terça-feira, 16 de março de 2010

FELIZ ANIVERSÁRIO

Para Maria Alcione Vieira Diniz



        Faltavam poucos minutos para o encerramento do expediente. Daqui a pouco, o ônibus estaria passando como todo dia. Mas, hoje, não sabia por quê, ela não estava com pressa para chegar à sua casa. Sim, havia a sua filha, que deveria estar saindo da escola também daqui a pouco. Olhou absorta para o relógio, mas parece que o tempo havia, por um instante, retesado os ponteiros. “Mas ela já é quase uma mocinha (Ah, meu Deus! Que ela não passe por minhas agonias) e pode voltar sozinha pra casa; o ônibus pára perto.” Sua mãe não estava com vontade de chegar na hora certa em casa, como fazia todos os dias. Desde a manhã, sentira uma dor aguda que lhe sufocava. Pensou que fosse a pressão que estivesse alta, mas a dor era mais angustiante e ela não sabia a causa.
        Hoje, talvez, pela primeira vez, ela desejou que o seu expediente se prolongasse mais um pouco. Não. Ela queria mesmo que o tempo parasse (havia esquecido que, como disse o poeta, o tempo não pára, não pára não) e apenas ela tivesse consciência disso. Mas se o expediente demorasse mais um pouco, só hoje, apenas hoje, ela se daria por satisfeita. Apesar de não gostar daquele ambiente, ali, pelo menos (e parece que a sua vida era tecida sempre de pelo menos), mantinha a mente ocupada e o coração distraído. Entre um papel e outro, nem percebia que o tempo passava.
        E assim, como a sua vida, o tempo esgarçava-se dia a dia. Mas, só hoje, ela não sabia por quê, a consciência desse fluir ininterrupto do tempo (e de sua vida) estava lhe causando aquela sensação que tinha gosto de morangos mofados. Talvez, por isso, ela quisesse chegar mais tarde à sua casa. Ligaria para lá e pediria à filha que comesse o que quisesse. “Na geladeira, deve haver algum pedaço de queijo e um resto de doce. Essa mistura tinha um gosto de infância”. Ficou triste porque lembrara que a sua infância não havia sido tão doce, pois ela tivera sempre o gosto acre de um limão. Azeda a infância; amarga a vida. Não adiantava ficar ali pensando no que ela nunca faria. Sempre dera meia volta diante de situações que, por mais banais que fossem, estavam a lhe exigir uma ação mais enérgica. Recuava sempre à primeira tentativa de mudança.
        Ela mesma sabia que daqui a poucos minutos pegaria a sua bolsa e correria para o ponto do ônibus. Precisava chegar a sua casa, fazer o jantar e esperar que a filha descansasse um pouco, contasse as novidades da escola e, depois, juntas, fossem resolver os exercícios passados pela professora: “Quem me dera que só hoje não houvesse aqueles exercícios”, pensou ela enquanto, ao mesmo tempo, percebia que hoje, apesar daquela dor aguda que lhe apertara o peito e que lhe fizera companhia até aquele momento, ela não havia se trancado no banheiro e chorado. Sentia-se angustiada, mas sem vontade de chorar. “Quem sabe não seria hoje o tão esperado dia em que receberia a mais que esperada graça?” Tinha muita fé, e a demora da graça pedida a angustiava mais ainda: “Deus pode não querer me ouvir ou deve estar ocupado com pedidos mais urgentes”. Mas, justamente hoje, não era isso que a deixara daquele jeito. Sentia-se agudamente diferente.
        Apesar da aparente alegria, viver, especialmente hoje, estava sendo mais asfixiante. Por isso, o desejo de não chegar cedo em casa, embora não soubesse para onde ir. Parecia que os meridianos e paralelos que davam norte à sua vida haviam desaparecido e só lhe sobrara uma folha em branco sem vestígio de direção alguma. Talvez, fosse à casa de alguma amiga; mas não! Não se sentiria bem na casa de desconhecidos. Apesar de amigos, todos lhe eram desconhecidos. Nenhum deles a entendia, não sabia o quanto viver era angustiante para ela. Por isso, sentia-se incomodada. Se estivesse diante deles, especialmente hoje, iria falar dos mesmos problemas e ouvir os mesmos conselhos. Hoje, especialmente hoje, sentia que estava num caminho perigoso. Logo ela que tinha já traçado o mapa de sua existência, estabelecido longitudes e latitudes, ainda que não tivesse certeza do seu meridiano.
        Viver era perigoso, lera isso em algum livro. Acho que foi em Clarice. Como lhe era difícil ler Clarice! Achou que deveria ir à igreja, poderia melhorar aquela angústia que estava sentindo; mas ela ia sempre à igreja e todo dia pedia ao Senhor (Meu Deus, fazei com que as minhas orações não sejam em vão. Ouvi-me) aquele mesmo presente. Bem que poderia ter ficado casada. Por um instante se arrependeu de ter se separado: “Você é louca?! Era bom continuar casada mesmo, apanhando de seu marido e dormindo fora de casa todas às vezes em que ele aparecia bêbado. Disso, você também não sente falta, hein!?” O arrependimento logo se tornou em alívio quando o seu pensamento foi cortado pelas palavras de sua irmã.
        Mas, depois da separação, sua cama se tornara tão fria! Depois do divórcio, tornara-se tão difícil ... Ou isto já acontecia durante o seu casamento quando o seu corpo só sentia o peso do corpo do seu marido e recendia a álcool. Nunca um afago, um beijo caloroso ou uma pegada de jeito. Não, nunca pôde expressar seus desejos. Estes deveriam ser iguais aos seus choros: pequenos gemidos inaudíveis. Escondia-se. Guardara-se. Fora reprimida. Percebeu, então, o motivo daquela dor que a asfixiava desde a manhã: era o seu aniversário e ela estava só, profundissimamente só. Nesse momento, o ônibus havia parado, ela subiu, mas não sabia se hoje, especialmente hoje, desceria no mesmo ponto.

