terça-feira, 16 de março de 2010

AO HOMEM QUE EU QUIS

Para Tibúrcio Valério de Azevedo, ou, simplesmente, Tinho;

Para Eduardo Manoel de Brito (in memorian), que estava deixando para trás o que precisava ficar para trás.



     Assim como sua avó, sua mãe e suas tias, todas largadas por seus homens, ele, embora não tivesse nascido mulher, havia trazido consigo aquela sina que fizera das mulheres de sua família imaculadas medéias. Ao ver o bilhete deixado no criado-mudo, tivera a certeza de que não havia se desvencilhado daquela singular desdita amorosa que marcara, uma por uma, as mulheres de sua família. O papel trazia um único período (Fui embora e não volto mais, adeus) e ainda recendia ao cheiro amadeirado do perfume que o Outro tanto gostava de usar, que, inúmeras vezes, deixou impregnado em suas carnes e que lhe servira de consolo, quando a saudade vinha só lhe mortificar o peito.
     Olhara novamente o bilhete, a letra miúda, bem desenhada assim como também o era o corpo do seu senhor que cheirava à juventude. Branco, cabelos escuros, olhos castanhos, sorriso maroto, olhar sedutor de cafajeste. Não houve jeito, desde o primeiro olhar, sentira-se fisgado. Aquele garoto apresentara-se diante dele como o seu veneno e o seu remédio, e ele se lhe entregou como quem se entrega ao seu carrasco. Durante meses, ele conheceu, uma por uma, as curvas daquele corpo, as suas reentrâncias mais recônditas, as suas fendas mais íntimas, enquanto o Outro lhe sorvera a tristeza, a solidão, fazendo-o, naquela idade, redescobrir a alegria de estar vivo, de, novamente, ser, ao mesmo tempo, sujeito desejante e objeto de desejo.
      Amassou o bilhete, mas não o jogou fora. Deixou-o no criado mudo e, agora, também surdo: queria ter, ao menos, aquela última lembrança daquele que, assim como os outros, entrara em sua vida sem muito explicar, mas que, ao contrário, se apossou, sorrateiramente, dela como um velho posseiro. Desarmado, ele não teve outra saída senão entregar-se perdidamente. Sentou-se na cama, passou a mão pelo colchão como se cada vinco dele fosse os do corpo do Outro. Não mais poder tocar aquelas carnes rígidas e suaves, cheirando a guardado, não mais sentir-lhe o gosto, não mais poder morder-lhe os mamilos, sussurrar-lhe palavras ao ouvido ou sorver-lhe o grito antes do gozo... Tudo, agora, era mediado por aquele atroz não mais.
      Lembrou-se de quando o conhecera. Era seu aluno. Desde o primeiro dia de aula, sentira-se atraído por aquele jovem calado, recém chegado à universidade. A princípio, quis esconder, como sempre fazia, os seus sentimentos. Cidade interiorana, não queria dar o que falar. Professor ter caso com um aluno renderia muita conversa para aqueles que viam na vida alheia uma forma singular de distração. Percebeu, no entanto, ser correspondido. Entre uma aula e outra, o desejo aumentava. Nas aulas de literatura, parecia que os poemas lidos, os contos ou os romances escolhidos eram cúmplices na concretização daquele desejo gestado entre interditos. Ao término do semestre, ao corrigir a avaliação final, leu uma pequena frase: “Você pode me ligar”. Deixou de lado a caneta e ficou pensativo. Pegou o telefone e, pausadamente, discou cada um dos algarismos como quem joga na certeza de que aqueles eram, de fato, os números da sorte. A voz do outro lado atendeu ao som de um estridente alô. Não precisou identificar-se, o Outro lhe reconheceu. Dali para frente, desde o primeiro, todos os outros encontros eram contados como se fossem anos. Queriam prolongar cada minuto, cada segundo em que estavam juntos. Procuravam viver, em cada vão momento, as delícias que seus corpos sentiam um pelo outro.
      E, agora, de tudo o que vivera, restavam-lhe, apenas, aquelas letras naquele papel amassado. Ao pensar nisso, a sua primeira reação foi chorar, mas as lágrimas não sairiam. Aprendera a sofrer a sua dor resignadamente, principalmente porque chegara a uma idade em que se acostumara ao abandono. Não mais vivia agosto esperando setembros. Aprendera a recomeçar sempre depois de vários abrius despedaçados. Apesar disso, o peito ainda lhe doía a cada nova despedida. Sabia que a relação deles, da maneira repentina que começara, caminhava para acabar. Intuía sempre que cada encontro deixava, sem que pudessem perceber, uma nota silente que, pouco a pouco, ia compondo a sinfonia do adeus a ser ouvida na partida que se fazia, amiúde, iminente.
     Ele começara a perceber que o Outro estava cansando de seus beijos, de seus abraços, de seus amassos, de seu corpo onde não apenas ficaram as marcas de seus dentes, de seus abraços fortes. O Outro não o procurava mais com tanta freqüência. Ele é que tinha de mendigar carinhos, carícias, afetos. O telefone, quando não desligado, estava sempre fora de área. O Outro havia, certamente, descoberto novas rotas ou sentia a necessidade de percorrer outras geografias. E, assim, começara a ferir a ele da maneira mais sutil e dolorosa possível, de forma que, mesmo podendo vir a cicatrizar, a ferida do abandono doía, latejava, sangrava, arranhava qual grão de areia nos olhos. O Outro soubera pisar no seu coração. O amor que o Outro lhe dera já viera, desde o primeiro beijo, com o gosto de adeus. Restava a ele apenas esquecer aquela paixão. “O passado deve servir de alimento apenas para si mesmo. Amanhã será outro dia”, pensou consigo. Enxugou as lágrimas, ajeitou-se na cama e tentou consolar-se, dormindo, ao som de The Blower's Daughter, enquanto o lado direito de sua cama, mais uma vez, voltava a sua serena espera por um novo alguém.

