<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682</id><updated>2012-02-11T20:36:37.665-08:00</updated><title type='text'>vida em poesia</title><subtitle type='html'>Este espaço foi criado para a divulgação de alguns textos literários que valem a pena ser lidos. Depois, achei interessante acrescentar alguns artigos sobre determinados autores e obras literárias. Enfim, esse é um espaço de fomento à leitura literária e a discussão sobre literatura.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>42</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-808171344257255965</id><published>2011-04-02T15:07:00.000-07:00</published><updated>2011-04-02T15:07:36.015-07:00</updated><title type='text'>TEXTO DE DEFESA DA TESE</title><content type='html'>Título da Tese : Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem-comportada? &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Marcelo Medeiros da Silva&lt;br /&gt;Orientadora: Profa. Dra. Nadilza Martins de Barros Moreira&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;1. Da pesquisa e dos seus caminhos: reflexões&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Bom dia a todos e a todas que se encontram aqui neste momento. Gostaria de iniciar a minha fala reiterando os agradecimentos a cada um dos professores que compõem esta banca examinadora. À professora Dra. Nadilza Martins de Barros Moreira, agradeço a paciência e a disposição com quem me orientou ao longo dos quatro anos de doutoramento de maneira que fomos, paulatinamente, dando forma àquilo que era apenas uma ideia em forma de projeto. Ao professor Dr. Antonio de Pádua Dias da Silva, os agradecimentos não só por ter aceitado o convite para compor esta banca, mas principalmente pela amizade firmada e reiterada desde os anos da graduação, período em que ele foi meu orientador, passando pela especialização e pelo mestrado, momentos em que pude contar com a presença dele como arguidor. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;À professora Dra. Wiebke Roden de Alencar Xavier, por ter aceitado participar do exame de qualificação e, agora, da defesa. Ainda à professora Wiebke, gostaria de agradecer as arguições bastante pertinentes durante a qualificação, às quais procurei atender e, de certa forma, determinaram a feitura final de minha tese. À professora Dra. Ana Cláudia Félix Gualberto, gostaria de agradecer o aceite para participar desta defesa assim como gostaria de agradecer à professora Dra. Conceição Flores não só pelo aceite, mas pela atenção com que respondeu aos e-mails enviados. Por fim, gostaria de agradecer aos amigos e amigas que se fazem presentes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Mais do que a apresentação de resultados, palavra tão cara nos estudos sobre literatura, o presente momento é, para mim, a oportunidade de expor algumas reflexões/observações a respeito de um trabalho que se espera concluído em parte. Digo em parte porque esta pesquisa se desdobrará em outras que procurarão responder a indagações ou buscar novos dados e informações outras que o presente trabalho, por ora, não pôde responder ou apresentar. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Sendo assim, a pesquisa cujo texto final foi submetido à apreciação de todos vocês que compõem esta banca examinadora, ao mesmo tempo em que fala de mulheres, sejam elas escritoras, sejam elas personagens, fala de escrita. Só agora, no momento em que me encontrava preparando o texto desta apresentação, é que me dei conta, conscientemente, de que a escrita é um signo que perpassa todo o meu trabalho, de que, inconscientemente, tal qual o fio de Ariadne, o signo escrita foi urdindo o texto em sua versão final ante o labirinto de dúvidas, angústias, incertezas, avanços e recuos que permearam o pesquisador desde o momento inicial, quando o de que ele dispunha era apenas uma ideia a tomar forma de projeto, até este momento. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Das epígrafes, em sua maioria, ao próprio conteúdo da tese, foi perseguindo a escrita de duas autoras, Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco, que eu pude desvelar aspectos da vida delas, tecer considerações sobre a obra de ambas e, por fim, no enfretamento do corpus escolhido, entender como a produção dessas mulheres-escritoras poderia ajudar na compreensão da condição feminina no Brasil oitocentista. Foi um percurso marcado por descobertas, mas, sobretudo, por redescobertas acadêmicas e pessoais, todas elas como o sabor de epifania.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A presente pesquisa não nasceu do vazio. O terreno em que ela se assenta já foi bastante adubado por uma sucessão de trabalhos que, eclodidos, sobretudo a partir da década de 70 do século passado, têm se voltado para a releitura de nossa história literária a partir da contribuição de mulheres. Se nos anos 70, os pesquisadores e as pesquisadoras se voltavam para a busca incessante de nomes e de obras de mulheres-escritoras, se o grande anseio era saber, no cenário literário brasileiro, quais tinham sido as nossas predecessoras; hodiernamente, se ainda a busca por nomes e por obras de nossas ilustres desconhecidas permanece uma empresa que não arrefeceu, que tem alimentado outros trabalhos – artigos, dissertações e teses – e que, contrariando a opinião de alguns, não se configura como algo ultrapassado, anacrônico, fora de moda, aliás, o estudo de um corpus deslegitimado de obras do século XIX e primeiras décadas do século XX constitui uma das fortes linhas de pesquisa do GT Mulher e Literatura; o estado atual dos estudos de resgate de textos de autoria feminina é marcado por um outro anseio: fazer tais textos e tais nomes circularem novamente ou pela primeira vez a fim de fazê-las “emergir do limbo em que se encontram, inserindo-se, portanto, no palco do debate vivo das ideias, ao mesmo tempo em que devemos ajustá-las, em sua significação, aos limites do processo histórico” (Barbosa Filho, p. 15).&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nota-se, portanto, que o esforço que marca o processo de compreensão da cultura brasileira não pode deixar de lado a reflexão sobre o papel das mulheres e as reais contribuições delas à cultura de nosso país. Esse esforço em compreender a contribuição artística e intelectual de sujeitos que não fazem parte das estruturas hegemônicas de poder, antes de tudo, é um dever da universidade brasileira, como bem apontou Gilberto Mendonça Telles, há bastante tempo, com as seguintes palavras que, enunciadas em outro tempo, em outra situação discursiva, continuam atuais: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;“(...) Ora, no momento em que a Universidade brasileira se encontra inteiramente dedicada à verticalização do seu ensino, promovendo a expansão dos seus cursos de Aperfeiçoamento, de Especialização, de Metrado e de Doutorado, não resta dúvida de que o lugar de produção de uma História Literária que responda às exigências cinetíficas da atualidade está forçosamente ocupado pelo saber universitário. Compete ãs universidades brasileiras o levantamento do material regional, a sua interpretação e o seu relacionamento com o corpus já consagrado do que se denomina Literatura Brasileira. Mas esse estudo deve ser feito à luz das teorias mais recentes, se não, o lugar da história acaba se transformando na estória do lugar, regionalizando-se e perdendo o seu lugar de ligação com a universalidade dos fenômenos da cultura nacional”. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Fazendo os devidos ajustes, a fala acima pode muito bem justificar a razão de ser dos estudos voltados ao resgate de textos de autoria feminina, empreendimento esse que visa trazer do limbo não só as obras e as autoras, mas também propiciar a reescritura de novos capítulos de nossa história literária até então escrita com as tintas e os dizeres dos donos do poder – homens, brancos, representantes de uma sociedade androcêntrica. Na consecução do objetivo de reescrever a nossa história literária, a critica literária de cunho feminista trouxe contribuições imprescindíveis ao fazer do resgate e da revisão os dois eixos em que se assentavam as suas reflexões sobre a produção literária feminina. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Feito esses esclarecimentos, a presente pesquisa procurou estudar a produção literária de Júlia Lopes de Almeida e de Carolina Nabuco, a partir dos respectivos romances A intrusa e A sucessora, a fim de compreender até que ponto a escrita de ambas as escritoras poderia ser entendida como bem-comportada. A nossa inquietação adveio da formulação de algumas afirmações de cunho axiomático que rotulavam a produção literária das referidas escritoras como modelo de uma produção que comungava com as ideias patriarcais, referendando-as, sobre o lugar da mulher na sociedade brasileira. Sendo assim, desconfiando de tais afirmações, era preciso investigar, dai por que o título da presente tese, mais do que o conforto de uma afirmação, ainda que peremptória, é marcado pela incessante dúvida instaurada pela interrogação. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para chegar a uma resposta plausível, ainda que ela viesse a corroborar as afirmações axiomáticas de que inicialmente desconfiávamos, o nosso percurso precisou levar em consideração dados de ordem biográfica a fim de que determinados aspectos e/ou informação da vida das autoras pudessem iluminar a interpretação da obra delas e auxiliar na compreensão de terem produzido uma obra bem-comportada ou não. Todavia, não ensejávamos, como dizemos na introdução de nossa tese, procurar comprovar na obra dados da vida das autoras ou desenvolver um estudo que ficasse circunscrito à relação estéril entre vida e obra. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Aqui, devemos frisar que, posto que não sejam incipientes, as informações apresentadas sobre Júlia Lopes de Almeida e sobre Carolina Nabuco poderiam ter sido mais bem consistentes se tivesse sido destinado um pouco mais de tempo à cata de fontes primárias, como jornais, revistas, periódicos nos quais as autoras em estudo trabalharam e deixaram contribuições. Assumo a mea maxima culpa, mas gostaria de esclarecer que, reconhecendo a importância de tais fontes para trabalhos de natureza semelhante ao nosso, o intuito foi centrar a atenção nos textos literários escolhidos como corpus, já que assumimos o papel de crítico e crítico de literatura. Ou seja, de certa forma, agimos, assim, porque comungamos do princípio de que não se pode prescindir do texto literário nos estudos sobre literatura, daí por que o nosso trabalho procurou apoiar-se no enfrentamento dos textos, antes de mais nada, de forma que, guardadas a devidas proporções, pode-se aplicar ao nosso trabalho as seguintes palavras de Antonio Candido: “o intuito não foi a erudição, mas a interpretação (...). Sempre que me achei habilitado a isso, desinteressei-me de qualquer leitura ou pesquisa ulterior”. A opção que orientou este trabalho foi, portanto, a de nunca partir de generalizações diante das quais o texto literário viesse aparecer como simples exemplo. Essa escolha, todavia, devemos frisar, não nos impede de reconhecer que o acesso a fontes primárias, se não foi possível durante a presente pesquisa, instiga-nos a continuá-la dando-lhe novos contornos e revestindo-a de novos objetivos. Reconhecemos, portanto, alguns dos senões de nossa pesquisa, mas, reiteremos, acreditamos que eles não a invalidam. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se pecamos no cotejo mais amplo com dados quem poderiam ter sido hauridos de certas fontes primárias, acreditamos que fomos bem sucedidos no enfretamento do corpus, uma vez que, como já dito, um de nossos objetivos era, mediante a interpretação dos romances A Intrusa e A sucessora, verificar a representação da condição feminina na passagem dos oitocentos para os novecentos a fim de apontar quais seriam as possíveis convergências e divergências entre elas. Partindo, portanto, da análise de elementos estruturais bem pontuais (espaço, personagem, narrador) conjugados à análise de determinadas temáticas (educação, trabalho, família), recorrentes em ambos os romances, chegamos a um denominador comum: a reflexão sobre o lugar do feminino nas obras escolhidas como corpus a partir de uma escrita que só aparentemente pode ser vista como bem-comportada e reduplicadora da ideologia patriarcal. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nesse ponto, Carolina Nabuco e Júlia Lopes de Almeida assemelham-se pela posição ambígua com que se portaram frente aos valores patriarcais e o lugar social da mulher na sociedade brasileira. Instruídas na mais fina educação de recato e obediência aos princípios morais e filhas da elite branca, aristocrática, elas parecem inserir-se no rol de escritoras bem-comportadas, ou seja, mulheres que, sem alterar a posição privilegiada dos homens, desejavam ser incluídas em novos espaços sociais sem que isso alterasse as relações no sistema de sexo/gênero. Entretanto, se elas foram mulheres bem-comportadas, a produção delas só pode receber essa insígnia no que tange à estrutura que segue um modelo bem-comportado de escritura (situação inicial, desenvolvimento, clímax e desfecho), porque na confecção dos temas elas não foram tão bem-comportadas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Se a estrutura é bem-comportada, o tratamento dado aos temas não o é. Ainda que inconscientemente, as autoras, ao representarem, em suas obras, as desigualdades entre os sexos, a subordinação do feminino ao masculino, estavam criticando valores e construções sociais contra os quais o feminismo, por exemplo, levantou suas bandeiras de luta. A postura política empreendida tanto por Júlia Lopes de Almeida quanto por Carolina Nabuco não foi alicerçada no embate direto contra os valores e as imposições da sociedade patriarcal em que elas viveram. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Podemos dizer que, se o discurso político subjacente à produção literária dessas duas escritoras não visava à alteração nas relações de gênero, ele almejava que a mulher pudesse circular nas esferas sociais sem que fosse preciso fazer-lhes concessões. Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco fizeram do exercício literário uma bandeira de luta pela igualdade entre os sexos, de forma que as diferenças entre masculino e feminino fossem marcadas não pela segregação, mas pela valoração positiva, isto é, ansiavam pelo reconhecimento da diferença em meio à igualdade de direitos e de deveres. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entre o aparentemente ameno, elas espalharam a acidez de um olhar que, inteligentemente, conseguiu se fazer ver como ingênuo e em consonância com valores socialmente referendados. Sem negar a importância do masculino, mas, também, atentas às suas perniciosas ações, Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco erigiram uma obra que acentua a relevância social do feminino e que, mais do que um libelo à causa feminista, serviu como notável instrumento para despertar a consciência de mulheres para a opressão e para a submissão de que, durante séculos, foram acometidas e que as impediam de ter acesso a condições sociais mais justas e igualitárias. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco exerceram uma escrita literária marcada pela mescla entre a comunhão com os valores patriarcais e a crítica a tais valores. Uma escrita que podemos chamar de feminina/feminista. Uma escrita que somente em sua superfície pode ser vista como bem-comportada, mas que, em profundidade, denunciava a ausência das mulheres nas tomadas de decisão tanto no âmbito da esfera privada quanto no do espaço público, e apontava a impossibilidade feminina de decidir sobre o seu próprio destino ou de expressar seus desejos mais recônditos. Enfim, uma escrita em que, mais do que se digladiarem, valores conservadores e inovadores encontram-se amalgamados, como se estivessem a sinalizar a possibilidade de convivência, na esfera social, de polaridades aparentemente antípodas: masculino e feminino.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por isso, o olhar voltado à obra dessas autoras não deve procurar cobrar delas aquilo que, sociocultural e historicamente, não lhes podia ser ofertado. Exigir-lhes uma ruptura com uma ordem dentro da qual e para a qual elas haviam sido educadas é um tanto quanto descabido. Nossa postura não está, todavia, eivada de condescendência para com as autoras; mas procura fazer (re)lembrar que a avaliação das obras das escritoras em estudo não pode deixar de lado as condições e as injunções sob as quais elas foram produzidas. Assumimos, portanto, uma perspectiva que reconhece a importância dessas escritoras na constituição de uma tradição literária feminina em nossa história, principalmente por desbravarem caminhos para outras mulheres-escritoras que lhes vieram na esteira e, uma vez sedimentadas determinadas condições, puderam romper com a ordem estabelecida e, na busca por inclusão em novos espaços sociais, intentaram alterar as relações de gênero. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao estudarmos as obras de Júlia Lopes de Almeida e de Carolina Nabuco, assim como a imensa produção literária oitocentista escrita por mulheres, é preciso, antes, aprendermos a ler essas obras a partir de critérios e pressupostos que não sejam os mesmos de que nos valemos para lermos e avaliarmos obras que já se encontram no cânone. Esse cuidado nem sempre é levado em conta, mas tem sido bastante evidenciado nos trabalhos de releituras empreendidos pela crítica literária feminista que tem evitado cobrar das autoras e das obras resgatadas um engajamento político-ideológico. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Por terem escrito conforme permitido pelo quadro ideológico da época, Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco não podem ter o seu valor diminuído. A obra delas reflete um rico período de transição finissecular da nossa sociedade, principalmente no que tange à condição feminina e às transformações na esfera política, social e econômica do país. É uma obra que é produto direto dessa sociedade, a qual não ofereceu às escritoras as condições para outro tipo de escrita tampouco para outros temas. Elas, portanto, sofreram, em seu trabalho nas Letras, do mal da época que incluía a falta de instrução, de direitos legais, o não reconhecimento das mulheres como cidadãs. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Entretanto, devemos reconhecer, dentro da moldura do tempo, o esforço de ambas as escritoras, Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco, que procuraram fazer da escrita um meio de obter vista e voz quando a palavra de ordem era calar-se, já que nasceram e viveram em meio a todo um ambiente que clamava pelo silenciamento da voz feminina, embargando, sem obter muito sucesso, as tentativas empreendidas pelas mulheres em prol do direito de se fazerem partícipes em nossa República das Letras. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ao final de minha fala, gostaria de reiterar apenas mais uma única coisa: dizer que o texto apresentado como tese a esta universidade, mais do que o cumprimento de uma formalidade, revela mais uma etapa de minha formação profissional e intelectual. Como tal, ele traz consigo as marcas de minha imaturidade, mas também revela alguns pontos em que eu pude amadurecer não só como pesquisador, mas como ser humano. Enfim, o resultado final é de minha inteira (ir)responsabilidade.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;﻿&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-808171344257255965?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/808171344257255965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=808171344257255965' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/808171344257255965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/808171344257255965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2011/04/texto-de-defesa-da-tese.html' title='TEXTO DE DEFESA DA TESE'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7855997095293768248</id><published>2010-09-26T19:23:00.000-07:00</published><updated>2010-10-11T06:33:45.627-07:00</updated><title type='text'>POEMAS EM RASCUNHO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/TJ__y86CbPI/AAAAAAAAALo/lhVRwZr9XbE/s1600/poesia3.jpg" imageanchor="1" style="margin-left: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/TJ__y86CbPI/AAAAAAAAALo/lhVRwZr9XbE/s1600/poesia3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;smallfrac m:val="off"&gt;&lt;dispdef&gt;&lt;lmargin m:val="0"&gt;&lt;rmargin m:val="0"&gt;&lt;defjc m:val="centerGroup"&gt;&lt;wrapindent m:val="1440"&gt;&lt;intlim m:val="subSup"&gt;&lt;narylim m:val="undOvr"&gt;&lt;/narylim&gt;&lt;/intlim&gt;&lt;/wrapindent&gt;&lt;/defjc&gt;&lt;/rmargin&gt;&lt;/lmargin&gt;&lt;/dispdef&gt;&lt;/smallfrac&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;I.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;; font-size: 8pt;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;EU –&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;a teus pés&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;TU –&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;i&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;em meus braços&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;II.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Notei a sua ausência&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;mas&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Não senti a sua falta.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;III. &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;E o seu silêncio&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;esgarçou&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;a minha alma,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;suave e leve,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;como o roçar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;d’ uma navalha&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;IV.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Houve um tempo&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;(em que o meu gostar&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;se conjugava como amar)&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;que não mais se ouve.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;V.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Antes: &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;a necessidade, a falta. &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Só você.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Agora:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;o cansaço, o alívio.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&amp;nbsp;Apenas eu.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;VI.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Como um monarca,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;deposto,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;saíste do meu coração.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;VII.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Entre mim e você,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;uma união,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;amalgamada, &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;por minhas concessões.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;VIII.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;No diário antigo,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;o bilhete perdido,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;o sonho esquecido:&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: black; font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Sentir, no calor &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: black; font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;do corpo,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="color: black; font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;o afeto da alma.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;IX&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;Dos seus vazios,&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;fiz os meus&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;espaços &lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: normal; margin: 0cm 0cm 0pt 177pt; text-align: justify;"&gt;&lt;b&gt;&lt;span style="font-family: &amp;quot;Bodoni MT&amp;quot;, &amp;quot;serif&amp;quot;;"&gt;de movência.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Batang;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; X&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Batang;"&gt;Da manga,&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Batang;"&gt;o cheiro maduro:&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Batang;"&gt;saudades&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-family: Batang;"&gt;de você.&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7855997095293768248?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7855997095293768248/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7855997095293768248' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7855997095293768248'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7855997095293768248'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/09/rascunhos-de-poemas.html' title='POEMAS EM RASCUNHO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/TJ__y86CbPI/AAAAAAAAALo/lhVRwZr9XbE/s72-c/poesia3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-8567511363911084574</id><published>2010-03-30T05:05:00.000-07:00</published><updated>2011-11-02T21:32:17.203-07:00</updated><title type='text'>CARTA PORTUGUESA APÓCRIFA</title><content type='html'>&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: center; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;I&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: medium; font-weight: normal; line-height: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 10pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;br /&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;; font-size: medium; font-weight: normal; line-height: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 10pt;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S7Ho4UIoMvI/AAAAAAAAALU/YDyh8Ga9D9A/s1600/escritos.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="175" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S7Ho4UIoMvI/AAAAAAAAALU/YDyh8Ga9D9A/s200/escritos.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;b style="mso-bidi-font-weight: normal;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 24pt; line-height: 150%;"&gt;G&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/b&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;ostaria de começar dizendo que, ao escrever para ti, insiro-me naquela tradição de missivistas ridículos a que se refere Álvares de Campos, ao dizer que todas as cartas de amor são ridículas. No entanto, como ele mesmo trata de se justificar, somente aqueles que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículos. Ridículo ou não, eu precisava escrever-te. Queria que cada palavra compusesse uma parte de ti que sonhei em ter para mim. Inútil paisagem. Mas cada uma delas é uma tentativa vã de preencher a tua ausência em mim, vazio que me corrói, mas hiância de que me alimento. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Cada palavra, pensada, antes de ser escrita, era uma forma de eu tentar entender como cheguei ao estado em que estou, neste exato momento em que escrevo estas palavras que queria que fossem tuas, mas que são apenas minhas. Estas palavras que deveriam ser para ti, porém, são para mim mesmo. Ainda que eu queira, não escrevo para ti. Escrevo para mim mesmo, para alimentar a dor que me causaste, única marca de ti em mim. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Espero o dia em que as lembranças dessas palavras soem a mim ridículas. Todavia, até lá, vou, passo a passo, afundando-me nessa ausência que me sufoca. Como posso sofrer por algo que não foi meu? Queria tanto que respondesses às minhas perguntas! Mas elas morrerão comigo. Não cometerei duas vezes o mesmo erro. Pelo primeiro, que foi gostar de ti, ainda sofro. Pelo segundo, que foi perguntar por que me recusaste, tive mais ainda intensificada a dor advinda do primeiro. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Desde então, meu telos é sofrer. Mas para que tanto sofrimento? !Não sei responder, ainda que eu tenha na alma dilacerada os esboços de uma resposta. Eu que não aprendi a sofrer a minha dor resignadamente! Com ela, a ti só fiz acentuar o ridículo em que me tornei. Confessas que me achavas assim: RIDÍCULO. Queria poder ouvir gritares para mim. Mas não, insistias em fazer-te presente. E não sabes como a tua presença aumentava a minha dor! Queria poder fugir, mas algo me tragava a ti.&amp;nbsp; Era inútil lutar contra o que não se queria lutar. Era inútil dizer que me afastaria de ti ou pedir que te afastasses de mim. Qualquer tentativa minha de fuga era &lt;personname productid="em v￣o. N￣o" w:st="on"&gt;em vão. Não&lt;/personname&gt; adiantava fugir, quando eu queria estar próximo, sentir, mais do que o seu corpo, a sua presença! Foste a metade que era preciso arrancar de mim, mas que eu queria que ficasse colada ao peito, ainda que me fizesse doer. Eu suportaria o latejar da dor para que tu não te fizesses em mim ausência. Ausente era eu, que precisava de ti para me preencher! Ah, Mariana, agora entendo o teu sofrer! Eu, que rias de ti, vejo-me em situação deplorável! Sóror Mariana, intercede por mim para que, se não aplacada, seja, ao menos, a minha dor aliviada!&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Olha, não quero que penses que eu estou com raiva de ti. Enviei-te aquela mensagem porque achei que aquele seria o momento de saber o porquê de uma pergunta cuja razão de ser nem sei se existe mais ou se existiu alguma vez. Deve ter existido, pelo menos em minha cabeça. Por que não eu? O que me faltava? Essa pergunta foi um fantasma que me rondou durante muito tempo. Se, ao menos, tivesses me dito que em mim não faltava nada. Que eu não te servia não por falta, mas por excesso! De amor, de atenção, de entrega. E que tu não estavas preparado para ser responsável por aquele cuja vida estava a depositar em tuas mãos. Talvez, seja essa a única queixa que eu tenho de ti. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Hoje não me interessa mais saber por quê. Se não te pronunciasses, era porque achavas que não era preciso dizer nada. Mas não sabes o quanto sofri com o teu silêncio que me doía muito mais do que a tua recusa, a tua indiferença, a tua confissão de novos amores, de teus encontros fortuitos aos quais eu me entregava a imaginar! &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Quando, naquela mensagem, eu te falei que deverias ter sido mais claro e objetivo, estava referindo-me ao fato de que, quando percebeste o meu interesse, que estava descambando para algo bem diferente de uma amizade, poderias ter tido uma conversa franca e ter-me dito: “Não se iluda, eu não gosto de você do jeito que você pensa ou que você quer que eu goste”. Teria sido menos doloroso e já teríamos resolvido coisas que hoje ainda empurramos e que talvez ameace aquilo que mais prezo em ti: a amizade, ainda que seja essa a grande mentira de que eu me alimentava. Terias encurtado tanto o meu sofrer! Mas não, calavas-te e, assim, alimentavas-me as minhas projeções. Não digo esperanças. Essas morreram nos primeiros meses alimentadas pela tua indiferença. Desde, então, pesa-me viver. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Ainda assim, não vou negar que gosto de ti, que sinto ciúmes e até mesmo falta. &amp;nbsp;Tu sabes que qualquer negativa seria falsa. Queria tanto que soubeste a falta que me fazes! Como algo que não nos pertenceu pode fazer tanta falta?! Creio que por isso mesmo, por nunca ter te tido, é que me tornaste mais e mais necessário, objeto precioso por ser-me inacessível. A falta do que poderia ter sido, mas não foi dói mais do que a falta do que foi e hoje não é mais! Estranho labirinto da saudade.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Passados esses anos todos, gosto, ainda, de ti de um jeito que não sei explicar, de uma maneira que só pode ser expressa respondendo, como Montaigne o fez diante do amigo morto: “Porque és tu; porque sou eu”. Não sei o que vi. Apenas que gosto. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Não sei por que não tiveste aquela conversa por que ansiei mais do que os teus próprios beijos. Ainda me lastimo por isso, muito mais do que por tua recusa. Talvez preferisses calar-te pelo mesmo motivo por que eu também me calei, recusando-me a ter aquela conversa, e que me fez, de certa forma, adiar declarar-te que tu eras desejado por mim: o medo de perder alguém que, de repente, se me tornou importante. Como eu queria que, de repente, a dor que sinto por ti se dissipasse em mim! Mas ela, irremediavelmente, resiste a todas as formas de que me valho para aplacá-la. &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Só que o meu medo não tinha razão de ser: eu não temia perder-te. Eu temia perder a imagem de ti que eu criara &lt;personname productid="em mim. O" w:st="on"&gt;em mim. O&lt;/personname&gt; doloroso não foi perceber que não me “amavas”, uso esse verbo na falta de outro melhor, na mesma proporção em que eu te amava. Não vou dizer que não sentiste nada por mim. Sentias, sim. Quero acreditar que sentias! Não te quero atribuir a culpa da indiferença completa a mim. Mas fui egoísta de mais, exigindo só para mim o que também dividias com os outros: carinho, atenção, amizade.&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;&amp;nbsp;Eu não soube amar sem exigir nada &lt;personname productid="em troca. Eu" w:st="on"&gt;em troca. Eu&lt;/personname&gt; amava, mas queria como recompensa a ti, somente a ti. Strani amore. Mas o doloroso foi perceber que eu amava uma projeção criada por mim mesmo. Se tiveste culpa, e não queria aqui achar culpados nem inocentes, foi apenas de teres sido escolhido por mim para seres o centro de minhas projeções. Mas neste caso a culpa não foi tua, ela foi minha mesmo.&amp;nbsp; E hoje sou juiz e algoz de minha própria dor!&amp;nbsp; &lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Vendo os fatos agora, acho engraçado que, apesar de desejar de ti um único beijo, só isso apenas, eu não desejei ou imaginei nada, além disso. Ainda não te desloquei do meu centro de projeção. Não sei quando farei isso. Mas quero que saibas que, independentemente de ainda seres ou não esse centro, ainda tu me importas. Procurei sofrer a minha dor resignadamente. Entretanto, não consegui. Falhei todas as vezes em que tentei. &amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;&lt;span style="font-family: Garamond; font-size: 14pt; line-height: 150%;"&gt;Queria tanto que me tivesses ensinado a não gostar de ti como eu ainda estou a gostar! Ensina-me a desprender-me de ti, a soltar-me, a deixar que vás embora. Na falta dessas lições, inicia-se para mim um novo tempo: o de recolher-me. O da revolta já passou! Preciso, tal qual fênix, renascer. Por enquanto estou a sobrevoar o hades, a desviar-me das chamas em que me consumo desde quando o meu olhar mirou o teu. Olhos nos olhos. OLHARES. Minha perdição. Se eu soubesse o que me iria acontecer, teria desviado os meus olhos dos teus aos quais me prendi como se tivesse sido petrificado pelos olhos da medusa e, por isso, ainda vivo a arder neste inferno que é te amar. &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-8567511363911084574?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/8567511363911084574/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=8567511363911084574' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8567511363911084574'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8567511363911084574'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/carta-portuguesa-apocrifa.html' title='CARTA PORTUGUESA APÓCRIFA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S7Ho4UIoMvI/AAAAAAAAALU/YDyh8Ga9D9A/s72-c/escritos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-6757105562211247398</id><published>2010-03-20T14:59:00.000-07:00</published><updated>2010-06-20T22:42:21.582-07:00</updated><title type='text'>O ÚLTIMO ENCONTRO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6VErjXjTcI/AAAAAAAAALE/Gei8cJtanok/s1600-h/homemandandodiadechuva.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6VErjXjTcI/AAAAAAAAALE/Gei8cJtanok/s320/homemandandodiadechuva.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;Para FVMP &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Acordara ao som do telefone. Ainda sonolento, do outro lado da linha, ouviu uma voz que há muito ele resolvera esquecer. “Preciso vê-lo mais uma vez. Por favor, venha logo”, pôde escutar, enquanto o som ia, paulatinamente, tornando-se quase inaudível. Pensou que estivesse ainda dormindo. Pegou o telefone: “– Alô! Alô! Quem é? Isso não são horas de passar um trote. Quem é?”, perguntou meio que irritado. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Do outro lado, já não era a mesma voz. Por isso, viu-se obrigado a pedir desculpas. Era feminina a voz &amp;nbsp;que se identificou como sendo atendente do Hospital Regional. Pensou, logo, na mãe ou no irmão com os quais há tempos não falara. Mas não era sobre eles de que se tratava. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A moça perguntou-lhe se podia comparecer à unidade de terapia intensiva ainda naquela manhã. Havia um paciente que insistia em vê-lo. Era bom que não se demorasse.  Ao ouvir o nome que a atendente lhe dissera, vieram-lhe várias lembranças que, há muito, empenhara-se em esquecer. Repassou-lhe os dados que lhe foram pedidos e confirmou que iria ao hospital ainda durante aquela manhã. Não se demoraria. Anotou o número da enfermaria: 227. Procurou vestir-se o mais rápido possível, enquanto telefonava para o serviço de táxi. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Depois de tantos anos, quando ele pensava que o passado havia sido apagado, a vida, de súbito, lho trazia naquela manhã de dois de agosto, como tristes trastes deixados escondidos em algum canto de uma antiga gaveta de guardados perdida entre as velhas tralhas largadas no sótão da memória. Ele ainda tinha guardado o seu número de telefone. “Por que, nesses anos todos, nunca ligara?”