O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL

Para Diego Mentor de Andrade Galvão



        Saíra apressado de casa. Brigara com a filha. Como não pensara em um lugar qualquer onde pudesse passar o tempo e pensar um pouco sobre o que acontecera, havia resolvido ir até o parque. Lá refletiria melhor na vida e talvez resolvesse voltar a sua casa. Enquanto caminhava para aquele lugar onde, apesar de toda a poluição e do barulho de carros, a vida na cidade com todas as suas seduções ficava em suspenso; ele ia, no meio do caminho, sentindo saudade do tempo em que era jovem, mas o que lhe vinha à mente eram, sobretudo, as lembranças dos finais da tarde dos sábados e domingos, quando vinha com os amigos jogar naquele parque. Depois da partida de futebol, todos iam tomar um refresco na barraquinha de seu Manuel que ficava na esquina onde hoje está um suntuoso prédio comercial.
        Não entendia como aquele parque conseguira resistir às sanhas dos empresários, mas se sentia feliz por poder tê-lo ali. Mesmo depois de passado muito tempo e das raras visitas, o parque mantinha-se semelhante ao de sua juventude: a mesma pista onde, entre uma volta e outra, ele conheceu a sua esposa; as mesmas árvores, o antigo gramado verde sobre o qual foram tecidas muitas juras de amor e muitos planos feitos sem saber que seriam esgarçados pelo destino. Parou um pouco. A lembrança da esposa, morta recentemente, trouxe uma dor aguda ao peito. Respirou fundo. A imagem da esposa, embora muito amada, estava se tornando meio embaçada, como uma fotografia que, evitando sucumbir às investidas do tempo, procurava resistir, deixar-se presente na folha amarelada do papel da memória. Apesar de o passado servir-lhe de alento, precisava pensar no presente. Restavam-lhe apenas a filha e os dois netos: “Essa é a minha família”, pensou amargamente enquanto se sentava em um daqueles bancos donde podia ter uma ampla visão de todo o parque. Isso apertou mais ainda o seu velho coração saudoso. Permaneceu observando as velhas árvores que, imponentes, olhavam indiferentes para as pessoas que ali estavam sentadas, correndo ou simplesmente vendo a vida passar como um suave e rápido aceno de Zéfiro.
        Sentado ao lado da fonte (que bom que ela está ainda aqui!), ele viu um pai levando a filha para jogar comida aos pássaros que, servilmente, vinham atrás do que as débeis mãos infantis espalhavam, entre risos, pelo ar e contemplavam cair no chão. Essa cena (por que, meu Deus, velho só lembra do que se passou?) trouxe-lhe lembranças do tempo em que a pequena Marta o esperava chegar do trabalho para cobri-lo de beijos e abraços, provocando ciúmes na mãe. Ah, a menina de ouro havia crescido e ele envelhecido! Com o tempo, os afetos foram minando até não deixarem mais rastro nenhum. Sentiu mais ainda aquela dor lhe apertar o peito cansado, saudoso.Era uma dor lancinante diante da certeza de que o passado só podia retornar como lembrança. Essa era uma tecido cujos fios, esgarçados pelo tempo, eram difíceis de reunir.     Lembrar era como estar dentro de um oráculo inativo. Não havia mais esperanças de futuro, só o medo de que aquilo que tanto significou não signifique mais nada. Por isso, embora lhe doesse o peito, ele não queria deixar de pensar nas sobras do que não fica, naquilo que fica do que não sobra. Olhou para o relógio e viu que já era tarde. Mas resolveu ficar mais um pouco. Talvez o seu atraso deixasse a filha preocupada e isso seria a demonstração de que a sua menina ainda se importava com ele. Mesmo assim, estava decidido a não mais morar com ela. Daria um tempo. Os netos estavam na fase em que era preciso tomar às redes. Os meninos eram arredios, assim como sua filha se tornara. Procurava entender a situação dela. Não era fácil para ela se desdobrar horas a fio para manter a casa depois que o marido a havia deixado. Diante desse golpe, sua filha se fechara mais, embrutecera seu coração, devotara-se ao trabalho como se este fosse uma religião. Ele sabia que não estava sendo fácil para ela o divórcio. Os risos da vizinhança, os cochichos dos colegas de trabalho.
        As horas iam-se passando, mas ele não estava apressado para sair daquele lugar. Queria adiar mais um pouco a chegada à casa da filha. Era com muita mágoa, não sabe ao certo se por ter de ter aquela conversa com a filha ou se por estar vendo o que ela se tornara, uma mulher seca, amarga, que ele iria comunicar a ela que estaria indo morar em uma dessas casas de apoio a idosos. Conhecia alguns amigos de infância que preferiram esses lugares para passarem o resto de vida que lhes sobrava. Mas antes queria ver o pôr-do-sol. Dali onde estava, era tão bonito ver o sol morrer para logo mais dar lugar à noite. Além do mais, o vento ali era tão suave que lhe lembrava os ventos do tempo de criança. Preferiu demorar-se mais um pouco naquele banco.
        – Alô, dona Marta, é do Hospital do Coração. Estamos ligando para avisar que seu pai sofreu um enfarto e está sendo encaminhado para a mesa de cirurgia.

O EXÍMIO


Para Augusto Rafael Carvalho de Sousa


        Quando criança, e isso faz tanto tempo, eu gostava de ouvir várias histórias de trancoso que eram contadas pelo Exímio, um velho que fora meu vizinho na época em que meu pai era juiz numa dessas cidades do interior do sertão, lugar quente sobre o qual, em tom bastante jocoso, dizia papai:
– O povo daqui, quando morrer e se não for para o céu, quando chegar no inferno, se este for realmente quente como dizem, não vai sentir diferença alguma”.
Ríamos com essas suas comparações meio desatinadas que, no entanto, não tinham nenhuma tinta de galhofa. Eram apenas irrupções de sua veia humorística, pois ele era daqueles que podiam perder até um amigo, mas nunca perdia a chance de provocar risos.
        Se eu ria das brincadeiras de papai, com as histórias do Exímio (chamo-o assim porque nunca soube seu nome ou porque faz tanto tempo que não me recordo mais), eu ficava alumbrado, como se fosse um dos personagens das Mil e uma Noites ou estivesse perdido num daqueles mundos de uma história sem fim. Eram muitas as histórias. Reis, fadas, monstros, mares bravios, índios, povos de países distantes faziam parte de um cenário que hoje se encontra esgarçado pelo tempo e do qual só restam fragmentos em minhas retinas fatigas.
Antes de contar-me qualquer história, o Exímio sempre perguntava se ele já havia contado a da cachoeira do espelho. Quando não havia ninguém perto que afirmava que sim, eu mentia e balançava negativamente a cabeça. Embora já tivesse ouvido essa história muitas vezes, eu sabia que contá-la propiciava uma grande alegria para aquele velho mago que conseguia extrair das palavras o que elas tinham de mais encantador e, assim, me enredar em tramas mais inverossímeis possíveis. A cada história que contava ou recontava, ele se tornava mais moço, alegre, seu fôlego aumentava, enfim, narrando-as ele remoçava-se. Era como se por meio daquelas histórias, em especial a da cachoeira do espelho, ele pudesse reatar as pontas de sua vida, unir os laços soltos e ter certeza de que os nós dados estavam firmes, frouxos ou até mesmo precisavam ser cortados, como fizera Alexandre, o grande.
        Neste caso, narrar era viver e, se ele não contasse tais histórias, poderia morrer. Elas eram, então, como aquela dose de remédio que um paciente em estado terminal precisa administrar não para que a morte não chegue, mas para que a sua chegada seja adiada por mais um dia, se torne, embora inevitável, mais distante e, assim, nos dê tempo para arrumar a mesa, a casa, enfim, deixar tudo pronto para podermos partir quando o expresso do iniludível chegar à plataforma.
        O Exímio dizia ser descendente de uma família de nobres dentre os quais havia um que fora alquimista e possuía um belo espelho. Este passou de geração a geração até ser entregue a ele por seu pai. Este espelho possuía uma moldura dourada, diziam que era toda de ouro, e era de um azul que reluzia como cristal. O Exímio, que o guardava em segredo, disse, uma vez, que esse azul era reflexo das águas de uma cachoeira existente no espelho, as quais nunca paravam de se movimentar. Eu não acreditava nessa história, achava que aquilo era invenção dele, mas sempre ficava atento quando ele com sua voz rouca e cansada falava meio que arfante:
        – Ao fechar os olhos, por um segundo, sentia uma brisa leve e suave em torno do meu corpo. Eram zéfiro e eólios que vinham me dar permissão para que eu pudesse iniciar a passagem. E, num instante, eu já havia atravessado o espelho e estava mergulhando nas águas cristalinas da cachoeira. Eu podia, depois do banho, correr pelas enormes colinas verdes que nem Atalanta ou Ártemis me pegariam. Gostava também de provar as belas frutas que havia naquelas campinas. Eram tão deliciosas quanto a fruta que Eva provou, tanto que Deus, se tivesse provado uma delas, não teria expulso Adão e Eva do paraíso. Ali, eu me tornava uma criança que se sente segura nos braços da mãe. Lá, Gaya me afagava com todo o seu amor enquanto Cronos dormia esquecido de nós, mas, quando ele se acordava, era preciso que eu voltasse para aqui onde estamos. E assim, eu retornava com o coração de quem arruma o quarto de um filho que já morreu. Mas trazia em mim a esperança dos namorados que juraram se reencontrar e, assim, eu voltava feliz.
        – Augusto, venha para casa, já está na hora de dormir. Amanhã é segunda, você tem aula. Papai gritava e eu era obrigado, como era o Exímio por Cronos, a voltar à realidade. Despedia-me dele e ia, à revelia, para casa. Afinal, estávamos no final do ano e eu não podia ser reprovado para que pudesse passar as férias na casa de uns parentes de mamãe no Recife. Sentiria saudades das histórias do Exímio, mas era apenas um mês sem vê-lo. Logo, logo, estaria de volta e poderíamos sentar no alpendre de sua casa e rirmos, purgarmos nossas emoções com aquelas histórias. Isso pensava eu, não com essas mesmas palavras, enquanto, já de pijama, ia para o meu quarto.
        O mês de férias, como já imaginara, passou tão rápido que logo eu estava de volta à casa de meus pais. Quando cheguei, notei que, em vez de alegria, pairava uma sombra de tristeza sobre o rosto deles. Papai pegou na minha mão, fez algumas perguntas evasivas sobre como foram as minhas férias enquanto mamãe perguntava pela saúde de tia Maria. Estranhei aquele comportamento e eles perceberam. Papai pediu que eu sentasse e foi me dizendo que eu não ficasse triste, mas o meu velho amigo contador de histórias havia morrido na noite anterior. Uma das nossas empregadas fora levar um pedaço de bolo de fuba que mamãe fizera e o encontrara caído no chão ao lado de um espelho todo espedaçado. De manhã bem cedo, apareceram algumas pessoas, papai nem mamãe souberam me explicar quem eram ou de onde vieram, dizendo que eram parentes do morto para fazerem o enterro:
        – Mentira!!!!!!!!!, sai gritando, ele não tinha família. Sua família eram as suas histórias e a sua alegria eram os meus ouvidos desatentos. Corri para a casa de meu amigo e lá onde ele fora encontrado morto não havia nem um pedaço do espelho, apenas um pequeno olho d’água. Fixei bem o olhar e pude perceber que a água que minava da sala ia, pouco a pouco, sumindo. Parei de chorar e compreendi que aquele era o seu último adeus para mim.