SOUFFRIR

Para Francisco Victor Macedo Pereira

      Ensinava e, por ter lido emoções e dores humanas nos muitos livros a cuja leitura se devotara, não percebera que sua vida fora toda tecida a partir de velhos clichês. A vida, com seus altos e baixos, alegrias e tristezas, tinha-lhe vindo mais como personagem desses livros, nunca como experiência, de fato, vivida. De tudo o que vivera, eram verdadeiras apenas as dores que sentira, por saber-se só e triste, e a angústia de existir sob cujo signo nascera e que, como um verme à espreita, roia-lhe não mais o corpo, mas a alma. Tudo o mais tinha sido fantasia sua.
      Inventário de ilusões era o que construíra antes de conhecê-lo. Até então, ensinara-se a viver só para si. Era a sua forma de se defender do mundo e de si mesmo. Nesse lidar com aquilo que lhe era desconhecido, tornara-se um narrador, ensimesmado, de histórias sem enredo definido, embora com vários esboços tecidos. Nunca chegara a um desfecho definitivo. Como um palimpsesto, a sua vida era, na superfície, a sobreposição de riscos, ranhuras, rasuras e tentativas de recomeço a encobrir, na parte mais profunda, medos, receios, dores, solidão.
       Seu calcanhar de Aquiles, as emoções turvavam-lhe os sentidos. Expunham-no: ele, que sempre procurou ser invisível nesse mundo de seres bastante visíveis. Diante delas, sentia-se descentrado. A sua velha máscara de seriedade, que já começava a dar sinais de flacidez, caía e punha-o diante de si mesmo. Espelho contra espelho. Ele era obrigado a ver que, do outro lado dos muitos espelhos que construíra em si, havia empurrado, para o sótão de sua alma, toda forma de afeto. Preferiu, na empresa vã de evitar sentir a dor de existir, retesar o comboio de cordas em seu coração. Até tê-lo visto, sempre à-vontade na vida, e o seu coração, à sua revelia, contrariando as normas impostas, resolver sair dos trilhos. “A paixão veio assim, afluente sem fim, rio que não deságua”. Diante disso, ele, sempre retraído, não tendo outra saída, resolveu arriscar-se. “Bobeira é não viver a realidade”. Puro de tudo, sem saber ao certo o que fazer, embevecido, ele rumou em direção a esse singelo canto de sirena que, pela primeira vez, tocara em seu peito.
        Como um caçador, o Outro andava à espreita, pondo a sua pele à prova das línguas sequiosas. Ele, que sequer sabia ser caça, sentia-se desajeitado na caça daquele que, como água, escorria-lhe entre os dedos. Inapto para a tarefa, ele não queria deixar escapar a sua presa, de quem estava se tornando prisioneiro. Por isso, ficara receoso. Viu que, inocente nesse jogo, seria levado a escolher o caminho da esquerda, embora soubesse, devido ao seu sempre alerta instinto de racionalização, que deveria ir pelo da direita. A razão dizia que era mais segura a cada travessia. As emoções o impeliam a viver em mise en abyme.
       Entre a razão e a sensibilidade, escolhera não por si, mas pelo Outro, a quem passara a devotar o seu afeto. Em seu nome, ele resolvera seguir pelo caminho dos ventos do leste. Era uma viagem necessária; o caminho, tortuoso; mas, pela primeira vez, percebia que era imperativa a necessidade da procura e, mais ainda, da entrega. E assim, pela primeira vez, pôde sentir aquela necessidade que ele, por mais que procurasse, não conseguia evitar. Sucumbia às exigências desse lado desconhecido de si. Descobrira que estava amando. Estava a sentir o que era sofrer de amar, o que era querer arrancar, do peito entorpecido, aquela dor que, prazerosamente, latejava, o que era ter dentro de si esse rio em fogo convertido.
       Ele, para quem amar sempre estivera em segundo plano, não sabia como aproximar-se. O que dizer? Como ter para si aquele por quem seu corpo clamava? Sabia apenas que o Outro o arrastava para junto de si e disso ele não podia escapar. Nem o queria, ansiava pela aproximação. Resolvera, então, jogar o siso. Trocar olhares, antes da entrega total. Os olhares se procuravam como espadas a tinirem uma contra a outra. O Outro, experiente, já havia percebido que era objeto de observação, de desejo. Não desviava os olhares, enquanto ele não conseguia fixar-lhe os seus por muito tempo, desviando-os a cada investida do olhar do Outro, que se comprazia nesse jogo em que, pouco a pouco, ia dando as cartas. Sedutor, sabia como inebriar. “No clarão do luar, espero”, sussurrou-lhe, oblíquo e dissimulado, o Outro, ao ouvido. Pronto, já tinham o encontro marcado. Embriagado, ele vivia na esperança desse só dia. Não precisava ser tão longa a vida, para tão curto, mas, naquele momento, intenso, amor. Queria, agora, apenas um momento, efêmero que fosse, que fizesse presente o que até então se lhe fizera sempre ausente.
