recusasse-se a perdoar-lhe. Melhor ainda é poder voltar quando quero.
         Errara. Disso tinha certeza. Por isso, mesmo sendo perdoado, o perdão, para si, teria um modo carinhoso de inacabado, de malfeito, daquilo que desajeitadamente cai, antes mesmo de alçar o primeiro vôo. Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação. Agira como alguém que temia perder o objeto que lhe é mais caro, mas cujas ações, tal qual Édipo infeliz, o levavam em direção ao abismo, à perda, à dor de que em vão tentara fugir. Tem gente que vai pra nunca mais. Não tinha coragem de encarar mais o Outro. Olhos nos olhos o que mais posso lhe dizer? Tem gente que vem e quer voltar. Errei, sim; mas não manchei o seu nome. Sabia disso e se arrependia. Todo dia, agora, viver com a sua indiferença é aumentar o cálice da angústia que bebo toda noite. Mas você queria que eu agisse como? Cansei de viver à sombra de suas migalhas de afeto. Em meio a sobras, eu procurava uma amplidão. Tem gente que vai e quer ficar. Você havia me dito que era meu... . Eu, que sempre fui de poucas amizades, que fiz de mim o verso e o reverso de mim mesmo, acreditei. Tem gente que veio só olhar. 
        Mas, eis que de repente, não mais que de repente, uma sombra negra o envolveu: você tornou-se-me indiferente. Tem gente a sorrir e a chorar. E eu, não menos que de repente, pensei que havia aprendido com a sua indiferença, hóspede novo, embora não exclusivo, que entrou em minha alma e pôs em perigo a nossa amizade. E assim chegar e partir. Vesti o dominó e você conheceu-me logo por quem eu não era. São os dois lados da mesma viagem. Não desmenti. Perdi-me, Perdi-lhe. A hora do encontro é também despedida. Desde então, o amanhã se me apresenta como a única possibilidade de que tudo volte ao normal. É a vida desse meu lugar, é a vida. Eu queria poder pedir que não procurasse me entender, saber por que agi daquela maneira. Perdoa-me, faz-me companhia. Eu, embriagado de uma tristeza profunda, fui possuído por uma angústia que me corrói o corpo e a alma. Ajude-me, perdoando-me.
        Cansou-se mais uma vez, levantou-se da cadeira, afastou os papéis da mesa, deixando uns caírem no chão. Não conseguia entender por que ainda não tinha escrito aquela carta. Devia ser o som do rádio que estava a lhe atrapalhar a concentração. Seria melhor desligá-lo de vez. Assim, no silêncio da noite, ouvindo apenas o assovio do vento, talvez ele pudesse escrever aquilo por que tanto ansiava naquele momento e que se lhe apresentava como um décimo terceiro trabalho de Hércules, fadado, no entanto, ao insucesso. Por isso, não adiantava calar o rádio. 
        O problema era com ele mesmo que não conseguia soltar a sua voz, que não sabia como trazer para o branco do papel aquele sentimento retesado há certo tempo juntamente com outros também inauditos. Essa sensação de impotência diante da miríade de palavras que ele dispersara entre as muitas folhas que cobriam o piso do seu apartamento estava a lhe inquietar o espírito. Esse sentimento, espécie de áporo perfurando a terra sem achar escape, foi, palavra por palavra, risco por risco no bordado de cada papel a cobrir o chão, crescendo, de tal forma que de pronto desatou-se numa única frase, que ele anotou para enviar no dia seguinte pelos correios: “E o seu silêncio esgarçou a minha alma suave e leve como o roçar de uma navalha”.