“LOVE THAT DARE NOT SPEAK IT’S NAME”

Para Israel (ou Samuel) Bilro




        Chovia e ele estava sem sono. Levantou-se da cama e foi para a cozinha preparar um bom chá que pudesse esquentar-lhe a alma e preparar o corpo para sucumbir aos encantos de Morfeu. Sabia, no entanto, que apenas o chá seria insuficiente. Por isso, resolveu ir à biblioteca que ocupava um dos maiores vãos de sua casa. Ali, realizara seu sonho de criança: ter para si o que de melhor havia sido escrito em prosa e verso. Cada livro, adquirido com o gosto que deve sentir uma criança que espera o outro dia para ver o que Papai Noel havia deixado na velha e surrada meia, era uma pedaço do filho que nunca tivera. Alguns daqueles livros, já lera mais de uma vez; outros estavam ali porque eram exemplares raros, não podiam faltar em uma boa biblioteca.
        Qual livro escolher, enquanto Morfeu estava preocupado em buscar Eurídice e, por isso, hoje, especialmente hoje, se atrasaria? Poderia escolher um de poesias. Gostava tanto de Bandeira, Cabral, Espanca, Pessoa. Ah, como se emocionara ao ler a história de Maria das águas! Meu querido Lúcio Lins, partiste; mas nos deixaste suaves, embora às vezes torrenciais, palavras em versos líquidos, cálice para quem quer um antídoto para a angústia de existir. Sentia uma inexplicável atração por aquele poema. Talvez porque lhe trouxesse lembranças de sua terra. Talvez porque falasse um pouco de si. Quando a gente envelhece, cada taça de vinho traz em si uma cereja de nostalgia. Sem se decidir, resolveu contemplar todos aqueles exemplares. Toda a sua vida fora devotada a eles que eram bem mais do simples livros. Eram um pedaço de si, de sua história. Sorveu mais um pouco do chá e olhou em direção a um dos poucos armários. Há muito tempo que não reparava no que ele continha. Sentiu uma vontade de abrir e, como uma criança que se diverte com a sua caixa de brinquedos, resolveu brincar com aqueles livros que estavam guardados naquele armário e que, se não me engano, eram do tempo da faculdade.
        Ah, tempo bom marcado pela euforia de ter passado no primeiro vestibular e deparar-se com um mundo novo a sua frente! Que surpresa a sua ao ver ainda guardadas velhas xérox de textos ainda da faculdade. È tão difícil desfazer-se de coisas velhas, de velhos trastes. Continuou vasculhando aquele monte de papel que Clara, a sua velha empregada, havia tão bem arrumado no armário. Entre uma folha e outra, entre uma pasta e outra, deparou-se com um envelope amarelo. Abriu-o, era um livro. A princípio, não sabia por que aquele livro estava ali. Mas ao ver uma foto rota foi, aos poucos, se lembrando. Enquanto folheava as memórias de Adriano, o livro guardado no velho envelope amarelo, eram as suas próprias memórias que vinham sendo passadas página por página, letra por letra.
        Conheceram-se de forma inusitada. Mesma idade, mesmo curso. Embora fossem de signos diferentes, leão e sagitário, eram ligados pelo mesmo elemento: fogo. Além disso, uma outra paixão os unia: a literatura. Adoravam Clarice. Essa paixão os levara a combinar se conhecer e passar a ler textos dela. Até então, entre si havia apenas palavras trocadas na frente do computador, e-mails enviados ou conversas efêmeras pelo messenger. A sugestão foi acatada, e se encontrariam na própria universidade.
        Então, ele vivera a esperança de um só dia poderem se encontrar. A partir daí, era constante a ansiedade por esse dia. Na frente do computador, esperava uma nova mensagem, um simples recado por menor que fosse, mas que dissesse: “Pronto, amanhã ou tal dia, nos encontraremos e leremos esse texto de Clarice”. Ele mesmo já havia pensado em alguns contos. Que tal começar por Onde estiveste ontem de noite? Ou então, Amor? Esse não, seria melhor O búfalo. Enquanto pensava nos contos, em como seriam os encontros, aguardava a resposta. Esta demorava a vir; não adiantava olhar o e-mail. No menssenger, só aparecia off-line.
        Então, encheu-se de coragem. Foi à universidade. Quem sabe, por acaso, e o acaso sempre urde os fios do destino (ou os corta de vez?), não o encontraria lá? Mas o que iria dizer? Mesmo assim foi, esperou um pouco, vagou pelos corredores e nada. Era melhor mesmo estar em casa, na frente do computador. Este oráculo de fios e sem pitonisa alguma. Talvez, tivesse aparecido e deixado algum recado. E assim, na esperança de um só dia, voltou para casa. Mas não havia recado, tampouco mensagem alguma. Apenas o sinal de off-line. Nem ao menos um ocupado ou volto logo que lhe pudesse alimentar a esperança de um retorno breve, a mesma que alimentou Penélope a tecer e destecer enquanto o seu Ulisses resistia aos encantos de belas nereidas.
        Paciência, Frederico, paciência. Se ainda não apareceu é porque deve estar ocupado. Afinal, é final de semestre. Ou você pensa que todo mundo é igual a você, que se devota aos livros, aos trabalhos, que se esquece de viver para só estudar? Mas não pôde agüentar; então, deixou um recado. E aí aumentou mais a sua ansiedade. Será que leu o meu recado? Se leu, por que não o respondeu ainda? E assim, na esperança de só mais um dia, continuava acessando o seu e-mail, conectando-se no messenger. E nada.
        Entre eles, perdurara um silêncio que só a poucos é dado significar. Sem querer compreender isso, ele, no entanto, teve de entregar-se. Afinal, pertenciam ambos, cada um a seu modo, a uma legião estrangeira. E, por isso, preferiram, sem dizer uma só palavra, manterem-se à distância. Durante alguns dias, ainda alimentou a esperança de um só dia; mas, passados outros tantos dias, aquela esperança de um só dia precisou de meses e anos. Desse tempo, marcado por esperança que se vestia de frustração, restara apenas aquela foto que guardara naquele livro que lhe era muito especial. Afinal, estava lendo-o quando se conheceram. Depois de muito tempo, entre uma espera e uma esperança de um dia só, um dia, se encontrarem, compreendeu que ele estava tentando achar a maçã no escuro para ver se conseguia tocar no lustre e, assim, pensar, ou se iludir na esperança de que chegou à descoberta do mundo sem ter de passar por uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, antes que chegasse a hora da estrela. 
        Como lembrança desse caminho das pedras, restara apenas aquela foto, marco de um mapa que levava a algum tesouro que ele desconhecia, mas que, ainda, depois de tantos anos, ansiava por encontrar, na esperança de que, assim, pudesse provar um pouco do cálice da água viva. E assim, perdido em pensamentos, ele nem se apercebera que o dia já havia começado a raiar, e ele nem dormira. Não havia problema, perdera o sonho, mas sentira que chegara bem perto do coração selvagem da vida. Guardou o livro no armário, fechou a porta da biblioteca, enquanto lhe vinham à mente os versos de Drummond: as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficam.