       A esse sentimento que veio sem muita conversa, sem muito explicar, ele entregou-se perdidamente, como se um demônio tivesse lhe tirado de ordem, virando-lhe do avesso, fazendo esquecer dos ensinamentos recebidos: “com homem não deitarás, como se fosse mulher; é abominação”. Mas ele resolveu ouvir a voz que lhe dizia: “o meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor dele”. Por isso, amou daquela vez como se fosse a única. Deu-lhe seu corpo. Recebeu as carícias sempre negadas. Pela primeira vez, sentiu como era bom ter a pele fendida. A pele do Outro eriçou-se ao leve roçar de sua barba espessa. Provando essa pele branca e macia, a língua dele sentia um gosto de morango e chocolate. Pronunciou sons há muito silentes. Descobriu habilidades adormecidas em suas mãos que navegaram, naquele momento, por lugares nunca dantes navegados, apenas, antes, sonhados.
        Naquela noite, entregou-se sem nenhum pudor. Fulgurações. Naquela noite, as almas se calaram; os corpos, ternamente, se entenderam. Luminescências. Ele pôde, tal qual Adriano nas mãos de Antinoos, descobrir a delícia de ser o que é. Naquela noite, não se distinguiam caça e caçador. Eu e Outro se misturavam, entredevorando-se como uma serpente a morder a própria cauda. Bêbados de prazer, sentiam-se como adão e adão no paraíso a descobrirem cada vinco do rosto, cada detalhe e segredo do corpo. Sem culpas, buscavam-se, penetravam-se. Yin e Yang com o mesmo sexo, mas posições diferentes. Masculino e Masculino, arfantemente, se procuravam, buscando retardar o prelúdio da aurora. Eles sabiam que precisavam viver cada vão momento daquela noite. Amanhã seria um outro dia, e não tinham a certeza de se iam ou não se amar por toda a vida. Bastavam-lhes o aqui e o agora. Por isso, nada pediam em troca. “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta”. Apenas se davam, enquanto, antes do ponto final, ainda havia reticências, exclamações e poucas interrogações.
        Exangues, os corpos descasaram em meio àquele silêncio que só aos amantes é dado conhecer. Ele observava o Outro deitado na cama. Passou a mão em seus cabelos para sentir a maciez de seus fios. Alisou-lhe a barba rala, demorando-se na contemplação do rosto, alvo e comprido, do Outro, como se seu gesto pudesse reter a passagem das horas. Desceu um pouco mais a mão, demorando-se no peito com muitos pêlos lisos e escuros. Tocou-lhe os mamilos. O Outro, apenas, revirou-se. Ele foi, pouco a pouco, descendo mais a mão. Parou no sexo que, embora exausto, ainda estava em riste; mas voltou a mão para o rosto do Outro. Ficou parado, observando-lhe a boca. Depois, aproximou-se dela e, com gosto de adeus, beijou-a como se fosse a última. Levantou-se. Pegou as roupas espalhadas no quarto. Vestiu-se. Fechou a porta com cuidado para não acordá-lo. Desceu as escadas, pagou a conta e saiu.
         Olhando para trás, ele podia, embora o sol já despontasse, ver as luzes de néon a iluminar a fachada do motel, onde se lia: CLARÃO DO LUAR. Virou a cabeça e seguiu em frente. Sabia que, ao alumbramento sentido no princípio, já se iria anunciar, no fim, a dor da partida nem sempre pressentida. Sabia também que, antes mesmo de unidos, já estavam divididos. O Outro era de mil outros. “Perigoso amar; doloroso querer”. E ele, apesar dos ciúmes, ébrio de amor, pensou, ainda antes daquela noite, receando um adeus, antes mesmo do primeiro abraço, em aceitar dividi-lo com outros corpos, outros pêlos, outros beijos, no tapete, na cama, atrás da porta. Sabia que só assim, aos pedaços, ele poderia, talvez, ser seu.
       Embora o fervor continuasse, ele não se resignou, não maldisse a vida; mas não se conformou com receber as migalhas de um amor em mosaicos. Não, o seu amor não bastou. Ele descobrira que não servia para amar e que o Outro, motivo de sua paixão, só poderia servir-lhe de alimento, de peça envolvente nesse jogo em que, mais importante do que dizer que amava, foi sentir-se, pela primeira vez, apaixonado. Em não ter, mas, ainda que a vida seja curta, desejar. Essa mesma vida que, em tempo atrás lhe foi um cais de consolo e de afetos, se lhe apresentava, agora, como um porto de partidas e despedidas. E assim, levando consigo aquela sensação, ele preferiu partir, trazendo na lembrança, bem próximo ao coração, esse primeiro capítulo de sua mala educación sentimental.