O CHORO DE PROCNE

Para Nadilza Martins de Barros Moreira



        “Liberdade! Livre!”. Os gritos retumbavam no escuro da noite, enquanto outras vozes pediam que se fizesse silêncio. “Enfim livre!”. Eram palavras que zumbiam em sua cabeça, mas o som não a incomodava. Há tempos que sonhara com esse dia. A partir de agora, preferia esquecer tudo o que passara naquelas frias paredes, entre aqueles corpos exalando suor acre que lhe chegava a corroer as narinas. Não sabia como conseguira suportar aquilo tudo, mas de agora em diante precisaria de mais cautela. As portas não se abriram para ela. Foi preciso forçá-las. O ar da noite lhe revigorava os pulmões que já estavam se acostumando ao ar das paredes frias e mofadas daquela cela pequena, assim como o seu estômago já havia se acostumado à ração diária que lhes serviam e que tinha gosto de azedo. O mesmo gosto que estava impregnado na vida das outras companheiras suas.
        De repente, ouvem-se pios fortes. “Deve ser de alguma coruja”, sussurra uma voz meio ofegante. “Minha Nossa Senhora, valha-me Deus”, diz outra voz, assustada, fazendo o sinal da cruz. Os pios tornam-se mais intensos. “Corre, corre”, grita uma daquelas vozes, enquanto um estampido agudo rasga o negro véu da noite e atinge algo que como uma rosa rodopia no ar, como se fosse uma bailarina que errou o passo em dia de estréia, e cai manchando de vermelho, que escorre de suas pétalas, aquele chão escuro. “Atingimos uma, essa não foge mais”, vibra umas vozes mais fortes que se aproximam esgueirando-se pela não mais silenciosa noite que, arfante, vai cedendo lugar para o novo dia.
        Era um dia de domingo. Ela saiu do quarto e foi até a sala. Verificou se estava tudo trancado. Olhou para a estante e viu a foto da família. Se seu pai estivesse aqui ainda, sua irmã não precisaria ter passado por aquilo. Amanhã, limparia a estante. Era preciso tirar as teias de aranha que iam formando uma espessa camada que escondia o rosto de seu pai. Foi à cozinha e certificou-se se a porta estava aberta, conforme havia combinado. Sua mãe saíra para igreja. Sua irmã também fora. De uns tempos para cá, ela precisava encontrar conforto para a sua alma.
        Hoje seria o dia ideal para tornar concreto aquilo que fora posto em suspenso. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa. Partiu um pedaço do bolo de milho, adoçou um pouco de café. Iria lavar o copo, quando olhou para o relógio que estava em cima da geladeira. Faltavam poucos minutos. Apressou-se. Não podia estar na cozinha. Voltou ao quarto. Colocou um pouco de perfume, mas sabia que ele não poderia impedir que exalasse aquele odor que lhe vinha da alma. Passou a mão por sobre a cama. Apalpou o travesseiro. Estava ali tudo aquilo de que ela precisava para aquela noite. Apagou a luz e foi deitar-se. Agora era só esperar mais um pouco. Já sabia o que iria fazer e não sentia nenhum remorso. Era hoje.
        A porta da cozinha soltou um som de instrumento desafinado. Passos seguiam pelo corredor. A maçaneta da porta do seu quarto girou: “– Deixe a luz apagada”, pediu ela com a voz meio embargada. O vulto foi se aproximando da cama. Apesar de escuro, ela podia perceber o sorriso de satisfação em seu rosto. O mesmo que seduzira sua irmã. Ele avançou para a cama igual animal a dar o bote em sua presa. Vinha sedento. Sentiu o peso do seu corpo em cima do dela.
        Com a mão esquerda, afastou-o para o outro lado da cama enquanto a mão direita, habilidosa, pegava, embaixo do seu travesseiro, um objeto que, iluminando a escuridão daquele quarto, era cravado no peito daquele que roubara a alegria de sua irmã. Sentada em cima dele, ela forçou mais um pouco a faca. Lembrou-se do dia em que sua irmã havia chegado com as roupas rasgadas e, em prantos, lhe contara o que ele fizera a ela. De seus olhos, corriam algumas lágrimas. Suas mãos estavam sujas, mas sua alma lavada. A honra da família havia sido restaurada. Agora, qual pássaro que, capturado, sabe que vai para uma gaiola, ela podia entregar-se.