A PARTIDA

Para Carla Apryl



        Eram doze e meia da tarde, Miguel colocava as mãos no bolso. Sabia que havia posto as chaves em um deles. Só não se lembrava em qual. Após alguns minutos nesta pequena odisséia, ele achou as pequenas chaves e com mais dificuldade conseguiu abrir a porta da casa 30 da rua 15.
Miguel, depois que cheguei em casa, esperei que a noite passasse logo, mas ela persistia em durar, em me atormentar. Fui ao nosso quarto e me deitei na cama, pensando que tudo tinha sido um pesadelo. E, cada vez que pensava, o meu tormento crescia mais. Os objetos giravam, riam de mim, de nós. Eu fiquei me perguntando: Onde foram parar os planos que fizemos quando jovens? O que você havia feito de mim, de meus sonhos? As lembranças (só agora me lembro que tivemos mais momentos tristes do que de felicidades) impediam a chegada do sono.
        Ele morava numa rua tranqüila, cidadezinha um pouco interiorana cujo único meio de transporte para os que não possuíam veículo próprio era o velho trem que, cotidianamente, cortava a vida dos moradores. Logo que entrou em casa, Miguel procurou fechar a porta com cautela, girando, cuidadosamente, a maçaneta. Não queria acordar a esposa que, certamente, ainda estaria dormindo, pois deveria ter se cansado de esperá-lo a noite toda. Sabia que ela não tinha vocação para Penélope, nem fiar sabia, mas tinha uma paciência igual ou superior à da esposa do velho Ulisses.
        Passei toda a noite acordada. Já é de manhã (tenho certeza de que você só chegará após o meio-dia), tomei um pouco de café (se você quiser também há café na garrafa e deve estar quente; a marca da garrafa – lembra-se, foi presente de aniversário – é boa; esquenta café até por dois dias), arrumei as malas. Só agora descobri que dentro de mim existe uma outra mulher, ou melhor, ela sempre existiu, mas você a fez com que ela adormecesse. Essa nova mulher é diferente. Sinto-me até melhor. Acho que você ficou junto com o resto de lágrimas que encharcaram o meu travesseiro. Essa nova mulher não é mais aquela que chora; mas a que sente falta de um aperto de mão, uma palavra que entre no ouvido com a suavidade de uma boa música; uma carícia simplesmente. Existe, aqui, em mim uma outra, aquela que tem gana de sentir desejo e andava adormecida dentro desta que fingia sentir prazer quando possuída por você.
        Era bom mesmo que ela estivesse dormindo. Ele precisava de um tempo para pensar em como pedir-lhe desculpas pelo vexame do dia anterior. Era um domingo, os amigos reunidos. Não queria nem se lembrar! Sempre que ingeria álcool além do que podia, perdia a noção das coisas. Miguel, diante de um copo, se metamorfoseava.
        Fui mulher silenciosa. Silenciosamente mulher. E você? Foi quem ou o quê? Acho que você foi a sombra que se apossou deste corpo e de minha alma, submetendo-os aos seus caprichos, vontades e desejos. Não sei como nem por que aceitei viver neste mundo que você criou à sua imagem e semelhança e dentro do qual eu tive de me sacrificar para ser modelada, moldada, imolada por você. Agora, percebo que o que construímos se dissipava a cada dia, como a bruma a cada manhã. Precisava me libertar, desejo ser livre. Estive muito tempo pressa a você. Fui ave canora cujas asas você cortou antes de eu ter explorado e conhecido o céu. Sinto o canto da liberdade e estou hipnotizada por ele e para ele me dirijo.
        Preferiu ir à cozinha depois subiria para o quarto ou dormiria na sala mesmo, como fazia sempre que bebia além da conta. Sentia a garganta seca, precisava tomar um pouco de água bem gelada. Apesar de ser quase uma hora da tarde, estava tudo escuro. As janelas fechadas impediam a entrada dos raios do sol. Acendeu a luz e foi direto para a geladeira. Quando ia abrir a porta, percebeu que havia um envelope, e a letra era a de sua esposa. Será que ela havia escrito que resolvera passar um tempo na casa dos pais? Ou teria ido à casa de alguma amiga e, talvez, não desse tempo de voltar hoje? Preferiu, então, ler logo a carta. Se fosse o que havia pensado, melhor. Teria mais tempo para pensar num novo, entre tantos, pedidos de desculpas. Começou a desdobrar o papel e principiou a ler. Os seus olhos corriam por cada letra, mas em seu pensamento era a voz de sua esposa que reverberava. Naquele momento, significante e significado eram um só:
        Quando pegar esta carta, já estarei longe. Ao término da leitura, o trem deverá já ter partido, levando consigo o que resta de meu coração: cacos de um vitral. Partirei triste, mas feliz. Aprendi com você que amar é fazer parte de uma competição tendo já a certeza de que nunca, mesmo que se chegue em primeiro lugar, se ganhará o prêmio. Aprendi que, de agora em diante, quando eu for amar, deixarei o coração em casa. “Vou recomeçar, vou mudar de vez, vou tirar você da minha vida”. Obrigado pelas lições que me ensinou.
Um último abraço,
Carla.
        Assim que terminou de ler, Miguel partiu em direção à estação ferroviária, posto que soubesse já ser tarde. “Por que não fizera isso logo que sentiu a verdade daquelas palavras?” Procurou saber o itinerário do trem naquele dia, mas ela poderia ter descido em qualquer estação. O trem que levara Carla já havia partido e a mesma estação ele voltaria; mas ela não.
        – Desde esse dia nunca mais a vi. Procurei por ela, mas não a encontrei ou não procurei direito, ou minhas asas não voaram na mesma velocidade e direção que as dela. Ainda tenho guardadas junto a mim as suas últimas palavras. Guardo-as como quem recolheu as penas de um pássaro querido que, de repente, voou.
        De seus olhos, pude ver uma lágrima cair e ainda me lembro de suas últimas palavras:
        – É triste achar-se perdido num porto cuja única companhia são as ondas que batem, constantemente, nas encostas da solidão e, como o corvo de Poe, vivem eternamente a repetir: nunca mais, nunca mais.