A FUGA

Para Rosângela Melo

           O navio estava zarpando, embora fossem mudos os barulhos da partida. Aos poucos, o cais onde ela deixou a sua vida ia ficando, cada vez mais, invisível, distante. “O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio...”. Intuía que, de agora em diante, tudo seria diferente. Sabia que essa sua outra vida deveria ser esquecida, qual retrato esgarçado pela ação do tempo. Se pudesse, talvez, fizesse o caminho de volta a nado; mas não queria, não sabia nadar e preferia deixar-se ser guiada pelo navio. Ali, encontrara a segurança que não havia em terra, embora rumasse para o ignoto. Estava inebriada com aquela sensação de se sentir perdida. “Perder-se é um achar-se perigoso”, pensou. Arrepiou-se... ao tocar no navio. Era frio. Pôs a mão no peito, aliviou-se ao sentir o seu coração batendo.
            Ela, cuja vida fora sempre na vertical, podia vislumbrar na noite esvaecendo um horizonte que lhe apontava novas esperanças. Sentia-se feliz. Pela primeira vez, era ela que tinha escolhido o seu roteiro. Pela primeira vez, estava viajando sozinha. Havia deixado a casa, o marido, os filhos, as empregadas. Ela precisava daquela viagem que lhe provocaria uma desorganização profunda. Se sua mãe fosse viva, ela a chamaria de louca. “Como você pode largar tudo, viajar sozinha? Isso é um disparate”. “Estou à procura. Estou tentando entender”, responderia. “Mas procurando o que, tentando entender o quê?”, retrucaria a mãe morta. “Eu não sei, por isso estou partindo, dizendo adeus. Preciso saber. Apenas sei que não quero ficar com o que vivi até agora”, argumentaria ela entre confusa e desejosa de entregar-se ao que sequer lhe fora esboçado ainda.
            Sentia-se atraída pelo que lhe se afigurava como novo e que ela mesma não entendia. A sensação de permanecer perdida não lhe provocava medo, impulsionava para adiante, mesmo que esse adiante fosse a beira de um abismo. Sentir-se livre desse cenário e longe daqueles personagens era a seiva de que ela naquele momento precisava. Ela estava só, como sempre fora. Abandonada, perdida e feliz. Sentia-se perto do selvagem coração da vida. E isso era o bálsamo que lhe refrescava a alma.
As nuvens iam tornando-se menos carregadas à medida que iam sendo dissipadas pelos raios do sol que despontava mais à frente. Em breve chegaria ao porto. Ouviu o apito do navio que, ao contrário da partida, não era mais inaudível. Estridente, o barulho a assustou.
  – Que foi, querida? Não se espante. Coloquei o café no fogo, falou-lhe o esposo enquanto ajeitava o nó da gravata olhando-se no espelho. Hoje, você dormiu demais. Estou atrasado para o trabalho e não tomei meu café porque não há nada pronto. Veja se amanhã não dorme tanto, disse o marido beijando a testa da esposa, sem perceber que ela, com a ponta do lençol, enxugava uma lágrima que, em seu rosto, anunciava o seu destino de mulher. Ela revirou-se na cama, deu as costas ao marido e fechou os olhos. Não havia chegado ao porto. Estava ainda no cais. Sua viagem ainda teria de esperar.