FELIZ ANIVERSÁRIO

Para Maria Alcione Vieira Diniz



        Faltavam poucos minutos para o encerramento do expediente. Daqui a pouco, o ônibus estaria passando como todo dia. Mas, hoje, não sabia por quê, ela não estava com pressa para chegar à sua casa. Sim, havia a sua filha, que deveria estar saindo da escola também daqui a pouco. Olhou absorta para o relógio, mas parece que o tempo havia, por um instante, retesado os ponteiros. “Mas ela já é quase uma mocinha (Ah, meu Deus! Que ela não passe por minhas agonias) e pode voltar sozinha pra casa; o ônibus pára perto.” Sua mãe não estava com vontade de chegar na hora certa em casa, como fazia todos os dias. Desde a manhã, sentira uma dor aguda que lhe sufocava. Pensou que fosse a pressão que estivesse alta, mas a dor era mais angustiante e ela não sabia a causa.
        Hoje, talvez, pela primeira vez, ela desejou que o seu expediente se prolongasse mais um pouco. Não. Ela queria mesmo que o tempo parasse (havia esquecido que, como disse o poeta, o tempo não pára, não pára não) e apenas ela tivesse consciência disso. Mas se o expediente demorasse mais um pouco, só hoje, apenas hoje, ela se daria por satisfeita. Apesar de não gostar daquele ambiente, ali, pelo menos (e parece que a sua vida era tecida sempre de pelo menos), mantinha a mente ocupada e o coração distraído. Entre um papel e outro, nem percebia que o tempo passava.
        E assim, como a sua vida, o tempo esgarçava-se dia a dia. Mas, só hoje, ela não sabia por quê, a consciência desse fluir ininterrupto do tempo (e de sua vida) estava lhe causando aquela sensação que tinha gosto de morangos mofados. Talvez, por isso, ela quisesse chegar mais tarde à sua casa. Ligaria para lá e pediria à filha que comesse o que quisesse. “Na geladeira, deve haver algum pedaço de queijo e um resto de doce. Essa mistura tinha um gosto de infância”. Ficou triste porque lembrara que a sua infância não havia sido tão doce, pois ela tivera sempre o gosto acre de um limão. Azeda a infância; amarga a vida. Não adiantava ficar ali pensando no que ela nunca faria. Sempre dera meia volta diante de situações que, por mais banais que fossem, estavam a lhe exigir uma ação mais enérgica. Recuava sempre à primeira tentativa de mudança.
        Ela mesma sabia que daqui a poucos minutos pegaria a sua bolsa e correria para o ponto do ônibus. Precisava chegar a sua casa, fazer o jantar e esperar que a filha descansasse um pouco, contasse as novidades da escola e, depois, juntas, fossem resolver os exercícios passados pela professora: “Quem me dera que só hoje não houvesse aqueles exercícios”, pensou ela enquanto, ao mesmo tempo, percebia que hoje, apesar daquela dor aguda que lhe apertara o peito e que lhe fizera companhia até aquele momento, ela não havia se trancado no banheiro e chorado. Sentia-se angustiada, mas sem vontade de chorar. “Quem sabe não seria hoje o tão esperado dia em que receberia a mais que esperada graça?” Tinha muita fé, e a demora da graça pedida a angustiava mais ainda: “Deus pode não querer me ouvir ou deve estar ocupado com pedidos mais urgentes”. Mas, justamente hoje, não era isso que a deixara daquele jeito. Sentia-se agudamente diferente.
        Apesar da aparente alegria, viver, especialmente hoje, estava sendo mais asfixiante. Por isso, o desejo de não chegar cedo em casa, embora não soubesse para onde ir. Parecia que os meridianos e paralelos que davam norte à sua vida haviam desaparecido e só lhe sobrara uma folha em branco sem vestígio de direção alguma. Talvez, fosse à casa de alguma amiga; mas não! Não se sentiria bem na casa de desconhecidos. Apesar de amigos, todos lhe eram desconhecidos. Nenhum deles a entendia, não sabia o quanto viver era angustiante para ela. Por isso, sentia-se incomodada. Se estivesse diante deles, especialmente hoje, iria falar dos mesmos problemas e ouvir os mesmos conselhos. Hoje, especialmente hoje, sentia que estava num caminho perigoso. Logo ela que tinha já traçado o mapa de sua existência, estabelecido longitudes e latitudes, ainda que não tivesse certeza do seu meridiano.
        Viver era perigoso, lera isso em algum livro. Acho que foi em Clarice. Como lhe era difícil ler Clarice! Achou que deveria ir à igreja, poderia melhorar aquela angústia que estava sentindo; mas ela ia sempre à igreja e todo dia pedia ao Senhor (Meu Deus, fazei com que as minhas orações não sejam em vão. Ouvi-me) aquele mesmo presente. Bem que poderia ter ficado casada. Por um instante se arrependeu de ter se separado: “Você é louca?! Era bom continuar casada mesmo, apanhando de seu marido e dormindo fora de casa todas às vezes em que ele aparecia bêbado. Disso, você também não sente falta, hein!?” O arrependimento logo se tornou em alívio quando o seu pensamento foi cortado pelas palavras de sua irmã.
        Mas, depois da separação, sua cama se tornara tão fria! Depois do divórcio, tornara-se tão difícil ... Ou isto já acontecia durante o seu casamento quando o seu corpo só sentia o peso do corpo do seu marido e recendia a álcool. Nunca um afago, um beijo caloroso ou uma pegada de jeito. Não, nunca pôde expressar seus desejos. Estes deveriam ser iguais aos seus choros: pequenos gemidos inaudíveis. Escondia-se. Guardara-se. Fora reprimida. Percebeu, então, o motivo daquela dor que a asfixiava desde a manhã: era o seu aniversário e ela estava só, profundissimamente só. Nesse momento, o ônibus havia parado, ela subiu, mas não sabia se hoje, especialmente hoje, desceria no mesmo ponto.