. Era inevitável aquele encontro. Talvez, agora, pudesse ajeitar as coisas que ficaram pendentes e que eles, ao invés do ponto final, resolveram sustentar à base de reticências. “Bem que poderia ser em outro local”, pensou consigo, enquanto penteava o cabelo de frente ao espelho. Desde criança, sentia ojeriza a ambientes hospitalares. O cheiro de morte a percorrer cada um dos corredores o espantava. Sentia-se intimidado. Temia ser uma daquelas pessoas para quem a vida não era mais incerteza alguma.  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “ – Estou cansado”, dissera-lhe. Teve vontade de completar a frase: “Estou cansado de mim, de você, de saber que só liga para mim quando precisa de algo. Enfim, cansei de estar sempre presente para você e receber como recompensa as suas ausências temperadas com o que era pior: a sua indiferença. Estou cansado de ser usado à minha revelia”. Disse-lhe apenas aquela primeira frase, enquanto fechava a porta, deixando de lado um mundo que já era para ter ficado para trás. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Passaram-se mais de dez anos depois daquela última conversa. A vida foi seguindo seu rumo. Nos primeiros meses, as lembranças batiam ao peito que latejava, mas, depois, cessava: aprendera a curtir a dor da separação, a fazer das recordações acalanto para uma dor que, pouco a pouco, foi deixando de doer, que perdera a sua razão de ser. Os anos vieram e, só uma vez ou outra, é que lhe vinham à memória o nome, a lembrança do sentimento acalentado, mas as imagens não eram tão mais nítidas como antes. Embaçara-se algo. Vago, fluido, tudo parecia ser, agora, a paisagem de um quadro impressionista.    &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “– Por que você está ao meu lado, se todos, inclusive você mesmo, dizem que eu não presto?”, foi a frase que lhe veio à memória, enquanto, já no táxi, dirigia-se a caminho do hospital. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aquela pergunta, durante o jantar na casa dele, quando ainda podiam sorver da companhia um do outro, continuava a  reverberar em sua cabeça.  Feita assim, de chofre, ela havia-lhe desconcertado, deixando-o sem resposta alguma. Mas, renitente, a pergunta persistia, como a resistir ao esquecimento, e exigia-lhe uma resposta que creio ainda ele não ter, mesmo depois de passados tantos anos. Veio-lhe à mente ter sido aquela uma das poucas vezes em que o Outro o deixara sem resposta. Ainda assim, depois de muito pensar, ao longo desse tempo todo em que nem mais se lembrava da imagem daquele que, agora, agonizava, embora a imagem dele já estivesse há muito corroída pelo tempo, pelo esquecimento necessário, aquela pergunta manteve-se viva; incólume, ela resistia qual enigma semelhante ao da esfinge, a esperar seu Édipo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Das vezes em que se detivera sobre o que lhe fora perguntado naquele dia, ele, não encontrando resposta, pensava que poderia ter dito, simplesmente, que vivia ao seu lado porque gostava dele. Sim, gostava de uma forma que, ainda hoje, não sabia explicar. Apenas, sentia-se bem ao lado daquele de quem, em tempos outros, gostava com uma intensidade muito maior do que naquele tempo em que lhe fora feita aquela pergunta: “– Por que você vive ao meu lado, se eu não presto?”. “Ah, se fosse fácil, desfazer-se de quem gostamos!”, suspirou com tal intensidade que o motorista do táxi perguntou se ele estava bem. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lembrou-se das muitas palavras que, em noites de mais aguda tristeza, escrevera e que, mesmo reveladas, passaram indiferentes ao Outro: “Tornei-me a noite, enquanto você tornou-se-me o orvalho, negro orvalho, por que passei a ansiar, apesar. De tanto amá-lo, não só ofereci o que eu era, como também tentei oferecer o que eu não era e, talvez, o que eu nem chegasse a ser. Agi da forma que só aos loucos é dado a entender. Por isso, não me preocupei que me entendesse, apenas queria ser amado na mesma proporção em que eu amava. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora, em que a vida lhe chamava para aquela prestação de contas, ele tinha a certeza de que, naquela época, dia a dia, afundava-se, cada vez mais, em suas próprias projeções. As cartas escritas, os bilhetes enviados, as músicas ouvidas, os cheiros sentidos, as lembranças guardadas, tudo fora parte de uma só lancinante sinfonia: a dor de quem não podia ter a quem elegera como o escolhido. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Agora, não mais temia deparar-se com o passado. Era preciso ajustar as contas, resolver aquilo que fora deixado olvidado, arrastado, por muito tempo, como uma ferida que, fechada, nunca cicatrizara de vez. O tempo de sofrer já passara. Ainda, assim, o perdido lhe deixava confundido, porque não mais lhe doía, como antes, mas lhe deixava a saudade das coisas findas, amigável fantasma com quem somos obrigados a aprender a conviver. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Houve um tempo em que aquele meu gostar se conjugava como amar. Eu amava inclusive tudo o que doía em você porque era o que também doía em mim. Mas o meu não era o amor liquefeito a que você estava acostumado a dar e a receber. O risco era inevitável em um bordado cujo centro eu queria que fosse só você. Paguei o preço, mas não sei se recebi o troco merecido. Também não o quero mais saber. Hoje, bordado não mais há; ficou-me apenas o risco. Houve um tempo em que os sentimentos gestados não mais se ouvem. E por me ter feito sofrer, mais e mais eu aprendi a amá-lo. Tanto que, àquela época, só podia ver em você virtudes, mas vício nenhum”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Foi-se o tempo em que você fazia-me falta. Você tornou-se apenas um corpo que agora se despede da vida”, ressentido, pensou em dizer aquelas palavras, mas não havia mais tempo para ressentimentos e também não era isso que ele queria dizer. A hora da despedida também era a hora para o encontro. Estava ali para dizer ao Outro que já podia partir tranqüilo. E, o que mais lhe queria falar, porém, é que guardaria sempre as lembranças daqueles dias anteriores à separação, das conversas que, hoje, tinham cheiro e gosto de jogado fora, mas que, ainda, resistiam ao tempo e à distância, como o cheiro suave de um perfume a preencher, em vão, as faltas de que e para as quais somos feitos. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-6757105562211247398?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/6757105562211247398/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=6757105562211247398' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6757105562211247398'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6757105562211247398'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/o-ultimo-encontro.html' title='O ÚLTIMO ENCONTRO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6VErjXjTcI/AAAAAAAAALE/Gei8cJtanok/s72-c/homemandandodiadechuva.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-4563227367118112547</id><published>2010-03-17T17:30:00.000-07:00</published><updated>2010-03-17T17:32:11.550-07:00</updated><title type='text'>DIZENDO ADEUS</title><content type='html'>&lt;div align="center" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: auto;"&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6F0FQs_NWI/AAAAAAAAAKs/94lqJRL8NG0/s1600-h/WaterhousePenelope.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="216" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6F0FQs_NWI/AAAAAAAAAKs/94lqJRL8NG0/s320/WaterhousePenelope.jpg" width="320" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;“Navegar é preciso, viver não é preciso”. Essa frase, há muito, trago-a na memória. E dela me aproprio para dizer que rememorar é preciso, viver não é preciso. Ou seja, é preciso trazer à memória aquilo que estava imerso nas densas águas do rio Lete. E quando empreendemos singrar contrários ao curso desse rio, navegamos por mares sempre desde antes esquecidos. Nessa demanda em busca desse graal, que desconhecemos e que é sempre um eterno devir, somos impulsionados sem nem sequer sabermos que estamos nessa empreitada. E assim com fios que muitas vezes desconhecemos, seja porque invisíveis, seja porque, mesmo visíveis, não os percebemos, vamos tecendo um bordado no qual somos mais o desenho que, ponto a ponto, está sendo confeccionado do que o próprio bordador. Espécie de Penélope, tecemos não a fim de que Ulisses retorne, mas a fim de nos conhecermos a si próprios. Ulisses somos nós mesmos. Por isso, o nosso bordado é um contínuo traçar e destecer fios a fim de compor um desenho que se nos afigura como inefável. Mesmo assim, numa empresa que não é vã, tecemos e no traçado das quase sempre nem bem traçadas linhas, um ponto une-se a outro que, por sua vez, liga-se a mais outro e, assim, vão compondo esse bordado que me revela, me desvela, me esconde, me expõe. E como sempre estamos bordando novos bordados para este grande tecido a que chamamos vida, bordamos uns, destecemos outros. Guardamos estes, escondemos aqueles. Mas todos esses bordados trazem em si as marcas não só de nós mesmos como de outras pessoas. Pessoas que nos trouxeram alguns novelos, sugeriram pontos, cores para o nosso bordado, ouviram nossas angústias diante da dificuldade em algum ponto, compartilharam nossas alegrias quando o bordado estava pronto e era preciso começar mais um outro, em um novo tecido, com novas cores, pontos novos, desenhos ainda a serem pensados. Sendo assim, gostaria de agradecer às pessoas que com um sorriso, um abraço, uma palavra de incentivo fizeram com o ano de 2009 fosse bordado com cores alegres, tão alegres que ofuscaram os matizes de tristezas que vez por outra tentavam borrar o contorno de nosso bordado de 2009.&amp;nbsp; Se, ao longo deste ano que finda, pudemos pintar o sete e desenhar o oito, acreditamos que o mais que fizemos foi bordar. E assim, pude bordar um novo cenário para mim em Monteiro, onde pude, durante os meses em que fiquei hospedado por Raquel, firmar os laços de uma amizade que começara a ser bordada nas aulas da UFCG. E hoje, eis que aquela menina que ainda pensava em trabalhar com Virgilio Ferreira (ou era outro português?) encontra-se como água para chocolate, tecendo um bordado que a eternize em vida: seja bem vinda Laurinhaaaaaaaaa. Se Raquel foi a ponta de meu bordado, a outra ponta (não sei se a direita ou a esquerda) foi Aldinida. Minha cara super-ego. Apesar de não gostar dessa forma pós-moderna de afeto, sempre receosa de me dar conselhos, tão bem vindos, para determinadas partes de meu bordado. Creio que, em Monteiro, pudemos firmar os laços que deixamos entrelaçar quando estávamos fazendo o concurso de 2007 e eu a vi andando pelas ruas de Campina como uma lady. Hoje a vejo como Inês a esperar seu Pedro. Joana, minha querida leitora, com você pude compartilhar as minhas alegrias e tristezas plasmadas esteticamente, confessando certos segredos via literatura. Também não posso esquecer dos copos de cerveja, de vinho que, solidariamente, compartilhamos, seja na pizzzaria, no Saborear, em Sertânia, ou simplesmente lá &lt;st1:personname productid="em casa. Obrigado" w:st="on"&gt;em  casa. Obrigado&lt;/st1:personname&gt; pela sua atenção, seu carinho, seu jeito canceriano de ser. Que 2010 seja pródigo em novos contos!!! Shirley, que, antes rainha da perimetral, veio, das terras da Galícia, ser a outra ponta do meu bordado onde ficaram desenhadas as imagens e os sons da palhoça Zé Marcolino, nosso portal para o umbral onde deixamos as luzes de nossos sorrisos e o calor de nossas danças. Por fim, a você, que poderia ter sido o centro do meu bordado, mas se satisfez com um dos quadrados à sua escolha. Gostei de tê-lo conhecido, Victor, dos momentos em que assistimos a filmes, em que falamos de nossas alegrias e tristezas, mas sobretudo do momentos em que, unidos, procurávamos criar imunidade a Monteiro, tentando, quem sabe, escrever os esboços de uma estética de (nossa) existência. Se este texto se abre com dando adeus, é porque o nosso bordado de 2009 está quase concluído, é preciso escolher novos tecidos, novos fios, novas tintas para o bordado de 2010. Tudo pode ser novo, mas espero que, nas cartografias que hei de desenhar no meu bordado de 2010, vocês estejam presentes para que, aos poucos, possamos ir juntando um ponto, tecendo outro deste bordado que ainda não terminei, que ainda está se constituindo, que, a cada girar da roca de fiar, toma formas que nem sempre foram previstas por mim. Enfim, o texto é escrito é um único parágrafo, porque espero que estejamos unidos e possamos continuar compartilhando alegrias (e as inevitáveis tristezas) nessa trajetória de roteiros vários, ainda, sem ponto final, apenas reticências...&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; margin-left: 247.8pt; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style: normal;"&gt;Obrigado,&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;Brâmane de ouro e prata.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right; text-indent: 35.4pt;"&gt;Monteiro, noite fria de 20 de dezembro de 2009&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-4563227367118112547?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/4563227367118112547/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=4563227367118112547' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4563227367118112547'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4563227367118112547'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/dizendo-adeus.html' title='DIZENDO ADEUS'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6F0FQs_NWI/AAAAAAAAAKs/94lqJRL8NG0/s72-c/WaterhousePenelope.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-8890549438471521172</id><published>2010-03-17T17:11:00.000-07:00</published><updated>2011-01-29T17:11:11.124-08:00</updated><title type='text'>Porque escrevo</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6FvOaegvoI/AAAAAAAAAKc/TjUG7aF4mjc/s1600-h/narciso-21.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6FvOaegvoI/AAAAAAAAAKc/TjUG7aF4mjc/s320/narciso-21.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Como resolvi postar novamente os meus contos, acho interessante (para mim) postar também esta carta-resposta que escrevi a uma amiga que me fez algumas perguntas sobre os meus contos. Segue, portanto, a resposta.&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Jackelaine,&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;Sinto-me numa situação incômoda ao ter de falar sobre os meus escritos, os quais, pensei, não deveriam ter saído da minha gaveta de guardados; mas a vaidade de ser lido foi maior e eu mandei para um ou outro amigo que foram lendo e gostando, dando uma sugestão aqui, um pitaco acolá sem que eu nem sempre concordasse com eles. Esse incentivo fez com que eu retirasse da gaveta de guardados os textos. Olhe que uns, os da época do Premen, realmente passaram muito tempo de molho. Como uma de suas perguntas era sobre qual ou quais desses contos escrevi no tempo de estudante de ensino médio, digo-lhe que “A partida” e “Prestação de Contas” surgiram de esboços de redação pedida numa das aulas de português. Eles foram reformulados e encontram-se na versão que você leu. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;O conto “A partida” foi publicado na Revista Cordeletras, como sendo de ..., um dos meus pseudônimos. Ainda não cheguei a ter a criatividade de Fernando Pessoa para a criação de heterônimos. Os meus são sempre pseudônimos. Eu me escondo por detrás deles. Mas voltando à gênese dos contos, afora aqueles dois a que me referi antes, os demais foram produzidos entre 2007 e 2008. Apenas os dois últimos foram escritos este ano, já estando eu aqui em Monteiro.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;Você poderia me perguntar por que resolvi escrever. A primeira resposta seria: escrevo como conseqüência do fato de eu ser um leitor, não diria ávido, mas um leitor acima da média. Tenho verdadeira compulsão por livros. E, como você sabe um pouco de minha vida, deve saber também que a leitura foi um subterfúgio para que, apesar de todas as agruras que marcaram a minha vida, eu continuasse a acreditar na vida, mesmo havendo tantos apesares: as parcas condições econômicas, a relação nem um pouco amistosa com meu padrasto, a falta de afeto &lt;/i&gt;&lt;personname productid="em casa. Desde" w:st="on"&gt;&lt;i&gt;em casa. Desde&lt;/i&gt;&lt;/personname&gt;&lt;i&gt; pequeno, senti-me meio que deslocado do mundo. Por isso, eu lia. Ler era uma forma de compartilhar as alegrias de que eu não podia desfrutar com pessoas de carne e osso, apenas com aqueles seres de papel. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;As personagens dos romances, contos não só dividiam alegrias comigo, mas me ensinavam a conviver com as minhas tristezas, as minhas dores. Daí vem o segundo motivo por que, de súbito, eu resolvi escrever. Os contos são formas de eu exercitar as minhas alegrias, as minhas tristezas. Como eu me sinto um ser triste, melancólico, apesar de não aparentar, os meus textos são permeados de tristeza, de melancolia. Ora, quem só encontrou tristezas pode falar de alegria? Mas calma, e aqui talvez seja o professor de literatura que está a falar, tudo isso que eu disse sobre os meus contos pode ser uma encenação. Escrevo sobre coisas tristes porque, como disse numa de minhas aulas, a tristeza só me é bela se plasmada artisticamente e, só assim, ela vale a pena ser vivida.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;Você me pergunta se as vozes em meus contos são todas femininas. Eu diria que não. Existem vozes femininas e vozes masculinas. O problema é que as vozes, quando masculinas, se assemelham às vozes femininas porque, em alguns casos, ambas falam de suas dores advindas dos desencontros amorosos, da indiferença do ser amado. No caso das vozes masculinas, o outro do seu afeto é do mesmo sexo. E falar de um homem que gosta de outro homem não me fácil. Por isso, como espécie de escamotear essa homoafetividade que permeia uma parte significativa dos contos deste livro, é a possível não sei se diria ambigüidade ou neutralidade, agora não sei, da utilização do par ele X outro. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;Não sei se isso seria suficiente para dizer que esses contos são literatura gay. Até porque não sei o que de fato caracteriza uma literatura gay. Se for pela temática, os contos podem ser enquadrados. De qualquer forma, creio que podemos falar na presença de uma homoafetividade nesses contos. Só posso dizer isso, porque não entendo nada dos estudos queer. Apenas o desejo de estudar mais sobre o assunto, assim que terminar o doutorado. &lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify; text-indent: 35.4pt;"&gt;&lt;i&gt;Agora me lembrei de uma pergunta sua sobre as pessoas a quem eu dediquei os contos. Todas elas são pessoas com quem eu convivi ou com quem convivo. Os contos não foram escritos pensando nelas. Apenas dois ou três foram escritos tendo na mente a pessoa a quem eu dediquei, seja porque me pediu para escrever o conto, seja porque eu me senti encantado pela pessoa e quis escrever o conto como um presente que queremos dar quando estamos embevecidos por alguém. Os outros foram dedicados como uma simples forma de demonstração de afeto que sinto pela pessoa cujo nome consta na dedicatória, mas foram escritores sem ter em mente esta pessoa.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;i&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Por fim, ainda relacionado à questão das vozes em meus textos, se são masculinas, se são femininas, digo-lhe que são vozes humanas que busquei representar. Acho que é isso: todos os textos que você leu buscam representar o humano, com suas alegrias, mas, sobretudo, com suas tristezas e angústias diante da recusa ou decepção amorosas ou diante do próprio existir. Talvez, essa seja, de fato, a grande temática do livro, algo que, como um vitral, é composto de pequenos cacos. Na construção desses personagens, de seus dramas, busquei encontrar-me a mim mesmo. E o pleonasmo aqui é bem intencional. &amp;nbsp;Se há alguém que se sentiu tocado é porque deve trilhar, ainda que por outras veredas, esse longo caminho que é a existência que se torna menos árdua quando encontramos alguém com quem compartilhá-la, seja como companheiro, seja como leitor, mas sendo sempre uma companhia.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right" class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: right;"&gt;Monteiro, 03 de outubro de 2009 &lt;/div&gt;&lt;div class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;span style="mso-spacerun: yes;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-8890549438471521172?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/8890549438471521172/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=8890549438471521172' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8890549438471521172'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8890549438471521172'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/porque-escrevo.html' title='Porque escrevo'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6FvOaegvoI/AAAAAAAAAKc/TjUG7aF4mjc/s72-c/narciso-21.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-796436927591131387</id><published>2010-03-16T16:13:00.002-07:00</published><updated>2010-03-16T17:24:02.526-07:00</updated><title type='text'>DOCE NOVEMBRO</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AcexEDXEI/AAAAAAAAAIc/tOFNQVKDU30/s1600-h/tbil2008400400ee7.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" height="200" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AcexEDXEI/AAAAAAAAAIc/tOFNQVKDU30/s200/tbil2008400400ee7.jpg" width="200" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Para Leucio de Farias Guilherme&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Há pessoas que nem as escutamos, há pessoas que nos ferem&amp;nbsp;e&amp;nbsp;nem cicatrizes deixam, mas há pessoas que simplesmente&amp;nbsp;aparecem em nossas vidas e nos marcam para sempre.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Cecília Meireles&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;b&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; D&lt;/b&gt;epois de uma desilusão somada a mais uma, enfim a dezenas de tantas outras desilusões, Marcos, como lhe aconselhara uma velha amiga, resolvera cair na real. Apostava que, daquele momento para frente, tudo seria diferente. Aquele por quem se apaixonara deveria cair no esquecimento há muito necessário, como aquelas coisas que é preciso que perder pela vida. Prometia isso a si mesmo. Era preciso acreditar nisso, ainda que pudesse vir a ser mais uma de suas vãs ilusões.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Na junção de suas carências, amalgamando ausências e ansiando por afetos há muito negados, deixara, sem perceber a dubiedade dos gestos e a ambigüidade dos olhares, deslumbrar-se por aquele a quem, como ele mesmo lhe dissera, devia ter visto como apenas um amigo. Fora condenado pelo simples fato de que, à revelia de sua vontade, se apaixonara por aquele de quem se aproximara sem nada esperar, esperando, depois, tudo. De tanta convivência, esperava que brotasse mais intimidade; viera-lhe a recusa a pôr em ruínas todo o seu inventário de ilusões.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Colecionador de corpos, o Outro que ele quis dividia o coração com outros e também lhes ofertava o seu corpo, exceto com ele a quem sequer as migalhas eram oferecidas. Sofrera, principalmente porque não havia aprendido (ou não queria?) esquecer. “O amor é uma grande ilusão e nós não temos razão...”, dizia para si mesmo, deixando o pensamento incompleto, buscando consolo nas horas em que sentia o peito apertado.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;Mas já estava se encerrando o tempo de chorar, sofrer e lamentar. Havia aprendido a tirar proveito de sua dor e ela já estava a dar sinais de cansaço. Pouco a pouco, pararia de sofrer com aquela ausência e não mais viveria à base de tristezas, morrendo de saudades. Começava a esboçar-se para ele um novo tempo em que deveria deixar para trás o que precisava ficar para trás: era hora de fugir do inferno, em busca de seus girassóis. Do coração despedaçado, estava aprendendo a fazer, a partir dos cacos, um mosaico. Saíra fortalecido: amalgamara na dor a alegria.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Estava esperançoso de que chegasse o momento em que poderia dizer ao Outro de sua dor: “houve um tempo em que eu disse ser você importante para mim, ainda o é, embora não mais com a mesma intensidade tanto que, hoje, noto a sua ausência, mas não mais sinto a sua falta”. Vivia na esperança desse dia em que, enfim, poderia perceber-se cansado do Outro, não necessariamente do Outro, mas, como disse a poeta, cansado de si através do Outro.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; E de tanto esperar, eis que ela, não dura, mas caroável, há muito ausente, se fez presente. As coisas que a vida faz. Há horas em que ela destece qualquer possibilidade de esperança; outras vezes, reúne todos os fios e voltamos a acreditar naquilo que, antes, era só uma possibilidade remota. Entre esses mistérios que a mão do acaso nos oferece como alento, vamos, com fios que muitas vezes desconhecemos, seja porque invisíveis, seja porque, mesmo visíveis, não os percebemos, tecendo uma esperança aqui, outra ali, deixando mais uma outra acolá e, no traçado das quase sempre nem bem traçadas linhas, um ponto une-se a outro que, por sua vez, liga-se a mais outro e, assim, vão dando contornos àquilo que, muitas vezes, se nos afigura como mistério e que, entretanto, nos revela, nos desvela, nos esconde, nos expõe. A vida e seus sortilégios.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;Para Marcos, a esperança não veio verde, não tinha a forma de um ortópdero. Veio de carne e osso: estudante, vinte anos, magro, alto, lisos cabelos castanhos alourados, cicatriz no braço direito. Lúcio era o seu nome. Ele chegara quando, retalhado, o coração de Marcos, depois de tantas vezes enganado e sem mais nenhum marco, apenas marcas, ensimesmara-se. Estando Marcos à deriva, Lúcio lhe aparecera como um farol, renovando-lhe as esperanças de guarida em meio às tormentas contra as quais ainda lutava contabilizando perdas e caçando ausências.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Era novembro. Subia pela Rua Treze de Maio quando lhe deu vontade de entrar numa lan house. Mais do que ler emails, Marcos precisava distrair-se enquanto não chegava a hora de embarcar para a cidade onde estava morando. Campina agora lhe era só um porto de passagem, mas ele sentia saudades do tempo em que aqui vivera. Percorrer as ruas daquela que ainda era a sua cidade, ouvir o barulho da buzina dos carros e das motos, desviar-se deles ou sentir-lhes a fumaça a rasgar as narinas era encontrar-se com velhos hábitos com os quais, desde que se mudara, não tivera mais contato.&lt;/div&gt;&lt;div style="margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; margin-right: 0px; margin-top: 0px; text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; A nova cidade tinha aspecto de uma cidadezinha qualquer parada no tempo e marcada por uma vida cotidiana e tributável. Toda vez que viajava de lá, Marcos procurava, antes do retorno, reter a passagem das horas. Por isso, andava a esmo enquanto o tempo lhe resolvera presentear arrastando-se lentamente. Como não sabia o que fazer e lhe sobrava muito tempo antes da viagem, veio-lhe a vontade de acessar qualquer coisa na internet que lhe pudesse servir de distração. Pensou em ir à velha lan house a que sempre ia quando morava por aqui. Entretanto, de súbito, resolvera entrar numa outra a que não costuma ir. De todas as existentes ali, ele havia sido impulsionado, sabe-se lá por quem ou por que, a entrar naquela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Havia sentado numa das cabines da lan quando seu olhar cruzou-se como o do jovem rapaz na cabine da frente. Sentiu aquele frenesi. Com vergonha, desviou a vista, mas o jovem rapaz, aqui e acolá, lançava-lhe furtivos olhares. Naquele hora, o desejo de um passara a ser o desejo do outro. Passada mais de meia hora, entre um flerte e outro, Marcos criara coragem e, com as mãos, fizera-lhe gestos a indicar que queria encontrar-se com ele. Lúcio não entendera. Por isso, Marcos pegou o celular e apontou-lhe, como índice de que queria o seu número. Lúcio, agora, entendera. Pouco a pouco, foi lhe dizendo os números. Anotados, Marcos cuidou de passar-lhe uma mensagem: “Pode encontrar-se comigo, agora?”. Lúcio respondeu afirmativamente com um meneio da cabeça. Dali a pouco, saiam, ambos. Subiram a Rua Treze de Maio a conversarem como se fossem velhos amigos. Convite feito; convite aceito. Almoçaram. Nomes revelados, telefones trocados, desejos em confluência. O tempo que, antes, se arrastava, agora, aligeirava-se. Era preciso partir, mas não se via nota de despedida: havia a promessa de um novo encontro. Deram-se as mãos. Olhos nos olhos: luminescências.No ônibus, de volta para a cidadezinha qualquer, Marcos pegou o celular e passou a escrever uma mensagem: “Gostei de tê-lo conhecido. Ainda que não seja nada sério, espero que não tenha sido apenas um encontro casual. Aguardarei a sua visita. Beijo, o mesmo que eu senti vontade de dar, mas não tive coragem”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; E o doce daquele novembro estendeu-se por todo o dezembro, depois o janeiro próximo e todos os outros meses que vieram em seguida.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-796436927591131387?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/796436927591131387/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=796436927591131387' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/796436927591131387'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/796436927591131387'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/doce-novembro.html' title='DOCE NOVEMBRO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AcexEDXEI/AAAAAAAAAIc/tOFNQVKDU30/s72-c/tbil2008400400ee7.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7460990853061925261</id><published>2010-03-16T16:13:00.001-07:00</published><updated>2010-03-17T17:38:16.947-07:00</updated><title type='text'>MEMÓRIA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Aj1o1kVZI/AAAAAAAAAIs/2Y4P2cxH21Y/s1600-h/2.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Aj1o1kVZI/AAAAAAAAAIs/2Y4P2cxH21Y/s320/2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para você, a cuja altura nunca pude estar,&amp;nbsp;deixo com saudosas lembranças estas últimas palavras.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;KF, meu retórico favorito,&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Queria ter-te aqui ao meu lado, contemplar o teu rosto e sentir-me feliz. Mas de ti o que tenho é a vaga lembrança de um corpo que não foi meu e o pesadelo de imaginá-lo em outras bocas, outras mãos, por cima ou por baixo de outros corpos, nas carícias de outros pêlos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Se soubesses o quanto me és precioso... Devo, entretanto, contentar-me em te ter apenas como essa lembrança que, apesar do tempo, ainda persiste, indelevelmente, na minha memória, no meu corpo, como uma ferida que, embora cicatrizada, ainda dói, lateja. Por isso, para te ter meu, precisei distanciar-me de ti. Acreditar que a distância podia conservar-me um pouco de ti, para que eu não te perdesse de vez, era o meu grande alento. Ah, este inferno de amar, como ainda te amo! Ter de controlar-me os instintos, quando queria jogar-me aos teus pés e pedir-te um beijo apenas. Sentir, por mais efêmero que fosse, o roçar, afável, de meus lábios, lado a lado, dos teus. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Devo, entretanto, mirar-me no espelho da impossibilidade, de consumir-me no inferno da cálida interdição. Pathos devia ser o meu sobrenome. Deves saber o mal que me fazes (“Mas te divertes com isso. Adoras tripudiar, quando tens a certeza de que és desejado. Comprazes-te em ser a fonte das dores deste outro que sou eu”).  As palavras duras, os gestos bruscos, os nãos, quando esperavas um sim, eram reações amargas de um amor de mão única. Na não correspondência de teus afetos, eu gestava em mim uma miríade de desafetos. Entretanto, quanto mais eu tentava ferir-te, mais eu feria a mim mesmo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Tornastes para mim a dose diária de que necessita um paciente em estado terminal. Ter-te em meus braços, sorver os teus beijos alimentavam-me esperanças, as mesmas que sentem aqueles que já estão condenados à morte. Poderias ter-me servido de salvação, mas, por amor a ti, cada dia, cada hora, eu marchava por um caminho desconhecido, mas que levava a uma única direção: a dor, a tristeza, a solidão, a possibilidade de te ter apenas como um desejo, nunca como uma realização. Mais cruel do que a tua recusa em me dar, ainda que em migalhas, o teu afeto, era ficar questionando-me sobre o porquê de tua recusa. O que me faltava? Por que eu não estava ao alcance de teus desejos? Perguntas e mais perguntas dilaceravam o meu peito, faziam sangrar o pobre coração doente. A falta de respostas era uma música lancinante a entoar em meus ouvidos dia-a-dia. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;E assim abri espaço para que o sofrimento ditasse as regras de meu viver. Eu passei a me enganar, pensando que sofria não por ti, mas por mim mesmo, que eu precisava provar na pele a dor da indiferença, do desprezo, do não poder ser objeto de desejo, mas apenas sujeito desejante. Queria poder me enganar, acreditando que me eras apenas “o motivo de alimento da minha paixão, a quem talvez bem mais queira do que a ti”, mas era tudo uma ilusão. Eu não amava te amar, eu ama a ti, somente a ti.  Fostes, e talvez continues a ser, não a razão de meu viver, mas toda a minha vida. Por isso, mais e mais, eu alimentava-me o desejo de estar ao teu lado, de te ter perto de mim, de saber com quem andavas e com quem dividias as carícias por que eu tanta ansiava. Fui-te fiel, amei-te, fostes-me indiferente. Quis acreditar, como dizia a letra de uma velha canção, que não valias a pena, que não valias uma fisgada de minha dor, que não me servias, como rima de um poema, de tão pequeno.  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Entretanto, eu estava, mais e mais, exercitando a minha dor na vã tentativa de que, depois de bem curtida, como um bom vinho que se guarda, durante longos anos, em barris de carvalho, eu pudesse expurgar-te de mim. Tanto que hoje eu queria que persistisses em mim como uma ausência, mas não como uma falta. Resistindo à tua perda, (“Sei que te perdi e me afundo, me perco também dentro de minha total ausência de poder em que me queiras”), escrevi estas palavras, única memória de ti em mim. Queria poder dizer-tas, mas elas persistirão guardadas comigo, porque não consigo enganar a mim mesmo. Se viesses a descobri-las, sabe-se lá por intermédio de quem ou do quê, acreditas que tudo aqui não passou de uma encenação, que, como bem disse o poeta, que “todas as cartas de amor são ridículas”. Não esqueces também que, segundo o mesmo poeta, “só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”. Queria poder não ter as respostas para as seguintes perguntas: nunca te amei ou te amei demasiadamente?! Ao pensar que te amava, eu estava amando a mim mesmo?! Foste apenas objeto para eu descobrir a humanidade em mim?! Que melhor prova de que somos humanos do que o exercício de amar? &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Mas não adianta formular a pergunta, quando a resposta é evidente. Assim, fui me enganando dizendo para mim, como numa espécie de mantra, que, pensando estar a te amar, eu estava, egoisticamente, amando a mim mesmo. Isso me servia de lenitivo, acalentava-me nas horas mais difíceis do dia, sobretudo quando te via a falar com outros que podiam ter aquele que me fora negado ter como senhor. E assim, fui criando um inventário de ilusões, tanto que cheguei a pensar em dizer-te que nunca foste razão de nada, apenas projeção para aquilo que em mim existia como desconhecido, inefável, como um território selvagem. Só nessa condição, quero acreditar?, persistes em mim. Entretanto, percebo que começas a cair no esquecimento, o mesmo a que sucumbo agora, ainda que releguemos para ele as coisas que, apesar, nos foram importantes. Não esqueces, porém: tudo foi encenação. Restas saber o quê. O meu amor em demasia ou a negação desse amor demasiado? A resposta, talvez, encontres quando, de volta, ouvires as palavras que aqui deixei serem entoadas como uma balada de amor ao vento. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7460990853061925261?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7460990853061925261/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7460990853061925261' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7460990853061925261'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7460990853061925261'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/memoria.html' title='MEMÓRIA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Aj1o1kVZI/AAAAAAAAAIs/2Y4P2cxH21Y/s72-c/2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-9042039930891393611</id><published>2010-03-16T16:12:00.001-07:00</published><updated>2010-03-17T17:41:52.485-07:00</updated><title type='text'>AO HOMEM QUE EU QUIS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AmTn6lNQI/AAAAAAAAAI0/di9Gk7PnRbM/s1600-h/Dante-Virgil-L+William-Adolphe+Bouguereau.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AmTn6lNQI/AAAAAAAAAI0/di9Gk7PnRbM/s320/Dante-Virgil-L+William-Adolphe+Bouguereau.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Para Tibúrcio Valério de Azevedo, ou, simplesmente, Tinho;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para Eduardo Manoel de Brito (in memorian), que estava deixando para trás o que precisava ficar para trás.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Assim como sua avó, sua mãe e suas tias, todas largadas por seus homens, ele, embora não tivesse nascido mulher, havia trazido consigo aquela sina que fizera das mulheres de sua família imaculadas medéias.  Ao ver o bilhete deixado no criado-mudo, tivera a certeza de que não havia se desvencilhado daquela singular desdita amorosa que marcara, uma por uma, as mulheres de sua família. O papel trazia um único período (Fui embora e não volto mais, adeus) e ainda recendia ao cheiro amadeirado do perfume que o Outro tanto gostava de usar, que, inúmeras vezes, deixou impregnado em suas carnes e que lhe servira de consolo, quando a saudade vinha só lhe mortificar o peito. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Olhara novamente o bilhete, a letra miúda, bem desenhada assim como também o era o corpo do seu senhor que cheirava à juventude. Branco, cabelos escuros, olhos castanhos, sorriso maroto, olhar sedutor de cafajeste. Não houve jeito, desde o primeiro olhar, sentira-se fisgado. Aquele garoto apresentara-se diante dele como o seu veneno e o seu remédio, e ele se lhe entregou como quem se entrega ao seu carrasco. Durante meses, ele conheceu, uma por uma, as curvas daquele corpo, as suas reentrâncias mais recônditas, as suas fendas mais íntimas, enquanto o Outro lhe sorvera a tristeza, a solidão, fazendo-o, naquela idade, redescobrir a alegria de estar vivo, de, novamente, ser, ao mesmo tempo, sujeito desejante e objeto de desejo. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Amassou o bilhete, mas não o jogou fora. Deixou-o no criado mudo e, agora, também surdo: queria ter, ao menos, aquela última lembrança daquele que, assim como os outros, entrara em sua vida sem muito explicar, mas que, ao contrário, se apossou, sorrateiramente, dela como um velho posseiro. Desarmado, ele não teve outra saída senão entregar-se perdidamente. Sentou-se na cama, passou a mão pelo colchão como se cada vinco dele fosse os do corpo do Outro. Não mais poder tocar aquelas carnes rígidas e suaves, cheirando a guardado, não mais sentir-lhe o gosto, não mais poder morder-lhe os mamilos, sussurrar-lhe palavras ao ouvido ou sorver-lhe o grito antes do gozo... Tudo, agora, era mediado por aquele atroz não mais. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Lembrou-se de quando o conhecera. Era seu aluno. Desde o primeiro dia de aula, sentira-se atraído por aquele jovem calado, recém chegado à universidade. A princípio, quis esconder, como sempre fazia, os seus sentimentos. Cidade interiorana, não queria dar o que falar. Professor ter caso com um aluno renderia muita conversa para aqueles que viam na vida alheia uma forma singular de distração.  Percebeu, no entanto, ser correspondido. Entre uma aula e outra, o desejo aumentava. Nas aulas de literatura, parecia que os poemas lidos, os contos ou os romances escolhidos eram cúmplices na concretização daquele desejo gestado entre interditos. Ao término do semestre, ao corrigir a avaliação final, leu uma pequena frase: “Você pode me ligar”. Deixou de lado a caneta e ficou pensativo. Pegou o telefone e, pausadamente, discou cada um dos algarismos como quem joga na certeza de que aqueles eram, de fato, os números da sorte. A voz do outro lado atendeu ao som de um estridente alô. Não precisou identificar-se, o Outro lhe reconheceu. Dali para frente, desde o primeiro, todos os outros encontros eram contados como se fossem anos. Queriam prolongar cada minuto, cada segundo em que estavam juntos. Procuravam viver, em cada vão momento, as delícias que seus corpos sentiam um pelo outro.   &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;E, agora, de tudo o que vivera, restavam-lhe, apenas, aquelas letras naquele papel amassado. Ao pensar nisso, a sua primeira reação foi chorar, mas as lágrimas não sairiam. Aprendera a sofrer a sua dor resignadamente, principalmente porque chegara a uma idade em que se acostumara ao abandono. Não mais vivia agosto esperando setembros. Aprendera a recomeçar sempre depois de vários abrius despedaçados. Apesar disso, o peito ainda lhe doía a cada nova despedida. Sabia que a relação deles, da maneira repentina que começara, caminhava para acabar. Intuía sempre que cada encontro deixava, sem que pudessem perceber, uma nota silente que, pouco a pouco, ia compondo a sinfonia do adeus a ser ouvida na partida que se fazia, amiúde, iminente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; Ele começara a perceber que o Outro estava cansando de seus beijos, de seus abraços, de seus amassos, de seu corpo onde não apenas ficaram as marcas de seus dentes, de seus abraços fortes. O Outro não o procurava mais com tanta freqüência. Ele é que tinha de mendigar carinhos, carícias, afetos. O telefone, quando não desligado, estava sempre fora de área. O Outro havia, certamente, descoberto novas rotas ou sentia a necessidade de percorrer outras geografias. E, assim, começara a ferir a ele da maneira mais sutil e dolorosa possível, de forma que, mesmo podendo vir a cicatrizar, a ferida do abandono doía, latejava, sangrava, arranhava qual grão de areia nos olhos. O Outro soubera pisar no seu coração. O amor que o Outro lhe dera já viera, desde o primeiro beijo, com o gosto de adeus.  Restava a ele apenas esquecer aquela paixão. “O passado deve servir de alimento apenas para si mesmo. Amanhã será outro dia”, pensou consigo. Enxugou as lágrimas, ajeitou-se na cama e tentou consolar-se, dormindo, ao som de The Blower's Daughter, enquanto o lado direito de sua cama, mais uma vez, voltava a sua serena espera por um novo alguém.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-9042039930891393611?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/9042039930891393611/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=9042039930891393611' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/9042039930891393611'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/9042039930891393611'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/ao-homem-que-eu-quis.html' title='AO HOMEM QUE EU QUIS'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AmTn6lNQI/AAAAAAAAAI0/di9Gk7PnRbM/s72-c/Dante-Virgil-L+William-Adolphe+Bouguereau.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-5612916345712121066</id><published>2010-03-16T16:11:00.001-07:00</published><updated>2010-03-16T18:02:06.719-07:00</updated><title type='text'>SOUFFRIR</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;Para Francisco Victor Macedo Pereira&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6ApdqX7cpI/AAAAAAAAAI8/uX-ZcNbalzk/s1600-h/3.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6ApdqX7cpI/AAAAAAAAAI8/uX-ZcNbalzk/s320/3.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Ensinava e, por ter lido emoções e dores humanas nos muitos livros a cuja leitura se devotara, não percebera que sua vida fora toda tecida a partir de velhos clichês. A vida, com seus altos e baixos, alegrias e tristezas, tinha-lhe vindo mais como personagem desses livros, nunca como experiência, de fato, vivida. De tudo o que vivera, eram verdadeiras apenas as dores que sentira, por saber-se só e triste, e a angústia de existir sob cujo signo nascera e que, como um verme à espreita, roia-lhe não mais o corpo, mas a alma. Tudo o mais tinha sido fantasia sua. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Inventário de ilusões era o que construíra antes de conhecê-lo. Até então, ensinara-se a viver só para si. Era a sua forma de se defender do mundo e de si mesmo. Nesse lidar com aquilo que lhe era desconhecido, tornara-se um narrador, ensimesmado, de histórias sem enredo definido, embora com vários esboços tecidos. Nunca chegara a um desfecho definitivo. Como um palimpsesto, a sua vida era, na superfície, a sobreposição de riscos, ranhuras, rasuras e tentativas de recomeço a encobrir, na parte mais profunda, medos, receios, dores, solidão. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Seu calcanhar de Aquiles, as emoções turvavam-lhe os sentidos. Expunham-no: ele, que sempre procurou ser invisível nesse mundo de seres bastante visíveis.  Diante delas, sentia-se descentrado. A sua velha máscara de seriedade, que já começava a dar sinais de flacidez, caía e punha-o diante de si mesmo. Espelho contra espelho. Ele era obrigado a ver que, do outro lado dos muitos espelhos que construíra em si, havia empurrado, para o sótão de sua alma, toda forma de afeto. Preferiu, na empresa vã de evitar sentir a dor de existir, retesar o comboio de cordas em seu coração. Até tê-lo visto, sempre à-vontade na vida, e o seu coração, à sua revelia, contrariando as normas impostas, resolver sair dos trilhos. “A paixão veio assim, afluente sem fim, rio que não deságua”. Diante disso, ele, sempre retraído, não tendo outra saída, resolveu arriscar-se. “Bobeira é não viver a realidade”. Puro de tudo, sem saber ao certo o que fazer, embevecido, ele rumou em direção a esse singelo canto de sirena que, pela primeira vez, tocara em seu peito.   &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Como um caçador, o Outro andava à espreita, pondo a sua pele à prova das línguas sequiosas. Ele, que sequer sabia ser caça, sentia-se desajeitado na caça daquele que, como água, escorria-lhe entre os dedos. Inapto para a tarefa, ele não queria deixar escapar a sua presa, de quem estava se tornando prisioneiro. Por isso, ficara receoso. Viu que, inocente nesse jogo, seria levado a escolher o caminho da esquerda, embora soubesse, devido ao seu sempre alerta instinto de racionalização, que deveria ir pelo da direita. A razão dizia que era mais segura a cada travessia. As emoções o impeliam a viver em mise en abyme. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Entre a razão e a sensibilidade, escolhera não por si, mas pelo Outro, a quem passara a devotar o seu afeto. Em seu nome, ele resolvera seguir pelo caminho dos ventos do leste. Era uma viagem necessária; o caminho, tortuoso; mas, pela primeira vez, percebia que era imperativa a necessidade da procura e, mais ainda, da entrega.   E assim, pela primeira vez, pôde sentir aquela necessidade que ele, por mais que procurasse, não conseguia evitar. Sucumbia às exigências desse lado desconhecido de si. Descobrira que estava amando. Estava a sentir o que era sofrer de amar, o que era querer arrancar, do peito entorpecido, aquela dor que, prazerosamente, latejava, o que era ter dentro de si esse rio em fogo convertido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Ele, para quem amar sempre estivera em segundo plano, não sabia como aproximar-se. O que dizer? Como ter para si aquele por quem seu corpo clamava? Sabia apenas que o Outro o arrastava para junto de si e disso ele não podia escapar. Nem o queria, ansiava pela aproximação.  Resolvera, então, jogar o siso. Trocar olhares, antes da entrega total. Os olhares se procuravam como espadas a tinirem uma contra a outra. O Outro, experiente, já havia percebido que era objeto de observação, de desejo. Não desviava os olhares, enquanto ele não conseguia fixar-lhe os seus por muito tempo, desviando-os a cada investida do olhar do Outro, que se comprazia nesse jogo em que, pouco a pouco, ia dando as cartas. Sedutor, sabia como inebriar. “No clarão do luar, espero”, sussurrou-lhe, oblíquo e dissimulado, o Outro, ao ouvido. Pronto, já tinham o encontro marcado. Embriagado, ele vivia na esperança desse só dia. Não precisava ser tão longa a vida, para tão curto, mas, naquele momento, intenso, amor. Queria, agora, apenas um momento, efêmero que fosse, que fizesse presente o que até então se lhe fizera sempre ausente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; A esse sentimento que veio sem muita conversa, sem muito explicar, ele entregou-se perdidamente, como se um demônio tivesse lhe tirado de ordem, virando-lhe do avesso, fazendo esquecer dos ensinamentos recebidos: “com homem não deitarás, como se fosse mulher; é abominação”. Mas ele resolveu ouvir a voz que lhe dizia: “o meu amado meteu a mão por uma fresta, e o meu coração se comoveu por amor dele”. Por isso, amou daquela vez como se fosse a única. Deu-lhe seu corpo. Recebeu as carícias sempre negadas. Pela primeira vez, sentiu como era bom ter a pele fendida. A pele do Outro eriçou-se ao leve roçar de sua barba espessa. Provando essa pele branca e macia, a língua dele sentia um gosto de morango e chocolate. Pronunciou sons há muito silentes. Descobriu habilidades adormecidas em suas mãos que navegaram, naquele momento, por lugares nunca dantes navegados, apenas, antes, sonhados. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Naquela noite, entregou-se sem nenhum pudor. Fulgurações. Naquela noite, as almas se calaram; os corpos, ternamente, se entenderam. Luminescências. Ele pôde, tal qual Adriano nas mãos de Antinoos, descobrir a delícia de ser o que é. Naquela noite, não se distinguiam caça e caçador. Eu e Outro se misturavam, entredevorando-se como uma serpente a morder a própria cauda. Bêbados de prazer, sentiam-se como adão e adão no paraíso a descobrirem cada vinco do rosto, cada detalhe e segredo do corpo. Sem culpas, buscavam-se, penetravam-se. Yin e Yang com o mesmo sexo, mas posições diferentes. Masculino e Masculino, arfantemente, se procuravam, buscando retardar o prelúdio da aurora. Eles sabiam que precisavam viver cada vão momento daquela noite. Amanhã seria um outro dia, e não tinham a certeza de se iam ou não se amar por toda a vida. Bastavam-lhes o aqui e o agora. Por isso, nada pediam em troca. “Nada me dais, nada me tirais, nada sois que eu me sinta”. Apenas se davam, enquanto, antes do ponto final, ainda havia reticências, exclamações e poucas interrogações. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp;Exangues, os corpos descasaram em meio àquele silêncio que só aos amantes é dado conhecer. Ele observava o Outro deitado na cama. Passou a mão em seus cabelos para sentir a maciez de seus fios. Alisou-lhe a barba rala, demorando-se na contemplação do rosto, alvo e comprido, do Outro, como se seu gesto pudesse reter a passagem das horas. Desceu um pouco mais a mão, demorando-se no peito com muitos pêlos lisos e escuros. Tocou-lhe os mamilos. O Outro, apenas, revirou-se. Ele foi, pouco a pouco, descendo mais a mão. Parou no sexo que, embora exausto, ainda estava em riste; mas voltou a mão para o rosto do Outro. Ficou parado, observando-lhe a boca. Depois, aproximou-se dela e, com gosto de adeus, beijou-a como se fosse a última. Levantou-se. Pegou as roupas espalhadas no quarto. Vestiu-se. Fechou a porta com cuidado para não acordá-lo. Desceu as escadas, pagou a conta e saiu.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Olhando para trás, ele podia, embora o sol já despontasse, ver as luzes de néon a iluminar a fachada do motel, onde se lia: CLARÃO DO LUAR. Virou a cabeça e seguiu em frente. Sabia que, ao alumbramento sentido no princípio, já se iria anunciar, no fim, a dor da partida nem sempre pressentida. Sabia também que, antes mesmo de unidos, já estavam divididos.  O Outro era de mil outros. “Perigoso amar; doloroso querer”. E ele, apesar dos ciúmes, ébrio de amor, pensou, ainda antes daquela noite, receando um adeus, antes mesmo do primeiro abraço, em aceitar dividi-lo com outros corpos, outros pêlos, outros beijos, no tapete, na cama, atrás da porta. Sabia que só assim, aos pedaços, ele poderia, talvez, ser seu. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp; &amp;nbsp; Embora o fervor continuasse, ele não se resignou, não maldisse a vida; mas não se conformou com receber as migalhas de um amor em mosaicos. Não, o seu amor não bastou. Ele descobrira que não servia para amar e que o Outro, motivo de sua paixão, só poderia servir-lhe de alimento, de peça envolvente nesse jogo em que, mais importante do que dizer que amava, foi sentir-se, pela primeira vez, apaixonado. Em não ter, mas, ainda que a vida seja curta, desejar. Essa mesma vida que, em tempo atrás lhe foi um cais de consolo e de afetos, se lhe apresentava, agora, como um porto de partidas e despedidas.  E assim, levando consigo aquela sensação, ele preferiu partir, trazendo na lembrança, bem próximo ao coração, esse primeiro capítulo de sua mala educación sentimental.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-5612916345712121066?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/5612916345712121066/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=5612916345712121066' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/5612916345712121066'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/5612916345712121066'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/souffrir.html' title='SOUFFRIR'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6ApdqX7cpI/AAAAAAAAAI8/uX-ZcNbalzk/s72-c/3.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-4639124346411932546</id><published>2010-03-16T16:10:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T18:18:19.274-07:00</updated><title type='text'>A FUGA</title><content type='html'>Para Rosângela Melo &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AtdvpDDVI/AAAAAAAAAJE/yIaEpKg10RE/s1600-h/O+Navio+Negreiro+%281840%29.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AtdvpDDVI/AAAAAAAAAJE/yIaEpKg10RE/s320/O+Navio+Negreiro+%281840%29.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp; O navio estava zarpando, embora fossem mudos os barulhos da partida. Aos poucos, o cais onde ela deixou a sua vida ia ficando, cada vez mais, invisível, distante. “O vento vem vindo de longe, a noite se curva de frio; debaixo da água vai morrendo meu sonho, dentro de um navio...”. Intuía que, de agora em diante, tudo seria diferente. Sabia que essa sua outra vida deveria ser esquecida, qual retrato esgarçado pela ação do tempo. Se pudesse, talvez, fizesse o caminho de volta a nado; mas não queria, não sabia nadar e preferia deixar-se ser guiada pelo navio. Ali, encontrara a segurança que não havia em terra, embora rumasse para o ignoto. Estava inebriada com aquela sensação de se sentir perdida. “Perder-se é um achar-se perigoso”, pensou. Arrepiou-se... ao tocar no navio. Era frio. Pôs a mão no peito, aliviou-se ao sentir o seu coração batendo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela, cuja vida fora sempre na vertical, podia vislumbrar na noite esvaecendo um horizonte que lhe apontava novas esperanças. Sentia-se feliz. Pela primeira vez, era ela que tinha escolhido o seu roteiro. Pela primeira vez, estava viajando sozinha. Havia deixado a casa, o marido, os filhos, as empregadas. Ela precisava daquela viagem que lhe provocaria uma desorganização profunda. Se sua mãe fosse viva, ela a chamaria de louca. “Como você pode largar tudo, viajar sozinha? Isso é um disparate”. “Estou à procura. Estou tentando entender”, responderia. “Mas procurando o que, tentando entender o quê?”, retrucaria a mãe morta. “Eu não sei, por isso estou partindo, dizendo adeus. Preciso saber. Apenas sei que não quero ficar com o que vivi até agora”, argumentaria ela entre confusa e desejosa de entregar-se ao que sequer lhe fora esboçado ainda.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sentia-se atraída pelo que lhe se afigurava como novo e que ela mesma não entendia. A sensação de permanecer perdida não lhe provocava medo, impulsionava para adiante, mesmo que esse adiante fosse a beira de um abismo. Sentir-se livre desse cenário e longe daqueles personagens era a seiva de que ela naquele momento precisava. Ela estava só, como sempre fora. Abandonada, perdida e feliz. Sentia-se perto do selvagem coração da vida. E isso era o bálsamo que lhe refrescava a alma.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;As nuvens iam tornando-se menos carregadas à medida que iam sendo dissipadas pelos raios do sol que despontava mais à frente. Em breve chegaria ao porto. Ouviu o apito do navio que, ao contrário da partida, não era mais inaudível. Estridente, o barulho a assustou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp; – Que foi, querida? Não se espante. Coloquei o café no fogo, falou-lhe o esposo enquanto ajeitava o nó da gravata olhando-se no espelho. Hoje, você dormiu demais. Estou atrasado para o trabalho e não tomei meu café porque não há nada pronto. Veja se amanhã não dorme tanto, disse o marido beijando a testa da esposa, sem perceber que ela, com a ponta do lençol, enxugava uma lágrima que, em seu rosto, anunciava o seu destino de mulher. Ela revirou-se na cama, deu as costas ao marido e fechou os olhos. Não havia chegado ao porto. Estava ainda no cais. Sua viagem ainda teria de esperar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-4639124346411932546?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/4639124346411932546/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=4639124346411932546' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4639124346411932546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4639124346411932546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/fuga.html' title='A FUGA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AtdvpDDVI/AAAAAAAAAJE/yIaEpKg10RE/s72-c/O+Navio+Negreiro+%281840%29.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7704749012838522792</id><published>2010-03-16T16:09:00.002-07:00</published><updated>2010-03-16T18:41:15.689-07:00</updated><title type='text'>PAI, UM CACETE</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;Para Marcelo Medeiros&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ay29xpLCI/AAAAAAAAAJc/O0S25D_7pzE/s1600-h/morte2.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ay29xpLCI/AAAAAAAAAJc/O0S25D_7pzE/s320/morte2.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se a senhora... Já deve saber o que aconteceu. Não se preocupe comigo. A senhora sabe que eu já aprendi a me virar. Desejo que de agora em diante possa viver mais feliz. Se é que, depois de tantos anos de sofrimento, a senhora ainda sabe o que é felicidade. Mas ainda há tempo para tentar arriscar-se. Pena que eu não poderei mais estar ao seu lado, mas sempre que puder escreverei. Claro que não posso enviar o endereço. Vai que uma de minhas cartas caia nas mãos ... Não se preocupem que eu não deixei rastros. Sei como me esquivar e não vão me pegar, a menos que eu me canse e queira me entregar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não me arrependo do que fiz. Não se espante! Queria poder lhe dizer a satisfação com que eu dei cabo dele. Era como se eu estivesse provando por algo há muito esperado. “O pai que não tive/ hoje ainda seria moço? /O que dele em mim sobrevive/ Guarda a forma de um esboço?”. Queria poupar-lhe dos detalhes, mas sinto uma necessidade de dizer como foi que fiz este que considero um ato heróico. Sei que desrespeitei um dos mandamentos divinos, mas não sou Jesus Cristo para apanhar e dar a outra face. “O pai que nunca vi/ Será que o encontro? /Severo, louco, fora de si/ ou apoiado em meu ombro?” Sou humano, e paciência tem limites. Não dava mais para agüentar tantas humilhações, além dos hematomas deixados em mim e na senhora. Nunca agradeci tanto por ter crescido rápido. “Do pai que não tive,/ dizem, herdei o rosto. /O que dele em mim vive/ é signo póstumo ou oposto?”. Meus braços que antes se uniam para protegerem o meu rosto dos afagos do cinto dele haviam se tornado fortes, e eu pude partir em posição de ataque e não ficar apenas na retaguarda, sem defesa. “O pai que desejei/ num colóquio abstrato/ respondeu-me: ‘Nada sei’/ Exilou-se em seu retrato”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como lhe disse, queria poupar-lhe dos detalhes daquela noite, mas não consigo. Sim, era de noite. Aproveitei que a senhora tinha ido à igreja. Depois de tantos anos de sofrimento, humilhação, entendo por que a senhora foi buscar na igreja conforto para um corpo já cansado, marcado pelo tempo e pelas mãos dele. Aproveitei também que ele, como sempre, estava bêbado. Eu estava na sala, a televisão ligada, quando ele chegou gritando e batendo no portão. Espantei-me e fui depressa abrir. Ele vinha trazendo consigo aquele cheiro nauseabundo de cachaça que nos queimava as narinas. A voz dele, quase inaudível e que só emitia grunhidos, despertou-me um ódio há muito alimentado. Se pudesse, daria cabo dele ali mesmo. Acalmei-me e o segui.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como sempre, ele seguiu para o fogão buscando comida. Sentou-se à mesa e, como um animal, começou a devorar o que havia colocado no prato. Não se preocupava se eu tinha deixado de comprar os passes escolares para poder comprar o que ele estava mais desperdiçando, ao espalhar a comida na mesa e derramá-la no chão, do que propriamente comendo. Ele também não queria saber quantas peças de roupa era preciso a senhora lavar para ele vir desfrutar daquela comida que ele dizia estar insossa ou com gosto de azedo. Ele não sabia agradecer, apenas exigir. Queria roupas limpas, lavadas, as brancas, com anil e imersas em goma, passadas a ferro sem um vinco sequer. Ainda queria mais, carne de sol e feijão verde todo domingo. Ele que nem sequer comprava um ovo para dentro de casa, mas devorava a comida que encontrava sobre o fogão, ainda que eu ou a senhora não tivéssemos comido.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Pois bem, aproveitei aquela noite e esperei que, depois de comer como Pantagruel, ele fosse dormir. Para apressar esse momento, fui à geladeira e peguei uma garrafa e perguntei-lhe se queria água. Ele bebeu e foi para o quarto. Esperei. Confesso que não estava nervoso, estava eu ansioso. Acho que se passou meia hora. Procurei certificar-me de que ele estava dormindo de verdade. Roncava como um porco. Pensei: “É agora”. Fui à cozinha, peguei a faca que estava em cima da pia e dirigi-me ao quarto. Não precisei abrir a porta porque ele a havia deixado aberta.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Aproximei-me da cama, olhei para ele e me lembrei do dia em que ele, bêbado, havia me encurralado no banheiro e, com a faca na minha garganta, olhou para mim e disse: “Fale alguma coisa pra mim sangrar você agora mesmo”.  A senhora recorda-se desse dia em que nós somos obrigados a dormir fora de casa porque ele estava embriagado e havia nos expulsado? Por isso, naquela noite, observando-o dormir ali, impotente, senti o mesmo prazer que deveria ter sentido Perseu ao cortar a cabeça da Medusa. Aproximei-me, peguei-lhe nos cabelos, encostei, afavelmente, a faca no pescoço dele e, como um violinista, fui deslizando-a em seu pescoço enquanto sorria para ele: “Fale alguma coisa para eu cortar a sua garganta”.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Pedro, acorda. Que foi? Você teve mais um pesadelo? Vamos, acorde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– Não, não é nada. Foi apenas um sonho ruim que eu tive. Vá dormir que amanhã você precisa ir à escola, disse Pedro ao irmão que dormia no mesmo quarto, enquanto ele, suado, tentava dormir novamente. Realmente, aquilo não fora um pesadelo. Fora apenas um sonho ruim. Pesadelo era acordar amanhã e saber que ele continuava vivo, que estaria ali em carne e osso a ocupar o lugar do pai que ele nunca conhecera, de quem nunca precisara, mas que sempre lhe fizera falta.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7704749012838522792?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7704749012838522792/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7704749012838522792' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7704749012838522792'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7704749012838522792'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/pai-um-cacete.html' title='PAI, UM CACETE'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ay29xpLCI/AAAAAAAAAJc/O0S25D_7pzE/s72-c/morte2.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-4420755579513945388</id><published>2010-03-16T16:09:00.001-07:00</published><updated>2010-03-16T18:32:52.461-07:00</updated><title type='text'>PRESTAÇÃO DE CONTAS</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;Para Juan Monteiro &lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AwRXc23sI/AAAAAAAAAJM/db-QM55a_6U/s1600-h/arthemisia-hopper_copyrighted_3_09-1.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AwRXc23sI/AAAAAAAAAJM/db-QM55a_6U/s320/arthemisia-hopper_copyrighted_3_09-1.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Naquele dia, Marcel estava completando anos. Precisava registrar aquela data. Todo esse tempo já havia passado! E o que havia feito? De uns tempos para cá, essa pergunta se repetia com muito mais freqüência, embora a resposta fosse uma única: Nada. Não sabia se era coisa da idade, mas ele não conseguia lembrar-se de algo. Amores, talvez? Mas não os teve, apenas paixões frívolas, simples impulsos que procuravam agradar aos desejos da carne. Com o tempo, aprendera a ser o ponto de partida e de chegada de seus próprios desejos. O que fez da vida? O que ela havia feito dele?! Não sei. Talvez nada. E o nada tornara-se um de seus companheiros inseparáveis. Responder àquelas perguntas deixara de ser uma de suas preocupações. Restavam-lhe alguns... apenas um pouco lampejo de vida, último fragmento de uma existência marcada pela dor de existir. Cada dia, viver era uma certeza que se esvaia como a água por entre as mãos.  Aproveitá-lo? Saberá? Talvez. Mas como, se não sai daquela cadeira? Há muito que se acha preso àquela madeira da qual a vida brotara para ser ceifada e se transformar naquela prisão de grades invisíveis.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sentia-se só. Apenas ele e as suas recordações. Era assim que naquele tempo ele se sentia e eu me sinto hoje. Ele e eu, dois lados de uma mesma existência, de um mesmo pilar de tédio que o levava até mim e que me levava até ele. Desculpem-me. Deixem-me primeiro dizer quem sou. Serei breve, afinal cheguei a um momento em que tudo se me afigura como breve. Sou apenas um velho que estava se lembrando do passado onde repousam, quase inertes, poucas lembranças embaçadas. Marcel, antes que vocês me perguntem, era um senhor que conheci quando jovem. Era agosto de mil novecentos e ... e... Desculpem-me mais uma vez, nunca consegui lembrar-me de datas e mais agora nessa idade. Deixemos de conversas, as datas não têm importância. Deixemo-las, e desde já peço desculpas, para meus amigos historiadores ou arqueólogos que precisam deixar as coisas registradas ou vivem em busca dos registros das coisas, ainda que isso lhe seja uma das mais inefáveis atividades. A mim, basta-me ter os registros do tempo escorrendo nas acentuadas vias de meu rosto que se estendem para outras partes de meu corpo, chegando a interditar algumas delas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lembro-me de que naquela época eu tinha de sair e não tinha com quem deixar as chaves de casa. Mamãe saíra e, na pressa, não levara as chaves dela. Fui, então, ao apartamento do Marcel, perguntar-lhe se ele poderia ficar com as chaves e dá-las à minha mãe, quando ela voltasse. Ele atendeu-me bem, prontificou-se a entregar as chaves. Agradeci e pude perceber que seus olhos escondiam certo mistério. Pareciam olhos de santos roubados de igreja, relíquias perdidas na mão de um único colecionador. Sempre fui atraído por olhos. Furtivamente, eles guardam uma pequena diferença e escondem segredos que a nós não é dado conhecer. Tal qual esfinge, estão a todo tempo a sussurrar: decifrem-nos ou nós o devoramos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Voltei mais uma vez ao apartamento dele. Dessa vez, eu tinha sido convidado para um almoço. Ele estava aniversariando e cansara de comemorar aquela data sempre só. Mandara convidar mamãe e a mim. Mamãe não pôde ir, estava viajando. Desde que meu pai morrera, ela assumira os negócios da família. Vivia mais viajando do que em casa. Eu procurava entendê-la. Eu havia aceitado o convite do almoço muito mais em retribuição à gentileza que dias antes Marcel nos fizera. Seu apartamento era um dos maiores daquele prédio. Havia poucos móveis, mas muitos livros. Diante de meu espanto, ele foi dizendo que os livros eram o seu mundo, uma parte do universo se escondia em cada um deles. Pediu-me que se sentasse à mesa. Depois do almoço, por educação, resolvi ficar mais um pouco. Ele ofereceu-me café. Entre uma xícara e outra, fiquei sabendo que ele morava sozinho. Não chegara a se casar ou tivera filho algum. Fora professor. Mostrou-me algumas fotos. Em todas elas, ele demonstrava o mesmo semblante sério. Parecia não ser afeito a muita gente. Os poucos amigos que tinha ou morreram ou estavam senis demais. Marcel tinha a misantropia de um Policarpo, mas não os seus sonhos. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Toda aquela seriedade escondia a profunda solidão da qual fora escravo por muito tempo. Ele confessou-me que havia nascido no tempo errado. Achava-se perdido nesse mundo. Um ser que não encontrou a conexão certa com a realidade de seu tempo. Estava velho e já era tarde demais para empreender alguma tentativa de mudança. Na sua idade, buscar recuperar o tempo perdido era muito arriscado, principalmente porque, disse-me, parecendo o Marquês de Maricá, que o tempo perdido não se recupera, apenas se lamenta. Passado tanto tempo, eu retifico a sua frase, dizendo que nunca é tarde demais para se lamentar...&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Da próxima vez, procurarei ver a vida através dos olhos de uma criança. Elas, realmente, conseguem enxergar o que para nós fica embaçado. Elas penetram na corrente da realidade e conseguem ir mais adiante. É uma pena que quando vão crescendo deixem que a sua alma seja acometida de miopia. Da próxima vez, procurarei viver mais. Tentarei aprender a viver como se estivesse aprendendo a andar de bicicleta. Sempre olhando para frente e pedalando. Na vida nunca olhei para frente. Vivi em função do deixei para trás.  &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não voltei mais a ver o Marcel. Tivemos de nos mudar de lá. Mamãe recebera uma proposta de trabalho em outra cidade. Tempos depois, eu recebi em casa uma encomenda pelos correios. Eram alguns livros que o Marcel havia deixado para mim e pedido que me entregassem quando ele morresse. Havia entre os livros uma pequena carta de despedida. Nela ele dizia que temos apenas uns falsos, mas verdadeiros, amigos, aos quais ele chamava livros. Foram eles que acompanharam o Marcel e me acompanharam também. Às vezes, afastaram de mim a solidão; outras vezes, deixaram-na tão mais próxima. Sempre acreditei que, enquanto estivesse lendo um livro, ele afastaria de mim a morte. Hoje acabei de ler mais um. Lá fora toca uma vaga música, a lua muda de fase. À meia noite, completo mais um ano. Estou só. Sempre fui só. Ela está chegando, posso ouvir seus passos. Lá fora o vento bate nos galhos secos da árvore. É OUTONO.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-4420755579513945388?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/4420755579513945388/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=4420755579513945388' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4420755579513945388'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4420755579513945388'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/prestacao-de-contas.html' title='PRESTAÇÃO DE CONTAS'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6AwRXc23sI/AAAAAAAAAJM/db-QM55a_6U/s72-c/arthemisia-hopper_copyrighted_3_09-1.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-920829333257813842</id><published>2010-03-16T16:08:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T19:15:37.257-07:00</updated><title type='text'>DESPEDIDA</title><content type='html'>Para Marlos Régis Araújo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A7Htm1E5I/AAAAAAAAAKU/D_fIEzYy9ZE/s1600-h/maquina-de-escrever.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A7Htm1E5I/AAAAAAAAAKU/D_fIEzYy9ZE/s320/maquina-de-escrever.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Olhou ao redor de si e viu que aumentara o maço de papéis amassados. Horas a fio escrevendo e não conseguira ainda terminar aquela carta. Findado o primeiro período, o segundo sumia de tal forma que ele ou se irritava e rasgava o papel; ou ficava dispondo palavras soltas que, logo depois, formavam um amontoado que era amassado e jogado fora. Mande notícias do mundo de lá, diz quem fica. Escrever, riscar, amassar, essa era uma seqüência que ele já estava executando mecanicamente. Me dê uma abraço, venha me apertar, tô chegando (ou será indo de vez?). Poderia parar e dar por vencida a questão. Para que escrever aquela carta, pedindo desculpas, se o seu pedido, certamente, seria indeferido? Coisa que gosto é poder partir sem ter planos. Também não iria escrever sobre os seus erros. Temia que, à lembrança do que fizera, o Outro, de quem dependia o seu perdão, ressentisse-se e, reacendida a ferida da mágoa, recusasse-se a perdoar-lhe. Melhor ainda é poder voltar quando quero.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Errara. Disso tinha certeza. Por isso, mesmo sendo perdoado, o perdão, para si, teria um modo carinhoso de inacabado, de malfeito, daquilo que desajeitadamente cai, antes mesmo de alçar o primeiro vôo. Todos os dias é um vai-e-vem, a vida se repete na estação. Agira como alguém que temia perder o objeto que lhe é mais caro, mas cujas ações, tal qual Édipo infeliz, o levavam em direção ao abismo, à perda, à dor de que em vão tentara fugir. Tem gente que vai pra nunca mais. Não tinha coragem de encarar mais o Outro. Olhos nos olhos o que mais posso lhe dizer? Tem gente que vem e quer voltar. Errei, sim; mas não manchei o seu nome. Sabia disso e se arrependia. Todo dia, agora, viver com a sua indiferença é aumentar o cálice da angústia que bebo toda noite. Mas você queria que eu agisse como? Cansei de viver à sombra de suas migalhas de afeto. Em meio a sobras, eu procurava uma amplidão. Tem gente que vai e quer ficar. Você havia me dito que era meu... . Eu, que sempre fui de poucas amizades, que fiz de mim o verso e o reverso de mim mesmo, acreditei. Tem gente que veio só olhar.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas, eis que de repente, não mais que de repente, uma sombra negra o envolveu: você tornou-se-me indiferente. Tem gente a sorrir e a chorar. E eu, não menos que de repente, pensei que havia aprendido com a sua indiferença, hóspede novo, embora não exclusivo, que entrou em minha alma e pôs em perigo a nossa amizade. E assim chegar e partir. Vesti o dominó e você conheceu-me logo por quem eu não era. São os dois lados da mesma viagem. Não desmenti. Perdi-me, Perdi-lhe. A hora do encontro é também despedida. Desde então, o amanhã se me apresenta como a única possibilidade de que tudo volte ao normal. É a vida desse meu lugar, é a vida. Eu queria poder pedir que não procurasse me entender, saber por que agi daquela maneira. Perdoa-me, faz-me companhia. Eu, embriagado de uma tristeza profunda, fui possuído por uma angústia que me corrói o corpo e a alma. Ajude-me, perdoando-me. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Cansou-se mais uma vez, levantou-se da cadeira, afastou os papéis da mesa, deixando uns caírem no chão. Não conseguia entender por que ainda não tinha escrito aquela carta. Devia ser o som do rádio que estava a lhe atrapalhar a concentração. Seria melhor desligá-lo de vez. Assim, no silêncio da noite, ouvindo apenas o assovio do vento, talvez ele pudesse escrever aquilo por que tanto ansiava naquele momento e que se lhe apresentava como um décimo terceiro trabalho de Hércules, fadado, no entanto, ao insucesso. Por isso, não adiantava calar o rádio.