PAI, UM CACETE

Para Marcelo Medeiros




        Se a senhora... Já deve saber o que aconteceu. Não se preocupe comigo. A senhora sabe que eu já aprendi a me virar. Desejo que de agora em diante possa viver mais feliz. Se é que, depois de tantos anos de sofrimento, a senhora ainda sabe o que é felicidade. Mas ainda há tempo para tentar arriscar-se. Pena que eu não poderei mais estar ao seu lado, mas sempre que puder escreverei. Claro que não posso enviar o endereço. Vai que uma de minhas cartas caia nas mãos ... Não se preocupem que eu não deixei rastros. Sei como me esquivar e não vão me pegar, a menos que eu me canse e queira me entregar. 
        Não me arrependo do que fiz. Não se espante! Queria poder lhe dizer a satisfação com que eu dei cabo dele. Era como se eu estivesse provando por algo há muito esperado. “O pai que não tive/ hoje ainda seria moço? /O que dele em mim sobrevive/ Guarda a forma de um esboço?”. Queria poupar-lhe dos detalhes, mas sinto uma necessidade de dizer como foi que fiz este que considero um ato heróico. Sei que desrespeitei um dos mandamentos divinos, mas não sou Jesus Cristo para apanhar e dar a outra face. “O pai que nunca vi/ Será que o encontro? /Severo, louco, fora de si/ ou apoiado em meu ombro?” Sou humano, e paciência tem limites. Não dava mais para agüentar tantas humilhações, além dos hematomas deixados em mim e na senhora. Nunca agradeci tanto por ter crescido rápido. “Do pai que não tive,/ dizem, herdei o rosto. /O que dele em mim vive/ é signo póstumo ou oposto?”. Meus braços que antes se uniam para protegerem o meu rosto dos afagos do cinto dele haviam se tornado fortes, e eu pude partir em posição de ataque e não ficar apenas na retaguarda, sem defesa. “O pai que desejei/ num colóquio abstrato/ respondeu-me: ‘Nada sei’/ Exilou-se em seu retrato”.
        Como lhe disse, queria poupar-lhe dos detalhes daquela noite, mas não consigo. Sim, era de noite. Aproveitei que a senhora tinha ido à igreja. Depois de tantos anos de sofrimento, humilhação, entendo por que a senhora foi buscar na igreja conforto para um corpo já cansado, marcado pelo tempo e pelas mãos dele. Aproveitei também que ele, como sempre, estava bêbado. Eu estava na sala, a televisão ligada, quando ele chegou gritando e batendo no portão. Espantei-me e fui depressa abrir. Ele vinha trazendo consigo aquele cheiro nauseabundo de cachaça que nos queimava as narinas. A voz dele, quase inaudível e que só emitia grunhidos, despertou-me um ódio há muito alimentado. Se pudesse, daria cabo dele ali mesmo. Acalmei-me e o segui. 
        Como sempre, ele seguiu para o fogão buscando comida. Sentou-se à mesa e, como um animal, começou a devorar o que havia colocado no prato. Não se preocupava se eu tinha deixado de comprar os passes escolares para poder comprar o que ele estava mais desperdiçando, ao espalhar a comida na mesa e derramá-la no chão, do que propriamente comendo. Ele também não queria saber quantas peças de roupa era preciso a senhora lavar para ele vir desfrutar daquela comida que ele dizia estar insossa ou com gosto de azedo. Ele não sabia agradecer, apenas exigir. Queria roupas limpas, lavadas, as brancas, com anil e imersas em goma, passadas a ferro sem um vinco sequer. Ainda queria mais, carne de sol e feijão verde todo domingo. Ele que nem sequer comprava um ovo para dentro de casa, mas devorava a comida que encontrava sobre o fogão, ainda que eu ou a senhora não tivéssemos comido. 
        Pois bem, aproveitei aquela noite e esperei que, depois de comer como Pantagruel, ele fosse dormir. Para apressar esse momento, fui à geladeira e peguei uma garrafa e perguntei-lhe se queria água. Ele bebeu e foi para o quarto. Esperei. Confesso que não estava nervoso, estava eu ansioso. Acho que se passou meia hora. Procurei certificar-me de que ele estava dormindo de verdade. Roncava como um porco. Pensei: “É agora”. Fui à cozinha, peguei a faca que estava em cima da pia e dirigi-me ao quarto. Não precisei abrir a porta porque ele a havia deixado aberta. 
        Aproximei-me da cama, olhei para ele e me lembrei do dia em que ele, bêbado, havia me encurralado no banheiro e, com a faca na minha garganta, olhou para mim e disse: “Fale alguma coisa pra mim sangrar você agora mesmo”. A senhora recorda-se desse dia em que nós somos obrigados a dormir fora de casa porque ele estava embriagado e havia nos expulsado? Por isso, naquela noite, observando-o dormir ali, impotente, senti o mesmo prazer que deveria ter sentido Perseu ao cortar a cabeça da Medusa. Aproximei-me, peguei-lhe nos cabelos, encostei, afavelmente, a faca no pescoço dele e, como um violinista, fui deslizando-a em seu pescoço enquanto sorria para ele: “Fale alguma coisa para eu cortar a sua garganta”.
– Pedro, acorda. Que foi? Você teve mais um pesadelo? Vamos, acorde.
– Não, não é nada. Foi apenas um sonho ruim que eu tive. Vá dormir que amanhã você precisa ir à escola, disse Pedro ao irmão que dormia no mesmo quarto, enquanto ele, suado, tentava dormir novamente. Realmente, aquilo não fora um pesadelo. Fora apenas um sonho ruim. Pesadelo era acordar amanhã e saber que ele continuava vivo, que estaria ali em carne e osso a ocupar o lugar do pai que ele nunca conhecera, de quem nunca precisara, mas que sempre lhe fizera falta.