O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL

Para Diego Mentor de Andrade Galvão



        Saíra apressado de casa. Brigara com a filha. Como não pensara em um lugar qualquer onde pudesse passar o tempo e pensar um pouco sobre o que acontecera, havia resolvido ir até o parque. Lá refletiria melhor na vida e talvez resolvesse voltar a sua casa. Enquanto caminhava para aquele lugar onde, apesar de toda a poluição e do barulho de carros, a vida na cidade com todas as suas seduções ficava em suspenso; ele ia, no meio do caminho, sentindo saudade do tempo em que era jovem, mas o que lhe vinha à mente eram, sobretudo, as lembranças dos finais da tarde dos sábados e domingos, quando vinha com os amigos jogar naquele parque. Depois da partida de futebol, todos iam tomar um refresco na barraquinha de seu Manuel que ficava na esquina onde hoje está um suntuoso prédio comercial.
        Não entendia como aquele parque conseguira resistir às sanhas dos empresários, mas se sentia feliz por poder tê-lo ali. Mesmo depois de passado muito tempo e das raras visitas, o parque mantinha-se semelhante ao de sua juventude: a mesma pista onde, entre uma volta e outra, ele conheceu a sua esposa; as mesmas árvores, o antigo gramado verde sobre o qual foram tecidas muitas juras de amor e muitos planos feitos sem saber que seriam esgarçados pelo destino. Parou um pouco. A lembrança da esposa, morta recentemente, trouxe uma dor aguda ao peito. Respirou fundo. A imagem da esposa, embora muito amada, estava se tornando meio embaçada, como uma fotografia que, evitando sucumbir às investidas do tempo, procurava resistir, deixar-se presente na folha amarelada do papel da memória. Apesar de o passado servir-lhe de alento, precisava pensar no presente. Restavam-lhe apenas a filha e os dois netos: “Essa é a minha família”, pensou amargamente enquanto se sentava em um daqueles bancos donde podia ter uma ampla visão de todo o parque. Isso apertou mais ainda o seu velho coração saudoso. Permaneceu observando as velhas árvores que, imponentes, olhavam indiferentes para as pessoas que ali estavam sentadas, correndo ou simplesmente vendo a vida passar como um suave e rápido aceno de Zéfiro.
        Sentado ao lado da fonte (que bom que ela está ainda aqui!), ele viu um pai levando a filha para jogar comida aos pássaros que, servilmente, vinham atrás do que as débeis mãos infantis espalhavam, entre risos, pelo ar e contemplavam cair no chão. Essa cena (por que, meu Deus, velho só lembra do que se passou?) trouxe-lhe lembranças do tempo em que a pequena Marta o esperava chegar do trabalho para cobri-lo de beijos e abraços, provocando ciúmes na mãe. Ah, a menina de ouro havia crescido e ele envelhecido! Com o tempo, os afetos foram minando até não deixarem mais rastro nenhum. Sentiu mais ainda aquela dor lhe apertar o peito cansado, saudoso.Era uma dor lancinante diante da certeza de que o passado só podia retornar como lembrança. Essa era uma tecido cujos fios, esgarçados pelo tempo, eram difíceis de reunir.     Lembrar era como estar dentro de um oráculo inativo. Não havia mais esperanças de futuro, só o medo de que aquilo que tanto significou não signifique mais nada. Por isso, embora lhe doesse o peito, ele não queria deixar de pensar nas sobras do que não fica, naquilo que fica do que não sobra. Olhou para o relógio e viu que já era tarde. Mas resolveu ficar mais um pouco. Talvez o seu atraso deixasse a filha preocupada e isso seria a demonstração de que a sua menina ainda se importava com ele. Mesmo assim, estava decidido a não mais morar com ela. Daria um tempo. Os netos estavam na fase em que era preciso tomar às redes. Os meninos eram arredios, assim como sua filha se tornara. Procurava entender a situação dela. Não era fácil para ela se desdobrar horas a fio para manter a casa depois que o marido a havia deixado. Diante desse golpe, sua filha se fechara mais, embrutecera seu coração, devotara-se ao trabalho como se este fosse uma religião. Ele sabia que não estava sendo fácil para ela o divórcio. Os risos da vizinhança, os cochichos dos colegas de trabalho.
        As horas iam-se passando, mas ele não estava apressado para sair daquele lugar. Queria adiar mais um pouco a chegada à casa da filha. Era com muita mágoa, não sabe ao certo se por ter de ter aquela conversa com a filha ou se por estar vendo o que ela se tornara, uma mulher seca, amarga, que ele iria comunicar a ela que estaria indo morar em uma dessas casas de apoio a idosos. Conhecia alguns amigos de infância que preferiram esses lugares para passarem o resto de vida que lhes sobrava. Mas antes queria ver o pôr-do-sol. Dali onde estava, era tão bonito ver o sol morrer para logo mais dar lugar à noite. Além do mais, o vento ali era tão suave que lhe lembrava os ventos do tempo de criança. Preferiu demorar-se mais um pouco naquele banco.
        – Alô, dona Marta, é do Hospital do Coração. Estamos ligando para avisar que seu pai sofreu um enfarto e está sendo encaminhado para a mesa de cirurgia.