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O problema era com ele mesmo que não conseguia soltar a sua voz, que não sabia como trazer para o branco do papel aquele sentimento retesado há certo tempo juntamente com outros também inauditos. Essa sensação de impotência diante da miríade de palavras que ele dispersara entre as muitas folhas que cobriam o piso do seu apartamento estava a lhe inquietar o espírito. Esse sentimento, espécie de áporo perfurando a terra sem achar escape, foi, palavra por palavra, risco por risco no bordado de cada papel a cobrir o chão, crescendo, de tal forma que de pronto desatou-se numa única frase, que ele anotou para enviar no dia seguinte pelos correios: “E o seu silêncio esgarçou a minha alma suave e leve como o roçar de uma navalha”.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-920829333257813842?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/920829333257813842/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=920829333257813842' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/920829333257813842'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/920829333257813842'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/despedida.html' title='DESPEDIDA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A7Htm1E5I/AAAAAAAAAKU/D_fIEzYy9ZE/s72-c/maquina-de-escrever.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1213781150542878450</id><published>2010-03-16T16:07:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T18:36:34.241-07:00</updated><title type='text'>O CHORO DE PROCNE</title><content type='html'>Para Nadilza Martins de Barros Moreira&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ax3m7JRUI/AAAAAAAAAJU/Vw-XHCm0ZK4/s1600-h/minhas+imagens+-+Judith+e+Holofernes-ArthemisiaGentileschi+001.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ax3m7JRUI/AAAAAAAAAJU/Vw-XHCm0ZK4/s320/minhas+imagens+-+Judith+e+Holofernes-ArthemisiaGentileschi+001.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; “Liberdade! Livre!”. Os gritos retumbavam no escuro da noite, enquanto outras vozes pediam que se fizesse silêncio. “Enfim livre!”. Eram palavras que zumbiam em sua cabeça, mas o som não a incomodava. Há tempos que sonhara com esse dia. A partir de agora, preferia esquecer tudo o que passara naquelas frias paredes, entre aqueles corpos exalando suor acre que lhe chegava a corroer as narinas. Não sabia como conseguira suportar aquilo tudo, mas de agora em diante precisaria de mais cautela. As portas não se abriram para ela. Foi preciso forçá-las. O ar da noite lhe revigorava os pulmões que já estavam se acostumando ao ar das paredes frias e mofadas daquela cela pequena, assim como o seu estômago já havia se acostumado à ração diária que lhes serviam e que tinha gosto de azedo. O mesmo gosto que estava impregnado na vida das outras companheiras suas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De repente, ouvem-se pios fortes. “Deve ser de alguma coruja”, sussurra uma voz meio ofegante. “Minha Nossa Senhora, valha-me Deus”, diz outra voz, assustada, fazendo o sinal da cruz. Os pios tornam-se mais intensos. “Corre, corre”, grita uma daquelas vozes, enquanto um estampido agudo rasga o negro véu da noite e atinge algo que como uma rosa rodopia no ar, como se fosse uma bailarina que errou o passo em dia de estréia, e cai manchando de vermelho, que escorre de suas pétalas, aquele chão escuro. “Atingimos uma, essa não foge mais”, vibra umas vozes mais fortes que se aproximam esgueirando-se pela não mais silenciosa noite que, arfante, vai cedendo lugar para o novo dia.      &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Era um dia de domingo. Ela saiu do quarto e foi até a sala. Verificou se estava tudo trancado. Olhou para a estante e viu a foto da família. Se seu pai estivesse aqui ainda, sua irmã não precisaria ter passado por aquilo. Amanhã, limparia a estante. Era preciso tirar as teias de aranha que iam formando uma espessa camada que escondia o rosto de seu pai. Foi à cozinha e certificou-se se a porta estava aberta, conforme havia combinado. Sua mãe saíra para igreja. Sua irmã também fora. De uns tempos para cá, ela precisava encontrar conforto para a sua alma. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hoje seria o dia ideal para tornar concreto aquilo que fora posto em suspenso. Sentou-se em uma das cadeiras da mesa. Partiu um pedaço do bolo de milho, adoçou um pouco de café. Iria lavar o copo, quando olhou para o relógio que estava em cima da geladeira. Faltavam poucos minutos. Apressou-se. Não podia estar na cozinha. Voltou ao quarto. Colocou um pouco de perfume, mas sabia que ele não poderia impedir que exalasse aquele odor que lhe vinha da alma. Passou a mão por sobre a cama. Apalpou o travesseiro. Estava ali tudo aquilo de que ela precisava para aquela noite. Apagou a luz e foi deitar-se. Agora era só esperar mais um pouco. Já sabia o que iria fazer e não sentia nenhum remorso. Era hoje. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; A porta da cozinha soltou um som de instrumento desafinado. Passos seguiam pelo corredor. A maçaneta da porta do seu quarto girou: “– Deixe a luz apagada”, pediu ela com a voz meio embargada. O vulto foi se aproximando da cama. Apesar de escuro, ela podia perceber o sorriso de satisfação em seu rosto. O mesmo que seduzira sua irmã. Ele avançou para a cama igual animal a dar o bote em sua presa. Vinha sedento. Sentiu o peso do seu corpo em cima do dela.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Com a mão esquerda, afastou-o para o outro lado da cama enquanto a mão direita, habilidosa, pegava, embaixo do seu travesseiro, um objeto que, iluminando a escuridão daquele quarto, era cravado no peito daquele que roubara a alegria de sua irmã. Sentada em cima dele, ela forçou mais um pouco a faca. Lembrou-se do dia em que sua irmã havia chegado com as roupas rasgadas e, em prantos, lhe contara o que ele fizera a ela.  De seus olhos, corriam algumas lágrimas. Suas mãos estavam sujas, mas sua alma lavada. A honra da família havia sido restaurada. Agora, qual pássaro que, capturado, sabe que vai para uma gaiola, ela podia entregar-se.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1213781150542878450?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1213781150542878450/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1213781150542878450' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1213781150542878450'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1213781150542878450'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/o-choro-de-procne.html' title='O CHORO DE PROCNE'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6Ax3m7JRUI/AAAAAAAAAJU/Vw-XHCm0ZK4/s72-c/minhas+imagens+-+Judith+e+Holofernes-ArthemisiaGentileschi+001.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-9202903751730827445</id><published>2010-03-16T16:06:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T18:46:40.220-07:00</updated><title type='text'>FELIZ ANIVERSÁRIO</title><content type='html'>Para Maria Alcione Vieira Diniz&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: justify;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A0R4bBnuI/AAAAAAAAAJk/wXTOpqgLW8g/s1600-h/eliseu-visconti-a-carta-ost-1925-51x69-col-part.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A0R4bBnuI/AAAAAAAAAJk/wXTOpqgLW8g/s320/eliseu-visconti-a-carta-ost-1925-51x69-col-part.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Faltavam poucos minutos para o encerramento do expediente. Daqui a pouco, o ônibus estaria passando como todo dia. Mas, hoje, não sabia por quê, ela não estava com pressa para chegar à sua casa. Sim, havia a sua filha, que deveria estar saindo da escola também daqui a pouco. Olhou absorta para o relógio, mas parece que o tempo havia, por um instante, retesado os ponteiros. “Mas ela já é quase uma mocinha (Ah, meu Deus! Que ela não passe por minhas agonias) e pode voltar sozinha pra casa; o ônibus pára perto.” Sua mãe não estava com vontade de chegar na hora certa em casa, como fazia todos os dias. Desde a manhã, sentira uma dor aguda que lhe sufocava. Pensou que fosse a pressão que estivesse alta, mas a dor era mais angustiante e ela não sabia a causa. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Hoje, talvez, pela primeira vez, ela desejou que o seu expediente se prolongasse mais um pouco. Não. Ela queria mesmo que o tempo parasse (havia esquecido que, como disse o poeta, o tempo não pára, não pára não) e apenas ela tivesse consciência disso. Mas se o expediente demorasse mais um pouco, só hoje, apenas hoje, ela se daria por satisfeita. Apesar de não gostar daquele ambiente, ali, pelo menos (e parece que a sua vida era tecida sempre de pelo menos), mantinha a mente ocupada e o coração distraído. Entre um papel e outro, nem percebia que o tempo passava. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; E assim, como a sua vida, o tempo esgarçava-se dia a dia. Mas, só hoje, ela não sabia por quê, a consciência desse fluir ininterrupto do tempo (e de sua vida) estava lhe causando aquela sensação que tinha gosto de morangos mofados. Talvez, por isso, ela quisesse chegar mais tarde à sua casa. Ligaria para lá e pediria à filha que comesse o que quisesse. “Na geladeira, deve haver algum pedaço de queijo e um resto de doce. Essa mistura tinha um gosto de infância”. Ficou triste porque lembrara que a sua infância não havia sido tão doce, pois ela tivera sempre o gosto acre de um limão. Azeda a infância; amarga a vida. Não adiantava ficar ali pensando no que ela nunca faria. Sempre dera meia volta diante de situações que, por mais banais que fossem, estavam a lhe exigir uma ação mais enérgica. Recuava sempre à primeira tentativa de mudança. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ela mesma sabia que daqui a poucos minutos pegaria a sua bolsa e correria para o ponto do ônibus. Precisava chegar a sua casa, fazer o jantar e esperar que a filha descansasse um pouco, contasse as novidades da escola e, depois, juntas, fossem resolver os exercícios passados pela professora: “Quem me dera que só hoje não houvesse aqueles exercícios”, pensou ela enquanto, ao mesmo tempo, percebia que hoje, apesar daquela dor aguda que lhe apertara o peito e que lhe fizera companhia até aquele momento, ela não havia se trancado no banheiro e chorado. Sentia-se angustiada, mas sem vontade de chorar. “Quem sabe não seria hoje o tão esperado dia em que receberia a mais que esperada graça?” Tinha muita fé, e a demora da graça pedida a angustiava mais ainda: “Deus pode não querer me ouvir ou deve estar ocupado com pedidos mais urgentes”.  Mas, justamente hoje, não era isso que a deixara daquele jeito. Sentia-se agudamente diferente. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Apesar da aparente alegria, viver, especialmente hoje, estava sendo mais asfixiante. Por isso, o desejo de não chegar cedo em casa, embora não soubesse para onde ir. Parecia que os meridianos e paralelos que davam norte à sua vida haviam desaparecido e só lhe sobrara uma folha em branco sem vestígio de direção alguma. Talvez, fosse à casa de alguma amiga; mas não! Não se sentiria bem na casa de desconhecidos. Apesar de amigos, todos lhe eram desconhecidos. Nenhum deles a entendia, não sabia o quanto viver era angustiante para ela. Por isso, sentia-se incomodada. Se estivesse diante deles, especialmente hoje, iria falar dos mesmos problemas e ouvir os mesmos conselhos. Hoje, especialmente hoje, sentia que estava num caminho perigoso. Logo ela que tinha já traçado o mapa de sua existência, estabelecido longitudes e latitudes, ainda que não tivesse certeza do seu meridiano. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Viver era perigoso, lera isso em algum livro. Acho que foi em Clarice. Como lhe era difícil ler Clarice! Achou que deveria ir à igreja, poderia melhorar aquela angústia que estava sentindo; mas ela ia sempre à igreja e todo dia pedia ao Senhor (Meu Deus, fazei com que as minhas orações não sejam em vão. Ouvi-me) aquele mesmo presente. Bem que poderia ter ficado casada. Por um instante se arrependeu de ter se separado: “Você é louca?! Era bom continuar casada mesmo, apanhando de seu marido e dormindo fora de casa todas às vezes em que ele aparecia bêbado. Disso, você também não sente falta, hein!?” O arrependimento logo se tornou em alívio quando o seu pensamento foi cortado pelas palavras de sua irmã. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Mas, depois da separação, sua cama se tornara tão fria! Depois do divórcio, tornara-se tão difícil ... Ou isto já acontecia durante o seu casamento quando o seu corpo só sentia o peso do corpo do seu marido e recendia a álcool. Nunca um afago, um beijo caloroso ou uma pegada de jeito. Não, nunca pôde expressar seus desejos. Estes deveriam ser iguais aos seus choros: pequenos gemidos inaudíveis. Escondia-se. Guardara-se. Fora reprimida. Percebeu, então, o motivo daquela dor que a asfixiava desde a manhã: era o seu aniversário e ela estava só, profundissimamente só. Nesse momento, o ônibus havia parado, ela subiu, mas não sabia se hoje, especialmente hoje, desceria no mesmo ponto.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-9202903751730827445?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/9202903751730827445/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=9202903751730827445' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/9202903751730827445'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/9202903751730827445'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/feliz-aniversario.html' title='FELIZ ANIVERSÁRIO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A0R4bBnuI/AAAAAAAAAJk/wXTOpqgLW8g/s72-c/eliseu-visconti-a-carta-ost-1925-51x69-col-part.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-539113826708850431</id><published>2010-03-16T16:03:00.002-07:00</published><updated>2010-03-16T19:07:48.801-07:00</updated><title type='text'>O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A48i55rwI/AAAAAAAAAKE/4X4nmNDyoAY/s1600-h/por-do-sol.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A48i55rwI/AAAAAAAAAKE/4X4nmNDyoAY/s320/por-do-sol.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;Para Diego Mentor de Andrade Galvão &lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Saíra apressado de casa. Brigara com a filha. Como não pensara em um lugar qualquer onde pudesse passar o tempo e pensar um pouco sobre o que acontecera, havia resolvido ir até o parque. Lá refletiria melhor na vida e talvez resolvesse voltar a sua casa. Enquanto caminhava para aquele lugar onde, apesar de toda a poluição e do barulho de carros, a vida na cidade com todas as suas seduções ficava em suspenso; ele ia, no meio do caminho, sentindo saudade do tempo em que era jovem, mas o que lhe vinha à mente eram, sobretudo, as lembranças dos finais da tarde dos sábados e domingos, quando vinha com os amigos jogar naquele parque. Depois da partida de futebol, todos iam tomar um refresco na barraquinha de seu Manuel que ficava na esquina onde hoje está um suntuoso prédio comercial.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Não entendia como aquele parque conseguira resistir às sanhas dos empresários, mas se sentia feliz por poder tê-lo ali. Mesmo depois de passado muito tempo e das raras visitas, o parque mantinha-se semelhante ao de sua juventude: a mesma pista onde, entre uma volta e outra, ele conheceu a sua esposa; as mesmas árvores, o antigo gramado verde sobre o qual foram tecidas muitas juras de amor e muitos planos feitos sem saber que seriam esgarçados pelo destino.  Parou um pouco. A lembrança da esposa, morta recentemente, trouxe uma dor aguda ao peito. Respirou fundo. A imagem da esposa, embora muito amada, estava se tornando meio embaçada, como uma fotografia que, evitando sucumbir às investidas do tempo, procurava resistir, deixar-se presente na folha amarelada do papel da memória. Apesar de o passado servir-lhe de alento, precisava pensar no presente. Restavam-lhe apenas a filha e os dois netos: “Essa é a minha família”, pensou amargamente enquanto se sentava em um daqueles bancos donde podia ter uma ampla visão de todo o parque. Isso apertou mais ainda o seu velho coração saudoso. Permaneceu observando as velhas árvores que, imponentes, olhavam indiferentes para as pessoas que ali estavam sentadas, correndo ou simplesmente vendo a vida passar como um suave e rápido aceno de Zéfiro. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Sentado ao lado da fonte (que bom que ela está ainda aqui!), ele viu um pai levando a filha para jogar comida aos pássaros que, servilmente, vinham atrás do que as débeis mãos infantis espalhavam, entre risos, pelo ar e contemplavam cair no chão. Essa cena (por que, meu Deus, velho só lembra do que se passou?) trouxe-lhe lembranças do tempo em que a pequena Marta o esperava chegar do trabalho para cobri-lo de beijos e abraços, provocando ciúmes na mãe. Ah, a menina de ouro havia crescido e ele envelhecido! Com o tempo, os afetos foram minando até não deixarem mais rastro nenhum. Sentiu mais ainda aquela dor lhe apertar o peito cansado, saudoso.Era uma dor lancinante diante da certeza de que o passado só podia retornar como lembrança. Essa era uma tecido cujos fios, esgarçados pelo tempo, eram difíceis de reunir. &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Lembrar era como estar dentro de um oráculo inativo. Não havia mais esperanças de futuro, só o medo de que aquilo que tanto significou não signifique mais nada. Por isso, embora lhe doesse o peito, ele não queria deixar de pensar nas sobras do que não fica, naquilo que fica do que não sobra. Olhou para o relógio e viu que já era tarde. Mas resolveu ficar mais um pouco. Talvez o seu atraso deixasse a filha preocupada e isso seria a demonstração de que a sua menina ainda se importava com ele. Mesmo assim, estava decidido a não mais morar com ela. Daria um tempo. Os netos estavam na fase em que era preciso tomar às redes. Os meninos eram arredios, assim como sua filha se tornara. Procurava entender a situação dela. Não era fácil para ela se desdobrar horas a fio para manter a casa depois que o marido a havia deixado. Diante desse golpe, sua filha se fechara mais, embrutecera seu coração, devotara-se ao trabalho como se este fosse uma religião. Ele sabia que não estava sendo fácil para ela o divórcio. Os risos da vizinhança, os cochichos dos colegas de trabalho. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; As horas iam-se passando, mas ele não estava apressado para sair daquele lugar. Queria adiar mais um pouco a chegada à casa da filha. Era com muita mágoa, não sabe ao certo se por ter de ter aquela conversa com a filha ou se por estar vendo o que ela se tornara, uma mulher seca, amarga, que ele iria comunicar a ela que estaria indo morar em uma dessas casas de apoio a idosos. Conhecia alguns amigos de infância que preferiram esses lugares para passarem o resto de vida que lhes sobrava. Mas antes queria ver o pôr-do-sol. Dali onde estava, era tão bonito ver o sol morrer para logo mais dar lugar à noite. Além do mais, o vento ali era tão suave que lhe lembrava os ventos do tempo de criança. Preferiu demorar-se mais um pouco naquele banco. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Alô, dona Marta, é do Hospital do Coração. Estamos ligando para avisar que seu pai sofreu um enfarto e está sendo encaminhado para a mesa de cirurgia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-539113826708850431?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/539113826708850431/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=539113826708850431' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/539113826708850431'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/539113826708850431'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/o-ultimo-por-do-sol.html' title='O ÚLTIMO PÔR-DO-SOL'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A48i55rwI/AAAAAAAAAKE/4X4nmNDyoAY/s72-c/por-do-sol.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7282420781954047299</id><published>2010-03-16T16:03:00.001-07:00</published><updated>2010-03-16T18:55:22.709-07:00</updated><title type='text'>O EXÍMIO</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A2S0seWWI/AAAAAAAAAJ0/a2V35zNz4Aw/s1600-h/Miranda.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A2S0seWWI/AAAAAAAAAJ0/a2V35zNz4Aw/s320/Miranda.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Para Augusto Rafael Carvalho de Sousa&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando criança, e isso faz tanto tempo, eu gostava de ouvir várias histórias de trancoso que eram contadas pelo Exímio, um velho que fora meu vizinho na época em que meu pai era juiz numa dessas cidades do interior do sertão, lugar quente sobre o qual, em tom bastante jocoso, dizia papai:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;– O povo daqui, quando morrer e se não for para o céu, quando chegar no inferno, se este for realmente quente como dizem, não vai sentir diferença alguma”. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Ríamos com essas suas comparações meio desatinadas que, no entanto, não tinham nenhuma tinta de galhofa. Eram apenas irrupções de sua veia humorística, pois ele era daqueles que podiam perder até um amigo, mas nunca perdia a chance de provocar risos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Se eu ria das brincadeiras de papai, com as histórias do Exímio (chamo-o assim porque nunca soube seu nome ou porque faz tanto tempo que não me recordo mais), eu ficava alumbrado, como se fosse um dos personagens das Mil e uma Noites ou estivesse perdido num daqueles mundos de uma história sem fim. Eram muitas as histórias. Reis, fadas, monstros, mares bravios, índios, povos de países distantes faziam parte de um cenário que hoje se encontra esgarçado pelo tempo e do qual só restam fragmentos em minhas retinas fatigas. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Antes de contar-me qualquer história, o Exímio sempre perguntava se ele já havia contado a da cachoeira do espelho. Quando não havia ninguém perto que afirmava que sim, eu mentia e balançava negativamente a cabeça. Embora já tivesse ouvido essa história muitas vezes, eu sabia que contá-la propiciava uma grande alegria para aquele velho mago que conseguia extrair das palavras o que elas tinham de mais encantador e, assim, me enredar em tramas mais inverossímeis possíveis. A cada história que contava ou recontava, ele se tornava mais moço, alegre, seu fôlego aumentava, enfim, narrando-as ele remoçava-se. Era como se por meio daquelas histórias, em especial a da cachoeira do espelho, ele pudesse reatar as pontas de sua vida, unir os laços soltos e ter certeza de que os nós dados estavam firmes, frouxos ou até mesmo precisavam ser cortados, como fizera Alexandre, o grande. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Neste caso, narrar era viver e, se ele não contasse tais histórias, poderia morrer. Elas eram, então, como aquela dose de remédio que um paciente em estado terminal precisa administrar não para que a morte não chegue, mas para que a sua chegada seja adiada por mais um dia, se torne, embora inevitável, mais distante e, assim, nos dê tempo para arrumar a mesa, a casa, enfim, deixar tudo pronto para podermos partir quando o expresso do iniludível chegar à plataforma.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O Exímio dizia ser descendente de uma família de nobres dentre os quais havia um que fora alquimista e possuía um belo espelho. Este passou de geração a geração até ser entregue a ele por seu pai. Este espelho possuía uma moldura dourada, diziam que era toda de ouro, e era de um azul que reluzia como cristal. O Exímio, que o guardava em segredo, disse, uma vez, que esse azul era reflexo das águas de uma cachoeira existente no espelho, as quais nunca paravam de se movimentar. Eu não acreditava nessa história, achava que aquilo era invenção dele, mas sempre ficava atento quando ele com sua voz rouca e cansada falava meio que arfante:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Ao fechar os olhos, por um segundo, sentia uma brisa leve e suave em torno do meu corpo. Eram zéfiro e eólios que vinham me dar permissão para que eu pudesse iniciar a passagem. E, num instante, eu já havia atravessado o espelho e estava mergulhando nas águas cristalinas da cachoeira.  Eu podia, depois do banho, correr pelas enormes colinas verdes que nem Atalanta ou Ártemis me pegariam. Gostava também de provar as belas frutas que havia naquelas campinas. Eram tão deliciosas quanto a fruta que Eva provou, tanto que Deus, se tivesse provado uma delas, não teria expulso Adão e Eva do paraíso. Ali, eu me tornava uma criança que se sente segura nos braços da mãe. Lá, Gaya me afagava com todo o seu amor enquanto Cronos dormia esquecido de nós, mas, quando ele se acordava, era preciso que eu voltasse para aqui onde estamos. E assim, eu retornava com o coração de quem arruma o quarto de um filho que já morreu. Mas trazia em mim a esperança dos namorados que juraram se reencontrar e, assim, eu voltava feliz.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Augusto, venha para casa, já está na hora de dormir. Amanhã é segunda, você tem aula. Papai gritava e eu era obrigado, como era o Exímio por Cronos, a voltar à realidade. Despedia-me dele e ia, à revelia, para casa. Afinal, estávamos no final do ano e eu não podia ser reprovado para que pudesse passar as férias na casa de uns parentes de mamãe no Recife. Sentiria saudades das histórias do Exímio, mas era apenas um mês sem vê-lo. Logo, logo, estaria de volta e poderíamos sentar no alpendre de sua casa e rirmos, purgarmos nossas emoções com aquelas histórias. Isso pensava eu, não com essas mesmas palavras, enquanto,  já de pijama, ia para o meu quarto. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; O mês de férias, como já imaginara, passou tão rápido que logo eu estava de volta à casa de meus pais. Quando cheguei, notei que, em vez de alegria, pairava uma sombra de tristeza sobre o rosto deles. Papai pegou na minha mão, fez algumas perguntas evasivas sobre como foram as minhas férias enquanto mamãe perguntava pela saúde de tia Maria. Estranhei aquele comportamento e eles perceberam. Papai pediu que eu sentasse e foi me dizendo que eu não ficasse triste, mas o meu velho amigo contador de histórias havia morrido na noite anterior. Uma das nossas empregadas fora levar um pedaço de bolo de fuba que mamãe fizera e o encontrara caído no chão ao lado de um espelho todo espedaçado. De manhã bem cedo, apareceram algumas pessoas, papai nem mamãe souberam me explicar quem eram ou de onde vieram, dizendo que eram parentes do morto para fazerem o enterro:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Mentira!!!!!!!!!, sai gritando, ele não tinha família. Sua família eram as suas histórias e a sua alegria eram os meus ouvidos desatentos. Corri para a casa de meu amigo e lá onde ele fora encontrado morto não havia nem um pedaço do espelho, apenas um pequeno olho d’água. Fixei bem o olhar e pude perceber que a água que minava da sala ia, pouco a pouco, sumindo. Parei de chorar e compreendi que aquele era o seu último adeus para mim.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7282420781954047299?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7282420781954047299/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7282420781954047299' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7282420781954047299'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7282420781954047299'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/o-eximio.html' title='O EXÍMIO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A2S0seWWI/AAAAAAAAAJ0/a2V35zNz4Aw/s72-c/Miranda.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-4591840967199662707</id><published>2010-03-16T16:01:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T19:01:25.754-07:00</updated><title type='text'>“LOVE THAT DARE NOT SPEAK IT’S NAME”</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Para Israel (ou Samuel) Bilro &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A30rSVlpI/AAAAAAAAAJ8/iWCei1YrcNE/s1600-h/KKKK.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A30rSVlpI/AAAAAAAAAJ8/iWCei1YrcNE/s320/KKKK.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Chovia e ele estava sem sono. Levantou-se da cama e foi para a cozinha preparar um bom chá que pudesse esquentar-lhe a alma e preparar o corpo para sucumbir aos encantos de Morfeu. Sabia, no entanto, que apenas o chá seria insuficiente. Por isso, resolveu ir à biblioteca que ocupava um dos maiores vãos de sua casa. Ali, realizara seu sonho de criança: ter para si o que de melhor havia sido escrito em prosa e verso. Cada livro, adquirido com o gosto que deve sentir uma criança que espera o outro dia para ver o que Papai Noel havia deixado na velha e surrada meia, era uma pedaço do filho que nunca tivera. Alguns daqueles livros, já lera mais de uma vez; outros estavam ali porque eram exemplares raros, não podiam faltar em uma boa biblioteca. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Qual livro escolher, enquanto Morfeu estava preocupado em buscar Eurídice e, por isso, hoje, especialmente hoje, se atrasaria? Poderia escolher um de poesias. Gostava tanto de Bandeira, Cabral, Espanca, Pessoa. Ah, como se emocionara ao ler a história de Maria das águas! Meu querido Lúcio Lins, partiste; mas nos deixaste suaves, embora às vezes torrenciais, palavras em versos líquidos, cálice para quem quer um antídoto para a angústia de existir. Sentia uma inexplicável atração por aquele poema. Talvez porque lhe trouxesse lembranças de sua terra. Talvez porque falasse um pouco de si. Quando a gente envelhece, cada taça de vinho traz em si uma cereja de nostalgia. Sem se decidir, resolveu contemplar todos aqueles exemplares. Toda a sua vida fora devotada a eles que eram bem mais do simples livros. Eram um pedaço de si, de sua história. Sorveu mais um pouco do chá e olhou em direção a um dos poucos armários. Há muito tempo que não reparava no que ele continha. Sentiu uma vontade de abrir e, como uma criança que se diverte com a sua caixa de brinquedos, resolveu brincar com aqueles livros que estavam guardados naquele armário e que, se não me engano, eram do tempo da faculdade. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ah, tempo bom marcado pela euforia de ter passado no primeiro vestibular e deparar-se com um mundo novo a sua frente! Que surpresa a sua ao ver ainda guardadas velhas xérox de textos ainda da faculdade. È tão difícil desfazer-se de coisas velhas, de velhos trastes. Continuou vasculhando aquele monte de papel que Clara, a sua velha empregada, havia tão bem arrumado no armário. Entre uma folha e outra, entre uma pasta e outra, deparou-se com um envelope amarelo. Abriu-o, era um livro. A princípio, não sabia por que aquele livro estava ali. Mas ao ver uma foto rota foi, aos poucos, se lembrando. Enquanto folheava as memórias de Adriano, o livro guardado no velho envelope amarelo, eram as suas próprias memórias que vinham sendo passadas página por página, letra por letra.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Conheceram-se de forma inusitada. Mesma idade, mesmo curso. Embora fossem de signos diferentes, leão e sagitário, eram ligados pelo mesmo elemento: fogo. Além disso, uma outra paixão os unia: a literatura. Adoravam Clarice. Essa paixão os levara a combinar se conhecer e passar a ler textos dela. Até então, entre si havia apenas palavras trocadas na frente do computador, e-mails enviados ou conversas efêmeras pelo messenger.  A sugestão foi acatada, e se encontrariam na própria universidade.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então, ele vivera a esperança de um só dia poderem se encontrar. A partir daí, era constante a ansiedade por esse dia. Na frente do computador, esperava uma nova mensagem, um simples recado por menor que fosse, mas que dissesse: “Pronto, amanhã ou tal dia, nos encontraremos e leremos esse texto de Clarice”. Ele mesmo já havia pensado em alguns contos. Que tal começar por Onde estiveste ontem de noite? Ou então, Amor? Esse não, seria melhor O búfalo. Enquanto pensava nos contos, em como seriam os encontros, aguardava a resposta. Esta demorava a vir; não adiantava olhar o e-mail. No menssenger, só aparecia off-line. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Então, encheu-se de coragem. Foi à universidade. Quem sabe, por acaso, e o acaso sempre urde os fios do destino (ou os corta de vez?), não o encontraria lá? Mas o que iria dizer? Mesmo assim foi, esperou um pouco, vagou pelos corredores e nada. Era melhor mesmo estar em casa, na frente do computador. Este oráculo de fios e sem pitonisa alguma. Talvez, tivesse aparecido e deixado algum recado. E assim, na esperança de um só dia, voltou para casa. Mas não havia recado, tampouco mensagem alguma. Apenas o sinal de off-line. Nem ao menos um ocupado ou volto logo que lhe pudesse alimentar a esperança de um retorno breve, a mesma que alimentou Penélope a tecer e destecer enquanto o seu Ulisses resistia aos encantos de belas nereidas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Paciência, Frederico, paciência. Se ainda não apareceu é porque deve estar ocupado. Afinal, é final de semestre. Ou você pensa que todo mundo é igual a você, que se devota aos livros, aos trabalhos, que se esquece de viver para só estudar? Mas não pôde agüentar; então, deixou um recado. E aí aumentou mais a sua ansiedade. Será que leu o meu recado? Se leu, por que não o respondeu ainda? E assim, na esperança de só mais um dia, continuava acessando o seu e-mail, conectando-se no messenger. E nada. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Entre eles, perdurara um silêncio que só a poucos é dado significar. Sem querer compreender isso, ele, no entanto, teve de entregar-se. Afinal, pertenciam ambos, cada um a seu modo, a uma legião estrangeira.  E, por isso, preferiram, sem dizer uma só palavra, manterem-se à distância. Durante alguns dias, ainda alimentou a esperança de um só dia; mas, passados outros tantos dias, aquela esperança de um só dia precisou de meses e anos. Desse tempo, marcado por esperança que se vestia de frustração, restara apenas aquela foto que guardara naquele livro que lhe era muito especial.  Afinal, estava lendo-o quando se conheceram. Depois de muito tempo, entre uma espera e uma esperança de um dia só, um dia, se encontrarem, compreendeu que ele estava tentando achar a maçã no escuro para ver se conseguia tocar no lustre e, assim, pensar, ou se iludir na esperança de que chegou à descoberta do mundo sem ter de passar por uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, antes que chegasse a hora da estrela.&amp;nbsp;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Como lembrança desse caminho das pedras, restara apenas aquela foto, marco de um mapa que levava a algum tesouro que ele desconhecia, mas que, ainda, depois de tantos anos, ansiava por encontrar, na esperança de que, assim, pudesse provar um pouco do cálice da água viva. E assim, perdido em pensamentos, ele nem se apercebera que o dia já havia começado a raiar, e ele nem dormira. Não havia problema, perdera o sonho, mas sentira que chegara bem perto do coração selvagem da vida. Guardou o livro no armário, fechou a porta da biblioteca, enquanto lhe vinham à mente os versos de Drummond: as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficam.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-4591840967199662707?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/4591840967199662707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=4591840967199662707' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4591840967199662707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/4591840967199662707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/love-that-dare-not-speak-its-name.html' title='“LOVE THAT DARE NOT SPEAK IT’S NAME”'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A30rSVlpI/AAAAAAAAAJ8/iWCei1YrcNE/s72-c/KKKK.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7520741227430620526</id><published>2010-03-16T15:59:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T18:50:44.619-07:00</updated><title type='text'>A PARTIDA</title><content type='html'>&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;/div&gt;&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A1JaHIOBI/AAAAAAAAAJs/Y8DY4ezo-4w/s1600-h/fernand-toussaint-belgica-1983-1955-a-carta-de-amor.jpg" imageanchor="1" style="clear: right; float: right; margin-bottom: 1em; margin-left: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A1JaHIOBI/AAAAAAAAAJs/Y8DY4ezo-4w/s320/fernand-toussaint-belgica-1983-1955-a-carta-de-amor.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;Para Carla Apryl&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Eram doze e meia da tarde, Miguel colocava as mãos no bolso. Sabia que havia posto as chaves em um deles. Só não se lembrava em qual. Após alguns minutos nesta pequena odisséia, ele achou as pequenas chaves e com mais dificuldade conseguiu abrir a porta da casa 30 da rua 15. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Miguel, depois que cheguei em casa, esperei que a noite passasse logo, mas ela persistia em durar, em me atormentar. Fui ao nosso quarto e me deitei na cama, pensando que tudo tinha sido um pesadelo. E, cada vez que pensava, o meu tormento crescia mais. Os objetos giravam, riam de mim, de nós. Eu fiquei me perguntando: Onde foram parar os planos que fizemos quando jovens? O que você havia feito de mim, de meus sonhos? As lembranças (só agora me lembro que tivemos mais momentos tristes do que de felicidades) impediam a chegada do sono.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele morava numa rua tranqüila, cidadezinha um pouco interiorana cujo único meio de transporte para os que não possuíam veículo próprio era o velho trem que, cotidianamente, cortava a vida dos moradores. Logo que entrou em casa, Miguel procurou fechar a porta com cautela, girando, cuidadosamente, a maçaneta. Não queria acordar a esposa que, certamente, ainda estaria dormindo, pois deveria ter se cansado de esperá-lo a noite toda. Sabia que ela não tinha vocação para Penélope, nem fiar sabia, mas tinha uma paciência igual ou superior à da esposa do velho Ulisses.