NA PLATAFORMA

Para Saulo de Tasso

        Ele sempre detestava quando chegava à plataforma e não encontrava o ônibus ali, esperando os passageiros. Não gostava de ficar parado ao lado daquelas pessoas desconhecidas ou ter de dizer um não ríspido àquele pedinte que sempre interpelava com aquele olhar de piedade todos os passageiros antes de embarcarem. Também não lhe agradava ficar andando para lá e para cá, num vai-e-vem interminável, igual ao pêndulo de antigos relógios de parede. Ele se sentia assim: um velho relógio de parede sem parede. Às vezes, olhava para cima e sua aversão aumentava. Aquela rodoviária era horrível! O grude presente há tanto tempo nas latas de lixo não só tornava invisível a cor daqueles depósitos como lhe causava nojo. “E esse desgraçado do ônibus que não vem?!”, pensava enquanto fingia uma conversa com alguém pelo celular sem crédito. Sempre fazia isso toda vez que sentia vontade de romper o silêncio em ambientes onde se sentia estranho ou a que era avesso. Começou a aumentar o fluxo de passageiros passando nas catracas e entregando, num gesto mecânico, as passagens aos funcionários do terminal para que retirassem o bilhete da taxa de embarque. Afinal, faltam dez minutos para a hora prevista da viagem. E o ônibus ainda não estava na plataforma! E ele tinha pressa em chegar. Não sabia o porquê, mas queria sair dali. O ar pesado, o sol quente e o próprio ambiente daquela cidade, apesar das muitas árvores existentes, o sufocavam.
        Queria estar em casa, tomar um banho, comer um pouco e cair na solidão de seu quarto. Mas o ônibus teimava em não aparecer. Os passageiros iam se aproximando mais da plataforma e já começava a se formar uma pequena fila. Todos rostos estranhos para ele, que, cabisbaixo, olhava para o relógio. Ao levantar a cabeça e olhar em direção ao local para onde o ônibus já deveria ter aparecido, seu olhar cruzou-se com um outro. Sentiu um velho estalo que sempre aparecia quando se interessava por alguém. Aquele rosto havia lhe chamado a atenção. O seu dono tinha um misto de candura e doçura. Os hormônios presentes em seu rosto demonstravam que era novo. Deveria ter entre 17 a 20 anos. Isso o fez lembrar uma frase de Nelson Gonçalves: toda mulher deveria amar um jovem de 17 anos. Mas ele era um homem e será que poderia...? Não deu tempo de completar a pergunta tampouco achar uma resposta, pois percebera (Ou será que foi imaginação sua?) que o Outro havia percebido, num instante fugaz, que lhe despertara algum interesse: os olhos se entendem; os corpos se desejam.
        Absorto naquele curto momento em que olhares jogados ao acaso se encontram, nem percebera que o ônibus tinha chegado à plataforma. Só se deu conta quando o não mais tão esperado ônibus fez um barulho ao parar, o qual fez com que ele saísse daquele estado de alumbramento. Será que o Outro o havia notado mesmo? Não teria coragem de se aproximar. Se tivesse, pelo menos, um cartão com seu nome e telefone poderia tentar, discretamente, entregar. Mas isso lhe era impossível: faltavam-lhe o cartão e a coragem. Entregou a passagem ao motorista que olhou para ele e para a foto na carteira de estudante e, bruscamente, devolveu-lhe a passagem. Subiu. Sua poltrona era a 16. Detestava quando ficava no corredor. Preferia sempre as poltronas na janela, assim evitava ser tocado por passageiros ou pelo vendedor de comida (Olha o lanche, cachorro-quente e refrigerante – detestava aquele pregão de barítono desafinado), e, assim, distraía-se olhando, através do vidro da janela, a mesma paisagem que, de semana a semana, não sofria nenhuma alteração: em umas partes, havia cenários para quadros à Di Cavalcanti; em outros, Monet ou Picasso poderiam pintar lindos girassóis ou crepúsculos em plantio de trigo. Mas não havia trigo ali, apenas canas-de-açúcar que deveriam ficar muito bem num Monet. Apesar disso, ele não sentia nada diante deste cenário, preferia manter o olhar lançado ao acaso. Assim, não percebia o tempo passar e, quando se dava conta, já estava chegando à rodoviária de sua cidade. Sentia um alívio ao pisar em solo conhecido.
        – Parece que vamos ficar juntos. “Ficar ou sentar?” Não entendeu qual dos dois verbos ouviu, mas aquela voz cortou-lhe os pensamentos. Assustou-se: era o rapaz que vira lá embaixo na plataforma. Ia se levantando quando foi interrompido: – Desculpe-me, a minha poltrona não é a 17. É a 20. Aquela sensação de euforia evolou-se. E ele, que, naquele ínterim, já tinha imaginado duas mãos se encontrando no escuro do ônibus, teve de voltar à sua fria poltrona. Mas sentia que aquela aproximação não havia sido aleatória. Lembrou-se do seu celular, mas estava sem crédito. Não importava, fingiu que estava ligando para uma amiga: – Olá, Nicole, tudo bem? Exato, sou eu mesmo. Sei. Sei. Mas é que me levaram o meu antigo aparelho. Sim, fui roubado. Não, não, estou bem. Não se preocupe. Estou ligando para lhe passar o meu novo número. Anote aí: 468954. Foi dizendo cada algarismo pausadamente. Será que o Outro tinha se interessado e anotado? Acho que não. Fora tudo fruto de sua imaginação?!. Um solitário é sempre um quixote sem seu sancho pança. Mas era preciso esperar e foi o caminho todo pensando nisso. Dessa vez, parece que o ônibus chegara mais rápido. Preferiu descer logo e não quis olhar para o Outro. Queria acreditar que aquela não teria sido a última vez, que haveria uma outra em que não apenas olhares se encontrariam. Eram oito da noite, pegou um táxi. Queria chegar logo em casa. Amanhã, quem sabe, poderia ser um outro dia, e sua história poderia ter um novo personagem. Ou esta seria mais uma página no seu grande livro de coisas passadas e fechadas pelo álgido cadeado do esquecimento? Ah, Drummond, as coisas findas, muito mais que lindas, ficarão mesmo? Percebeu que o taxista baixou o som do carro e pegou o celular, mas não era o dele que tocava. Era o seu. Pensou que fosse Nicole, mas a voz do outro lado não era a dela.

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Júlia Lopes de Almeida [1] – a sagrada família: uma leitura de A isca


Marcelo Medeiros da Silva
Universidade Federal da Paraíba – PPGL



Nascida no século XIX, Júlia Lopes de Almeida, assim como muitas de suas coetâneas oitocentistas, escreveu obras que versam, sobretudo, a respeito da esfera doméstica onde muitas mulheres permaneceram fechadas dentro de casas e sobrados, mocambos e senzalas, construídos por seus pais, maridos, senhores. O privado foi, então, o cenário escolhido por essas autoras para fazer desfilarem, na ficção, mulheres que, igualmente como as da realidade, eram confinadas no mundo interior da família e mantidas sob o jugo patriarcal. Sendo assim, voltadas para o espaço doméstico, o privado, as mulheres, ao construírem o seu universo ficcional ou poético, deram prioridades aos laços familiares:

Estes laços, protetores e constritivos, são, freqüentemente, elementos estruturantes dos conflitos narrados. A família é, de fato, um tema que se impõe àqueles(as) que se interessam pela problemática feminina, seja ela abordada pelos mais diferentes campos do saber (XAVIER, 1998, p. 13).