O EXÍMIO


Para Augusto Rafael Carvalho de Sousa


        Quando criança, e isso faz tanto tempo, eu gostava de ouvir várias histórias de trancoso que eram contadas pelo Exímio, um velho que fora meu vizinho na época em que meu pai era juiz numa dessas cidades do interior do sertão, lugar quente sobre o qual, em tom bastante jocoso, dizia papai:
– O povo daqui, quando morrer e se não for para o céu, quando chegar no inferno, se este for realmente quente como dizem, não vai sentir diferença alguma”.
Ríamos com essas suas comparações meio desatinadas que, no entanto, não tinham nenhuma tinta de galhofa. Eram apenas irrupções de sua veia humorística, pois ele era daqueles que podiam perder até um amigo, mas nunca perdia a chance de provocar risos.
        Se eu ria das brincadeiras de papai, com as histórias do Exímio (chamo-o assim porque nunca soube seu nome ou porque faz tanto tempo que não me recordo mais), eu ficava alumbrado, como se fosse um dos personagens das Mil e uma Noites ou estivesse perdido num daqueles mundos de uma história sem fim. Eram muitas as histórias. Reis, fadas, monstros, mares bravios, índios, povos de países distantes faziam parte de um cenário que hoje se encontra esgarçado pelo tempo e do qual só restam fragmentos em minhas retinas fatigas.
Antes de contar-me qualquer história, o Exímio sempre perguntava se ele já havia contado a da cachoeira do espelho. Quando não havia ninguém perto que afirmava que sim, eu mentia e balançava negativamente a cabeça. Embora já tivesse ouvido essa história muitas vezes, eu sabia que contá-la propiciava uma grande alegria para aquele velho mago que conseguia extrair das palavras o que elas tinham de mais encantador e, assim, me enredar em tramas mais inverossímeis possíveis. A cada história que contava ou recontava, ele se tornava mais moço, alegre, seu fôlego aumentava, enfim, narrando-as ele remoçava-se. Era como se por meio daquelas histórias, em especial a da cachoeira do espelho, ele pudesse reatar as pontas de sua vida, unir os laços soltos e ter certeza de que os nós dados estavam firmes, frouxos ou até mesmo precisavam ser cortados, como fizera Alexandre, o grande.
        Neste caso, narrar era viver e, se ele não contasse tais histórias, poderia morrer. Elas eram, então, como aquela dose de remédio que um paciente em estado terminal precisa administrar não para que a morte não chegue, mas para que a sua chegada seja adiada por mais um dia, se torne, embora inevitável, mais distante e, assim, nos dê tempo para arrumar a mesa, a casa, enfim, deixar tudo pronto para podermos partir quando o expresso do iniludível chegar à plataforma.
        O Exímio dizia ser descendente de uma família de nobres dentre os quais havia um que fora alquimista e possuía um belo espelho. Este passou de geração a geração até ser entregue a ele por seu pai. Este espelho possuía uma moldura dourada, diziam que era toda de ouro, e era de um azul que reluzia como cristal. O Exímio, que o guardava em segredo, disse, uma vez, que esse azul era reflexo das águas de uma cachoeira existente no espelho, as quais nunca paravam de se movimentar. Eu não acreditava nessa história, achava que aquilo era invenção dele, mas sempre ficava atento quando ele com sua voz rouca e cansada falava meio que arfante:
        – Ao fechar os olhos, por um segundo, sentia uma brisa leve e suave em torno do meu corpo. Eram zéfiro e eólios que vinham me dar permissão para que eu pudesse iniciar a passagem. E, num instante, eu já havia atravessado o espelho e estava mergulhando nas águas cristalinas da cachoeira. Eu podia, depois do banho, correr pelas enormes colinas verdes que nem Atalanta ou Ártemis me pegariam. Gostava também de provar as belas frutas que havia naquelas campinas. Eram tão deliciosas quanto a fruta que Eva provou, tanto que Deus, se tivesse provado uma delas, não teria expulso Adão e Eva do paraíso. Ali, eu me tornava uma criança que se sente segura nos braços da mãe. Lá, Gaya me afagava com todo o seu amor enquanto Cronos dormia esquecido de nós, mas, quando ele se acordava, era preciso que eu voltasse para aqui onde estamos. E assim, eu retornava com o coração de quem arruma o quarto de um filho que já morreu. Mas trazia em mim a esperança dos namorados que juraram se reencontrar e, assim, eu voltava feliz.
        – Augusto, venha para casa, já está na hora de dormir. Amanhã é segunda, você tem aula. Papai gritava e eu era obrigado, como era o Exímio por Cronos, a voltar à realidade. Despedia-me dele e ia, à revelia, para casa. Afinal, estávamos no final do ano e eu não podia ser reprovado para que pudesse passar as férias na casa de uns parentes de mamãe no Recife. Sentiria saudades das histórias do Exímio, mas era apenas um mês sem vê-lo. Logo, logo, estaria de volta e poderíamos sentar no alpendre de sua casa e rirmos, purgarmos nossas emoções com aquelas histórias. Isso pensava eu, não com essas mesmas palavras, enquanto, já de pijama, ia para o meu quarto.
        O mês de férias, como já imaginara, passou tão rápido que logo eu estava de volta à casa de meus pais. Quando cheguei, notei que, em vez de alegria, pairava uma sombra de tristeza sobre o rosto deles. Papai pegou na minha mão, fez algumas perguntas evasivas sobre como foram as minhas férias enquanto mamãe perguntava pela saúde de tia Maria. Estranhei aquele comportamento e eles perceberam. Papai pediu que eu sentasse e foi me dizendo que eu não ficasse triste, mas o meu velho amigo contador de histórias havia morrido na noite anterior. Uma das nossas empregadas fora levar um pedaço de bolo de fuba que mamãe fizera e o encontrara caído no chão ao lado de um espelho todo espedaçado. De manhã bem cedo, apareceram algumas pessoas, papai nem mamãe souberam me explicar quem eram ou de onde vieram, dizendo que eram parentes do morto para fazerem o enterro:
        – Mentira!!!!!!!!!, sai gritando, ele não tinha família. Sua família eram as suas histórias e a sua alegria eram os meus ouvidos desatentos. Corri para a casa de meu amigo e lá onde ele fora encontrado morto não havia nem um pedaço do espelho, apenas um pequeno olho d’água. Fixei bem o olhar e pude perceber que a água que minava da sala ia, pouco a pouco, sumindo. Parei de chorar e compreendi que aquele era o seu último adeus para mim.