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Passei toda a noite acordada. Já é de manhã (tenho certeza de que você só chegará após o meio-dia), tomei um pouco de café (se você quiser também há café na garrafa e deve estar quente; a marca da garrafa – lembra-se, foi presente de aniversário – é boa; esquenta café até por dois dias), arrumei as malas. Só agora descobri que dentro de mim existe uma outra mulher, ou melhor, ela sempre existiu, mas você a fez com que ela adormecesse. Essa nova mulher é diferente. Sinto-me até melhor. Acho que você ficou junto com o resto de lágrimas que encharcaram o meu travesseiro. Essa nova mulher não é mais aquela que chora; mas a que sente falta de um aperto de mão, uma palavra que entre no ouvido com a suavidade de uma boa música; uma carícia simplesmente. Existe, aqui, em mim uma outra, aquela que tem gana de sentir desejo e andava adormecida dentro desta que fingia sentir prazer quando possuída por você. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Era bom mesmo que ela estivesse dormindo. Ele precisava de um tempo para pensar em como pedir-lhe desculpas pelo vexame do dia anterior. Era um domingo, os amigos reunidos. Não queria nem se lembrar! Sempre que ingeria álcool além do que podia, perdia a noção das coisas. Miguel, diante de um copo, se metamorfoseava. &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Fui mulher silenciosa. Silenciosamente mulher. E você? Foi quem ou o quê? Acho que você foi a sombra que se apossou deste corpo e de minha alma, submetendo-os aos seus caprichos, vontades e desejos. Não sei como nem por que aceitei viver neste mundo que você criou à sua imagem e semelhança e dentro do qual eu tive de me sacrificar para ser modelada, moldada, imolada por você. Agora, percebo que o que construímos se dissipava a cada dia, como a bruma a cada manhã. Precisava me libertar, desejo ser livre. Estive muito tempo pressa a você. Fui ave canora cujas asas você cortou antes de eu ter explorado e conhecido o céu. Sinto o canto da liberdade e estou hipnotizada por ele e para ele me dirijo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Preferiu ir à cozinha depois subiria para o quarto ou dormiria na sala mesmo, como fazia sempre que bebia além da conta. Sentia a garganta seca, precisava tomar um pouco de água bem gelada. Apesar de ser quase uma hora da tarde, estava tudo escuro. As janelas fechadas impediam a entrada dos raios do sol. Acendeu a luz e foi direto para a geladeira. Quando ia abrir a porta, percebeu que havia um envelope, e a letra era a de sua esposa. Será que ela havia escrito que resolvera passar um tempo na casa dos pais? Ou teria ido à casa de alguma amiga e, talvez, não desse tempo de voltar hoje? Preferiu, então, ler logo a carta. Se fosse o que havia pensado, melhor. Teria mais tempo para pensar num novo, entre tantos, pedidos de desculpas. Começou a desdobrar o papel e principiou a ler. Os seus olhos corriam por cada letra, mas em seu pensamento era a voz de sua esposa que reverberava. Naquele momento, significante e significado eram um só: &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Quando pegar esta carta, já estarei longe. Ao término da leitura, o trem deverá já ter partido, levando consigo o que resta de meu coração: cacos de um vitral. Partirei triste, mas feliz. Aprendi com você que amar é fazer parte de uma competição tendo já a certeza de que nunca, mesmo que se chegue em primeiro lugar, se ganhará o prêmio. Aprendi que, de agora em diante, quando eu for amar, deixarei o coração em casa. “Vou recomeçar, vou mudar de vez, vou tirar você da minha vida”. Obrigado pelas lições que me ensinou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Um último abraço, &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: right;"&gt;Carla.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Assim que terminou de ler, Miguel partiu em direção à estação ferroviária, posto que soubesse já ser tarde. “Por que não fizera isso logo que sentiu a verdade daquelas palavras?” Procurou saber o itinerário do trem naquele dia, mas ela poderia ter descido em qualquer estação. O trem que levara Carla já havia partido e a mesma estação ele voltaria; mas ela não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Desde esse dia nunca mais a vi. Procurei por ela, mas não a encontrei ou não procurei direito, ou minhas asas não voaram na mesma velocidade e direção que as dela. Ainda tenho guardadas junto a mim as suas últimas palavras. Guardo-as como quem recolheu as penas de um pássaro querido que, de repente, voou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; De seus olhos, pude ver uma lágrima cair e ainda me lembro de suas últimas palavras:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – É triste achar-se perdido num porto cuja única companhia são as ondas que batem, constantemente, nas encostas da solidão e, como o corvo de Poe, vivem eternamente a repetir: nunca mais, nunca mais.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7520741227430620526?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7520741227430620526/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7520741227430620526' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7520741227430620526'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7520741227430620526'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/partida.html' title='A PARTIDA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A1JaHIOBI/AAAAAAAAAJs/Y8DY4ezo-4w/s72-c/fernand-toussaint-belgica-1983-1955-a-carta-de-amor.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-6996899451698434783</id><published>2010-03-16T15:54:00.000-07:00</published><updated>2010-03-16T19:11:16.924-07:00</updated><title type='text'>NA PLATAFORMA</title><content type='html'>Para Saulo de Tasso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div class="separator" style="clear: both; text-align: center;"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A6IZxHGQI/AAAAAAAAAKM/JIuhn97Pu6s/s1600-h/despedida.jpg" imageanchor="1" style="clear: left; float: left; margin-bottom: 1em; margin-right: 1em;"&gt;&lt;img border="0" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A6IZxHGQI/AAAAAAAAAKM/JIuhn97Pu6s/s320/despedida.jpg" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Ele sempre detestava quando chegava à plataforma e não encontrava o ônibus ali, esperando os passageiros. Não gostava de ficar parado ao lado daquelas pessoas desconhecidas ou ter de dizer um não ríspido àquele pedinte que sempre interpelava com aquele olhar de piedade todos os passageiros antes de embarcarem. Também não lhe agradava ficar andando para lá e para cá, num vai-e-vem interminável, igual ao pêndulo de antigos relógios de parede. Ele se sentia assim: um velho relógio de parede sem parede.  Às vezes, olhava para cima e sua aversão aumentava. Aquela rodoviária era horrível! O grude presente há tanto tempo nas latas de lixo não só tornava invisível a cor daqueles depósitos como lhe causava nojo. “E esse desgraçado do ônibus que não vem?!”, pensava enquanto fingia uma conversa com alguém pelo celular sem crédito. Sempre fazia isso toda vez que sentia vontade de romper o silêncio em ambientes onde se sentia estranho ou a que era avesso. Começou a aumentar o fluxo de passageiros passando nas catracas e entregando, num gesto mecânico, as passagens aos funcionários do terminal para que retirassem o bilhete da taxa de embarque. Afinal, faltam dez minutos para a hora prevista da viagem. E o ônibus ainda não estava na plataforma! E ele tinha pressa em chegar. Não sabia o porquê, mas queria sair dali. O ar pesado, o sol quente e o próprio ambiente daquela cidade, apesar das muitas árvores existentes, o sufocavam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Queria estar em casa, tomar um banho, comer um pouco e cair na solidão de seu quarto. Mas o ônibus teimava em não aparecer. Os passageiros iam se aproximando mais da plataforma e já começava a se formar uma pequena fila. Todos rostos estranhos para ele, que, cabisbaixo, olhava para o relógio. Ao levantar a cabeça e olhar em direção ao local para onde o ônibus já deveria ter aparecido, seu olhar cruzou-se com um outro. Sentiu um velho estalo que sempre aparecia quando se interessava por alguém. Aquele rosto havia lhe chamado a atenção. O seu dono tinha um misto de candura e doçura. Os hormônios presentes em seu rosto demonstravam que era novo. Deveria ter entre 17 a 20 anos. Isso o fez lembrar uma frase de Nelson Gonçalves: toda mulher deveria amar um jovem de 17 anos. Mas ele era um homem e será que poderia...? Não deu tempo de completar a pergunta tampouco achar uma resposta, pois percebera (Ou será que foi imaginação sua?) que o Outro havia percebido, num instante fugaz, que lhe despertara algum interesse: os olhos se entendem; os corpos se desejam.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; Absorto naquele curto momento em que olhares jogados ao acaso se encontram, nem percebera que o ônibus tinha chegado à plataforma. Só se deu conta quando o não mais tão esperado ônibus fez um barulho ao parar, o qual fez com que ele saísse daquele estado de alumbramento. Será que o Outro o havia notado mesmo? Não teria coragem de se aproximar. Se tivesse, pelo menos, um cartão com seu nome e telefone poderia tentar, discretamente, entregar. Mas isso lhe era impossível: faltavam-lhe o cartão e a coragem. Entregou a passagem ao motorista que olhou para ele e para a foto na carteira de estudante e, bruscamente, devolveu-lhe a passagem. Subiu. Sua poltrona era a 16. Detestava quando ficava no corredor. Preferia sempre as poltronas na janela, assim evitava ser tocado por passageiros ou pelo vendedor de comida (Olha o lanche, cachorro-quente e refrigerante – detestava aquele pregão de barítono desafinado), e, assim, distraía-se olhando, através do vidro da janela, a mesma paisagem que, de semana a semana, não sofria nenhuma alteração: em umas partes, havia cenários para quadros à Di Cavalcanti; em outros, Monet ou Picasso poderiam pintar lindos girassóis ou crepúsculos em plantio de trigo. Mas não havia trigo ali, apenas canas-de-açúcar que deveriam ficar muito bem num Monet. Apesar disso, ele não sentia nada diante deste cenário, preferia manter o olhar lançado ao acaso. Assim, não percebia o tempo passar e, quando se dava conta, já estava chegando à rodoviária de sua cidade. Sentia um alívio ao pisar em solo conhecido.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; &amp;nbsp;&amp;nbsp;&amp;nbsp; – Parece que vamos ficar juntos. “Ficar ou sentar?” Não entendeu qual dos dois verbos ouviu, mas aquela voz cortou-lhe os pensamentos. Assustou-se: era o rapaz que vira lá embaixo na plataforma. Ia se levantando quando foi interrompido: – Desculpe-me, a minha poltrona não é a 17. É a 20. Aquela sensação de euforia evolou-se. E ele, que, naquele ínterim, já tinha imaginado duas mãos se encontrando no escuro do ônibus, teve de voltar à sua fria poltrona. Mas sentia que aquela aproximação não havia sido aleatória. Lembrou-se do seu celular, mas estava sem crédito. Não importava, fingiu que estava ligando para uma amiga: – Olá, Nicole, tudo bem? Exato, sou eu mesmo. Sei. Sei. Mas é que me levaram o meu antigo aparelho. Sim, fui roubado. Não, não, estou bem. Não se preocupe. Estou ligando para lhe passar o meu novo número. Anote aí: 468954. Foi dizendo cada algarismo pausadamente. Será que o Outro tinha se interessado e anotado? Acho que não. Fora tudo fruto de sua imaginação?!. Um solitário é sempre um quixote sem seu sancho pança. Mas era preciso esperar e foi o caminho todo pensando nisso. Dessa vez, parece que o ônibus chegara mais rápido. Preferiu descer logo e não quis olhar para o Outro. Queria acreditar que aquela não teria sido a última vez, que haveria uma outra em que não apenas olhares se encontrariam. Eram oito da noite, pegou um táxi. Queria chegar logo em casa. Amanhã, quem sabe, poderia ser um outro dia, e sua história poderia ter um novo personagem. Ou esta seria mais uma página no seu grande livro de coisas passadas e fechadas pelo álgido cadeado do esquecimento? Ah, Drummond, as coisas findas, muito mais que lindas, ficarão mesmo? Percebeu que o taxista baixou o som do carro e pegou o celular, mas não era o dele que tocava. Era o seu. Pensou que fosse Nicole, mas a voz do outro lado não era a dela.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-6996899451698434783?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/6996899451698434783/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=6996899451698434783' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6996899451698434783'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6996899451698434783'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2010/03/na-plataforma.html' title='NA PLATAFORMA'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/S6A6IZxHGQI/AAAAAAAAAKM/JIuhn97Pu6s/s72-c/despedida.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1309054697174594885</id><published>2008-09-23T10:52:00.000-07:00</published><updated>2008-09-23T10:59:36.844-07:00</updated><title type='text'>Júlia Lopes de Almeida [1] – a sagrada família: uma leitura de A isca</title><content type='html'>&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNkuCAfZ1kI/AAAAAAAAAEU/q0rfgwsUQ2M/s1600-h/arrufos.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5249277452703356482" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNkuCAfZ1kI/AAAAAAAAAEU/q0rfgwsUQ2M/s320/arrufos.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Marcelo Medeiros da Silva&lt;br /&gt;Universidade Federal da Paraíba – PPGL&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nascida no século XIX, Júlia Lopes de Almeida, assim como muitas de suas coetâneas oitocentistas, escreveu obras que versam, sobretudo, a respeito da esfera doméstica onde muitas mulheres permaneceram fechadas dentro de casas e sobrados, mocambos e senzalas, construídos por seus pais, maridos, senhores. O privado foi, então, o cenário escolhido por essas autoras para fazer desfilarem, na ficção, mulheres que, igualmente como as da realidade, eram confinadas no mundo interior da família e mantidas sob o jugo patriarcal. Sendo assim, voltadas para o espaço doméstico, o privado, as mulheres, ao construírem o seu universo ficcional ou poético, deram prioridades aos laços familiares:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estes laços, protetores e constritivos, são, freqüentemente, elementos estruturantes dos conflitos narrados. A família é, de fato, um tema que se impõe àqueles(as) que se interessam pela problemática feminina, seja ela abordada pelos mais diferentes campos do saber (XAVIER, 1998, p. 13).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem “a moral e os bons costumes”, daí serem recorrentes na produção delas temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a “esfera perfumada de sentimento e singeleza”, não abordassem nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública, isto é, assuntos de homem. Assim, não nos causa estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e planejados pela arquitetura masculina, as mulheres escolhessem justamente esses espaços para falarem, dizerem quem eram, são e foram.&lt;br /&gt;Esses escritos, ainda que tenham tomado a esfera privada como cenário, são registros de “modos específicos de dramatização do crescimento urbano, da expansão industrial e da modernização dos costumes, nas primeiras décadas do século 20” (RAGO, 2005, p. 196). Por outro lado, esses mesmo escritos revelam também os efeitos individualizadores da crença nas tradicionais divisões entre os papéis sexuais e entre as esferas pública e privada, já que os assuntos mais recorrentes eram vistos, sob a óptica masculina, como simples coisas de mulher e, portanto, desprovidos de qualquer valor. Entretanto, “essas simples coisas de mulher” são uma preciosa fonte de informações sobre a família, a vida doméstica, a visão dos oprimidos e trouxeram para o espaço público assuntos ligados ao campo da moral, do cotidiano e dos costumes, mas também ao campo da sexualidade, do amor, do casamento e da prostituição.&lt;br /&gt;A isca de Júlia Lopes de Almeida é um bom exemplo de como assuntos da esfera do privado vieram para o espaço público sob a ótica de um olhar feminino. Apresentada como livro de contos pelo Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (2002), A isca (1911) é, no entanto, classificada, conforme edição da Livraria Leite Ribeiro, publicada em 1922, como um conjunto de novelas que, além da que dá título ao livro, é composto por mais três: O homem que olha para dentro, O laço azul e O dedo do velho. Deter-nos-emos apenas na primeira dessas quatro novelas.&lt;br /&gt;A isca é uma novela cuja trama gira em torno de duas forças igualmente poderosas: o amor e o dinheiro. Nesse caso, parece que Júlia Lopes dá continuidade ao que José de Alencar fizera em Senhora (1875). Ratificam essa nossa impressão o fato de o personagem criado por Júlia Lopes trazer o mesmo sobrenome do personagem criado por Alencar e o fato de o enredo de A isca ser muito semelhante ao de Senhora, romance em que se narra o processo de compra de um marido. Lembremos que o romance é estruturado em quatro partes que representam as etapas dessa compra: “O preço”, “Quitação”, “Posse” e “Resgate”.&lt;br /&gt;Na primeira, Alencar fala do dote oferecido por Aurélia para casar-se com Seixas. Como ela “precisava de um marido, traste indispensável às mulheres honestas”, Seixas estava disponível no mercado e ela podia pagar por ele. O casamento seria, então, a forma mediante a qual Seixas, rapaz casadoiro e possuidor de economias corroídas e de posses escassas, poderia inserir-se noutra classe social e elevar-se. No dizer de Antonio Candido, “Fernando Seixas é um intelectual elegante e pobre, que, incapaz da ascese comercial de Jorge da Silva, [personagem de A Viuvinha], resolve o problema da posição social trocando por cem contos a liberdade de solteiro numa transação escusa” (CANDIDO, 2000, p. 205).&lt;br /&gt;Na segunda parte do romance, estabelecida a realidade de mulher traída e a de homem vendido, o narrador mostra como Aurélia despertava “a fome de ouro nos cavalheiros do lansquenete matrimonial” até que veio a comprar um marido. Adquirido o esposo, Aurélia, entretanto, fugia do mercenário, “como se receasse o contágio do homem a quem unira” e que se lhe apresentava “reduzido à mercadoria ou traste” cuja cotação era feita no mercado, assim como “se usava outrora com os lotes de escravos”.&lt;br /&gt;Na terceira parte, feita a transação matrimonial, não acontece a tão esperada consumação carnal do dito “santo amor conjugal”, pois Seixas, transformado de sujeito a objeto, e Aurélia vivem separados por um divórcio moral. Por fim, na última parte, expiada a culpa de Seixas, ele é restituído à sua natureza generosa e, regenerado, está pronto para tornar-se livre mais uma vez, só que, agora, ao lado da esposa que, em nome do amor, foi também redimida de seu orgulho.&lt;br /&gt;Em A isca, Antônio Seixas, tal qual Fernando de Senhora, é uma espécie de arrivista social. Entretanto, Alencar narra a história da compra de um marido, Júlia Lopes de Almeida em sua novela nos narra os fatos acontecidos depois de o negócio firmado. Guardadas as devidas diferenças, ambos os autores procuram enfatizar o aspecto comercial do casamento, como se fosse mais um negócio a ser realizado. Se Alencar fala da compra de um marido, Júlia Lopes fala da caça a uma esposa rica. Neste caso, o título da novela é bastante sintomático, pois, de acordo com o dicionário Houaiss da Língua Portuguesa, o vocábulo isca significa “chamariz que se põe no anzol para atrair e capturar peixes”. Lida a novela, perceberemos que a personagem Isabel de Mendonça será a isca de que se valerá Antonio Seixas para conseguir a sua ascensão social. Dessa forma Isabel de Mendonça e Antonio Seixas constituem os vértices de um triângulo cuja outra ponta é composta por Vera Landim.&lt;br /&gt;Quando a narrativa inicia-se, Isabel e Antonio já estão de casamento marcado. Vera nos é apresentada como a noiva abandonada por Antonio, já que este preterira Isabel a ela. Isabel tinha sido, na opinião de Dionísio, personagem que tenha consolar Vera, o objeto que Antônio ambicionara:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deixe-os dançar e pensar que são felizes. Para eles a vida está toda dentro daquele ritmo vagaroso. Viverão sempre assim, para trás e para diante, para diante e para trás, sem vôos de imaginação e nem poesia ... Até aqui o Antonio ainda tinha uma certa expressão interessante, porque era ambicioso. Casando rico tornar-se ha um apático (AI, p. 6-7).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim como Aurélia, Vera é abandonada porque o dote de Isabel Mendonça é muito maior. Entretanto, ao contrário da personagem de Alencar, Vera resigna-se e resolve ir morar na fazenda dos avós, embora seja cortejada por Dionísio cujas investidas ela descarta, uma vez que ele é casado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Ainda não chegou a hora. Repare que estamos sós. E sós estaremos toda a vida um em face do outro. O senhor é casado. Eu sou honesta. A nossa comédia seria, além de um crime, uma vergonha. Procure amar a sua esposa. eu procurarei resignar-me ao meu sofrimento (AI, p.11).&lt;br /&gt;.&lt;br /&gt;O dote, durante muito tempo, foi um costume entre as famílias proprietárias que consistia em dotar as filhas, oferecendo-lhes, na maioria das vezes, casa, gado e escravos (índios) para que assim, com esses bens, elas pudessem estabelecer família própria. Com o dote, a mulher não só contribuía para o sustento do casal, como também deixava o marido em situação de devedor, ainda que a administração dos bens do casal ficasse sob a responsabilidade do marido. O dote era, portanto, elemento bastante significativo para o sustento do novo casal, além de ser um atrativo a mais das moças de família rica desejosas por casar. Quanto maior fosse o dote, mais pretendentes a moça poderia ter na bolsa de valores do mercado matrimonial. Esse era o caso de Maria Isabel, personagem de A isca, conhecida por ser muito rica. Por isso, seu pai um homem sensato e pacato, a advertia: “– Os pretendentes a dotes gordos surgem de todos os cantos, são os cogumelos da humanidade. Sê prudente e não te deixes cair no anzol sem mais nem menos ... ”(AI, p. 15-16).&lt;br /&gt;Apesar dos conselhos do pai e da vigilância da tia Milu, Isabel Maria não ficou muito tempo longe do anzol do caçador de dotes Antonio Seixas. Eles se conheceram de relance durante uma temporada de verão em Petrópolis. Tornaram-se a encontrar em um dos saraus musicais realizados na casa da Silveirinha, nome de um personagem que dá título a um romance homônimo de Júlia Lopes. Nesse segundo encontro, a indiferença que marcara o primeiro cedera lugar a uma certa contemplação muito expressiva. Por essa época, Isabel estava comprometida com André Sales, de quem só sabemos essa informação, e Antonio Seixas era noivo de Vera Landim, boa pianista e bastante exímia em ciências naturais. A união de Isabel e Antonio parece demonstrar que o amor como estímulo para o casamento ocupou lugar de menor importância. O enlace deles representa bem os moldes das relações amorosas entre final dos oitocentos e limiar dos novecentos: do noivado, curto e que nem sempre sucedia ao namoro, seguia-se o casamento.&lt;br /&gt;Antonio é-nos apresentado como um homem que se acostumara a hábitos de rico. Por isso, “uma preocupação qualquer, mais forte do que todos os deleites espirituais, lhe distraía o pensamento” (AI, p. 20). Antonio, inserido num grupo de pessoas cuja maior qualidade eram “os mesmos gostos dispersivos”, estava absorto “em duas coisas: o amor e o dinheiro”. Para manter os hábitos que criara e que lhe custavam caro, Antonio precisava fazer uma grande fortuna. Alternativa que lhe aparece mais vantajosa é casar-se “com uma mulher muito mais rica do que a Vera Landim” (AI, p. 21) e, assim, não fazer figura triste entre os amigos. Antonio, então, decide que a solução para aumentar os seus exíguos rendimentos estava no casamento com Isabel. Ressentia-se por não se casar com Vera; mas Isabel podia concretizar muito mais rápido os sonhos dele de luxo e ascensão social. Casando-se com ela, Antonio poderia desfrutar da influência política e econômica do sogro.&lt;br /&gt;Homem para quem o amor é apenas um dos produtos de uma transação mercantil, Aas procura capturar a sua isca Lamdimma fazer uma grande fortuna.certa contemplaçmatromonial.ntonio Seixas procura capturar a sua isca. E, assim, aproveitando que era época de carnaval, num dos passeios a que foram, “Antonio sentou-se ao lado de Isabel e tocava de vez em quando com a dela a sua taça de Champagne. Depois ofereceu-lhe um cigarrinho. Ela fez uma careta, mas aceitou. Ele ria-se e ela já o tratava, embaralhadamente, por tu e por você... Dias depois estavam noivos” (AI, p. ). O que une Antonio a Isabel é, portanto, o interesse material e econômico dele. O interesse sentimental e afetivo mal começara a brotar, eles estavam de casamento marcado. O enlace matrimonial com a filha do rico industrial se afigura a Antonio como substancialmente vantajoso, como um negócio da China.&lt;br /&gt;Como dote, ser-lhe-iam oferecidos duzentos contos (o dobro do que recebera Fernando Seixas, de Senhora) e uma casa, além de sociedade na fábrica do futuro sogro. Decepcionado, Antonio alegrou-se, entretanto, ao lembrar que Vera Landim não possuía dote sequer a oferecer a ele. Embora não fosse o esperado, Antonio ainda saíra lucrando: Isabel lhe traria, de uma só vez, fortuna e importância. Assim, mais para alimentar os seus hábitos de rico do que para comemorar o seu casamento, “Antonio julgou-se um príncipe e atirou-se para a ourivesaria a comprar a crédito diamantes e perolas para a noiva. Pagaria depois, com o dinheiro que ela trouxesse, mas teria desde logo o prazer de se mostrar generoso e de a ver lisonjeada...” (AI, p. 32).&lt;br /&gt;Todavia, se rápida foi a fisgada de Antonio, mais rápida ainda foi a sua decepção com o casamento. Do que ele sonhara ao contrair compromisso com Isabel, restaram-lhe apenas os duzentos contos e a casa da rua Marquês de Abrantes. Tudo o mais fora dilapidado pelo sogro antes de morrer. O dote recebido era insuficiente, depois de tantos gastos, para cobrir as despesas que Antonio fizera, uma vez que ia ser genro de um grande industrial. Até mesmo tia Milu, que vivera sob a proteção do pai de Isabel e que devotara a sua vida à família dela, foi dispensada e se viu “como uma mosca numa teia, sem saber para que lado mover-se, para não cair de todo nas garras da miséria” (AI, p. 55).&lt;br /&gt;Tia Milu representa o papel de mulher desprestigiada por ser solteira. Como o casamento se apresentava para as mulheres, na maioria das vezes, como a única possibilidade de carreira, “permanecer solteira, além de pouco atraente e financeiramente inviável na maioria das vezes, implicava um desprestígio para a mulher” (ROCHA-COUTINHO, 1994, p. 83). Devido à situação de dependência econômica absoluta, Tia Milu era a criatura mais obediente e explorada da casa onde prestava os mais muito relevantes: consideração, respeitabilidade, comodidade, economia, vigilância de mãe, noites mal dormidas, os quais não eram suficientes para modificarem a sua condição de parente pobre que vive à custa de favores. Aliás, como bem notara Schwarz (2000), a prática do favor foi uma das marcas de nosso Brasil oitocentista foi a prática do favor, a qual condicionava a ascensão social e “, ponto por ponto, pratica a dependência da pessoa, a exceção à regra, a cultura interessada, remuneração e serviços pessoais”. Apesar disso, a prática do favor era uma estratégia mediante a qual se alimentava a ilusão de que nenhuma das partes envolvidas era escrava da outra. Como afirma Schwarz (2000, p. 20), “Mesmo o mais miserável dos favorecidos via reconhecido nele, no favor, a sua livre pessoa, o que transformava prestação e contraprestação, por modestas que fossem, numa cerimônia de superioridade social, valiosa em si mesma”. Isso se aplica muito bem à Tia Milu, cuja situação dentro da casa dos Mendonça se modificou após a morte do cunhado:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Milu sentia-se desconsiderada e arrependida. O seu luto, feito com tecidos baratos e cosido pelas suas próprias mãos, dava-lhe a impressão de atestar aos olhos de todo mundo a sua decadência. Do que se arrependia era de ter passado a maior parte da sua vida no período da grande energia, como parasita de uma casa rica, a gastar a sua atividade em vigilâncias que não lhe tinham deixado nenhuma compensação pessoal... (AI, p. 43).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda assim, tia Milu não deixou de visitar Isabel em cujo comportamento ela começava a perceber algumas mudanças. Com a morte do pai, sem o dinheiro esperado que viria como herança, Isabel se inquietava com as dívidas vultosas que foram contraídas por Antonio e por ela. Entretanto, tia Milu percebia que as preocupações de Isabel não eram as contas a pagar, e, sim, Antonio. Ela sabia que ele se casara pensando no dote de Isabel. Por isso, soam irônicas as seguintes frases da tia dita à sobrinha::&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– E o amor? Perguntou então tia Milu, com tão encoberta ironia, que a outra não compreendeu.&lt;br /&gt;– Ele ama-me muito.&lt;br /&gt;– Pois isso é tudo. Quando há amor, que importa o resto?&lt;br /&gt;– Quem ama não come?&lt;br /&gt;– Apenas para sustentar-se, se não tem para mais, e com isso se deve sentir satisfeito. Que melhor dote para um homem que ama, que possuir a escolhida do seu coração e vê-la assim tão perfeita, tão boazinha como tu és? O Antonio não se casou com o teu dinheiro; casou-se contigo, e deve considerar-se o homem mais feliz do mundo, porque tu és uma mulher encantadora. Deves dizer-lhe isto mesmo, quando ele desesperar (AI, p.47).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O leitor, pelo que já vem acompanhando ao alo da narrativa, perceberá que tudo o que Tia Milu está dizendo soa como irônico porque o que moveu o casamento de Antonio e de Isabel foi exatamente o fato de ele ver a futura esposa como capital simbólico imprescindível à ascensão social dele. Se no imaginário da época, o corpo feminino era o mercado por onde circulavam os bens da família, Isabel era esse corpo de que Antonio queria tornar posse. Para ele, o matrimônio era visto como um contrato de natureza político-sócio-econômica. Aliás, essa foi a forma sob a qual o casamento foi concebido anterior à ascensão burguesa. Só com o advento da burguesia, emerge, dentre outras coisas, o conceito de amor conjugal e, neste caso, casa-se não mais por interesses políticos, econômicos e sociais, mas por interesses do coração.&lt;br /&gt;Entretanto, como o casamento não evitou o fantasma de uma demonstração pública de penúria, era preciso a Antonio vislumbrar outras saídas a fim de que não se pudesse chegar a esse tipo de humilhação. Por isso, a ele só restava usar o que de mais caro lhe havia: sua esposa Isabel. Esta deveria, usando das artimanhas femininas, conseguir, sob as orientações do próprio marido, um emprego para ele com o Sr. Ministro Dr. Jordão. Assim como muitas outras mulheres, além das atividades estritamente ligadas à casa, a Isabel foi delegada uma outra função: estimular e ajudar, com sua simples presença e demonstração de dotes físicos, o seu marido na conquista de êxitos. Isabel é, portanto, utilizada como instrumento para favorecer os interesses do marido, ou seja, como capital e como expressão do êxito comercial de Antonio a fim de conquistar uma boa posição social e econômica para ele. Isabel, assim como muitas outras mulheres, passou a ser a responsável pelo sucesso e bom êxito de Antonio, que se valeu da habilidade e da demonstração dos dotes femininos da esposa como elementos decisivos na sua elevação social. Dessa forma, assim como muitas outras personagens da ficção oitocentista, Isabel tem seu papel social redefinido. A ela não bastava a atuação apenas no seio da família. Era preciso atuar também em sociedade:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– O Dionísio pediu-me para entrar com eles numa grande negociata com uma empresa americana. Aceitei. Estamos só à espera de umas instruções de Nova York. Entretanto, não seria mau que eu fosse ocupar o tal lugar no ministério... Convém-me mesmo estar do lado de dentro, o que me facilitará depois qualquer manobra. Isto são minúcias que não vêm ao caso: o principal agora é conseguir que o Vasco me dê o lugar, e para isso preciso de ti.&lt;br /&gt;– De mim?!&lt;br /&gt;– Pois então? Que melhor advogado poderei ter do que a minha mulherzinha? (AI, p. 63).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, para contribuir no projeto familiar de mobilidade social, Isabel precisa convencer o ministro a dar o cargo que interessava a Antonio, que manteria o seu prestígio social e que empurraria o status de sua família mais e mais para cima. Para tanto, Isabel é instruída pelo próprio marido. Ela precisa se vestir bem, fingir que partiu dela mesma a idéia de ter uma conversa com o ministro. Ardiloso, Antônio precisava dirigir muito bem a mulher para representar o papel que ele mesmo escrevera para ela. Para Isabel, “era a primeira vez que ela entrava em cena para representar um papel estudado: devia procurar modelo para as sua atitudes. E aquele parecia-lhe excelente”.&lt;br /&gt;Dias depois, a nomeação de Antonio foi recebida com espanto pelos amigos que ficaram curiosos para saberem como ele conseguira um dos cargos mais importantes da secretaria do ministro Vasco cuja assiduidade à casa de Antonio e de Isabel deram por desconfiar, fazer suposições. De Isabel, só quem olhasse bem para os seus olhos é que “teria a impressão de que atrás deles flutuava a sombra de um segredo íntimo, muito pessoal. Esse mistério, esse não sei quê de intátil e sutil, como que a tornava mais mulher e mais interessante” (AI, p.76). Antonio, por sua vez, estava bastante “excitado pela onda grossa dos bons negócios, que se avolumavam diante de si, mal percebia o traço de fel que se ia pouco a pouco acentuando nos lábios, antes sempre doces, da sua Isabel” (AI, p. 76).&lt;br /&gt;Passado o embevecimento da fortuna conquistada, Antonio se via em uma situação delicada: livra-se do Vasco, “de quem já não precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado” (AI, p.77&lt;br /&gt;()precisava e cujas assiduidades junto da mulher começava a dar-lhe cuidado pouco a pouco acentuando nos l). Com receio de ter o seu nome arrastado na lama, Antonio repreende Isabel pelo excesso de confiança que ela estava dando ao Vasco:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Bem sabes que esse [o Vasco] vem todos os dias.&lt;br /&gt;– Bem sei, bem sei! Todos, todos os dias! A mim isso me parece demais. Bastou! apre, bastou! Já não o posso tolerar nem quero tornar a vê-lo em minha casa!&lt;br /&gt;– Agora . . .?! Retorquiu-lhe a mulher com ironia.&lt;br /&gt;– Agora e sempre!&lt;br /&gt;– Mas por quê?&lt;br /&gt;– Porque não quero que arrastem o meu nome pela lama das ruas, entendeste? Tu bem sabes por quê! As suas assiduidades nesta casa estão tomando um caráter de intimidade que me desagrada imensamente e podem ser comentadas lá fora de modo desairoso para ambos nós. Eu não admito que isso suceda; eu não admito, ouviste? E a culpa tem sido tua, que lhe dás confiança. (AI, p. 82).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E Isabel, numa das cenas mais interessantes e de maior força dramática da novela, exaspera-se com Antonio:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Minha?&lt;br /&gt;– Sim, tua.&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;– Não me faças perder a cabeça, não me faças perder a cabeça, repetiu ele, de punhos cerrados, apoplético e terrível. Supus ter casado com uma mulher honesta e afinal...&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;– E afinal, acaba!&lt;br /&gt;– Que és tu? . . . dize!&lt;br /&gt;– Ah! pois ignoravas? Eu sou a isca. Eu fui a isca ... e não tenho sido outra cousa desde que me conheceste, e deves saber disso muito melhor do que eu mesma, que não compreendi as cousas senão depois delas passadas e irremediáveis.&lt;br /&gt;– Cala-te.&lt;br /&gt;– Agora está dito. Serviu-te o meu dote; serviu-te a minha beleza. Estás rico, estás farto, não precisas de mais nada, podes zangar-te e defender a tua honra; mas a ingênua morreu e a outra mulher que existe dentro de mim, melhor é que a não provoques, para que te não diga verdades desagradáveis.&lt;br /&gt;Antonio levantou as mãos e cresceu para a mulher, lívido de raiva.&lt;br /&gt;– Bate, concluiu Isabel, sem se mover do lugar em que estava. (AI, p. 84).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Arrefecidos os ânimos, Antonio e Isabel foram passar um tempo no interior. Quando regressaram, o Vasco já não mais assistia no Rio. Ele, que já estava se aborrecendo com a “insaciável avidez de negócios lucrativos, de que [Antonio] andava sempre à caça”, havia casado com uma viúva e fora morar nos estados Unidos. Para Antonio, a distância do antigo “amigo” alimentou-lhe a esperança de um novo horizonte. As relações com Vasco eram coisas do passado e lá deviam ficar enterradas lá como ficaram os ressentimentos de Isabel e pelo esposo. O coração dela arrefecera e estava unido ao do esposo pela ternura que ambos estavam sentindo pelo filho que estava por nascer:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O bebê esperado enlaçara o coração arrefecido dos pais numa corrente de ternura. Tinham-se perdoado tudo; viviam dele, por ele, na esperança de sua graça, da sua perfeição, da sua beleza. Tudo o que ficara no passado estava bem enterrado; agora só olhavam para frente, onde o vulto do filhinho lhes aparecia de diversos modos, em diversas idades . . .&lt;br /&gt;Foi quando a criancinha veio ao mundo e que lhe deram o nome de Antonia Isabel, para que no próprio nome eles estivessem nela reunidos [...] (AI, p. 87).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com esse adorável epílogo, podemos tecer algumas considerações últimas.Assim como muitas outras obras escritas anteriormente à sua publicação, A isca trata do casamento como um contrato social e coloca o dinheiro no cerne da trama. Essas mesmas obras, em sua maioria, representam o amor como um bálsamo capaz de restaurar o caráter moral perdido e de vencer os interesses econômicos no casamento. Ao contrário dessas obras, A isca, entretanto, vem apresentar um outro lenitivo: a família. Ou melhor, A isca vem reforçar a importância do amor familiar.