A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem “a moral e os bons costumes”, daí serem recorrentes na produção delas temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a “esfera perfumada de sentimento e singeleza”, não abordassem nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública, isto é, assuntos de homem. Assim, não nos causa estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e planejados pela arquitetura masculina, as mulheres escolhessem justamente esses espaços para falarem, dizerem quem eram, são e foram.
Esses escritos, ainda que tenham tomado a esfera privada como cenário, são registros de “modos específicos de dramatização do crescimento urbano, da expansão industrial e da modernização dos costumes, nas primeiras décadas do século 20” (RAGO, 2005, p. 196). Por outro lado, esses mesmo escritos revelam também os efeitos individualizadores da crença nas tradicionais divisões entre os papéis sexuais e entre as esferas pública e privada, já que os assuntos mais recorrentes eram vistos, sob a óptica masculina, como simples coisas de mulher e, portanto, desprovidos de qualquer valor. Entretanto, “essas simples coisas de mulher” são uma preciosa fonte de informações sobre a família, a vida doméstica, a visão dos oprimidos e trouxeram para o espaço público assuntos ligados ao campo da moral, do cotidiano e dos costumes, mas também ao campo da sexualidade, do amor, do casamento e da prostituição.
A isca de Júlia Lopes de Almeida é um bom exemplo de como assuntos da esfera do privado vieram para o espaço público sob a ótica de um olhar feminino. Apresentada como livro de contos pelo Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (2002), A isca (1911) é, no entanto, classificada, conforme edição da Livraria Leite Ribeiro, publicada em 1922, como um conjunto de novelas que, além da que dá título ao livro, é composto por mais três: O homem que olha para dentro, O laço azul e O dedo do velho. Deter-nos-emos apenas na primeira dessas quatro novelas.
A isca é uma novela cuja trama gira em torno de duas forças igualmente poderosas: o amor e o dinheiro. Nesse caso, parece que Júlia Lopes dá continuidade ao que José de Alencar fizera em Senhora (1875). Ratificam essa nossa impressão o fato de o personagem criado por Júlia Lopes trazer o mesmo sobrenome do personagem criado por Alencar e o fato de o enredo de A isca ser muito semelhante ao de Senhora, romance em que se narra o processo de compra de um marido. Lembremos que o romance é estruturado em quatro partes que representam as etapas dessa compra: “O preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”.
Na primeira, Alencar fala do dote oferecido por Aurélia para casar-se com Seixas. Como ela “precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas”, Seixas estava disponível no mercado e ela podia pagar por ele. O casamento seria, então, a forma mediante a qual Seixas, rapaz casadoiro e possuidor de economias corroídas e de posses escassas, poderia inserir-se noutra classe social e elevar-se. No dizer de Antonio Candido, “Fernando Seixas é um intelectual elegante e pobre, que, incapaz da ascese comercial de Jorge da Silva, [personagem de A Viuvinha], resolve o problema da posição social trocando por cem contos a liberdade de solteiro numa transação escusa” (CANDIDO, 2000, p. 205).
Na segunda parte do romance, estabelecida a realidade de mulher traída e a de homem vendido, o narrador mostra como Aurélia despertava “a fome de ouro nos cavalheiros do lansquenete matrimonial” até que veio a comprar um marido. Adquirido o esposo, Aurélia, entretanto, fugia do mercenário, “como se receasse o contágio do homem a quem unira” e que se lhe apresentava “reduzido à mercadoria ou traste” cuja cotação era feita no mercado, assim como “se usava outrora com os lotes de escravos”.
Na terceira parte, feita a transação matrimonial, não acontece a tão esperada consumação carnal do dito “santo amor conjugal”, pois Seixas, transformado de sujeito a objeto, e Aurélia vivem separados por um divórcio moral. Por fim, na última parte, expiada a culpa de Seixas, ele é restituído à sua natureza generosa e, regenerado, está pronto para tornar-se livre mais uma vez, só que, agora, ao lado da esposa que, em nome do amor, foi também redimida de seu orgulho.
Em A isca, Antônio Seixas, tal qual Fernando de Senhora, é uma espécie de arrivista social. Entretanto, Alencar narra a história da compra de um marido, Júlia Lopes de Almeida em sua novela nos narra os fatos acontecidos depois de o negócio firmado. Guardadas as devidas diferenças, ambos os autores procuram enfatizar o aspecto comercial do casamento, como se fosse mais um negócio a ser realizado. Se Alencar fala da compra de um marido, Júlia Lopes fala da caça a uma esposa rica. Neste caso, o título da novela é bastante sintomático, pois, de acordo com o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o vocábulo isca significa “chamariz que se põe no anzol para atrair e capturar peixes”. Lida a novela, perceberemos que a personagem Isabel de Mendonça será a isca de que se valerá Antonio Seixas para conseguir a sua ascensão social. Dessa forma Isabel de Mendonça e Antonio Seixas constituem os vértices de um triângulo cuja outra ponta é composta por Vera Landim.
Quando a narrativa inicia-se, Isabel e Antonio já estão de casamento marcado. Vera nos é apresentada como a noiva abandonada por Antonio, já que este preterira Isabel a ela. Isabel tinha sido, na opinião de Dionísio, personagem que tenha consolar Vera, o objeto que Antônio ambicionara:

– Deixe-os dançar e pensar que são felizes. Para eles a vida está toda dentro daquele ritmo vagaroso. Viverão sempre assim, para trás e para diante, para diante e para trás, sem vôos de imaginação e nem poesia ... Até aqui o Antonio ainda tinha uma certa expressão interessante, porque era ambicioso. Casando rico tornar-se ha um apático (AI, p. 6-7).

Assim como Aurélia, Vera é abandonada porque o dote de Isabel Mendonça é muito maior. Entretanto, ao contrário da personagem de Alencar, Vera resigna-se e resolve ir morar na fazenda dos avós, embora seja cortejada por Dionísio cujas investidas ela descarta, uma vez que ele é casado:

– Ainda não chegou a hora. Repare que estamos sós. E sós estaremos toda a vida um em face do outro. O senhor é casado. Eu sou honesta. A nossa comédia seria, além de um crime, uma vergonha. Procure amar a sua esposa. eu procurarei resignar-me ao meu sofrimento (AI, p.11).
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O dote, durante muito tempo, foi um costume entre as famílias proprietárias que consistia em dotar as filhas, oferecendo-lhes, na maioria das vezes, casa, gado e escravos (índios) para que assim, com esses bens, elas pudessem estabelecer família própria. Com o dote, a mulher não só contribuía para o sustento do casal, como também deixava o marido em situação de devedor, ainda que a administração dos bens do casal ficasse sob a responsabilidade do marido. O dote era, portanto, elemento bastante significativo para o sustento do novo casal, além de ser um atrativo a mais das moças de família rica desejosas por casar. Quanto maior fosse o dote, mais pretendentes a moça poderia ter na bolsa de valores do mercado matrimonial. Esse era o caso de Maria Isabel, personagem de A isca, conhecida por ser muito rica. Por isso, seu pai um homem sensato e pacato, a advertia: “– Os pretendentes a dotes gordos surgem de todos os cantos, são os cogumelos da humanidade. Sê prudente e não te deixes cair no anzol sem mais nem menos ... ”(AI, p. 15-16).
Apesar dos conselhos do pai e da vigilância da tia Milu, Isabel Maria não ficou muito tempo longe do anzol do caçador de dotes Antonio Seixas. Eles se conheceram de relance durante uma temporada de verão em Petrópolis. Tornaram-se a encontrar em um dos saraus musicais realizados na casa da Silveirinha, nome de um personagem que dá título a um romance homônimo de Júlia Lopes. Nesse segundo encontro, a indiferença que marcara o primeiro cedera lugar a uma certa contemplação muito expressiva. Por essa época, Isabel estava comprometida com André Sales, de quem só sabemos essa informação, e Antonio Seixas era noivo de Vera Landim, boa pianista e bastante exímia em ciências naturais. A união de Isabel e Antonio parece demonstrar que o amor como estímulo para o casamento ocupou lugar de menor importância. O enlace deles representa bem os moldes das relações amorosas entre final dos oitocentos e limiar dos novecentos: do noivado, curto e que nem sempre sucedia ao namoro, seguia-se o casamento.
Antonio é-nos apresentado como um homem que se acostumara a hábitos de rico. Por isso, “uma preocupação qualquer, mais forte do que todos os deleites espirituais, lhe distraía o pensamento” (AI, p. 20). Antonio, inserido num grupo de pessoas cuja maior qualidade eram “os mesmos gostos dispersivos”, estava absorto “em duas coisas: o amor e o dinheiro”. Para manter os hábitos que criara e que lhe custavam caro, Antonio precisava fazer uma grande fortuna. Alternativa que lhe aparece mais vantajosa é casar-se “com uma mulher muito mais rica do que a Vera Landim” (AI, p. 21) e, assim, não fazer figura triste entre os amigos. Antonio, então, decide que a solução para aumentar os seus exíguos rendimentos estava no casamento com Isabel. Ressentia-se por não se casar com Vera; mas Isabel podia concretizar muito mais rápido os sonhos dele de luxo e ascensão social. Casando-se com ela, Antonio poderia desfrutar da influência política e econômica do sogro.
Homem para quem o amor é apenas um dos produtos de uma transação mercantil, Aas procura capturar a sua isca Lamdimma fazer uma grande fortuna.certa contemplaçmatromonial.ntonio Seixas procura capturar a sua isca. E, assim, aproveitando que era época de carnaval, num dos passeios a que foram, “Antonio sentou-se ao lado de Isabel e tocava de vez em quando com a dela a sua taça de Champagne. Depois ofereceu-lhe um cigarrinho. Ela fez uma careta, mas aceitou. Ele ria-se e ela já o tratava, embaralhadamente, por tu e por você... Dias depois estavam noivos” (AI, p. ). O que une Antonio a Isabel é, portanto, o interesse material e econômico dele. O interesse sentimental e afetivo mal começara a brotar, eles estavam de casamento marcado. O enlace matrimonial com a filha do rico industrial se afigura a Antonio como substancialmente vantajoso, como um negócio da China.
Como dote, ser-lhe-iam oferecidos duzentos contos (o dobro do que recebera Fernando Seixas, de Senhora) e uma casa, além de sociedade na fábrica do futuro sogro. Decepcionado, Antonio alegrou-se, entretanto, ao lembrar que Vera Landim não possuía dote sequer a oferecer a ele. Embora não fosse o esperado, Antonio ainda saíra lucrando: Isabel lhe traria, de uma só vez, fortuna e importância. Assim, mais para alimentar os seus hábitos de rico do que para comemorar o seu casamento, “Antonio julgou-se um príncipe e atirou-se para a ourivesaria a comprar a crédito diamantes e perolas para a noiva. Pagaria depois, com o dinheiro que ela trouxesse, mas teria desde logo o prazer de se mostrar generoso e de a ver lisonjeada...” (AI, p. 32).
Todavia, se rápida foi a fisgada de Antonio, mais rápida ainda foi a sua decepção com o casamento. Do que ele sonhara ao contrair compromisso com Isabel, restaram-lhe apenas os duzentos contos e a casa da rua Marquês de Abrantes. Tudo o mais fora dilapidado pelo sogro antes de morrer. O dote recebido era insuficiente, depois de tantos gastos, para cobrir as despesas que Antonio fizera, uma vez que ia ser genro de um grande industrial. Até mesmo tia Milu, que vivera sob a proteção do pai de Isabel e que devotara a sua vida à família dela, foi dispensada e se viu “como uma mosca numa teia, sem saber para que lado mover-se, para não cair de todo nas garras da miséria” (AI, p. 55).
Tia Milu representa o papel de mulher desprestigiada por ser solteira. Como o casamento se apresentava para as mulheres, na maioria das vezes, como a única possibilidade de carreira, “permanecer solteira, além de pouco atraente e financeiramente inviável na maioria das vezes, implicava um desprestígio para a mulher” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 83). Devido à situação de dependência econômica absoluta, Tia Milu era a criatura mais obediente e explorada da casa onde prestava os mais muito relevantes: consideração, respeitabilidade, comodidade, economia, vigilância de mãe, noites mal dormidas, os quais não eram suficientes para modificarem a sua condição de parente pobre que vive à custa de favores. Aliás, como bem notara Schwarz (2000), a prática do favor foi uma das marcas de nosso Brasil oitocentista foi a prática do favor, a qual condicionava a ascensão social e “, ponto por ponto, pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração e serviços pessoais”. Apesar disso, a prática do favor era uma estratégia mediante a qual se alimentava a ilusão de que nenhuma das partes envolvidas era escrava da outra. Como afirma Schwarz (2000, p. 20), “Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecido nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma”. Isso se aplica muito bem à Tia Milu, cuja situação dentro da casa dos Mendonça se modificou após a morte do cunhado:

Milu sentia-se desconsiderada e arrependida. O seu luto, feito com tecidos baratos e cosido pelas suas próprias mãos, dava-lhe a impressão de atestar aos olhos de todo mundo a sua decadência. Do que se arrependia era de ter passado a maior parte da sua vida no período da grande energia, como parasita de uma casa rica, a gastar a sua atividade em vigilâncias que não lhe tinham deixado nenhuma compensação pessoal... (AI, p. 43).

Ainda assim, tia Milu não deixou de visitar Isabel em cujo comportamento ela começava a perceber algumas mudanças. Com a morte do pai, sem o dinheiro esperado que viria como herança, Isabel se inquietava com as dívidas vultosas que foram contraídas por Antonio e por ela. Entretanto, tia Milu percebia que as preocupações de Isabel não eram as contas a pagar, e, sim, Antonio. Ela sabia que ele se casara pensando no dote de Isabel. Por isso, soam irônicas as seguintes frases da tia dita à sobrinha::

– E o amor? Perguntou então tia Milu, com tão encoberta ironia, que a outra não compreendeu.
– Ele ama-me muito.
– Pois isso é tudo. Quando há amor, que importa o resto?
– Quem ama não come?
– Apenas para sustentar-se, se não tem para mais, e com isso se deve sentir satisfeito. Que melhor dote para um homem que ama, que possuir a escolhida do seu coração e vê-la assim tão perfeita, tão boazinha como tu és? O Antonio não se casou com o teu dinheiro; casou-se contigo, e deve considerar-se o homem mais feliz do mundo, porque tu és uma mulher encantadora. Deves dizer-lhe isto mesmo, quando ele desesperar (AI, p.47).

O leitor, pelo que já vem acompanhando ao alo da narrativa, perceberá que tudo o que Tia Milu está dizendo soa como irônico porque o que moveu o casamento de Antonio e de Isabel foi exatamente o fato de ele ver a futura esposa como capital simbólico imprescindível à ascensão social dele. Se no imaginário da época, o corpo feminino era o mercado por onde circulavam os bens da família, Isabel era esse corpo de que Antonio queria tornar posse. Para ele, o matrimônio era visto como um contrato de natureza político-sócio-econômica. Aliás, essa foi a forma sob a qual o casamento foi concebido anterior à ascensão burguesa. Só com o advento da burguesia, emerge, dentre outras coisas, o conceito de amor conjugal e, neste caso, casa-se não mais por interesses políticos, econômicos e sociais, mas por interesses do coração.
Entretanto, como o casamento não evitou o fantasma de uma demonstração pública de penúria, era preciso a Antonio vislumbrar outras saídas a fim de que não se pudesse chegar a esse tipo de humilhação. Por isso, a ele só restava usar o que de mais caro lhe havia: sua esposa Isabel. Esta deveria, usando das artimanhas femininas, conseguir, sob as orientações do próprio marido, um emprego para ele com o Sr. Ministro Dr. Jordão. Assim como muitas outras mulheres, além das atividades estritamente ligadas à casa, a Isabel foi delegada uma outra função: estimular e ajudar, com sua simples presença e demonstração de dotes físicos, o seu marido na conquista de êxitos. Isabel é, portanto, utilizada como instrumento para favorecer os interesses do marido, ou seja, como capital e como expressão do êxito comercial de Antonio a fim de conquistar uma boa posição social e econômica para ele. Isabel, assim como muitas outras mulheres, passou a ser a responsável pelo sucesso e bom êxito de Antonio, que se valeu da habilidade e da demonstração dos dotes femininos da esposa como elementos decisivos na sua elevação social. Dessa forma, assim como muitas outras personagens da ficção oitocentista, Isabel tem seu papel social redefinido. A ela não bastava a atuação apenas no seio da família. Era preciso atuar também em sociedade:

– O Dionísio pediu-me para entrar com eles numa grande negociata com uma empresa americana. Aceitei. Estamos só à espera de umas instruções de Nova York. Entretanto, não seria mau que eu fosse ocupar o tal lugar no ministério... Convém-me mesmo estar do lado de dentro, o que me facilitará depois qualquer manobra. Isto são minúcias que não vêm ao caso: o principal agora é conseguir que o Vasco me dê o lugar, e para isso preciso de ti.
– De mim?!
– Pois então? Que melhor advogado poderei ter do que a minha mulherzinha? (AI, p. 63).