PRESTAÇÃO DE CONTAS

Para Juan Monteiro




            Naquele dia, Marcel estava completando anos. Precisava registrar aquela data. Todo esse tempo já havia passado! E o que havia feito? De uns tempos para cá, essa pergunta se repetia com muito mais freqüência, embora a resposta fosse uma única: Nada. Não sabia se era coisa da idade, mas ele não conseguia lembrar-se de algo. Amores, talvez? Mas não os teve, apenas paixões frívolas, simples impulsos que procuravam agradar aos desejos da carne. Com o tempo, aprendera a ser o ponto de partida e de chegada de seus próprios desejos. O que fez da vida? O que ela havia feito dele?! Não sei. Talvez nada. E o nada tornara-se um de seus companheiros inseparáveis. Responder àquelas perguntas deixara de ser uma de suas preocupações. Restavam-lhe alguns... apenas um pouco lampejo de vida, último fragmento de uma existência marcada pela dor de existir. Cada dia, viver era uma certeza que se esvaia como a água por entre as mãos. Aproveitá-lo? Saberá? Talvez. Mas como, se não sai daquela cadeira? Há muito que se acha preso àquela madeira da qual a vida brotara para ser ceifada e se transformar naquela prisão de grades invisíveis.
            Sentia-se só. Apenas ele e as suas recordações. Era assim que naquele tempo ele se sentia e eu me sinto hoje. Ele e eu, dois lados de uma mesma existência, de um mesmo pilar de tédio que o levava até mim e que me levava até ele. Desculpem-me. Deixem-me primeiro dizer quem sou. Serei breve, afinal cheguei a um momento em que tudo se me afigura como breve. Sou apenas um velho que estava se lembrando do passado onde repousam, quase inertes, poucas lembranças embaçadas. Marcel, antes que vocês me perguntem, era um senhor que conheci quando jovem. Era agosto de mil novecentos e ... e... Desculpem-me mais uma vez, nunca consegui lembrar-me de datas e mais agora nessa idade. Deixemos de conversas, as datas não têm importância. Deixemo-las, e desde já peço desculpas, para meus amigos historiadores ou arqueólogos que precisam deixar as coisas registradas ou vivem em busca dos registros das coisas, ainda que isso lhe seja uma das mais inefáveis atividades. A mim, basta-me ter os registros do tempo escorrendo nas acentuadas vias de meu rosto que se estendem para outras partes de meu corpo, chegando a interditar algumas delas.
            Lembro-me de que naquela época eu tinha de sair e não tinha com quem deixar as chaves de casa. Mamãe saíra e, na pressa, não levara as chaves dela. Fui, então, ao apartamento do Marcel, perguntar-lhe se ele poderia ficar com as chaves e dá-las à minha mãe, quando ela voltasse. Ele atendeu-me bem, prontificou-se a entregar as chaves. Agradeci e pude perceber que seus olhos escondiam certo mistério. Pareciam olhos de santos roubados de igreja, relíquias perdidas na mão de um único colecionador. Sempre fui atraído por olhos. Furtivamente, eles guardam uma pequena diferença e escondem segredos que a nós não é dado conhecer. Tal qual esfinge, estão a todo tempo a sussurrar: decifrem-nos ou nós o devoramos.
            Voltei mais uma vez ao apartamento dele. Dessa vez, eu tinha sido convidado para um almoço. Ele estava aniversariando e cansara de comemorar aquela data sempre só. Mandara convidar mamãe e a mim. Mamãe não pôde ir, estava viajando. Desde que meu pai morrera, ela assumira os negócios da família. Vivia mais viajando do que em casa. Eu procurava entendê-la. Eu havia aceitado o convite do almoço muito mais em retribuição à gentileza que dias antes Marcel nos fizera. Seu apartamento era um dos maiores daquele prédio. Havia poucos móveis, mas muitos livros. Diante de meu espanto, ele foi dizendo que os livros eram o seu mundo, uma parte do universo se escondia em cada um deles. Pediu-me que se sentasse à mesa. Depois do almoço, por educação, resolvi ficar mais um pouco. Ele ofereceu-me café. Entre uma xícara e outra, fiquei sabendo que ele morava sozinho. Não chegara a se casar ou tivera filho algum. Fora professor. Mostrou-me algumas fotos. Em todas elas, ele demonstrava o mesmo semblante sério. Parecia não ser afeito a muita gente. Os poucos amigos que tinha ou morreram ou estavam senis demais. Marcel tinha a misantropia de um Policarpo, mas não os seus sonhos.
            Toda aquela seriedade escondia a profunda solidão da qual fora escravo por muito tempo. Ele confessou-me que havia nascido no tempo errado. Achava-se perdido nesse mundo. Um ser que não encontrou a conexão certa com a realidade de seu tempo. Estava velho e já era tarde demais para empreender alguma tentativa de mudança. Na sua idade, buscar recuperar o tempo perdido era muito arriscado, principalmente porque, disse-me, parecendo o Marquês de Maricá, que o tempo perdido não se recupera, apenas se lamenta. Passado tanto tempo, eu retifico a sua frase, dizendo que nunca é tarde demais para se lamentar...
            Da próxima vez, procurarei ver a vida através dos olhos de uma criança. Elas, realmente, conseguem enxergar o que para nós fica embaçado. Elas penetram na corrente da realidade e conseguem ir mais adiante. É uma pena que quando vão crescendo deixem que a sua alma seja acometida de miopia. Da próxima vez, procurarei viver mais. Tentarei aprender a viver como se estivesse aprendendo a andar de bicicleta. Sempre olhando para frente e pedalando. Na vida nunca olhei para frente. Vivi em função do deixei para trás.
            Não voltei mais a ver o Marcel. Tivemos de nos mudar de lá. Mamãe recebera uma proposta de trabalho em outra cidade. Tempos depois, eu recebi em casa uma encomenda pelos correios. Eram alguns livros que o Marcel havia deixado para mim e pedido que me entregassem quando ele morresse. Havia entre os livros uma pequena carta de despedida. Nela ele dizia que temos apenas uns falsos, mas verdadeiros, amigos, aos quais ele chamava livros. Foram eles que acompanharam o Marcel e me acompanharam também. Às vezes, afastaram de mim a solidão; outras vezes, deixaram-na tão mais próxima. Sempre acreditei que, enquanto estivesse lendo um livro, ele afastaria de mim a morte. Hoje acabei de ler mais um. Lá fora toca uma vaga música, a lua muda de fase. À meia noite, completo mais um ano. Estou só. Sempre fui só. Ela está chegando, posso ouvir seus passos. Lá fora o vento bate nos galhos secos da árvore. É OUTONO.