“LOVE THAT DARE NOT SPEAK IT’S NAME”

Para Israel (ou Samuel) Bilro




        Chovia e ele estava sem sono. Levantou-se da cama e foi para a cozinha preparar um bom chá que pudesse esquentar-lhe a alma e preparar o corpo para sucumbir aos encantos de Morfeu. Sabia, no entanto, que apenas o chá seria insuficiente. Por isso, resolveu ir à biblioteca que ocupava um dos maiores vãos de sua casa. Ali, realizara seu sonho de criança: ter para si o que de melhor havia sido escrito em prosa e verso. Cada livro, adquirido com o gosto que deve sentir uma criança que espera o outro dia para ver o que Papai Noel havia deixado na velha e surrada meia, era uma pedaço do filho que nunca tivera. Alguns daqueles livros, já lera mais de uma vez; outros estavam ali porque eram exemplares raros, não podiam faltar em uma boa biblioteca.
        Qual livro escolher, enquanto Morfeu estava preocupado em buscar Eurídice e, por isso, hoje, especialmente hoje, se atrasaria? Poderia escolher um de poesias. Gostava tanto de Bandeira, Cabral, Espanca, Pessoa. Ah, como se emocionara ao ler a história de Maria das águas! Meu querido Lúcio Lins, partiste; mas nos deixaste suaves, embora às vezes torrenciais, palavras em versos líquidos, cálice para quem quer um antídoto para a angústia de existir. Sentia uma inexplicável atração por aquele poema. Talvez porque lhe trouxesse lembranças de sua terra. Talvez porque falasse um pouco de si. Quando a gente envelhece, cada taça de vinho traz em si uma cereja de nostalgia. Sem se decidir, resolveu contemplar todos aqueles exemplares. Toda a sua vida fora devotada a eles que eram bem mais do simples livros. Eram um pedaço de si, de sua história. Sorveu mais um pouco do chá e olhou em direção a um dos poucos armários. Há muito tempo que não reparava no que ele continha. Sentiu uma vontade de abrir e, como uma criança que se diverte com a sua caixa de brinquedos, resolveu brincar com aqueles livros que estavam guardados naquele armário e que, se não me engano, eram do tempo da faculdade.
        Ah, tempo bom marcado pela euforia de ter passado no primeiro vestibular e deparar-se com um mundo novo a sua frente! Que surpresa a sua ao ver ainda guardadas velhas xérox de textos ainda da faculdade. È tão difícil desfazer-se de coisas velhas, de velhos trastes. Continuou vasculhando aquele monte de papel que Clara, a sua velha empregada, havia tão bem arrumado no armário. Entre uma folha e outra, entre uma pasta e outra, deparou-se com um envelope amarelo. Abriu-o, era um livro. A princípio, não sabia por que aquele livro estava ali. Mas ao ver uma foto rota foi, aos poucos, se lembrando. Enquanto folheava as memórias de Adriano, o livro guardado no velho envelope amarelo, eram as suas próprias memórias que vinham sendo passadas página por página, letra por letra.
        Conheceram-se de forma inusitada. Mesma idade, mesmo curso. Embora fossem de signos diferentes, leão e sagitário, eram ligados pelo mesmo elemento: fogo. Além disso, uma outra paixão os unia: a literatura. Adoravam Clarice. Essa paixão os levara a combinar se conhecer e passar a ler textos dela. Até então, entre si havia apenas palavras trocadas na frente do computador, e-mails enviados ou conversas efêmeras pelo messenger. A sugestão foi acatada, e se encontrariam na própria universidade.