Assim, para contribuir no projeto familiar de mobilidade social, Isabel precisa convencer o ministro a dar o cargo que interessava a Antonio, que manteria o seu prestígio social e que empurraria o status de sua família mais e mais para cima. Para tanto, Isabel é instruída pelo próprio marido. Ela precisa se vestir bem, fingir que partiu dela mesma a idéia de ter uma conversa com o ministro. Ardiloso, Antônio precisava dirigir muito bem a mulher para representar o papel que ele mesmo escrevera para ela. Para Isabel, “era a primeira vez que ela entrava em cena para representar um papel estudado: devia procurar modelo para as sua atitudes. E aquele parecia-lhe excelente”.
Dias depois, a nomeação de Antonio foi recebida com espanto pelos amigos que ficaram curiosos para saberem como ele conseguira um dos cargos mais importantes da secretaria do ministro Vasco cuja assiduidade à casa de Antonio e de Isabel deram por desconfiar, fazer suposições. De Isabel, só quem olhasse bem para os seus olhos é que “teria a impressão de que atrás deles flutuava a sombra de um segredo íntimo, muito pessoal. Esse mistério, esse não sei quê de intátil e sutil, como que a tornava mais mulher e mais interessante” (AI, p.76). Antonio, por sua vez, estava bastante “excitado pela onda grossa dos bons negócios, que se avolumavam diante de si, mal percebia o traço de fel que se ia pouco a pouco acentuando nos lábios, antes sempre doces, da sua Isabel” (AI, p. 76).
Passado o embevecimento da fortuna conquistada, Antonio se via em uma situação delicada: livra-se do Vasco, “de quem já não precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado” (AI, p.77
()precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado pouco a pouco acentuando nos l). Com receio de ter o seu nome arrastado na lama, Antonio repreende Isabel pelo excesso de confiança que ela estava dando ao Vasco:

– Bem sabes que esse [o Vasco] vem todos os dias.
– Bem sei, bem sei! Todos, todos os dias! A mim isso me parece demais. Bastou! apre, bastou! Já não o posso tolerar nem quero tornar a vê-lo em minha casa!
– Agora . . .?! Retorquiu-lhe a mulher com ironia.
– Agora e sempre!
– Mas por quê?
– Porque não quero que arrastem o meu nome pela lama das ruas, entendeste? Tu bem sabes por quê! As suas assiduidades nesta casa estão tomando um caráter de intimidade que me desagrada imensamente e podem ser comentadas lá fora de modo desairoso para ambos nós. Eu não admito que isso suceda; eu não admito, ouviste? E a culpa tem sido tua, que lhe dás confiança. (AI, p. 82).


E Isabel, numa das cenas mais interessantes e de maior força dramática da novela, exaspera-se com Antonio:

– Minha?
– Sim, tua.
[...]
– Não me faças perder a cabeça, não me faças perder a cabeça, repetiu ele, de punhos cerrados, apoplético e terrível. Supus ter casado com uma mulher honesta e afinal...
[...]
– E afinal, acaba!
– Que és tu? . . . dize!
– Ah! pois ignoravas? Eu sou a isca. Eu fui a isca ... e não tenho sido outra cousa desde que me conheceste, e deves saber disso muito melhor do que eu mesma, que não compreendi as cousas senão depois delas passadas e irremediáveis.
– Cala-te.
– Agora está dito. Serviu-te o meu dote; serviu-te a minha beleza. Estás rico, estás farto, não precisas de mais nada, podes zangar-te e defender a tua honra; mas a ingênua morreu e a outra mulher que existe dentro de mim, melhor é que a não provoques, para que te não diga verdades desagradáveis.
Antonio levantou as mãos e cresceu para a mulher, lívido de raiva.
– Bate, concluiu Isabel, sem se mover do lugar em que estava. (AI, p. 84).

Arrefecidos os ânimos, Antonio e Isabel foram passar um tempo no interior. Quando regressaram, o Vasco já não mais assistia no Rio. Ele, que já estava se aborrecendo com a “insaciável avidez de negócios lucrativos, de que [Antonio] andava sempre à caça”, havia casado com uma viúva e fora morar nos estados Unidos. Para Antonio, a distância do antigo “amigo” alimentou-lhe a esperança de um novo horizonte. As relações com Vasco eram coisas do passado e lá deviam ficar enterradas lá como ficaram os ressentimentos de Isabel e pelo esposo. O coração dela arrefecera e estava unido ao do esposo pela ternura que ambos estavam sentindo pelo filho que estava por nascer:

O bebê esperado enlaçara o coração arrefecido dos pais numa corrente de ternura. Tinham-se perdoado tudo; viviam dele, por ele, na esperança de sua graça, da sua perfeição, da sua beleza. Tudo o que ficara no passado estava bem enterrado; agora só olhavam para frente, onde o vulto do filhinho lhes aparecia de diversos modos, em diversas idades . . .
Foi quando a criancinha veio ao mundo e que lhe deram o nome de Antonia Isabel, para que no próprio nome eles estivessem nela reunidos [...] (AI, p. 87).


Com esse adorável epílogo, podemos tecer algumas considerações últimas.Assim como muitas outras obras escritas anteriormente à sua publicação, A isca trata do casamento como um contrato social e coloca o dinheiro no cerne da trama. Essas mesmas obras, em sua maioria, representam o amor como um bálsamo capaz de restaurar o caráter moral perdido e de vencer os interesses econômicos no casamento. Ao contrário dessas obras, A isca, entretanto, vem apresentar um outro lenitivo: a família. Ou melhor, A isca vem reforçar a importância do amor familiar.
Em nome dos laços familiares, e não mais dos sagrados laços do matrimônio, Antonio e Isabel deixam de lado as rusgas e os dissabores do passado. Essa nova família, alicerçada nos moldes burgueses, vem reconfigurar os papéis do homem e da mulher no ambiente privado. Instaura-se, a partir daí, uma outra reorganização das vivências familiares e domésticas: um sólido ambiente familiar, um lar acolhedor. Dentro desse novo molde familiar, se a mulher possuía instintivamente o amor aos filhos e estava naturalmente preparada para se dedicar a eles, o homem não era mais apenas o provedor do lar. Tornara-se o pai, o chefe da família cuja incumbência maior era zelar pela felicidade e bem-estar da esposa e dos filhos. Revestidos dessa nova função, Antonio e Isabel parecem ter encontrado a sua mais alta realização humana. E assim, com essa cena familiar, a narrativa encerra-se com sabor de happy end.

[1] A primeira parte do título do presente trabalho é retirada de um texto da prof. Dra. Elódia Xavier, o qual se encontra no livro Declínio do patriarcado: a família no imaginário feminino, de autoria da referida professora. Além disso, este texto foi escrito para uma aula ministrada durante o meu estágio docência. Por isso, ainda precisa passar por algumas alteraçoes que serão feitas posteriormente.