DESPEDIDA

Para Marlos Régis Araújo


        Olhou ao redor de si e viu que aumentara o maço de papéis amassados. Horas a fio escrevendo e não conseguira ainda terminar aquela carta. Findado o primeiro período, o segundo sumia de tal forma que ele ou se irritava e rasgava o papel; ou ficava dispondo palavras soltas que, logo depois, formavam um amontoado que era amassado e jogado fora. Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica. Escrever, riscar, amassar, essa era uma seqüência que ele já estava executando mecanicamente. Me dê uma abraço, venha me apertar, tô chegando (ou será indo de vez?). Poderia parar e dar por vencida a questão. Para que escrever aquela carta, pedindo desculpas, se o seu pedido, certamente, seria indeferido? Coisa que gosto é poder partir sem ter planos. Também não iria escrever sobre os seus erros. Temia que, à lembrança do que fizera, o Outro, de quem dependia o seu perdão, ressentisse-se e, reacendida a ferida da mágoa, recusasse-se a perdoar-lhe. Melhor ainda é poder voltar quando quero.
         Errara. Disso tinha certeza. Por isso, mesmo sendo perdoado, o perdão, para si, teria um modo carinhoso de inacabado, de malfeito, daquilo que desajeitadamente cai, antes mesmo de alçar o primeiro vôo. Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação. Agira como alguém que temia perder o objeto que lhe é mais caro, mas cujas ações, tal qual Édipo infeliz, o levavam em direção ao abismo, à perda, à dor de que em vão tentara fugir. Tem gente que vai pra nunca mais. Não tinha coragem de encarar mais o Outro. Olhos nos olhos o que mais posso lhe dizer? Tem gente que vem e quer voltar. Errei, sim; mas não manchei o seu nome. Sabia disso e se arrependia. Todo dia, agora, viver com a sua indiferença é aumentar o cálice da angústia que bebo toda noite. Mas você queria que eu agisse como? Cansei de viver à sombra de suas migalhas de afeto. Em meio a sobras, eu procurava uma amplidão. Tem gente que vai e quer ficar. Você havia me dito que era meu... . Eu, que sempre fui de poucas amizades, que fiz de mim o verso e o reverso de mim mesmo, acreditei. Tem gente que veio só olhar. 
        Mas, eis que de repente, não mais que de repente, uma sombra negra o envolveu: você tornou-se-me indiferente. Tem gente a sorrir e a chorar. E eu, não menos que de repente, pensei que havia aprendido com a sua indiferença, hóspede novo, embora não exclusivo, que entrou em minha alma e pôs em perigo a nossa amizade. E assim chegar e partir. Vesti o dominó e você conheceu-me logo por quem eu não era. São os dois lados da mesma viagem. Não desmenti. Perdi-me, Perdi-lhe. A hora do encontro é também despedida. Desde então, o amanhã se me apresenta como a única possibilidade de que tudo volte ao normal. É a vida desse meu lugar, é a vida. Eu queria poder pedir que não procurasse me entender, saber por que agi daquela maneira. Perdoa-me, faz-me companhia. Eu, embriagado de uma tristeza profunda, fui possuído por uma angústia que me corrói o corpo e a alma. Ajude-me, perdoando-me.
        Cansou-se mais uma vez, levantou-se da cadeira, afastou os papéis da mesa, deixando uns caírem no chão. Não conseguia entender por que ainda não tinha escrito aquela carta. Devia ser o som do rádio que estava a lhe atrapalhar a concentração. Seria melhor desligá-lo de vez. Assim, no silêncio da noite, ouvindo apenas o assovio do vento, talvez ele pudesse escrever aquilo por que tanto ansiava naquele momento e que se lhe apresentava como um décimo terceiro trabalho de Hércules, fadado, no entanto, ao insucesso. Por isso, não adiantava calar o rádio. 
        O problema era com ele mesmo que não conseguia soltar a sua voz, que não sabia como trazer para o branco do papel aquele sentimento retesado há certo tempo juntamente com outros também inauditos. Essa sensação de impotência diante da miríade de palavras que ele dispersara entre as muitas folhas que cobriam o piso do seu apartamento estava a lhe inquietar o espírito. Esse sentimento, espécie de áporo perfurando a terra sem achar escape, foi, palavra por palavra, risco por risco no bordado de cada papel a cobrir o chão, crescendo, de tal forma que de pronto desatou-se numa única frase, que ele anotou para enviar no dia seguinte pelos correios: “E o seu silêncio esgarçou a minha alma suave e leve como o roçar de uma navalha”.