        Então, ele vivera a esperança de um só dia poderem se encontrar. A partir daí, era constante a ansiedade por esse dia. Na frente do computador, esperava uma nova mensagem, um simples recado por menor que fosse, mas que dissesse: “Pronto, amanhã ou tal dia, nos encontraremos e leremos esse texto de Clarice”. Ele mesmo já havia pensado em alguns contos. Que tal começar por Onde estiveste ontem de noite? Ou então, Amor? Esse não, seria melhor O búfalo. Enquanto pensava nos contos, em como seriam os encontros, aguardava a resposta. Esta demorava a vir; não adiantava olhar o e-mail. No menssenger, só aparecia off-line.
        Então, encheu-se de coragem. Foi à universidade. Quem sabe, por acaso, e o acaso sempre urde os fios do destino (ou os corta de vez?), não o encontraria lá? Mas o que iria dizer? Mesmo assim foi, esperou um pouco, vagou pelos corredores e nada. Era melhor mesmo estar em casa, na frente do computador. Este oráculo de fios e sem pitonisa alguma. Talvez, tivesse aparecido e deixado algum recado. E assim, na esperança de um só dia, voltou para casa. Mas não havia recado, tampouco mensagem alguma. Apenas o sinal de off-line. Nem ao menos um ocupado ou volto logo que lhe pudesse alimentar a esperança de um retorno breve, a mesma que alimentou Penélope a tecer e destecer enquanto o seu Ulisses resistia aos encantos de belas nereidas.
        Paciência, Frederico, paciência. Se ainda não apareceu é porque deve estar ocupado. Afinal, é final de semestre. Ou você pensa que todo mundo é igual a você, que se devota aos livros, aos trabalhos, que se esquece de viver para só estudar? Mas não pôde agüentar; então, deixou um recado. E aí aumentou mais a sua ansiedade. Será que leu o meu recado? Se leu, por que não o respondeu ainda? E assim, na esperança de só mais um dia, continuava acessando o seu e-mail, conectando-se no messenger. E nada.
        Entre eles, perdurara um silêncio que só a poucos é dado significar. Sem querer compreender isso, ele, no entanto, teve de entregar-se. Afinal, pertenciam ambos, cada um a seu modo, a uma legião estrangeira. E, por isso, preferiram, sem dizer uma só palavra, manterem-se à distância. Durante alguns dias, ainda alimentou a esperança de um só dia; mas, passados outros tantos dias, aquela esperança de um só dia precisou de meses e anos. Desse tempo, marcado por esperança que se vestia de frustração, restara apenas aquela foto que guardara naquele livro que lhe era muito especial. Afinal, estava lendo-o quando se conheceram. Depois de muito tempo, entre uma espera e uma esperança de um dia só, um dia, se encontrarem, compreendeu que ele estava tentando achar a maçã no escuro para ver se conseguia tocar no lustre e, assim, pensar, ou se iludir na esperança de que chegou à descoberta do mundo sem ter de passar por uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, antes que chegasse a hora da estrela. 
        Como lembrança desse caminho das pedras, restara apenas aquela foto, marco de um mapa que levava a algum tesouro que ele desconhecia, mas que, ainda, depois de tantos anos, ansiava por encontrar, na esperança de que, assim, pudesse provar um pouco do cálice da água viva. E assim, perdido em pensamentos, ele nem se apercebera que o dia já havia começado a raiar, e ele nem dormira. Não havia problema, perdera o sonho, mas sentira que chegara bem perto do coração selvagem da vida. Guardou o livro no armário, fechou a porta da biblioteca, enquanto lhe vinham à mente os versos de Drummond: as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficam.