&lt;br /&gt;Em nome dos laços familiares, e não mais dos sagrados laços do matrimônio, Antonio e Isabel deixam de lado as rusgas e os dissabores do passado. Essa nova família, alicerçada nos moldes burgueses, vem reconfigurar os papéis do homem e da mulher no ambiente privado. Instaura-se, a partir daí, uma outra reorganização das vivências familiares e domésticas: um sólido ambiente familiar, um lar acolhedor. Dentro desse novo molde familiar, se a mulher possuía instintivamente o amor aos filhos e estava naturalmente preparada para se dedicar a eles, o homem não era mais apenas o provedor do lar. Tornara-se o pai, o chefe da família cuja incumbência maior era zelar pela felicidade e bem-estar da esposa e dos filhos. Revestidos dessa nova função, Antonio e Isabel parecem ter encontrado a sua mais alta realização humana. E assim, com essa cena familiar, a narrativa encerra-se com sabor de happy end.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a title="" style="mso-footnote-id: ftn1" href="http://www.blogger.com/post-create.g?blogID=8681241324606906682#_ftnref1" name="_ftn1"&gt;[1]&lt;/a&gt; A primeira parte do título do presente trabalho é retirada de um texto da prof. Dra. Elódia Xavier, o qual se encontra no livro Declínio do patriarcado: a família no imaginário feminino, de autoria da referida professora. Além disso, este texto foi escrito para uma aula ministrada durante o meu estágio docência. Por isso, ainda precisa passar por algumas alteraçoes que serão feitas posteriormente. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1309054697174594885?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1309054697174594885/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1309054697174594885' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1309054697174594885'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1309054697174594885'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/09/jlia-lopes-de-almeida-1-sagrada-famlia.html' title='Júlia Lopes de Almeida [1] – a sagrada família: uma leitura de A isca'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNkuCAfZ1kI/AAAAAAAAAEU/q0rfgwsUQ2M/s72-c/arrufos.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1559605654543183323</id><published>2008-09-21T06:59:00.000-07:00</published><updated>2008-09-21T07:18:24.938-07:00</updated><title type='text'>"Em torno de um jarro" ou uma geografia sentimental da infância: estudo crítico</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Marcelo Medeiros da Silva&lt;br /&gt;Universidade Federal da Paraíba&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. Literatura infato(il)-juvenil: à guisa de uma introdução&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A literatura infantil surgiu em meados do século XVIII. Nesse momento, a criança passou a ser vista como um ser diferente do adulto e, por isso, precisava receber uma educação especial que a preparasse para a vida adulta, o que fez com que, aliado à literatura infantil, surgisse uma preocupação pedagógica que revestiu muitas das obras voltadas ao público infanto-juvenil. Sendo assim, para a constituição de uma literatura destinada à infância e à juventude, criaram-se adaptações dos clássicos e procurou-se apropriar-se dos contos folclóricos, como fizeram Perrault e os irmãos Grimm. Ademais, surgiram em outros países novas propostas de obras literárias infantis. Entre os mais importantes escritores estavam: Andersen, Lewis Carroll, Mark Twain, Charles Dickens.&lt;br /&gt;No Brasil, a maioria das obras destinadas ao público infanto-juvenil, além do caráter pedagógico, eram adaptações de obras portuguesas. Merecem destaque aqui os seguintes autores: Carlos Jansen, Figueiredo Pimentel, Coelho Neto, Olavo Bilac e Tales de Andrade. Foi, porém, Monteiro Lobato quem impulsionou a literatura infantil brasileira e abriu espaço para que, em sua esteira, viessem escritores com talento para escreverem obras direcionadas a crianças e a adolescentes.&lt;br /&gt;Delineado, ainda que rapidamente, esse cenário, permitam-nos o luxo de uma digressão: o que significa o termo “infantil”? existe, realmente, uma literatura infantil? Para a primeira pergunta, antes de qualquer resposta, é preciso refletir sobre “esse ‘infantil’ como qualificativo especificador de uma determinada espécie dentro de uma categoria mais ampla e geral do fenômeno literário” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 05). Essa reflexão se torna imprescindível porque falar à criança no Ocidente é falar a uma classe sem voz e cujos valores são ditados pelos adultos; é colocar a obra literária entre duas figuras: o dominador e o dominado, o que faz com que a obra literária infantil seja revestida de um caráter utilitário-pedagógico, num processo de catequização da criança por meio de uma literatura infantil. Ao proceder assim, esqueceu-se que a arte e a própria criança têm outros desígnios e desejos, e que ela, a criança, não é um ser dependente, nem um adulto em miniatura; mas um ser que, na sua linguagem, privilegia o lado espontâneo, intuitivo e concreto da natureza humana.&lt;br /&gt;Como resposta à segunda pergunta, Cunha (2003), ao comentar as posições em torno da literatura infantil, diz que a existência dessa literatura é questionada por muitos educadores e literatos, e que muitos autores se esquivam dizendo que escrevem simplesmente sem destinatário – esses são, conforme a referida a autora, os que, na maioria, escrevem só para crianças. Outros preferem afirmar que, durante o processo de elaboração da obra, já a imaginavam se era para criança ou não. Esses escrevem, então, tanto para crianças quanto para adultos.&lt;br /&gt;Mesmo assim, continuamos sem uma resposta precisa sobre o que significa o termo infantil atrelado ao vocábulo literatura e constituindo, assim, o sintagma literatura infantil. Entretanto, parece ser inquestionável o fato de que a literatura infantil, hoje, existe e que possui características próprias. Nessa perspectiva, os debates e as reflexões não devem se voltar mais em torno de questões que ainda estão preocupadas em saber se existe uma literatura infantil, mas precisam se voltar para “definir pontos de contato e de afastamento entre literatura para crianças e para adultos. Se o afastamento se der na essência do fenômeno literário, então haverá literatura infantil. Nesse caso, a própria expressão ‘literatura infantil’ torna-se absurda, pois não podemos imaginar literatura sem arte” (CUNHA, 2003, p.26).&lt;br /&gt;No entanto, não podemos esquecer que, desde os primórdios, a literatura infantil é vista como subliteratura, como um gênero ou forma literária menor cuja função deve estar revestida de um caráter utilitário-pedagógico, o qual a torna uma pretensa literatura infantil (nesse caso é mais pedagógica do que literária) cuja função é criar determinados modelos lingüísticos. Essa suposta literatura infantil é, nas palavras de Paolo e Oliveira (1986), “linguagem carregada de ideologia que permeia cada fala do narrador, cada diálogo das personagens, e tem um destinatário certo: o leitor infantil, cujo pensamento se pretende capturar”. Nesse caso, reverbera-se ainda a voz da lei pedagógica em exercício literário. Diante dessa voz que traz determinado enfoque da realidade social, a criança tem a função de aprendiz passivo.&lt;br /&gt;Ao contrário dessa pretensa literatura infantil a que aludimos anteriormente, a verdadeira literatura infantil deve procurar sintonizar-se, assim como faz o pensamento infantil, com o pulsar pelas vias do imaginário e ser uma “leitura que segue trilhas, lança hipóteses, experimenta, duvida, num exercício contínuo de experimentação e de descoberta. Como a vida” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 10). Em outras palavras, deve procurar investir na inteligência e na sensibilidade da criança. Ao proceder assim, ou seja, ao abordar os textos de literatura infantil sob a dominante estética, põe-se em risco a categoria infantil, visto que “não se trata mais de falar a esta ou àquela faixa etária de público, mas sim de operar com determinadas estruturas de pensamento – as associações por semelhança – comuns a todo ser humano” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 12).&lt;br /&gt;É por isso que muitas obras não-elaboradas com a intenção de falar ao público infantil foram direcionadas à criança. É o caso de, por exemplo, Aventuras de Robson Crusoé, de Viagens de Gulliver, de Lewis Carrol e suas Alices, de Guimarães Rosa em muitos de seus contos, de alguns poemas concretistas e oswaldianos, ou de alguns poemas escritos por Paulo Leminski. Por outro lado, muitas obras destinadas à criança agradam muitos adultos. Diante disso, Cunha (2003, p. 28) chega a postular que:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a literatura infantil não só existe, como também é mais abrangente (apesar do adjetivo restritivo da expressão); na realidade, toda obra literária para criança pode ser lida (e reconhecida como obra de arte, embora eventualmente não agrade, como ocorre com qualquer obra) pelo adulto: ela é também para crianças. A literatura para adultos, ao contrário, só serve a eles. É, portanto, menos abrangente do que a infantil.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliado a isso, acrescentemos que, na compreensão do fenômeno literário, nada é mais importante do que a “consciência da natureza universal da arte literária, que a liberta desse ou daquele público específico – e, nesse ponto, com o qual concordamos, Paolo e Oliveira divergem de Cunha – para propor-se como generalizadora e regeneradora de sentimentos [...]” (PAOLO e OLIVEIRA, 1986, p. 13).&lt;br /&gt;Delineado o campo melindroso da literatura infantil, passemos agora à análise de uma obra destinada ao público infantil: Em torno de um jarro, escrita por Edmundo de Oliveira Gaudêncio e ganhadora do prêmio Novos Autores Paraibanos na categoria de Literatura Infantil, versão de 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;II. Rememorando a infância perdida: aspectos temático-estruturais de “Em torno de um jarro”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando o espaço da narração abrange a consciência, não só a personagem se percebe como representação, mas também o próprio narrador passa a se perceber como construtor de sua história para um possível leitor. Assim, há uma busca pela reconstrução de sua própria história, uma busca pela identidade através da memória. Na obra em análise, o narrador mergulha nessa busca por sua identidade e, mediante a memória, procura, voltando à infância, reconstruir sua história a partir de uma das fases de sua vida, o que faz com que o tempo seja distorcido em função das vivências subjetivas desse narrador, havendo, assim, entre a urdidura dos fatos rememorados, a predominância do tempo psicológico. Por isso, toda a narrativa é construída a partir das lembranças desse narrador e marcada pela atemporalidade de um “era uma vez”, afastando, assim, a narrativa da realidade, atitude essa que o narrador explica da seguinte forma: “esta estória começa [...] com isto de era uma vez, somente porque o menino que fui, hoje não sou”.&lt;br /&gt;A passagem seguinte (“à esquerda, o relógio do frontão – você é capaz de enxergar detalhes onde todos vêem nada? – marcava sete e dez que tanto poderiam ser de domingo ou de sábado”), ao lado do “era uma vez”, atesta a pouca importância dada ao tempo cronológico e a preferência pelo tempo indefinido, que, sendo também subjetivo, é relativo e irregular, dependendo, sobretudo, dos diferentes estados subjetivos do personagem/narrador. Além disso, esta mesma passagem faz lembrar Joana, personagem de Perto do Coração Selvagem, que, diante do relógio, quando sentia dor, “via então que os minutos no relógio iam passando e a dor continuava doendo. Ou, senão, mesmo quando não lhe doía nada, se ficava defronte ao relógio espiando, o que ela não estava sentindo também era maior que os minutos contados no relógio. Agora, quando acontecia uma alegria ou uma raiva, corria para o relógio e observava os segundos em vão”.&lt;br /&gt;Contudo, ao contrário de Joana, o personagem gaudenciano não pára diante do relógio para refletir sobre o seu tempo subjetivo, isto é, enquanto os minutos são paralisados quando Joana sente alguma emoção, no texto do autor paraibano, o tempo é posto em suspenso para que a personagem possa “caminhar pela pontezinha que unia os dois lados da cidade, correr pelo ancoradouro, banhar-se no rio de porcelana do jarro de sua infância”. A personagem não é um contemplador do tempo, mas um viajante que procura se encontrar atando presente e passado.&lt;br /&gt;No texto em prosa, prosseguindo, a construção do espaço é representada por meio de descrições. É no espaço que a ação se desenvolve e também é nele que as personagens, que aparecem integradas com o lugar físico, circulam. Ademais, a unidade de espaço é decorrente da circunstância de apenas determinado ambiente encerrar importância dramática, daí por que os acontecimentos ocorrerem sempre em ambientes curtos. Sob esse aspecto, no texto em pauta, há a predominância do espaço psicológico que reporta o narrador à casa de sua infância onde morava com seu pai, sua mãe e sua avó e que lhe permite, ao vasculhar a sua intimidade, passear pelos meandros daquele jarro que jaz em sua memória, podendo, inclusive, entrar “numa das casas, a maior do lado direito, às margens do velho rio. Lá dentro não encontrei qualquer pessoa e por isso subi até o sótão, onde encontrei muita coisa, a maior parte imprestável: uma velha espada de ferro, uma adaga cega de prata e uma caixinha de música que ao ser acionada, por trás de toda a ferrugem, tocou triste melodia ao compasso de leves pés de fantasma da bailarinaria, podendo, inclusive, entrar "@r pelos meandros daquele jarro que jaz em sua memrro de sua inf”. Nessa passagem, adjetivos como “velho” ou “imprestável”, assim como os substantivos “ferrugem”, “fantasma”, vêm reiterar a idéia de tempo passado, o qual revive como “uma triste melodia” que vem permear as lembranças da personagem com uma certa nota de nostalgia.&lt;br /&gt;A personagem é um ser fictício que se refere a uma pessoa. Historicamente, antes de essa categoria passar, por analogia, à literatura, a personagem era a representação da pessoa no teatro. Entretanto, a personagem da narrativa não é a pessoa. Consoante lição de Roland Barthes, a personagem é um ser de papel e construído, portanto, de e por palavras. No conto aqui analisado, são poucas as personagens que intervêm nos fatos narrados. Tem-se o protagonista (a personagem central da narrativa) que é ao mesmo tempo o narrador da estória que, quando criança, contracenava com a avó (personagem adjuvante que desempenha um papel secundário, auxiliando o protagonista), a qual era “a única que me entendia, de fato [...]: deixa o menino sonhar...! Sonhar é bom...! Vai ver e será poeta...!”.&lt;br /&gt;Além dessas personagens, há ainda o pai e a mãe do protagonista, personagens secundárias. Esta última ralhava “irritada com aquilo de dia e noite ficar espiando o jarro, isso sim, onde já se viu ... Devia ir brincar lá fora...!”. Acrescentemos que, no tocante ainda às personagens, no texto gaudenciano, todas elas são destituídas de nomes. Essa supressão onomástica pode ser interpretada como um recurso de que se valeu o autor para conferir a sua narrativa o anonimato comum tanto ao conto popular quanto à grande parte das formas de narratividade.&lt;br /&gt;Quanto à linguagem, no conto em tela, verificamos a coexistência das três formas do discurso, a saber:&lt;br /&gt;– Discurso direto: “Você finda quebrando isso, ela ralhava. Talvez fosse até melhor, arrematava, só assim levava vida sabia que nem faz todo moleque...!”.&lt;br /&gt;– Discurso indireto: “Tentando consolar-me, minha mãe argumentou que estavam ambos muito velhos e que por certo homem não chora e que já era quase um homem feito [...]”.&lt;br /&gt;– Discurso Indireto livre: “E a minha avó me dizia que neste jarro você ainda vai descobrir uma coisa muito valiosa...!”; “À esquerda, o relógio do frontão – você é capaz de enxergar detalhes onde todos vêem nada? – marcava sete-e-dez que tanto poderiam ser de domingo ou de sábado”; “Uma ocasião fiquei doente, piorando muito da asma. Tosse, febre, e minha mãe, pensando em chamar o médico, ralhou que vai ver, é porque não come, o da inteiro olhando para esse jarro...!”.&lt;br /&gt;Entretanto, essa coexistência entre as três formas de discurso não é tão pacífica assim. Lendo a obra, temos a impressão de que essas formas se entrelaçam de tal maneira que se toma impossível distinguir uma da outra. Recurso esse bem apropriado a um texto que se erige a partir da memória. Esta permite ao narrador estabelecer uma relação com o passado e, portanto, com uma dimensão do tempo e com uma dimensão da vida, já que a memória é esse olhar em direção ao passado, um olhar que é lançado em busca de coisas distantes e ausentes, o que faz “tranqüilizar as águas revoltas do presente pelo alargamento de suas margens” e, dessa forma, “[...] permite a relação do corpo presente com o passado e, ao mesmo tempo, interfere no processo ‘atual’ das representações. Pela memória, o passado não vem à tona das águas presentes, misturando-se com as percepções imediatas. Como também empurra, ‘desloca’ estas últimas, ocupando o espaço todo da consciência” (BOSI, 2004, p. 47). A memória é, então, uma atualização do passado e é também um registro do presente para que permaneça como lembrança. Neste processo, é o ato de narrar que vai manter passado e presente amalgamados. Sendo assim, o narrador deseja, no contar a história, (re)encontrar-se, mas, para isso, é preciso, intercambiando experiências, reconstruir, num processo em que, mediante o ato de narrar, se mergulha na vida do narrador-personagem da obra em apreço para que, assim, se possa retirar, de dentro dele mesmo, a coisa a ser narrada.&lt;br /&gt;Nessa empresa de presentificação de um conjunto de lembranças hauridas de experiências também passadas, o ato de narrar corporifica o eterno re-fazer que o ato de lembrar representa, já que, conforme assevera Chauí (2004, p. 20), “[...] lembrar não é reviver, mas re-fazer. É uma reflexão, compreensão do agora a partir do outrora; é sentimento, reaparição do feito e do ido, não sua mera repetição”. Narrar é, portanto, para o narrador gaudenciano, lapidar um diamante feito de lembranças, esgarçadas pelo tempo, o que exige dele o trabalho da reflexão e da localização, sem o qual a lembrança seria imagem fugidia. Essa exigência, por sua vez, implica que o ato de lembrar deve vir acompanhado de certo sentimento para que a lembrança vinda à tona não seja uma repetição do estado antigo, mas reaparição (CHAUÍ, 2004).&lt;br /&gt;O sentimento que reveste o narrador gaudenciano nessa sua incursão ao passado é a saudade, ou seja, “sobras do que não fica, [aquilo] que fica do que não sobra”. Enfim, para lembrar Chico Buarque, se “a saudade é o pior tormento”, “é pior que o esquecimento”, “é pior do que se entrever”, se ela é “o revés de um parto”, “é arrumar o quarto do filho que já morreu”; ela o é porque “saudade é perder de vista, é não ter mais sob os olhos, é nunca mais olho-no-olho. E porque desejo é falta – somente desejamos o que não temos –, saudade é viva percepção da incompletude, castração, amputação, hiância, espaço vazio em que nos tornamos e de que passamos a ser feitos” (GAUDÊNCIO, 2007, p. 72). Sendo a saudade esse perder que se ganha em se cuidar, ela reveste as lembranças do narrador gaudenciano de uma aguda nostalgia que não se torna mais lancinante porque o ato de narrar oferece ao narrador a possibilidade de entrar em contato com esse passado que de alguma forma se conservou e de cuja rememorização o narrador se vale para poder reencontrar, habitar ocasiões outra vez favoráveis, encontrando, nesse processo, o conforto do reencontro nos espaços da memória.&lt;br /&gt;No conto gaudenciano, a ação, à semelhança dos contos de fadas, inicia-se marcada pela atemporalidade de um “era uma vez”, para a partir dela serem apresentados os personagens: “era uma vez um menino magricela, asmático, feio e muito só. E era uma vez, também, um jarro grande no centro da casa de minha infância onde vivi com eu pai, minha mãe e minha avó...”.&lt;br /&gt;Feita essa apresentação, outra semelhança com os contos maravilhosos, o narrador prossegue a narrativa, lembrando-se do tempo em que era criança, e vai relatando as suas aventuras dentro do jarro, que foi “... pintado por um mago ou feiticeiro que ali havia apreendido a luz com pinceladas” e em cuja pintura apareciam “um rio, uma ponte, os dois lados de uma cidade dividida pelo rio”, onde uma vez “quase fiquei preso para sempre lá dentro de tal pintura... nas outras viagens, não, que eu parava defronte às casas para além da ponte e não entrava em nenhuma delas, que em casa alheia não se pode ir, assim, entrando sem mais, nem menos, mesmo quando seja apenas uma casinha de pintura em porcelana...”.&lt;br /&gt;No entanto, certo dia, o jarro, esse objeto com propriedades mágicas em cujo interior se acha(va) construído uma mundo mágico, semelhante ao da parságada de Bandeira, com suas encruzilhadas e atalhos visíveis apenas “para quem tem olhos de inventar o escondido” quebrou-se: “foi o vento, disse minha mãe, recolhendo meus segredos nos milhões de caquinhos do meu jarro colorido...”.&lt;br /&gt;Com a quebra do jarro e com a morte da avó, encerra-se o rito de passagem da infância à vida adulta, o qual já vinha sendo percebido pelo narrador: “[...] descobri não sei como que de crescendo em crescendo eu havia crescido muito [...]” e “por incrível que pareça, não chorei pelo meu jarro: não era mais menino, havia ficado grande”. A chegada à vida adulta, porém, não lhe roubou a capacidade de sonhar, “esta capacidade de sonhar, que um sonho, por si só, é quase tudo [...]” e é, exatamente, esta capacidade de sonhar que alimenta o sonho dele de que um dia “seremos outra vez juntos, eu, meu pai, minha mãe, minha avó, aquele jarro [...]”.&lt;br /&gt;Permitam-nos, mais uma vez, o luxo de outra digressão referente, agora, à relação entre as imagens e o texto infantil. Nessa relação, a ilustração é vista como porta de entrada para a leitura, havendo, neste caso, um diálogo profícuo entre texto verbal e imagens, ou como uma primeira experiência com a imagem como expressão artística (SILVA, 2000). No texto em análise, as ilustrações estão relacionadas com o texto verbal, de tal forma que há uma integração entre as formas de leituras da escrita e da imagem. À medida que se vai lendo o texto escrito, a figura do jarro mantém com o texto verbal uma fina sintonia, funcionando como uma sombra que ganhará cores somente no final do texto. Nesse momento, o leitor já sabe, pelo que está escrito no texto verbal, que “uma jarro é mais que um jarro, / e muito mais quando se quebra”, o que é sugerido pela gravura da página 29, na qual, em vez do desenho, temos a imagem recortada de um jarro cuja gravura, presente na página posterior, é uma reprodução de uma paisagem do século XVII, intitulada de “Vista de Delft”, de Vermeer:&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248475934060810418" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; WIDTH: 381px; CURSOR: hand; HEIGHT: 258px; TEXT-ALIGN: center" height="280" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZVDe3hkLI/AAAAAAAAADM/p47zGC4tG6U/s320/1delf.jpg" width="320" border="0" /&gt;&lt;br /&gt;Ao lado de A Viela ou Rua de Delft (1660), a Vista de Delft foi pintada por Vermeer e se enquadra no gênero paisagem. Na Vista de Delft, a mais famosa, encontramos uma descrição primorosa da cidade holandesa de Delft, cuja iluminação natural é captada por Vermeer em sua pintura. Além disso, ao pintar o céu da cidade, Vermeer procurou reunir características climáticas da Holanda, cujo sol e nuvens claras são surpreendidos por nuvens mais escuras. As casas, as torres e os telhados recebem, ao fundo, uma maior incidência da luz solar. A Vista de Delft é, portanto, um amálgama de efeitos perspectivos, cromáticos, tonais e de luz. Isso lhe confere o lugar de uma das paisagens urbanas mais extraordinárias de toda a pintura européia. É, portanto, essa paisagem que, a partir de fragmentos verbais, juntamente com a repetição da imagem do jarro pintada em preto e branco, o narrador vai procurando construir. Quando está quase construída, é-nos apresentada a fusão da imagem verbal (as palavras) com a imagem pictórica; fusão essa que culmina com a construção do jarro, o qual não mais se encontra despido de cor. Pelo contrário, agora, aquela imagem que integrava o jarro e que, antes, fora apresentada por meio de vocábulos verbais, assume a forma pictural e juntamente com o esboço do jarro, construído a partir de signos verbais e de uma imagem pictórica, constituem uma só imagem. Com isso, parece que o trabalho de rememorar está findado, já que conseguiu chegar ao seu objetivo, isto é, reconstruir um objeto perdido: o jarro, metáfora da própria infância pretérita. No entanto, embora cheguemos ao fim da narrativa, ficamos com a impressão de que tudo começará novamente e de que o narrador adentrará em si para ver se encontra a si mesmo e, não se encontrando, nostalgicamente, reinicia a busca de si mesmo. Ao proceder assim, o narrador se torna, portanto, um prisioneiro da linguagem, e, dessa forma, o que seria uma forma de libertação se torna um meio de encarcerar o sujeito (o narrador-personagem) que permanecerá preso a um passado que não o liberta para viver o presente, num processo eterno de retorno ao tempo passado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III. CONSIDERAÇÕES FINAIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ao terminarmos de ler o conto “Em torno de um jarro”, fica-nos a impressão de que a todos nós acontece, pelo menos uma vez na vida, (re)pensar sobre a infância, buscar lá no passado explicações que venham a auxiliar na compreensão do que somos hoje e, talvez, do que seremos amanhã. Nessa empresa, Edmundo de Oliveira Gaudêncio realiza um verdadeiro passeio por uma geografia sentimental da sua infância, o que confere um aspecto autobiográfico a sua narrativa, cujo percurso só pode ser descoberto se levarmos em consideração o valor simbólico atribuído ao jarro. E é justamente procurando descobrir esse valor simbólico, do qual o jarro é portador, que o que temos é um homem que diante de si procura refletir sobre a sua própria condição humana, lançando um olhar sobre o passado. Todavia, consoante lição de Huberman (1998), como o ato de ver acha-se bifurcado, visto que o que vemos só é válido pelo que nos olha e como o ato de ver só se realiza no tocar, a personagem gaudenciana procura ver esse passado, embora não consiga tocá-lo, pois tal passado é fruto de lembranças, muitas delas esgarçadas pelo tempo e apenas acessíveis através da memória. Em virtude disso, tudo o que se apresenta ao narrador é olhado pela perda do passado, que é a infância rememorada.&lt;br /&gt;Dessa forma, lançar um olhar para trás, a fim de buscar o que aí se acha perdido, é fruto do fato de que ver é perder. Nessa perspectiva, o jarro é o objeto visual que vem mostrar a perda, a destruição, o desaparecimento de um corpo (e o narrador tem consciência disso, pois logo no início da história ele diz: “Esta estória começa deste modo, com isto de era uma vez, somente porque o menino que fui, hoje não sou [...]”). Nesse caso, o jarro é a representação simbólica de um túmulo (cujos aspectos mórbidos são realçados pelas cores preto e branco e pela própria forma do jarro que mais parece uma urna funerária) diante do qual o narrador se acha face a face e sobre o qual põe os olhos. Sendo assim, por um lado, há aquilo que se vê do jarro, ou seja, a evidência de um volume, em geral, uma massa de argila ou porcelana trabalhada: “um jarro é argila, fogo, suor e pronto: eis um jarro”; por outro lado, há aquilo que nos olha e, de certa forma, é uma espécie de esvaziamento: “um jarro é um vazio cercado de porcelana”, este vazio, por sua vez, não tem nada de evidente.&lt;br /&gt;Sob esse aspecto, sendo um túmulo, o jarro encerra em si mesmo um sentido que é perturbador, pois olha o narrador até o seu âmago e perturba-o, mostrando-lhe que ali nele, no narrador, mais precisamente em suas lembranças, jaz aquela criança que pelos caminhos do jarro um dia passeou. Por isso, diante do jarro, o narrador tomba, cai na angústia e contempla o passado. Diante disso, a única atitude lúcida se chama melancolia, a qual provoca um esvaziamento no narrador que, para preencher tal vazio, se lança ao passado onde ele, o narrador, busca reconstruir, a partir de aspectos positivos, a sua infância, visto que o passado é a fonte onde repousam as memórias da infância. Preso a esse passado que ele tenta reconstruir narrando a si mesmo, o narrador gaudenciano desencadeia um processo cíclico do qual não pode escapar: “nada tem fim ou começo: tudo é continuar-se eternamente”. Isso confere à narrativa uma nota de melancolia, já que, embora atualize eventos do passado, o ato de narrar reafirma o caráter pretérito de tais eventos. Narrar é, portanto, para o narrador gaudenciano, uma forma de lidar com a inevitável e grande perda de um objeto denominado tempo passado.&lt;br /&gt;Por fim, resta reiterarmos que Edmundo de Oliveira Gaudêncio, com “Em torno de um Jarro”, constrói uma obra calcada em palavras carregadas de significação e possuidoras de alto poder de sensibilização, uma obra que exige muito mais do que um simples leitor passivo, pois investe na criatividade do leitor e o convida a atualizar os sentidos de uma obra na qual o autor, assumindo uma postura eivada de lirismo e nostalgia, erigiu, com a argamassa da palavra, um mundo para o qual convergem uma miríade de imagens sinestésicas e no qual o próprio autor revela os seus mais (in)conscientes desejos, os quais podem também ser os do próprio leitor. È uma obra que desponta altaneira na grande seara de obras destinadas ao público infanto-juvenil, mas uma obra que, desde a sua concepção, se singulariza, pois é fruto de um processo em que o exercício artístico e as experiências pessoais se amalgamam. E como se isso não bastasse, “Em torno do jarro” é uma obra em que a palavra, trabalhada com rara inventividade, é silêncio, paixão, memória e, sobretudo, poesia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ABDALA JUNIOR, Benjamin. Introdução à analise da narrativa. São Paulo: Scipione, 1995.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 12.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CHAUÍ, Marilena. Apresentação. In: BOSI, Ecléa. Memória e Sociedade: lembranças de velhos. 12.ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CUNHA, Maria Antonieta Antunes. Literatura Infantil – Teoria &amp;amp; Prática. São Paulo: Ática, 2003.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GARCIA, Othon Moacyr. Comunicação em prosa moderna. 19. ed. Rio de Janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. Em torno de um jarro. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 1999.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;GAUDÊNCIO, Edmundo de Oliveira. Cartografia da saudade: apontamentos para a clínica do luto. In: RIBEIRO, Maria Goretti, SILVEIRA, Maria de Fátima de Araújo e OLIVEIRA, José Alex Nogueira de. Corpo e alma: terapia biopsicossociais. João Pessoa: Editora Universitária/UFPB, 2007.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HUBERMAN, Georges Didi. O que vemos, o que nos olha. São Paulo: Editora 34, 1998.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;KHÉDE, Sonia Salomão. Personagens da Literatura Infanto-juvenil. São Paulo: Ática, 1990.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;LAGES, Susana Kampff. Walter Benjamin – Tradução e Melancolia. São Paulo: Edusp, 2002.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOISÉS, Massaud. A criação literária (Prosa I). São Paulo: Cultrix, 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;MOISÉS, Massaud. A análise literária. São Paulo: Cultrix, 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PAOLO, Maria José e OLIVEIRA, Maria Rosa D. Literatura infantil – voz da criança. São Paulo: Ática, 1985.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SILVA, Márcia Tavares. Brincar com palavras e imagens. In: PINHEIRO, Hélder (org.). Poemas para crianças: reflexões, experiências, sugestões. São Paulo: Duas Cidades, 2000.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SILVA, Marcelo Medeiros da. O verbal se fez imagem, e a imagem era o verbal: a infância verbo-visualizada na obra Em torno de um Jarro, de Edmundo de Oliveira Gaudêncio. Campina Grande: Universidade Estadual da Paraíba, 2004. (Monografia de Graduação em Letras).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;SILVA, Marcelo Medeiros da. Da página à tela e da tela à página: uma leitura da infância em Edmundo de Oliveira Gaudêncio. I Encontro Nacional sobre Literatura Infanto-Juvenil e Ensino. 14 a 17 de junho de 2006. Campina Grande: Bagagem, 2006. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1559605654543183323?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1559605654543183323/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1559605654543183323' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1559605654543183323'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1559605654543183323'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/09/em-torno-de-um-jarro-ou-uma-geografia_21.html' title='&quot;Em torno de um jarro&quot; ou uma geografia sentimental da infância: estudo crítico'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZVDe3hkLI/AAAAAAAAADM/p47zGC4tG6U/s72-c/1delf.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1658546782658788034</id><published>2008-08-31T08:19:00.000-07:00</published><updated>2008-10-18T16:42:21.438-07:00</updated><title type='text'>Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem comportada?</title><content type='html'>&lt;div align="center"&gt;&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWWif4ukyI/AAAAAAAAABs/zWni60LvVMw/s1600-h/julia+lopes.gif"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248266460189332258" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWWif4ukyI/AAAAAAAAABs/zWni60LvVMw/s320/julia+lopes.gif" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Júlia Lopes de Almeida&lt;br /&gt;&lt;p align="center"&gt;&lt;a href="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWWidEQC6I/AAAAAAAAAB0/KyyLXnZY7Vo/s1600-h/carolina.bmp"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248266459432356770" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://1.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWWidEQC6I/AAAAAAAAAB0/KyyLXnZY7Vo/s320/carolina.bmp" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;/p&gt;Carolina Nabuco com seus irmãos e sua mãe&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ESCREVER v.t.d. 1 representar por sinais gráficos (pensamentos, idéia etc.); redigir 2 riscar sobre uma superfície (palavras, frases, letras, caracteres etc.) 3 inscrever, gravar 4 B infrm. aplicar multa a (infrator de trânsito) t.d. e int. 5 criar (obra escrita); compor, redigir (e. um romance) (e. diariamente para o jornal) t.i. e t.d.i 6 (prep. a, para) enviar (carta, bilhete etc.).&lt;br /&gt;Visto meramente como uma palavra em estado de dicionário, não nos apercebemos dos outros matizes de que se reveste este ou aquele verbete. Dicionarizada, a palavra pode nos apresentar as suas “essências”, mas deixa de nos passar outros efeitos que ela adquire quando posta em ação. Escrever, verbete que abre o presente texto, bem mais do que as acepções apresentadas, quando conjugado, quando posto em ação, quando mergulhado na intrigante rede ideológica que tece a sociedade em que vivemos, é, inevitavelmente, um ato político e ideológico por meio do qual aquele que escreve vai, sobretudo, se inscrevendo, imprimindo a sua marca, por mais indelével que seja, naquilo que escreve. Jean Genet, escritor francês, definiu muito bem o ato de escrever da seguinte forma:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A página que no início era branca, agora está cruzada de alto a baixo por minúsculos sinais negros, as letras, as palavras, as vírgulas, os pontos de exclamação, e é graças a eles que se diz que esta página é legível. Contudo, há uma espécie de inquietação do espírito, há essa vontade de vomitar muito próxima da náusea, há uma oscilação que me faz hesitar em escrever... seria a realidade esta totalidade de sinais negros? O branco, aqui, é um artifício que substitui a translucidez do pergaminho, o ocre marcado dos tabletes de argila, mas este ocre em relevo, como a translucidez e o branco, talvez tenha uma realidade mais forte que os sinais que o desfiguram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como estávamos dizendo, cristalizada nas páginas de um dicionário, a palavra perde “uma realidade mais forte”; escapa-lhe, portanto, essa “inquietação do espírito”, “essa vontade de vomitar próxima da náusea”. Essas realidades nos fazem, apropriando-nos ainda das palavras de Jean Genet, hesitar em escrever. Agora, pensemos nas escritoras do passado. Pensemos no quanto elas hesitaram em escrever e no quanto escrever pode ter-lhes sido nauseante. Para elas, escrever era muito mais do que representar (e representar o quê?) por sinais gráficos, era muito mais do que gravar, redigir. Escrever era uma luta por algo que lhes era amiúde negado: o poder de, pela escrita, dizer que eram, conhecerem-se a si mesmas e reconhecerem-se no Outro, ainda que esse Outro fossem elas mesmas.&lt;br /&gt;E por que será que o “simples” ato de escrever era negado às mulheres? Primeiro, escrever pressupõe, no mínimo, saber dar contorno à tinta e fazê-la, portanto, assumir a forma de determinados caracteres no branco do papel. Temendo, talvez, que as mulheres (se) sujassem (n)as (im)purezas do branco, a elas era “concedido” o direito de não poderem escrever. Em decorrência disso, eis o segundo motivo por que a escrita, durante muito tempo, se apresentou às mulheres como um território selvagem, escrever era coisa de homem. As mulheres tinham atividades mais importantes com que se preocupar. Para que querer conjugar o verbo escrever se os homens já o faziam em seu lugar e se elas tinham outros verbos mais interessantes a conjugar: agradar, obedecer, calar, casar, parir, resignar-se...?&lt;br /&gt;Dessa forma, tornar a escrita uma prática efetiva foi um exercício bastante doloroso para “o belo sexo”. Como escrever, se até então essa era uma atividade eminentemente masculina? Por outro lado, mesmo sabendo exercitar a escrita, escrever sobre o quê, se se deveria escrever sobre grandes feitos? E de que grandes feitos as mulheres haviam participado? Diante disso, escrever foi, antes de tudo, não só um exercício de descoberta de si, mas também um doloroso exercício de penetração num mundo onde ser mulher era ficar às margens das ações que estavam acontecendo, era trilhar por mares nunca dantes navegados porque os mapas estavam (ou eram escritos por) com os homens, era ser aspirante a coadjuvante em enredos escritos por homens e para homens. Sendo assim, como se tornar visível nesse mundo, sem ser vista como uma intrusa? Como manejar a pena, objeto fálico, para dela poder gozar daquilo que só aos homens era dado conhecer?