O CHORO DE PROCNE

Para Nadilza Martins de Barros Moreira



        “Liberdade! Livre!”. Os gritos retumbavam no escuro da noite, enquanto outras vozes pediam que se fizesse silêncio. “Enfim livre!”. Eram palavras que zumbiam em sua cabeça, mas o som não a incomodava. Há tempos que sonhara com esse dia. A partir de agora, preferia esquecer tudo o que passara naquelas frias paredes, entre aqueles corpos exalando suor acre que lhe chegava a corroer as narinas. Não sabia como conseguira suportar aquilo tudo, mas de agora em diante precisaria de mais cautela. As portas não se abriram para ela. Foi preciso forçá-las. O ar da noite lhe revigorava os pulmões que já estavam se acostumando ao ar das paredes frias e mofadas daquela cela pequena, assim como o seu estômago já havia se acostumado à ração diária que lhes serviam e que tinha gosto de azedo. O mesmo gosto que estava impregnado na vida das outras companheiras suas.
        De repente, ouvem-se pios fortes. “Deve ser de alguma coruja”, sussurra uma voz meio ofegante. “Minha Nossa Senhora, valha-me Deus”, diz outra voz, assustada, fazendo o sinal da cruz. Os pios tornam-se mais intensos. “Corre, corre”, grita uma daquelas vozes, enquanto um estampido agudo rasga o negro véu da noite e atinge algo que como uma rosa rodopia no ar, como se fosse uma bailarina que errou o passo em dia de estréia, e cai manchando de vermelho, que escorre de suas pétalas, aquele chão escuro. “Atingimos uma, essa não foge mais”, vibra umas vozes mais fortes que se aproximam esgueirando-se pela não mais silenciosa noite que, arfante, vai cedendo lugar para o novo dia.
        Era um dia de domingo. Ela saiu do quarto e foi até a sala. Verificou se estava tudo trancado. Olhou para a estante e viu a foto da família. Se seu pai estivesse aqui ainda, sua irmã não precisaria ter passado por aquilo. Amanhã, limparia a estante. Era preciso tirar as teias de aranha que iam formando uma espessa camada que escondia o rosto de seu pai. Foi à cozinha e certificou-se se a porta estava aberta, conforme havia combinado. Sua mãe saíra para igreja. Sua irmã também fora. De uns tempos para cá, ela precisava encontrar conforto para a sua alma.
        Hoje seria o dia ideal para tornar concreto aquilo que fora posto em suspenso. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa. Partiu um pedaço do bolo de milho, adoçou um pouco de café. Iria lavar o copo, quando olhou para o relógio que estava em cima da geladeira. Faltavam poucos minutos. Apressou-se. Não podia estar na cozinha. Voltou ao quarto. Colocou um pouco de perfume, mas sabia que ele não poderia impedir que exalasse aquele odor que lhe vinha da alma. Passou a mão por sobre a cama. Apalpou o travesseiro. Estava ali tudo aquilo de que ela precisava para aquela noite. Apagou a luz e foi deitar-se. Agora era só esperar mais um pouco. Já sabia o que iria fazer e não sentia nenhum remorso. Era hoje.
        A porta da cozinha soltou um som de instrumento desafinado. Passos seguiam pelo corredor. A maçaneta da porta do seu quarto girou: “– Deixe a luz apagada”, pediu ela com a voz meio embargada. O vulto foi se aproximando da cama. Apesar de escuro, ela podia perceber o sorriso de satisfação em seu rosto. O mesmo que seduzira sua irmã. Ele avançou para a cama igual animal a dar o bote em sua presa. Vinha sedento. Sentiu o peso do seu corpo em cima do dela.
        Com a mão esquerda, afastou-o para o outro lado da cama enquanto a mão direita, habilidosa, pegava, embaixo do seu travesseiro, um objeto que, iluminando a escuridão daquele quarto, era cravado no peito daquele que roubara a alegria de sua irmã. Sentada em cima dele, ela forçou mais um pouco a faca. Lembrou-se do dia em que sua irmã havia chegado com as roupas rasgadas e, em prantos, lhe contara o que ele fizera a ela. De seus olhos, corriam algumas lágrimas. Suas mãos estavam sujas, mas sua alma lavada. A honra da família havia sido restaurada. Agora, qual pássaro que, capturado, sabe que vai para uma gaiola, ela podia entregar-se.