A PARTIDA

Para Carla Apryl



        Eram doze e meia da tarde, Miguel colocava as mãos no bolso. Sabia que havia posto as chaves em um deles. Só não se lembrava em qual. Após alguns minutos nesta pequena odisséia, ele achou as pequenas chaves e com mais dificuldade conseguiu abrir a porta da casa 30 da rua 15.
Miguel, depois que cheguei em casa, esperei que a noite passasse logo, mas ela persistia em durar, em me atormentar. Fui ao nosso quarto e me deitei na cama, pensando que tudo tinha sido um pesadelo. E, cada vez que pensava, o meu tormento crescia mais. Os objetos giravam, riam de mim, de nós. Eu fiquei me perguntando: Onde foram parar os planos que fizemos quando jovens? O que você havia feito de mim, de meus sonhos? As lembranças (só agora me lembro que tivemos mais momentos tristes do que de felicidades) impediam a chegada do sono.
        Ele morava numa rua tranqüila, cidadezinha um pouco interiorana cujo único meio de transporte para os que não possuíam veículo próprio era o velho trem que, cotidianamente, cortava a vida dos moradores. Logo que entrou em casa, Miguel procurou fechar a porta com cautela, girando, cuidadosamente, a maçaneta. Não queria acordar a esposa que, certamente, ainda estaria dormindo, pois deveria ter se cansado de esperá-lo a noite toda. Sabia que ela não tinha vocação para Penélope, nem fiar sabia, mas tinha uma paciência igual ou superior à da esposa do velho Ulisses.
        Passei toda a noite acordada. Já é de manhã (tenho certeza de que você só chegará após o meio-dia), tomei um pouco de café (se você quiser também há café na garrafa e deve estar quente; a marca da garrafa – lembra-se, foi presente de aniversário – é boa; esquenta café até por dois dias), arrumei as malas. Só agora descobri que dentro de mim existe uma outra mulher, ou melhor, ela sempre existiu, mas você a fez com que ela adormecesse. Essa nova mulher é diferente. Sinto-me até melhor. Acho que você ficou junto com o resto de lágrimas que encharcaram o meu travesseiro. Essa nova mulher não é mais aquela que chora; mas a que sente falta de um aperto de mão, uma palavra que entre no ouvido com a suavidade de uma boa música; uma carícia simplesmente. Existe, aqui, em mim uma outra, aquela que tem gana de sentir desejo e andava adormecida dentro desta que fingia sentir prazer quando possuída por você.
        Era bom mesmo que ela estivesse dormindo. Ele precisava de um tempo para pensar em como pedir-lhe desculpas pelo vexame do dia anterior. Era um domingo, os amigos reunidos. Não queria nem se lembrar! Sempre que ingeria álcool além do que podia, perdia a noção das coisas. Miguel, diante de um copo, se metamorfoseava.
        Fui mulher silenciosa. Silenciosamente mulher. E você? Foi quem ou o quê? Acho que você foi a sombra que se apossou deste corpo e de minha alma, submetendo-os aos seus caprichos, vontades e desejos. Não sei como nem por que aceitei viver neste mundo que você criou à sua imagem e semelhança e dentro do qual eu tive de me sacrificar para ser modelada, moldada, imolada por você. Agora, percebo que o que construímos se dissipava a cada dia, como a bruma a cada manhã. Precisava me libertar, desejo ser livre. Estive muito tempo pressa a você. Fui ave canora cujas asas você cortou antes de eu ter explorado e conhecido o céu. Sinto o canto da liberdade e estou hipnotizada por ele e para ele me dirijo.
        Preferiu ir à cozinha depois subiria para o quarto ou dormiria na sala mesmo, como fazia sempre que bebia além da conta. Sentia a garganta seca, precisava tomar um pouco de água bem gelada. Apesar de ser quase uma hora da tarde, estava tudo escuro. As janelas fechadas impediam a entrada dos raios do sol. Acendeu a luz e foi direto para a geladeira. Quando ia abrir a porta, percebeu que havia um envelope, e a letra era a de sua esposa. Será que ela havia escrito que resolvera passar um tempo na casa dos pais? Ou teria ido à casa de alguma amiga e, talvez, não desse tempo de voltar hoje? Preferiu, então, ler logo a carta. Se fosse o que havia pensado, melhor. Teria mais tempo para pensar num novo, entre tantos, pedidos de desculpas. Começou a desdobrar o papel e principiou a ler. Os seus olhos corriam por cada letra, mas em seu pensamento era a voz de sua esposa que reverberava. Naquele momento, significante e significado eram um só:
        Quando pegar esta carta, já estarei longe. Ao término da leitura, o trem deverá já ter partido, levando consigo o que resta de meu coração: cacos de um vitral. Partirei triste, mas feliz. Aprendi com você que amar é fazer parte de uma competição tendo já a certeza de que nunca, mesmo que se chegue em primeiro lugar, se ganhará o prêmio. Aprendi que, de agora em diante, quando eu for amar, deixarei o coração em casa. “Vou recomeçar, vou mudar de vez, vou tirar você da minha vida”. Obrigado pelas lições que me ensinou.
Um último abraço,
Carla.
        Assim que terminou de ler, Miguel partiu em direção à estação ferroviária, posto que soubesse já ser tarde. “Por que não fizera isso logo que sentiu a verdade daquelas palavras?” Procurou saber o itinerário do trem naquele dia, mas ela poderia ter descido em qualquer estação. O trem que levara Carla já havia partido e a mesma estação ele voltaria; mas ela não.
        – Desde esse dia nunca mais a vi. Procurei por ela, mas não a encontrei ou não procurei direito, ou minhas asas não voaram na mesma velocidade e direção que as dela. Ainda tenho guardadas junto a mim as suas últimas palavras. Guardo-as como quem recolheu as penas de um pássaro querido que, de repente, voou.
        De seus olhos, pude ver uma lágrima cair e ainda me lembro de suas últimas palavras:
        – É triste achar-se perdido num porto cuja única companhia são as ondas que batem, constantemente, nas encostas da solidão e, como o corvo de Poe, vivem eternamente a repetir: nunca mais, nunca mais.