&lt;br /&gt;Diante de mais essa dificuldade, ou seja, sobre o que escrever, muitas mulheres, quando começaram a adentrar no universo da escrita, passaram a falar daquilo a que elas estavam mais próximas: o espaço privado, onde, assim como muitas das personagens que passaram a construir, permaneceram fechadas em casas e sobrados, mocambos e senzalas, espaços construídos por seus pais, maridos, senhores. Dentro desse universo do privado, essas mulheres falaram, sobretudo, dos laços familiares. A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem “a moral e os bons costumes”. Por isso, são recorrentes nessas produções temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a “esfera perfumada de sentimento e singeleza”, não abordavam nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública e competiam apenas aos homens. Entretanto, mesmo falando sobre assuntos aparentemente inocentes, essas mulheres estavam, para lembrar os versos de Júlia Cortines que servem como epígrafe a este trabalho, levantando a pálpebra, atendendo ao imperativo de falar, de deixar abrir a boca há muito emudecida e trazer à tona segredos guardados entre palavras até então inauditas.&lt;br /&gt;Noutras palavras, na busca por vista e por voz, as mulheres, ao escreverem sobre aquilo a que estavam próximas, foram, paulatinamente, adentrando no universo da escrita, dominus masculino, mesmo que seus escritos fossem marginalizados ou desvalorizados, visto que versavam sobre atividades que traziam em si as marcas que deveriam ser ocultadas: a desvalorização e a marginalização femininas. Assim, não deveria nos causar estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e delineados pela arquitetura masculina, as mulheres tenham escolhido justamente esses espaços para falarem, dizerem que eram, são e foram.&lt;br /&gt;Nesse sentido, dentre essas mulheres que ousaram fazer da pena instrumento de expressão de sua intelectualidade e de construção de aspectos de nosso imaginário, podemos citar Júlia Lopes de Almeida (1862-1934) e Maria Carolina Nabuco de Araújo (1890-1981), cuja trajetória de vida se confunde muito mais do que se separa. Pertencentes à elite do país, uma era filha de um Visconde e a outra de um deputado do Império, elas foram mulheres que se assemelham por terem percorrido um difícil caminho na busca por se firmarem como escritoras, processo esse em que contaram com a ajuda dos pais e do marido, no caso de Júlia Lopes de Almeida, pois Carolina Nabuco, vivendo na casa da Rua Marquês do Botafogo, no Rio de Janeiro, nunca chegou a se casar.&lt;br /&gt;Parece que elas se assemelham também por terem, desde cedo, sentido a inclinação para a escrita. Se isso foi, a princípio, angustiante para Júlia Lopes de Almeida, que, ao escrever seus versos, se sentia como se estivesse cometendo um grande crime; escrever para Carolina Nabuco foi um sonho acalentado desde muito cedo, sem que com ele viesse o receio por estar fazendo uma atividade proibida ou o desejo pelo sucesso que viria alcançar com a publicação de uma valiosa obra como romancista, memorialista e biógrafa.&lt;br /&gt;No plano da ficção, mais convergindo do que propriamente divergindo, tanto Júlia Lopes de Almeida quanto Carolina Nabuco escreveram uma obra marcada pela valorização do cotidiano das prendas domésticas e pela reduplicação dos valores tradicionais e pela imitação dos modelos da cultura dominante. Esse último aspecto faz-nos pensar que essas autoras exerceram o que estamos chamando de uma escrita bem comportada. Falar desse tipo de escrita implica dizer que, opondo-se a ela, existe também uma escrita mal comportada? Não enfrentemos, por ora, essa ferida. Atenhamos apenas ao que estamos chamando de escrita bem comportada, ou seja, um tipo de escrita cuja composição, temas e estrutura não se opõem ao que já vinham, em termos literários, sendo feito e era tomado como modelo aceito. Esse tipo de escrita dá forma a um conjunto de obras cujos temas e enredos não buscam, na fatura dos textos, nenhuma ruptura e, por isso, apresentam um esquema bem comportado de escritura, o qual se repete de uma escritora para a outra.&lt;br /&gt;Além disso, os temas abordados por essas escritoras também podem ser vistos como bem comportados, já que reiteram os valores patriarcais vigentes à época. Entretanto, a análise do valor dessas escritoras a partir dos temas recorrentes na prosa delas deve ser algo feito com certo cuidado. Vivendo entre as paredes da casa, adornadas como o anjo do lar ou coroadas como rainhas, a essas autoras resta escrever sobre o quê? Como abordar temas que transcendessem as treliças do lar, se este era o ponto de partida e de chegada para muitas dessas nossas bandeirantes das letras? Se precisavam escrever para, conforme versos de Beatriz Francisca de Assis Brandão, poetisa mineira do século XVIII, trazer à tona “raros dotes [que] talvez vivem ocultos/que o receio de expor faz ignorados”, por que não escrever sobre o angustiante exercício de “lavar pratos e enxugar prantos todos os dias”? Pois bem, foi escrevendo sobre essa líquida rotina que as mulheres, em sua maioria, começaram a se inscrever no difícil, porque masculino, mundo da escrita. Isso não quer dizer que elas só tenham falado da casa e dos afazeres domésticos. Inúmeras foram as mulheres que escreveram sobre outros temas que iam de reflexões políticas até perquirições filosóficas.&lt;br /&gt;Ademais, o olhar voltado à obra dessas autoras não deve procurar cobras delas aquilo que, social-cultural e historicamente, não podia ser ofertado a elas. Exigir-lhes uma ruptura com uma ordem dentro da qual e para a qual elas haviam sido educadas ou exigir-lhes a produção de uma obra que já nascesse sem nenhum senão estético é um tanto quanto descabido. Além disso, a própria categoria de estético deve ser (re)pensada, uma vez que ela foi criada para aferir a qualidade de textos escritos, em sua maioria, por homens. Sendo assim, será que esta categoria é válida para ser aplicada aos textos de autoria feminina de séculos anteriores ao nosso?&lt;br /&gt;Ao pensarmos assim, não estamos querendo ser condescendentes com essas autoras; mas também, por outro lado, estamos querendo (re)lembrar que a nossa análise não pode deixar de lado as condições e as injunções sob as quais essas autoras produziram seus escritos. Essa postura procura reconhecer a importância dessas escritoras na constituição de uma tradição literária feminina em nossa história, principalmente por desbravarem caminhos para outras autoras que lhes vieram na esteira e que, uma vez sedimentadas determinadas condições, puderam romper com a ordem estabelecida e, na busca por inclusão em novos espaços sociais, intentaram alterar as relações de gênero.&lt;br /&gt;Como aponta Schmidit (2007, p.123), ao estudar a poesia de Delfina Benigna da Cunha, querer cobrar de uma obra o que ela, devido a determinados condicionantes histórico-estéticos, “não pode oferecer, é uma questão no mínimo polêmica, que deve ser colocada em pauta no quadro do revisionismo crítico da literatura produzida por mulheres e da própria história literária”. Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco, considerando-se o que dissemos em parágrafos anteriores, produziram uma obra bem comportada. Falaram do cotidiano das lides domésticas e de mulheres presas a esse cotidiano. Todavia, apesar de terem produzido uma obra bem comportada, essas escritoras não podem ter o seu valor diminuído. Sua obra reflete um período interessante de nossa sociedade, principalmente no que tange à condição feminina, e, como tal, é produto dessa sociedade, a qual não oferecia a essas escritoras as condições para outro tipo de escrita tampouco para outros temas. Elas, portanto, sofreram, em seu trabalho nas letras, do mal da época. Entretanto, devemos verificar, dentro da moldura do tempo, o esforço dessas mulheres que, herdeiras de uma tradição de séculos de silenciamento, procuraram fazer da escrita um meio de obter vista e voz. &lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1658546782658788034?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1658546782658788034/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1658546782658788034' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1658546782658788034'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1658546782658788034'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/jlia-lopes-de-almeida-e-carolina-nabuco.html' title='Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem comportada?'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWWif4ukyI/AAAAAAAAABs/zWni60LvVMw/s72-c/julia+lopes.gif' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1401448938226183045</id><published>2008-08-31T08:13:00.001-07:00</published><updated>2008-09-20T17:45:15.905-07:00</updated><title type='text'>Maria das Águas - Lúcio Lins</title><content type='html'>&lt;a href="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWZBwoHXgI/AAAAAAAAAB8/7OK4DLQsVF4/s1600-h/lucio.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248269196282256898" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWZBwoHXgI/AAAAAAAAAB8/7OK4DLQsVF4/s320/lucio.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;eu sou&lt;br /&gt;Maria das Águas&lt;br /&gt;nome e fado&lt;br /&gt;que a mim&lt;br /&gt;me foram dados&lt;br /&gt;pelo movimento&lt;br /&gt;dos barcos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu sou&lt;br /&gt;Maria das Águas&lt;br /&gt;desde Maria menina&lt;br /&gt;quando só Maria&lt;br /&gt;e ainda&lt;br /&gt;pelo mangue&lt;br /&gt;sob os céus&lt;br /&gt;brincava&lt;br /&gt;de transportar nuvens&lt;br /&gt;em barcos de papel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;dos meus&lt;br /&gt;nada sei&lt;br /&gt;salvo o talvez&lt;br /&gt;tenham ido&lt;br /&gt;nos barcos de antes&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e tenho&lt;br /&gt;uma vaga&lt;br /&gt;na lembrança&lt;br /&gt;que ainda de laços&lt;br /&gt;sargaços e transas&lt;br /&gt;já tentava esse mar&lt;br /&gt;sem ser de mãos dadas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;a cada maré&lt;br /&gt;que vinha&lt;br /&gt;Maria eu ia&lt;br /&gt;tomando corpo&lt;br /&gt;e o cais&lt;br /&gt;tomando gosto&lt;br /&gt;pelos prazeres Maria&lt;br /&gt;que ao porto&lt;br /&gt;fui servindo&lt;br /&gt;antes do vinho&lt;br /&gt;da primeira sangria&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e foram tantos&lt;br /&gt;quantos os barcos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;que a mim&lt;br /&gt;me chegaram&lt;br /&gt;com suas almas&lt;br /&gt;nos mastros hasteados&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e foram tantos&lt;br /&gt;quantos os barcos&lt;br /&gt;que em mim&lt;br /&gt;me deixaram&lt;br /&gt;sem velas&lt;br /&gt;e com enjôo dos mares&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;me chegavam&lt;br /&gt;com suas falas&lt;br /&gt;diferentes&lt;br /&gt;com seus falos&lt;br /&gt;urgentes&lt;br /&gt;e me vestiam&lt;br /&gt;a rigor&lt;br /&gt;para suas fantasias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;eu me despia&lt;br /&gt;eu me vestia&lt;br /&gt;eu me trocava&lt;br /&gt;(enquanto suas mãos&lt;br /&gt;em meu corpo&lt;br /&gt;faziam cruzeiros&lt;br /&gt;eu contava estrelas)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;onde sou lodo&lt;br /&gt;fui veludo&lt;br /&gt;leito de tantos&lt;br /&gt;deleites&lt;br /&gt;pelos quatro&lt;br /&gt;cantos do porto&lt;br /&gt;para os quatro&lt;br /&gt;cantos do mundo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;confesso que vivi&lt;br /&gt;confesso que bebi&lt;br /&gt;goles e goles&lt;br /&gt;de mar&lt;br /&gt;até o mar derradeiro&lt;br /&gt;ate saber-me sozinha&lt;br /&gt;até beber-me Maria&lt;br /&gt;garrafa sem mensagem&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;de mim&lt;br /&gt;todos os barcos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;já partiram&lt;br /&gt;e eu sou só ruínas&lt;br /&gt;de um corpo antigo&lt;br /&gt;onde marujos&lt;br /&gt;saciaram suas sedes&lt;br /&gt;aos beijos&lt;br /&gt;do gargalo&lt;br /&gt;de minha boca&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;resta&lt;br /&gt;em mim&lt;br /&gt;o que esqueceram&lt;br /&gt;em mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;as marcas&lt;br /&gt;de mastros e dentes&lt;br /&gt;a ferrugem&lt;br /&gt;das âncoras tatuadas&lt;br /&gt;um iceberg&lt;br /&gt;no copo d’água&lt;br /&gt;e o endereço de um mar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veio de mim&lt;br /&gt;esse mar&lt;br /&gt;que hoje bebo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veio de mim&lt;br /&gt;esse mar&lt;br /&gt;de amar sobejo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;veio de mim&lt;br /&gt;ser Maria&lt;br /&gt;Maria das Águas&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria que canto&lt;br /&gt;encontro&lt;br /&gt;de sede e água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quando rio&lt;br /&gt;eu rio doce&lt;br /&gt;arco-íris nos lábios&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Maria que canto&lt;br /&gt;com os olhos&lt;br /&gt;que olhos d’água&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;e quando rio&lt;br /&gt;eu rio doce&lt;br /&gt;orvalho na lágrima&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1401448938226183045?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1401448938226183045/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1401448938226183045' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1401448938226183045'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1401448938226183045'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/maria-das-guas.html' title='Maria das Águas - Lúcio Lins'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNWZBwoHXgI/AAAAAAAAAB8/7OK4DLQsVF4/s72-c/lucio.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-108882629567197070</id><published>2008-08-31T08:12:00.001-07:00</published><updated>2008-10-10T15:28:14.628-07:00</updated><title type='text'>Era um rato - Resposta a Augusto R.</title><content type='html'>Era um rato que procurava fugir.&lt;br /&gt;Sabia que, em cada esquina,&lt;br /&gt;à sua espreita, uma sombra o seguia.&lt;br /&gt;Podia ouvir os seus ruídos.&lt;br /&gt;Ela se tornava mais densa.&lt;br /&gt;Desse enorme gato,&lt;br /&gt;Se esquivava o rato.&lt;br /&gt;O que ele queria, no entanto,&lt;br /&gt;Era se esquivar&lt;br /&gt;Da mais lancinante lição:&lt;br /&gt;Aprender a trocar de queijo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-108882629567197070?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/108882629567197070/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=108882629567197070' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/108882629567197070'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/108882629567197070'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/era-um-rato-reposta-augusto-r.html' title='Era um rato - Resposta a Augusto R.'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-2513810576503131146</id><published>2008-08-30T09:24:00.001-07:00</published><updated>2008-08-30T09:25:27.834-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Depois de escrita a primeira obra,&lt;br /&gt;o pior para um escritor é conviver&lt;br /&gt;com a expectativa, alimentada pelos leitores,&lt;br /&gt;de uma outra obra que ele, o escritor, saber&lt;br /&gt;que nunca virá.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-2513810576503131146?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/2513810576503131146/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=2513810576503131146' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/2513810576503131146'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/2513810576503131146'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/depois-de-escrita-primeira-obra-o-pior.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-5838464603401685890</id><published>2008-08-30T08:47:00.001-07:00</published><updated>2008-08-30T08:47:58.831-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ah, minha dona, pediste a este teu servo&lt;br /&gt;o que para ele é impossível: (ins)escrever-te&lt;br /&gt;Como, entre palavras, condensar o teu retrato?&lt;br /&gt;Obediente, ensaiei alguns versos rotos,&lt;br /&gt;que foram, de chofre, rasgados.&lt;br /&gt;Procurei pedir ajuda a Poesia,&lt;br /&gt;mas ela, com inveja de tua beleza,&lt;br /&gt;escreveu um enorme NÃO.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-5838464603401685890?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/5838464603401685890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=5838464603401685890' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/5838464603401685890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/5838464603401685890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/ah-minha-dona-pediste-este-teu-servo-o.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7880047480036222880</id><published>2008-08-29T08:09:00.000-07:00</published><updated>2008-08-29T08:11:41.892-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Tornou-se leitor a fim de&lt;br /&gt;encontrar, em cada livro lido,&lt;br /&gt; a chave do mundo&lt;br /&gt;de onde partira&lt;br /&gt; e&lt;br /&gt;nunca mais regressara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7880047480036222880?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7880047480036222880/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7880047480036222880' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7880047480036222880'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7880047480036222880'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/tornou-se-leitor-fim-de-encontrar-em.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-8623611352385830515</id><published>2008-08-23T06:19:00.000-07:00</published><updated>2008-08-23T06:26:51.250-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Hoje, chegou até mim e disse:&lt;br /&gt;- Sabes quando eu te ligava e tu nem me atendias,&lt;br /&gt;Sabes quando eu te presenteava e tu deixavas os presentes de lado.&lt;br /&gt;Sabes ... e foi elencando um rol de coisas que eu sabia e das quais fiz pouco caso.&lt;br /&gt;Até que veio o arremate final:&lt;br /&gt;Pois é (eu nem imaginava o quanto essas palavras me feririam), não é que&lt;br /&gt;de repente, não mais que de repente, eu aprendi com a sua indiferença.&lt;br /&gt;Hoje, vivo às sobras do que restou daqueles presentes, ansiando por uma ligação no telefone que há muito emudeceu.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-8623611352385830515?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/8623611352385830515/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=8623611352385830515' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8623611352385830515'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/8623611352385830515'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/hoje-chegou-at-mim-e-disse-sabes-quando.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-1884584732838105675</id><published>2008-08-23T06:07:00.000-07:00</published><updated>2008-08-23T06:12:08.911-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Do meu professor de filosofia,&lt;br /&gt;recebi, ontem, a nota final: zero.&lt;br /&gt;Perguntei por quê.&lt;br /&gt;Ele me respondeu que não podia&lt;br /&gt;aprovar um aluno que se recusava&lt;br /&gt;a aceitar duas coisas:&lt;br /&gt;Viver é mais doloroso do que morrer;&lt;br /&gt;e pensar dói, esgarça a alma.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-1884584732838105675?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/1884584732838105675/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=1884584732838105675' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1884584732838105675'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/1884584732838105675'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/do-meu-professor-de-filosofia-recebi.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7376740513892545145</id><published>2008-08-15T16:52:00.000-07:00</published><updated>2008-08-15T16:56:57.093-07:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Entre viver e existir&lt;br /&gt;medeia a dor&lt;br /&gt;que ata os farrapos&lt;br /&gt;soltos do meu ser&lt;br /&gt;e que é abafada&lt;br /&gt;pelo riso acre a enganar&lt;br /&gt;quem olha para minha face.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria apenas  alguém&lt;br /&gt;que me ouvisse&lt;br /&gt;que me conduzisse&lt;br /&gt;na difícil trajetória que é viver.&lt;br /&gt;Na falta dessa pessoa, tive&lt;br /&gt;de aprender o quanto é dificil tentar&lt;br /&gt;a mim mesmo me bastar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Obs: dentre pouco tempo, esses  rabiscos&lt;br /&gt;irão ser apagados, assim como, traço a traço, uso o lápis com tinta de Letes para apagar-me.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7376740513892545145?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7376740513892545145/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7376740513892545145' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7376740513892545145'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7376740513892545145'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/08/entre-viver-e-existir-medeia-dor-que.html' title=''/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-7487966616860598413</id><published>2008-06-11T16:20:00.000-07:00</published><updated>2008-09-21T09:59:16.325-07:00</updated><title type='text'>Variações do Trágico em Carolina Nabuco</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ9Uh40ljI/AAAAAAAAAEE/CsGZikuq4KU/s1600-h/soneto.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248520207394444850" style="FLOAT: left; MARGIN: 0px 10px 10px 0px; CURSOR: hand" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ9Uh40ljI/AAAAAAAAAEE/CsGZikuq4KU/s320/soneto.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Medeiros da Silva (UFPB)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Escrita e saber estiveram, durante muito tempo, ainda, talvez, continuem, relacionadas ao poder e foram, por muito tempo, usados como formas de dominação e de exclusão de determinadas vozes que intentassem ecoar algum som em meio ao silêncio que era imposto para que se mantivesse a ordem social em uma sociedade de base falocêntrica, patriarcal, machista e sexista. Mesmo assim, o discurso hegemônico do patriarcalismo não conseguiu abafar determinadas vozes, principalmente de algumas mulheres que não estavam contentes em serem rotuladas de o segundo sexo e que, por isso, se negaram à subordinação.&lt;br /&gt;Por causa, dentre outros fatores, das tentativas de subversão à ordem do pai, a integração de mulheres/escritoras ao universo da escrita foi marcada por uma trajetória bastante dolorosa, principalmente porque escrita e saber, além de serem usados como forma de dominação "ao descreverem modos de socialização, papéis sociais e até mesmo sentimentos esperados em determinadas situações" (TELLES, 2002, p. 402), eram tidas como ferramentas exclusivas do espaço masculino. Por isso, durante muito tempo, foram negadas às mulheres a autonomia e a subjetividade necessárias à criação.&lt;br /&gt;Dentro do cenário literário, a escrita produzida por mulheres teve – e continua tendo – de conviver com uma política de ocultamento que trouxe conseqüências quase que irreparáveis. Muitas foram as mulheres que, embora com a pena em riste, não puderam se expressar e tiveram sua obra, sua intelectualidade assujeitadas ao Outro, o sujeito masculino. Por isso, persiste a necessidade de estudos que possam, segundo Schneider (2000), reconstruir a história literária produzida por mulheres, pondo em evidência o percurso, as dificuldades, os temores, as estratégias para romper o confinamento em que viviam e, ao mesmo tempo, promover a revalorização dessa literatura que no passado não recebeu devida atenção.&lt;br /&gt;Nesse sentido, é preciso estudar os textos não-canônicos para que a história das mulheres e a de sua produção literária possam ser reconstruídas, o que pode transformar a visão tradicional da própria história literária a fim de que esta passe a levar em conta a produção literária de mulheres que, em meio às pressões de uma sociedade patriarcal, falocêntrica, sexista e machista, ousaram fazer da pena bandeira de luta, ainda que tenham, em seus escritos, registrado ou até mesmo sucumbido aos preconceitos dessa sociedade.&lt;br /&gt;Esperamos estar, portanto, contribuindo para dar visibilidade às numerosas autoras que não figuraram nas histórias literárias brasileiras da época nem nas posteriores e, assim, trazer à tona uma memória literária feminina na literatura brasileira que vem sendo negligenciada ao longo dos séculos (CUNHA, 2001; MOREIRA, 2006). O regaste de produções femininas é importante porque, por um lado, permite-nos a recuperação de uma identidade feminina há muito silenciada e, por outro lado, permite:&lt;br /&gt;o desenvolvimento de uma arqueologia literária que resgatasse os trabalhos das mulheres, que de diversas formas foram silenciados ou excluídos da história da literatura. Neste sentido, engaja-se no trabalho de recuperação de uma ‘identidade feminina’ que aponte para as diversas formas de sua experiência, rejeitando, enfaticamente, a repetição e reprodução dos pressupostos mitológicos da crítica literária tradicional, que, via de regra, identifica a escrita feminina com a "sensibilidade contemplativa", a "linguagem imaginativa" etc., bem como as diversas formas como a biologia, a lingüística e a psicanálise vêm definindo a especificidade da linguagem feminina (HOLLANDA, 1994, 3).&lt;br /&gt;De acordo com Carvalho (2001), resgatar textos de escritoras, produzidos em períodos anteriores aos movimentos sociais da década de 60 do século passado, é, dentre outros aspectos, uma rara oportunidade de trazer a lume a produção intelectual de todo um grupo social marginalizado pela cultura patriarcal hegemônica para a qual as mulheres, não sendo capazes de construir e elaborar aspectos de nosso imaginário social, já que estas eram uma tarefa masculina, deveriam preocupar-se apenas com as prendas domésticas, visto que o lar era sobretudo o espaço de confinamento para muitas mulheres que eram incorporadas e consolidadas ao marido ou ao pai.&lt;br /&gt;Na empresa de resgate de textos de autoria feminina e de construção de uma memória literária feminina brasileira, este artigo aborda a presença do trágico em dois contos da escritora fluminense Carolina Nabuco: "A pérola rosada" e "O viúvo", respectivamente. Para tanto, dividimos o presente texto em duas partes. Na primeira, construímos a biografia da escritora Carolina Nabuco ao mesmo tempo em que tecemos algumas considerações gerais sobre a sua obra que compreende romances, biografias, contos e ensaio. Na segunda parte, analisamos, nos dois contos presentes no livro O ladrão de guarda-chuva e outros dez contos (1969), os resquícios do trágico, ou seja, resquícios da suplantação da vontade individual pelo destino, categoria importante na compreensão de boa parte dos contos que compõem a referida obra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Carolina Nabuco: esboços de uma fortuna crítica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Romancista, memorialista, biógrafa e mulher de grande cultura, Carolina Nabuco nasceu em 1890 e faleceu em 1981. Filha de Joaquim Nabuco, escritor e senador do império, a cujo nome sempre esteve atrelada como se fosse uma sombra do próprio pai, Carolina Nabuco, segundo Schumaher e Brasil (2000), consagrou-se por possuir um estilo simples e erudito, rico e profundo em conteúdo.&lt;br /&gt;A respeito da obra de Carolina Nabuco Gabriela Mistral escreveu, na orelha do livro O ladrão de guarda-chuvas e dez contos (1969), que:&lt;br /&gt;Poças veces me acarreó tanta alegria um escritor no metafórico ni lírico. Me parece que usted sea el novelista por excelência que hace solamente lo suyo sin recurrir a los géneros colaterales, para dar a um texto más valor o volverlo más convincente. Como usted, igualmente permeado de experiencia humana e igualmente limpio de recursos extraños, escribía sus novelas don Miguel de Unamuno, el español, y me lo recuerda usted también en su saturatón racial.&lt;br /&gt;Ao falar da história de seus livros, Carolina Nabuco afirmou que sua vocação pelas letras despontou assim que aprendeu a ler e a escrever. Ela atribui isso à influência do pai, Joaquim Nabuco, "que sempre via com a pena à mão". Além disso, confessa em Oito décadas, livro de memórias que integra o seu acervo literário, que "entre os vários gêneros literários que tentei nenhum me atraía como o da ficção. Nos meus anos de adolescência, na primeira década do século, quando não existiam ainda nem cinema nem televisão, a juventude tinha de se satisfazer com a leitura de obras de ficção" (NABUCO, 2000, p. 264).&lt;br /&gt;Esse seu desejo pela leitura de obras de ficção fomentou um outro: o de escrever obra de ficção. Nessa empresa, Carolina Nabuco empreendeu algumas tentativas vãs, como ela mesma recorda:&lt;br /&gt;Aos quinze anos tentei publicar numa dessas revistas um conto que foi rejeitado. Animaram-me, porém, a continuar. Outro que escrevi mais tarde foi igualmente rejeitado.&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;Fiz nova tentativa, num concurso com bons prêmios, aberto pelo Jornal do Brasil. Meu querido amigo Rodrigo Mello Franco de Andrade fazia parte da banca de julgamento. Sabia que eu concorrera e tinha muita vontade de me adivinhar entre os autores, mas nem ele, nem ninguém, adivinhou, e meu conto perdeu-se no monte dos rejeitados (NABUCO, 2000, p. 265).&lt;br /&gt;Apesar dos insucessos de início, Carolina Nabuco alimentava o desejo de se tornar escritora. Esta era, conforme afirma em Oito décadas, a sua mais cara ambição de menina, embora reconhecesse que ainda lhe faltavam "experiência e técnica para fazer coisa prestável":&lt;br /&gt;Só desistirei de ambições literárias se verificar que não tenho mesmo talento. Sei que meu cérebro, terreno inculto, é pelo menos boa terra, fértil em duas gerações. Só depois de trabalhar para me armar de um bom estilo, poderei dizer, se tudo for debalde, que não há ouro (NABUCO, 2000, p. 99).&lt;br /&gt;Por isso, ela continuava, na busca pela experiência e técnica, escrevendo, primeiro em inglês e francês, línguas em que fizera seus estudos, e, depois da morte do pai, em português. Essas suas primeiras investidas literárias eram todas narrativas curtas com as quais não pensava em ganhar destaque:&lt;br /&gt;Não pensava em publicar esses escritos, nem me animava a ver meu nome sair em letras de fôrma. Essas primeiras tentativas foram feitas em geral concorrendo para concursos de jornal. Ganhei o prêmio num desses e o conto foi publicado em O Jornal, que pertencia ainda a Renato Lopes, o fundador (sendo adquirido, depois, por Assis Chateaubriand para ser o elo inicial dos "Diários Associados"). O outro conto que mandei para um concurso, promovido não me lembro mais em que jornal, não só não ganhou nenhum dos três prêmios, como tive o dissabor de ouvir as seguintes palavras de Osório Duque Estrada, responsável pelo concurso: "Os demais concorrentes não têm aptidão para as letras" (NABUCO, 2000, p. 265).&lt;br /&gt;Para Carolina Nabuco, só pertenciam à classe de obras de arte, ou seja, à verdadeira literatura, a poesia e a ficção. Por isso, "quando eu contemplava a possibilidade de me tornar escritora [...], desejava infinitamente mais aparecer como romancista do que como historiadora ou ensaísta" (NABUCO, 2000, p. 266). Entretanto, a sua estréia no campo das letras deu-se com o lançamento de uma biografia: A vida de Joaquim Nabuco (1929). Esta que é considerada por sua própria autora o seu livro e que lhe consumiu oito longos anos de intenso labor:&lt;br /&gt;É "meu livro" porque foi durante muitos anos o único; o primeiro que escrevi e que já vivia em mim desde muito tempo. Nunca tive dúvida de que seria o volume mais importante de minha pobre bagagem literária, o mais necessário de ser escrito, para mim e para a divulgação de fatos ainda esparsos sobre Joaquim Nabuco (NABUCO, 2000, p. 266-267).&lt;br /&gt;A vida de Joaquim Nabuco, conforme afirmam Schumaher e Brasil (2000), fez com que o poeta Alberto de Oliveira liderasse um movimento para que Carolina Nabuco fosse eleita para a Academia Brasileira de Letras. No entanto, a escritora, "considerando que a academia, nos termos do estatuto, era reservada apenas a escritores, não aceitou o convite formalizado pelo poeta" (SCHUMAHER e BRAZIL, 2000, p. 141). Após o lançamento de A vida de Joaquim Nabuco, que foi, à época, um êxito de livraria, pois foram vendidos, em duas edições, mais de quatro mil exemplares, vieram somar a essa pobre "bagagem literária", palavras de Carolina Nabuco, outros livros que não biografias: A sucessora (1934) e Chama e cinzas (1947).&lt;br /&gt;Sobre a gênese do primeiro, a sua autora afirmou que ele, inicialmente, foi planejado como um conto que se chamaria "O retrato da primeira esposa", mas que, aos poucos, foi crescendo até se tornar o romance A sucessora, cujo enredo, à época, parecia, segundo a própria escritora, novo:&lt;br /&gt;[...] A sucessora é apenas a história de uma obsessão, a da esposa pela morta. Contei um caso mais psicológico que real. [...]a minha heroinazinha, Marina, deseja que aparecessem manchas na imagem imaculada da morta; que Rebecca houvesse sido infiel, adúltera; e desejava, também, através de todo o livro, que o fogo destruísse o lar que fora da outra e ao qual ela não conseguia adaptar-se (NABUCO, 2000, p. 269).&lt;br /&gt;Apesar da boa recepção da crítica que lhe tecera alguns artigos elogiosos, A sucessora só alcançou "boa venda alguns anos mais tarde e por um motivo incidental": sua semelhança com o romance mais falado na época – Rebecca, da escritora inglesa Daphene du Marier. Este livro alcançou um sucesso mundial quase sem precedentes e serviu como inspiração para um filme magistral: Rebecca, de Alfred Hitchock. Para muitos, Carolina Nabuco havia sido plagiada pela escritora inglesa. Sobre este aspecto, a escritora brasileira escreveu nas páginas de Oito décadas:&lt;br /&gt;Eu havia traduzido o livro para o inglês com esperança de vê-lo editado nos estados Unidos. Esta tradução foi oferecida – sem êxito – a várias editoras por uma agência literária de Nova York, a quem confiei o manuscrito para esse fim, mediante contrato. Eu havia pedido a esse literary agent que tentasse também encontrar-me um editor na Inglaterra. Logo que li Rebecca e me inteirei do caso, escrevi a esse agente perguntando se havia atendido ao meu pedido de encontrar um editor em Londres. Respondeu-me que não. Pouco depois, porém, apareceu um artigo no New York Times Book Review, ressaltando as coincidências existentes entre Rebecca e A sucessora, e o agente então (não creio que no mesmo dia) apressou-se em me escrever que, de fato, mandara meu romance a seu correspondente inglês, cujo nome me comunicou. Rebecca vendeu-se literalmente aos milhões; foi traduzido em muitas línguas e depois explorado num magnífico filme. Embora muitos me aconselhassem iniciar processo, eu fiquei plenamente satisfeita em ver o plágio ser geralmente proclamado pelos que haviam lido os dois livros. Eu fora talvez a primeira pessoa avisada. O informante foi meu amigo Bob Winans, um dos raros a quem eu havia mostrado os originais e que lera Rebecca no primeiro momento de sua publicação. Tive a princípio um grande desgosto, mas veio a convicção de que houve realmente plágio. O fato alcançou tal repercussão no Brasil, que me consolei perfeitamente e não cogitei de processo. Coisas desse gênero são, alias, extremamente difíceis de levar a bom termo. Quando o filme Rebecca chegou ao Brasil, o advogado de seus produtores (United Artists), doutor Alberto Torres Filho, procurou meu advogado, Bartolomeu Anacleto, para pedir-lhe que eu me prestasse a assinar um documento admitindo a possibilidade de ter havido mera coincidência. Se me prestasse a isso, eu seria compensada com uma quantia que o doutor Torres qualificou como "de ordem patrimonial". Não anuí, naturalmente (NABUCO, 2000, p. 140-141).&lt;br /&gt;Esta citação retifica um equívoco presente em Dicionário Crítico de Escritoras Brasileiras (1711–2001), de Nelly Novaes Coelho, no qual está escrito que Carolina Nabuco processou judicialmente a escritora inglesa, acusando-a de plágio. Como se vê pela citação acima, o plágio existiu realmente, mas o processo não. Álvaro Lins, crítico brasileiro que provou a existência do plágio, afirmou: "A sucessora e Rebecca são duas obras semelhantes como não creio que se possam encontrar outras em toda a história das literaturas" (NABUCO, 2000, p. 270). Entretanto, Carolina Nabuco não deixou de ver o seu livro chegar às telas não do cinema, mas da televisão. A sucessora, anos mais tarde, ganhou uma versão para a TV, numa telenovela da rede Globo.&lt;br /&gt;Após a publicação deste seu primeiro romance, Carolina Nabuco lançou um outro: Chama e cinzas. Este, talvez, o mais difícil de ter sido escrito, porque faltava à sua autora substância: "Fui reunindo fragmentos de diálogos e títulos de capítulos, mas essas notas não passavam de lascas espalhadas. Lutava com uma grande falta de detalhes" (NABUCO, 2000, p. 142). Em Oito décadas, Carolina Nabuco registra, da seguinte forma, a maneira como havia trabalhado na elaboração de Chama e cinzas:&lt;br /&gt;Estou tecendo o enredo do meu futuro romance ainda sem título. O primeiro personagem que ideei e ao qual já estou me afeiçoando é o de um banqueiro e homem de negócios de meia-idade. Sua vida financeira e industrial está me saindo parecida com a do barão de Mauá e a de Percival Farquhar, o arrojado americano que conheci lutando em vão junto do governo Bernardes para, com os milhões americanos de que dispunha, estabelecer a indústria metalúrgica que engrandeceria o Brasil. Não deixarei meu personagem, o Rabelo, lutar em vão.&lt;br /&gt;Há muito tempo que elaborei o ambiente de família que aparece na primeira parte e que tracei o arcabouço dos últimos capítulos, cujo eixo é a ida forçada de Nica ao banquete, deixando o marido moribundo.&lt;br /&gt;Estes pontos não constituem ainda enredo. Quero uma rivalidade de amor entre as duas irmãs, mas os personagens masculinos ainda estão obscuros. Fiz pelo menos doze esquemas de enredo, para fixar os personagens Fernando e Evaristo. Enveredei por vários caminhos falsos, rasgando muitas páginas. Li a mamãe o rascunho. Li-o depois a João de Azevedo Macedo, operado da vista, a quem fui fazer companhia várias tardes. Recebi dele algumas sugestões, outras de Mariana, que bateu duas cópias na máquina, outras de Jim Chermont, que foi o primeiro leitor do original já mais ou menos terminado, todas as sugestões foram ótimas (NABUCO, 2000, p. 143).&lt;br /&gt;A respeito desses dois romances, escritos num período em que estava em plena ascensão o romance nordestino regionalista, escreveu, na contra-capa de Chama e cinzas, Manoel Carlos, novelista de televisão brasileiro:&lt;br /&gt;Quando escolhi o romance A SUCESSORA, de dona Carolina Nabuco, para nele me inspirar e escrever uma história de 126 capítulos, para a televisão, já contava com o seu sucesso. Nada mais fácil do que sentir, lendo o romance, a força de suas personagens, a trama coerente e bem elaborada, a firmeza de cada um dos "ganchos", ingredientes perfeitos e indispensáveis a uma novela. Mas com a SUCESSORA eu tinha ainda mais: tinha qualidade literária, aprofundamento psicológico, com algumas questões, inclusive, levantadas pela primeira vez na literatura urbana brasileira, à época em que o romance foi escrito.&lt;br /&gt;Agora estou diante de CHAMA E CINZAS, escrito 12 anos depois do primeiro, e percebo que estou novamente diante de uma história carregada de emoções fortes [...]. Poucos escritores brasileiros sabem, tão bem como Dona Carolina, incorporar o leitor aos seus cenários, fazendo-o circular entre as personagens e participar de suas vidas e emoções cotidianas. CHAMA e CINZAS reaparece nas livrarias muito oportunamente, uma vez que continuamos carentes de romances bons e, ao mesmo tempo, acessíveis ao leitor comum, que gosta de ler (como é hábito dizer) "da primeira à última página, sem conseguir parar". Estes romances que rareiam na nossa literatura são os romances fascinantes, empolgantes, vertiginosos. Assim é CHAMA E CINZAS de Dona Carolina Nabuco (grifos meus).&lt;br /&gt;Segundo Coelho (2002, p. 110), estas obras, dentro do contexto da literatura da época, expressam "os primeiros esforços da mulher no sentido de questionar sua verdadeira posição na sociedade moderna". Apesar de estas obras, como afirma a referida autora, apresentarem todos os preconceitos que estão na base da sociedade tradicional, elas são importantes porque refletem atitudes, tendências ou ideais que expressam bem o processo de modernização no Brasil da década de 30 e 40.&lt;br /&gt;Simultaneamente à composição de seu segundo romance, Carolina Nabuco desviou-se um pouco e escreveu um livro de instrução religiosa, Catecismo historiado – doutrina cristã para primeira comunhão (1940), e mais duas biografias: A vida de Virgílio de Melo Franco (1962) e Santa Catarina de Sena (1957). Estes dois últimos livros "nasceram de uma resolução súbita de minha parte, resultante, em ambos os casos, de uma emoção que me pôs logo a pena à mão, deixando por algum tempo o romance em que eu trabalhava" (NABUCO, 2000, p. 270).&lt;br /&gt;A respeito dos motivos que a levaram a escrever a biografia sobre Santa Catarina de Sena, Carolina Nabuco afirma que não foi o fato de ser católica, mas, sim, o fato de Santa Catarina de Sena ter sido uma mulher que seria extraordinária mesmo que não fosse santa. Essa admiração por esta santa poderia ter levado Carolina Nabuco a se deixar levar pela emoção, mas ela afirma que não se deixou guiar pela emoção, pois possuía uma "tendência natural de ver objetivamente as figuras que mais admiro". Apesar disso, este livro é fruto de uma admiração por uma mulher, como Santa Catarina de Sena, não podia deixar de inspirar:&lt;br /&gt;Olhei-a com deslumbramento pelo maravilhoso conjunto de seus dotes com que Deus a armou para seu destino de lutas: sua admirável eloqüência, sua penetração nos pensamentos, sua intrepidez; enfim, seu gênio. O gênio é mais raro que a santidade e nela ele sobressai com luz solar (NABUCO, 2000, p. 271).&lt;br /&gt;A biografia sobre Virgílio de Mello Franco surgiu como forma de enaltecer o valor e pagar um tributo ao amigo cuja vida foi cortada em plena atividade e cuja figura humana Carolina Nabuco procurou, embora receasse não ter conseguido, colocar sobre o papel. Ao contrário das outras biografias de cujos acontecimentos narrados Carolina Nabuco não participou, os desta terceira biografia foram acompanhados por ela, já que havia sido coetânea de Virgílio de Mello Franco:&lt;br /&gt;A pesquisa para a biografia de Virgílio de Mello Franco foi muito diferente. [...] conheci-o bem, estreitamente como são ligadas as nossas famílias, tendo sobrinhos em comum com ele. Tive necessidade apenas de verificar com maior exatidão fatos que eu conhecia por alto. O melhor dessa pesquisa foi a conversa com os seus amigos, foram os depoimentos que muitos deles me vieram trazer em casa sem esperar que eu os procurasse. Reuni assim – e conservo – um grosso maço de entrevistas que já foram uma satisfação (NABUCO, 2000, p. 273).&lt;br /&gt;Enquanto escrevia essas biografias, Carolina Nabuco, não abandonando inteiramente a ficção, escreveu uma história e outra que foram reunidas no livro O ladrão de guarda-chuvas e outras dez histórias (1969). Um outro livro escrito por ela foi Retrato dos Estados Unidos à luz de sua Literatura. Este livro, pertencente ao gênero crítica literária, reúne, segundo a sua autora, textos sobre autores americanos, apontando o que existe de mais típico ou mais altamente americano nesses autores.&lt;br /&gt;Além de ficção, biografia e crítica literária, integra o acervo de Carolina Nabuco um outro livro: Oito décadas. Livro de memórias, espécie de testamento literário, esta obra reúne as reminiscências de Carolina Nabuco ao longo de oito décadas, uma a menos do que ela própria viveu. Oito décadas é muito mais do que um simples livro de memórias. Ele é um testemunho de uma época: "Carolina fala dos costumes, da evolução da política brasileira e personalidades que marcaram um período decisivo na história da humanidade: Einstein, Duchamp e a arte abstrata, os avanços na medicina, a Segunda Guerra Mundial e muitos outros" (SCHUMAHER e BRASIL, 2000, p. 142). Este livro começa com as revoltas e guerras civis, o enterro de Floriano Peixoto, as primeiras lições com a mãe, os estudos na Inglaterra, a descoberta da vocação literária, as lembranças da constante presença paterna.&lt;br /&gt;Para Francisco de Assis Barbosa, em prefácio à primeira edição de Oito décadas, Carolina Nabuco escreveu "uma obra séria, vigorosa, honesta", que "se ergue altaneira", pois foi "solidamente construída sobre os alicerces mais profundos do sentimento brasileiro, no que há de melhor e mais representativo: nossa tradição de respeito à lei e de amor à liberdade".&lt;br /&gt;Resquícios do trágico em O ladrão de guarda-chuvas e outras dez histórias&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O vocábulo trágico pertence à categoria daquelas palavras possuidoras de uma grande extensão semântica: pode designar aqueles que escrevem ou representam tragédias ou o princípio filosófico ou categoria estética que encontram sua expressão mais pura na tragédia, embora se manifeste (ou possa vir manifestar -se) também no romance, na música, nas artes plásticas, na poesia ou mesmo em situações da vida real. Antes de apresentarmos uma "definição" do que seja o trágico, gostaríamos de reproduzir aqui o trecho final de Antígona, tragédia de Sófocles, no qual o Coro, como palavra final, fala:&lt;br /&gt;CREONTE – Todo o meu desejo expresso em uma única súplica! Ouvi!&lt;br /&gt;CORO – E não formules desejos. A vida é breve, e um erro traz sempre um erro. Desafiando o destino, tudo será destino. E aos mortais não cabe evitar as desgraças que o destino traz (SÓFOCLES, 2006, p.201).&lt;br /&gt;Embora, como apregoam os formalistas russos, a literatura não possa ser usada como argumento para formulações, verdades ou definições científicas, esta resposta do Coro a Creonte, tirano cuja obsessão pelo poder levou sua esposa e filho à morte, acreditamos ser uma belíssima "definição" do que vem a ser o trágico que, na fala acima, é apresentado metaforicamente sob o nome de Destino. Ou seja, como o trágico diz respeito àquele evento de intenso dinamismo que irá acontecer e que não podemos evitar, ele é este acontecer cujas desgraças nós não podemos evitar, pois ele é fruto de um infortúnio do Destino ou de um erro nosso, eis o perigo com que convivemos, dos quais podem nascer a desgraça e o sofrimento.&lt;br /&gt;Em conversação normal, o predicado trágico é, portanto, associado a acontecimentos que apresentam as seguintes características: são geralmente tristes; envolvem uma perda irreparável de um indivíduo único; tendem a envolver morte, particularmente a morte inesperada, desnecessária e prematura (MOST, 2001). Ainda de acordo com esse autor, o termo trágico, neste caso, "distingue e enobrece situações que expressam com particular pungência uma contradição fundamental entre os desejos mais profundos de satisfação e plenitude dos seres humanos e o indiferente universo no qual eles devem viver e fracassar" (MOST, 2001, p. 22-23).&lt;br /&gt;Neste sentido, o vocábulo trágico não apresenta o mesmo significado que o seu homônimo grego: "Em síntese, tragikon descreve, na maioria das vezes pejorativamente, algo ou alguém que excede, ou especialmente quer exceder, as normas humanas comuns aplicadas a todos os outros" (MOST, 2001, p.23). Paralelamente a esse moderno uso estendido do trágico, um outro conceito mais complicado desenvolveu-se entre filósofos e intelectuais nos últimos séculos e apresenta as seguintes características:&lt;br /&gt;Uma aparência de significação que esconde a arbitrariedade fundamental das coisas; uma responsabilidade pessoal esmagadora que vai muito além dos estreitos limites da liberdade de ação e não é diminuída pelas limitações evidentes da necessidade cega; uma nobreza indestrutível no espírito humano, revelada especialmente no sofrimento, na insurgência, na renúncia e na compreensão; um inextrincável nó do destino, cegueira, culpa e expiação; uma sabedoria final a respeito da grandeza e da inconseqüência do homem no universo, finalmente alcançada através da purificação conferida por um profundo sofrimento no mínimo parcialmente não merecido e às vezes pagando o preço de total aniquilação (MOST, 2001, p. 24).&lt;br /&gt;Devido a sua polissemia, o trágico apresenta-se, na visão de Lesky (1996), como um "problema" que não pode ser resolvido em toda a sua extensão e profundidade, pois "é da natureza complexa do trágico o fato de que, quanto maior a proximidade do objeto, tanto menor é a possibilidade de abarcá-lo numa definição" (LESKY, 1996, p. 21). Por isso, segundo Vecchi (2004, p. 113), "nomear o trágico significa de imediato assumir o risco do labirinto, cair em uma rede de incertezas, ser levado através de um Dédalo a procurar até mesmo lingüisticamente figuras recompositivas de um conflito – o quiasmo, o oxímoro –que apazigúem temporariamente o perturbante contato do extremo".&lt;br /&gt;Noutras palavras, buscar uma conceituação normativa do trágico moderno e uma definição excludente dessa categoria é, nas palavras de Sterzi (2004), deparar-se inexoravelmente com a desilusão, pois inúmeras são as visões hermenêuticas sobre o trágico, muitas deles coexistindo em conflito entre si. Por isso, neste trabalho, consciente dessa impossibilidade de apresentar uma definição fechada para um vocábulo que refrata uma definição única, pois retém em si várias outras, não nos interessa apresentar uma definição estanque sobre o que é o trágico, mas mostrar como aspectos, resquícios dele estão plasmados na prosa de O Ladrão de guarda-chuvas e outras dez histórias (1969), de Carolina Nabuco.&lt;br /&gt;O primeiro conto deste livro em que identificamos a presença de elementos do trágico chama-se "A pérola rosada". Como afirma Lesky (1996), a palavra trágico desligou-se, sem dúvida alguma, da forma artística com que a vemos vinculada no classicismo helênico e converteu-se num adjetivo que serve para designar destinos fatídicos de caráter bem definido e, acima de tudo, com uma bem determinada dimensão de profundidade sobre a qual cumpre indagar. Pois bem, em "A pérola rosada", temos a sucessão de acontecimentos fatídicos que marcam toda a geração da família do narrador: Sebastião Silveira de Góes, o qual resolveu escrever sua história a fim de evitar que outras pessoas venham a sofrer com os infortúnios trazidos pela Pérola Rosada:&lt;br /&gt;Eu, Sebastião Silveira de Góes, coronel do exercito Imperial de sua Majestade Dom Pedro I (a quem Deus Guarde!) declaro que esta é a verdadeira relação das desventuras que sucederam a meu Avô, primeiro possuidor da pérola rosada, a meus malfadados Pais e a outras pessoas que, em diferentes ocasiões, estiveram sob a influência dessa jóia fatídica (LGC, p. 121).&lt;br /&gt;Essa jóia fatídica entrou na família dos Silveiras de Góes como doação feita pelo rei Dom José I a João Augusto Silveira de Góes, avô do narrador, o qual, logo após receber esse "presente de grego", "foi morto pouco tempo depois, no exercício de sua profissão que era a marinha de guerra" (LGC, p. 121). Como afirmou Schiller (apud SZONZI, 2004, p. 82), "quando deve haver infortúnio, mesmo o bem deve causar algum dano". Após a morte de seu avô, o filho deste, que à época tinha apenas nove anos de idade, alcançando a idade de homem, abraçou a mesma carreira do pai e "partiu com a esquadra portuguesa que devia forçar a entrada do Rio grande em 1776, ano em que ele morreu e em que eu [o narrador] nasci". Até então, o caráter amaldiçoado da pedra rosada não havia sido percebido.&lt;br /&gt;A partir daí, a Pérola Rosada se torna parte de uma herança maldita cujos malefícios atingem todos os membros da família do narrador ou todos os que dela fazem uso. Não há nada, anteriormente, no texto que revele esse aspecto nefasto, maldito da jóia, a qual funciona como uma espécie de talismã que atrai toda sorte de infortúnio, dor e infelicidade para quem a possui. Somente em seu leito, o pai do narrador, em meio a delírios, vem a afirmar, embora não saibamos como ele chegue a isso, que o anel onde esta incrustada a Pérola rosada havia sido a causa de sua morte. Como ele não queria ficar longe de sua esposa, com quem estava casado apenas há um ano, passou a jóia fatídica a ela a fim de que, dentre pouco tempo, a esposa pudesse morrer e eles se encontrarem na morte. Entretanto, ela, que tinha muito apego à vida, ficou profundamente abalada dos nervos, e isso a deixou desvairada, sem razão: "a infeliz senhora viveu ainda alguns anos, olhando sem cassar e com grande terror, para o dedo em que estivera o anel" (LGC, p.123) que foi guardado num cofre e somente entregue ao narrador quando este atingiu a maioridade.&lt;br /&gt;Assim como os seus antepassados, o narrador não pôde escapar dos infortúnios trazidos pela pérola rosada, razão por que ele resolveu escrever o seu testamento. A sua família, desde que o presente recebido pelo patriarca passou a ser uma jóia de família, mergulhou numa sucessão de acontecimentos fatídicos que foram passados, como uma espécie de herança maldita, a todos os membros que se apossaram dela. A pérola rosada é, portanto, o objeto maldito que faz com que seu dono/possuidor mergulhe numa série de infortúnios. Ter/reter para si a pérola é ter seu destino marcado por sucessivas desgraças das quais torna-se impossível escapar.&lt;br /&gt;Todo o conto, espécie de testemunho, é o relato das desgraças acontecidas com todos os que "tiveram a imprudência ou a desventura de usar essa jóia poderosa" (LGC, p. 124). Pois bem, atingindo a maioridade, o narrador, seguindo a (maldi)tradição da família, entra para a carreira militar e é enviado para a milícia da Vila Rica de Minas, onde veio a conhecer Dona Leonor, parenta de sua mãe e com quem veio a ter um enlace amoroso:&lt;br /&gt;Era Dona Leonor fina e alta, muito alva e meio corada, com olhos de andaluza e boca de flor, e era toda ela meneios, sorrisos e caprichos, ao quais me enlevaram de tal modo que me tornei incapaz de lhe recusar qualquer coisa embora percebesse claramente que ela era falsa e ambiciosa (LGC, p. 124-125).&lt;br /&gt;Dona Leonor, vivendo em situação de extrema penúria, vê na presença daquele parente distante o meio de sair de suas terras e viver em outros ares mais férteis, mais afortunados. Mesmo sabendo que ela não o amava e que os seus meneios galantes eram frios e calculados, o narrador deixou-se seduzir pelas artes de Dona Leonor, com quem noivou e a quem contou as tristes circunstâncias ocorridas em sua família pelo poder da pérola rosada. Ao saber da existência dessa jóia, Dona Leonor, ardilosa, passou a pedi-la insistentemente. Em atendimento a esse pedido de sua futura esposa, o narrador, meio a contra-gosto, mandou buscar a jóia e deu-lha de presente. Esse momento é crucial para Sebastião, pois a decisão dele, tomada baseando-se em informações insuficientes e em considerações erradas – ele, apesar de saber do poder nefasto da jóia, acredita ser amado por D. Leonor, por isso a presenteara – trará para ele e para a própria D. Leonor uma série de infelicidades.&lt;br /&gt;Entretanto, ambiciosa, Dona Leonor, vendo que aquele noivo não poderia concretizar seus sonhos de grandeza e "fortuna" e sabendo da amizade dele com o Marquês de São Pedro, recém-chegado a terras próximas à fazenda onde moravam, insiste em que o seu noivo consiga fazer com que o Marquês, "homem já velho, viúvo, gordo e feio", viesse à fazenda deles. Ao receber o ilustre visitante, Dona Leonor, oblíqua e dissimulada (assim como Capitu, personagem bastante conhecida em nossa Literatura), desmanchou-se em desvelos e "durante o jantar mostrou-se tão amável e graciosa, falou com tanta vivacidade e gentileza, riu com risadas tão cristalinas e esteve tão radiantemente bela que vi perfeitamente que ela ambicionava virar a cabeça do Marquês embora na minha conduta não percebesse que vantagem almejasse de semelhante conquista além da satisfação de vaidade" (LGC, p. 127).&lt;br /&gt;O narrador podia não saber o que Dona Leonor queria, mas ela sabia tanto que, uma vez "fisgado o Marquês", o noivado com o narrador é desfeito e o casamento com o Marquês é realizado logo em seguida: "Em 23 de fevereiro de 1798, ouvi, da própria boca de Leonor, a notícia de que eu era desprezado e de que nosso solene compromisso se achava rompido a fim de que minha noiva se tornasse marquesa, grande e rica" (LGC, p. 128).&lt;br /&gt;Dona Leonor, sem saber, estará fadada ao engano e, apesar da ascendente prosperidade, estará fadada à ruína, pois, como afirma Szondi (2004), "não é o aniquilamento que é trágico, mas o fato de a salvação (lembremos que Dona Leonor pensa estar, ao casar com o Marquês, se livrando daquela vida de privações) tornar-se o aniquilamento; não é no declínio do herói que se cumpre a tragicidade, mas no fato de o homem sucumbir no caminho que tomou justamente para fugir da ruína" (SZONDI, 2004, p. 89). Essa busca desenfreada de D. Leonor por fortuna, luxo, a conduzirá para a desdita e o que parece ter sido uma fortuna, ou seja, sorte, se revelará como desgraça.&lt;br /&gt;Neste caso, casar-se com o Marquês só veio a contribuir para que ela desencadeasse o que já havia sido traçado pelas mãos do Destino: o casamento de D. Leonor é o primeiro passo para a morte, para sofrimento advindo de uma escolha errada que fazemos e que, como acontecerá com esta personagem, poderá nos levar à morte, pois as escolhas que fazemos pensando estarmos nos livrando da ruína é que nos conduzirão, inevitavelmente, a ela.&lt;br /&gt;Atordoado com a resolução de D. Leonor, Sebastião pediu que ela lhe restituísse a Pérola rosada: "Também não me recordo do motivo que me levou, em tal momento a querer conservá-la, mas talvez tenha sido o desejo de encontrar por ela a morte que naquela hora me apetecia" (LGC, p. 129). Entretanto, D. Leonor havia se desfeito do noivo(ado) mas não dos presentes que ganhara. Ambiciosa e ardilosa, ela, alegando que havia perdido a jóia, guardou-a para si.&lt;br /&gt;Nesse intervalo de tempo em que se mantiveram separados, enquanto D. Leonor gozava da "fortuna" que lhe viera com o casamento com o Marquês, Sebastião, apesar de obcecado ainda pela beleza dela e pela humilhação de que fora vítima, veio a se casar e, só depois de muito tempo, tornou a se encontrar com D. Leonor, que, apesar das calúnias e maledicências de alguns, se tornara modelo de virtudes para alguns membros da Corte:&lt;br /&gt;:&lt;br /&gt;Quando a tornei a ver, não existia para mim, como nunca mais existiu, outra mulher senão a minha adorada Esposa, mesmo assim, porém, surpreendeu-me a indiferença com a qual pude contemplar novamente a mulher que fora a causa das mais fortes emoções de minha vida. Tanto nos muda a existência que, a caminho do Paço Imperial, onde sabia que a encontraria, depois de mais de dez anos, as minhas preocupações eram inteiramente outras (LGC, p. 130-131).&lt;br /&gt;Depois desse encontro em que velhas paixões deram lugar à indiferença, Sebastião e sua esposa passaram a fazer parte da corte de D. Leonor, que parecia não ter sido afetada pelos poderes fatídicos da Pérola rosada, pois, além do luxo em que vivia, conservava uma suntuosa plenitude que não era menos irradiante do que o seu fresco desabrochar. Pela conversa que o narrador diz ter tido com D. Leonor, ficamos sabendo que ela se mantivera imune aos poderes da jóia porque a guardara a fim de encontrar uma outra semelhante para poder usá-las como brinco. D. Leonor pede que Sebastião deixe-a com a jóia durante mais um ano, pois os eu joalheiro havia encontrado outra semelhante a ela, e, depois desse prazo, ambas as jóias passariam às mãos de Sebastião para que ele presenteasse a sua filha mais velha.&lt;br /&gt;O irmão de D. Leonor tentou dissuadi-la daquele desejo, alegando "que não lançasse à sorte tamanho desafio, pois acreditava firmemente que lhe adviria desastre" (LGC, p. 132-133); mas ela "tão pouco susceptível a receios e superstições quanto, infelizmente, era à crença e à religião, riu-se e nada quis ouvir" (LGC, p. 133). Se conseguiu se manter imune à Pérola rosada, D. Leonor, assim que a usou, confirmando o que acontecia sempre com os que se apossavam da jóia, tornou-se mais uma vítima e só usou a Pérola duas vezes, pois veio a ser assassinada por um jovem que se dizia enamorado por ela:&lt;br /&gt;Chamava-se ele Francisco Pereira de Rezende. Pertencia a uma boa família aparentada à do Marquês. Era mui jovem e todos sabiam que estava desde muito perdido de amor pela Marquesa, perseguindo-a em toda parte, do que ela várias vezes se queixara nos últimos anos. Boatos maliciosos tinham antes ligado seus nomes, mas já então, outros boatos corriam, em torno da admiração que demonstrava à Marquesa um dos mais altos personagens do Império. Assim foi logo atribuído a despeito o gesto tresloucado do belo capitão Rezende. Chegava Leonor ao Paço de São Cristóvão quando o assassino se aproximou do seu coche como para saúdá-la, apunhalando-a antes que qualquer pessoa lhe pudesse perceber o intento (LCG, p. 133).&lt;br /&gt;Morta a Marquesa de São Pedro, Sebastião foi reclamar ao irmão dela, Philippe, o direito à Perola rosada, mas este, que herdara todos os defeitos da irmã, disse que fizera da jóia um alfinete e o presenteara a uma amigo: o Coronel Barros Silva. Sebastião tenta evitar que a Pérola faça mais uma vítima e procura reavê-la, mas o "estrago já havia sido feito": o Coronel já havia usado a jóia e, uma vez exposto à influência dela, veio a falecer, vítima de uma queda de cavalo. Sua esposa veio a se casar com Philippe, irmão da marquesa, que presenteara o amigo com o intento de ele ser mais uma vítima dos poderes fatídicos da jóia e, assim, desposar a viúva; "e esse enlace, que lhe trouxe grande fortuna, não surpreendeu a ninguém, pois havia muito que o digno coronel era o único a ignorar a traição da Mulher e do Amigo" (LGC, p. 135). Com a morte do Coronel, depois veio a falecer a filha de Sebastião, mas a sua morte, apesar de ter sido para ela que D. Leonor tinha deixado a jóia de presente, ele não atribui aos poderes da jóia, fecha-se o ciclo das vítimas da Pérola rosada, que, para não fazer mais vítimas, o narrador manteve guardada no escrínio.&lt;br /&gt;Ao contrário dos textos trágicos clássicos nos quais ao herói é vaticinado um destino marcado pelo infortúnio, o herói deste conto só fica sabendo disso depois que foi vítima dos maus presságios que emanaram da Pérola rosada. Como as suas tentativas para evitar o poder maléfico da jóia se revelaram vãs, o narrador recorre a uma última alternativa para tentar remediar o irremediável: escondê-la no escrínio e escrever aquela carta que alerta aos possíveis interessados na Pérola Rosada os perigos que esta jóia contém:&lt;br /&gt;Esta é a história da Pérola Rosada, que escrevo para meus filhos e seus descendentes com o mais escrupuloso respeito pela verdade, procurando relatar com exatidão as circunstâncias por mais pequenas. Minha mulher assina comigo, em testemunha de minha boa fé.&lt;br /&gt;Assinado:&lt;br /&gt;Sebastião Silveira de Góes&lt;br /&gt;Adelaide de Góes (LGC, p. 135)&lt;br /&gt;Escrever os infortúnios que marcaram a sua família e legá-los à posteridade em forma de relato é, como dissemos, a última tentativa do narrador/personagem para enfrentar o medo da morte e angústia de presenciar eventos que sabe ser irremediáveis. Entretanto, conforme afirma Goethe (apud ESTERZI, 2004, p. 109), "qualquer tragicidade é fundada por um conflito inconciliável. Se intervier ou se tornar possível uma conciliação, o trágico desaparece". Nesse sentido, podemos dizer que essa última atitude do narrador/personagem representa "o esforço humano, seja no intuito de exorcizar o espírito trágico, seja na tentativa de racionalizar suas aparições e efeitos. Contra Tanatos, o terrível deus, vale tudo: no controle da pulsão de morte, portanto, na resistência ao trágico, estaria a condição mesma da sobrevivência humana" (LUNA, 2005, p.20).&lt;br /&gt;O conto "O viúvo" assemelha-se ao conto anterior por dois aspectos. Primeiro, assim como em "A pérola rosada", existe um narrador em primeira pessoa que conta os fatos depois que eles aconteceram e dos quais ele mesmo participou. Em ambos os casos, os acontecimentos nos são oferecidos depois de filtrados pelo olhar e consciência do narrador. É ele quem manipula a narração, oferecendo-nos fatos que já aconteceram. Neste caso, narrar o que já aconteceu acentua o sentido trágico daquilo que vai ser narrado, pois, segundo F.L. Lucas (apud LUNA, 2005, p. 242), "o pretérito é realmente o mais trágico dos tempos. Se foi feliz, não é mais; se foi desastroso, não pode ser desfeito". Noutras palavras, ambos os contos assemelham-se do ponto de vista da trama, ou seja, do ponto de vista da "aparição na obra [do conjunto de conhecimentos ligados entre si]" e "da seqüência das informações que se nos destinam" (TOMACHEVISKI, 1973, p.173). Se não, vejamos os parágrafos iniciais de "A pérola rosada" e de "O viúvo", respectivamente:&lt;br /&gt;Eu, Sebastião Silveira de Góes, coronel do exercito Imperial de sua Majestade Dom Pedro I (a quem Deus Guarde!) declaro que esta é a verdadeira relação das desventuras que sucederam a meu Avô, primeiro possuidor da pérola rosada, a meus malfadados Pais e a outras pessoas que, em diferentes ocasiões, estiveram sob a influência dessa jóia fatídica (LGC, p. 121).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Este caso, de que fui testemunha há muitos anos, ocorreu a bordo de um transatlântico rumo à Europa. Eu era moço e sentia-me feliz por ir conhecer novas terras, viajando com meus primeiros proventos de arquiteto.&lt;br /&gt;Esse estado de satisfação talvez me tenha sido um dois fatores que, por pena de seu manifesto isolamento, me lavaram a apadrinhar um passageiro idoso e triste cuja presença constrangia as rodas alegres (LGC, p. 111).&lt;br /&gt;Sendo a trama, consoante lição de Tomacheviski (1973), uma criação puramente artística, podemos dizer que é a mesma a forma como tomamos conhecimento da fábula desses contos, isto é, "o conjunto de acontecimentos ligados entre si que nos são comunicados no decorrer da obra" (TOMACHEVISKI, 1973, p.173). Embora apresentando fábulas diferentes, os contos assemelham-se na forma como os acontecimentos narrados são apresentados ao longo da trama, pois, em ambas as narrativas, os fatos narrados já aconteceram. Isso faz com que "as causas que engendraram a catástrofe não mais [possam] ser alteradas e essa terrível imutabilidade da ordem das coisas passadas contribui poderosamente para acentuar o sentido trágico da ação" (LUNA, 2005, p. 242).&lt;br /&gt;Além dessa semelhança estrutural, outra há que une os referidos contos: a temática. Em ambas as narrativas, a morte está presente e traz consigo as marcas do trágico. Apesar de existirem fatos que são trágicos embora não resultem em morte, esta participa freqüentemente das representações do trágico. Essa presença marcante da morte como elemento desencadeador (ou resultante de) eventos trágicos deve-se ao fato de que, "dentre os fenômenos da vida, a morte é aquele que mais efetivamente alia os dois traços essenciais à tragicidade: sofrimento e resistência à razão" (LUNA, 2005, p. 19). Sendo assim, a morte, apesar de apresentar, em cada uma das narrativas, nuances diferentes, é o elemento que as une. Se na primeira, a morte é decorrente da sucessão de infortúnios que acometem todos os membros da família Silveira de Góes e todos os que se apossam da jóia fatídica; na segunda, ela é responsável pela deflagração do estado lutuoso da personagem que dá título ao conto.&lt;br /&gt;Este personagem era "um velho chileno estancieiro, viúvo, que ia pela primeira vez à Europa a fim de visitar, na Itália, uma filha casada com diplomata" (LGC, p. 111). Ele usava luto fechado, pois perdera a esposa e sem ela a sua existência era um fardo pesado. E, como lembra Caruso (1989), a separação daqueles a quem se ama é uma das mais dolosas experiências na vida humana – se não for, talvez, a mais dolorosa. Nenhum ser humano é estranho a esse fato e, diante dele, pode expressar, como reação, sentimentos de rebeldia e resignação, o que varia conforme a história de vida de cada indivíduo e o seu condicionamento específico.&lt;br /&gt;No caso do personagem do conto em pauta, ele prefere, em decorrência da separação conseqüente à morte física de sua amada esposa, manter luto fechado. Aliás, como lembra Freud (1990), sendo uma reação à perda de um ente querido ou de alguma abstração que ocupou o lugar de um ente querido, como o país, a liberdade ou o ideal, o luto possui alguns traços distintivos, tais como: desânimo profundamente penoso, cessação de interesse pelo mundo externo, perda da capacidade de amar, inibição de toda e qualquer atividade. Ou seja, o luto profundo, a reação à perda da pessoa amada, acarreta:&lt;br /&gt;O mesmo estado de espírito penoso, a mesma perda do interesse pelo mundo externo – na medida em que este não evoca esse alguém –, a mesma perda da capacidade de adotar um novo objeto de amor (o que significaria substituí-lo) e o mesmo afastamento de toda e qualquer atividade que não esteja ligada a pensamentos sobre ele (FREUD, 1990, p. 276).&lt;br /&gt;Sem querer fazer uma análise psicanalítica do conto em pauta, aliás, os formalistas russos repudiavam toda e qualquer análise que se baseasse em dados exteriores ao literário, podemos dizer que alguns desses traços distintos do luto são apresentados pela personagem em pauta, uma vez que ele, devido à perda da esposa, enredava-se, cada vez mais, na "concha da tristeza" e, por isso, era avesso às pessoas, a qualquer companhia que fosse. Perder a pessoa amada gera uma frustração especialmente dolorosa. A separação amorosa ocasiona uma dor que talvez possa ser vista como uma das mais difíceis de ser suportada. De acordo com Caruso (1989, p.13), não é por acaso que, em todos os mitos religiosos, "o estado idealizado de dor absoluta após a morte física do pecador [seja] equiparado à separação absoluta do objeto amoroso". Ainda segundo este autor:&lt;br /&gt;O reino das sombras –o inferno –apresenta-se como o lugar da dissociação, da ausência e da separação eterna; só os deuses e semi-deuses podem superar as leis da existência e descer a esse reino, para libertar os amantes esperançosos. Na representação cristã da condenação eterna, a própria essência dessa condenação encontra-se na dor provocada pela separação dos amantes (isto é, na separação do amor absoluto personificado no Cristo) e no desespero daí decorrente (CARUSO, 1989, p.13).&lt;br /&gt;Como um ser em profundo estado lutuoso, o chileno vê o mundo como algo que se tornou pobre e vazio, pois, conforme afirma Luna (2005, p.20), além da morte, "a ausência do trágico se prolonga na dor e no sofrimento provocados pela ausência do ser, pela perda da existência. É o que podemos chamar de ‘efeito trágico’, a lutuosidade que se instala como processo de transposição para o além":&lt;br /&gt;Não se consolava da perda da esposa. Lastimava-se sempre nas nossas conversas dos anos, provavelmente muitos, que ainda lhe restavam de vida. "Tenho uma saúde de ferro", queixava-se. A seu gosto, dizia-me, não teria saído da fazenda distante, onde passara a vida e que percebi ser muito próspera e de grande desenvolvimento. Os filhos, porém, obrigavam-no a mudar um pouco de ambiente, com a esperança – ilusória, dizia-me ele – de que a viagem poderia distrair-lhe os pensamentos (LGC, p. 111-112).&lt;br /&gt;Como veremos, a viagem será mesmo importante não só para distrair-lhe os pensamentos mas sobretudo para que ele rasgue o luto. Entretanto, por ora, resta-nos frisar que, conforme trecho acima, o chileno, diante da perda do objeto amoroso, vivia, por assim dizer, em plena adoração desse objeto. Ele trazia consigo, como prova dessa devoção à esposa, um retrato dela que foi tirado em Paris quando ela precisou viajar para levar a mãe, gravemente doente, para ser tratada e que, além de registrar a beleza da morta, punha em evidência "aquele sorriso, que não chegava a sorrir, [que] guardava um extraordinário poder de comunicabilidade e era uma autêntica mensagem, ou confissão, de amor feliz. Pensei: ‘ Esta mulher ama e é amada [...]’" (LGC, p. 113).&lt;br /&gt;Pelo que nos conta o narrador, o luto apresentado pelo chileno parecia ser eterno, pois se tornara "um homem de poucas palavras, avesso ao convívio social e à troca de amenidades" (LGC, p.112). Entretanto, como afirma Freud (1990), o luto, apesar de envolver graves afastamentos, é superado após certo lapso de tempo, o que acontecerá para esta personagem após uma conversa banal.&lt;br /&gt;Numa das noites da viagem, como que por acaso, o chileno, que era avesso ao contato com os demais, resolvera participar de uma conversa entre o narrador e um casal de argentinos que estava em lua de mel:&lt;br /&gt;Revolta-me a terrível coincidência desse encontro que era tão fácil não ter ocorrido, da tragédia que o destino jogou tão desnecessariamente em seu caminho. Por que escolhera esta noite para se juntar ao meu grupo, ele que costumava tratar os passageiros como se fossem inimigos? Teria havido uma atração inconsciente, uma obra verdadeiramente infernal para o que era predestinado a saber, a destruição de todo o seu passado e de quanto lhe restava de felicidade que parecera indiscutivelmente sua? (LGC, p.118).&lt;br /&gt;Fazia parte também da conversa uma terceira personagem: um famoso escritor espanhol, o qual será importantíssimo na configuração do elemento trágico nesta narrativa, pois é o responsável por deflagrar o inevitável, o que estava predestinada e, assim, fazer com que o chileno rasgasse o luto pela esposa.&lt;br /&gt;Nesta conversa aparentemente banal, para a qual o chileno, segundo o narrador, parece ter sido chamado, pois "devia estar se sentido inda mais triste que de costume, triste a ponto de não poder mais suportar o peso da solidão" (LGC, p.114), o espanhol, ao saber que fazia parte da roda de amigos um chileno, disse que um de seus maiores amores foi uma chilena.&lt;br /&gt;Ao saber disso, Mercedes, a argentina que, juntamente com o marido, participava da conversa, pensando que ouviria mais um daqueles picantes casos amorosos, pede ao escritor espanhol que o relate. Para o narrador, essa história seria apenas mais uma insossa água com açúcar, mas, mesmo assim, ele não sabia explicar por que sentia "uma inexplicável aflição, como o de ver uma pessoa tomar um caminho errado que poderia conduzir a desastre" (LGC, p.115).&lt;br /&gt;Como poderemos ver, o relato do espanhol tratará um elemento surpresa que caracterizará uma situação inesperada, ou melhor, a revelação de uma verdade inesperada. Entretanto, antes de sabermos que verdade é essa, voltemos ao relato do espanhol. Este, continuando a sua história, conta que conhecera a tal chilena num hotel e, durante vinte dias, eles viveram uma paixão intensa e, ao final desse período, se separaram e nunca mais se encontraram: "quando partiu para seu país, proibiu que eu a seguisse ou mesmo lhe escrevesse" (LGC, p.116).&lt;br /&gt;Novamente, o narrador pressente a revelação do irremediável: "atravessou-me o cérebro uma idéia que me teria horrorizado se eu não a tivesse logo afastado por impossível" (LGC, p.116). Essa idéia, que o narrador não chega a formular, mas que o leitor, talvez, já seja capaz de inferir qual seria, é esta: a mulher por quem o escritor espanhol diz ter sido apaixonado é a mesma por quem o chileno mantém luto. Isso é revelado quando o espanhol confirma ter sido a sua amada uma mulher casada que viera a Paris acompanhar a mãe que estava doente de câncer.&lt;br /&gt;A vivência como dona de casa num mundinho restrito à fazenda do marido fez com que essa mulher se deslumbrasse com Paris. Estar ali era um verdadeiro milagre: "Sua alegria em descobrir Paris, em gozar dos passeios, das lojas, da arte, fazia tudo mais belo, mais novo" (LGC, p. 115). A saída do ambiente privado e o contato com um lugar mais público fazem com que a esposa do viúvo não só desfrute dos prazeres materias advindos das compras em lojas parisienses, mas também se permita viver, sentir outros prazeres amorosos, ainda que no curto espaço em que estivera em Paris. Dessa época de felicidade, o escritor espanhol diz ter guardado apenas um uma fotografia daqueles dias:&lt;br /&gt;É um desses retratos de que é costume dizer que falam, e o que ela diz nele do modo mais claro possível é a sua felicidade no nosso amor. Ela disse-me que o tirou pensando em mim e a mensagem que me quis deixar esta realmente ali, radiosa e eloqüente (LGC, p. 117-118).&lt;br /&gt;Nesse momento, o que para o narrador se revelara apenas como uma leve intuição, uma suspeita efêmera se revela como verdade: "Olhei depressa para o meu amigo. Ele podia ter desconfiado antes por qualquer detalhe, mas vi que só agora, com essa referência à operação da mãe, veio-lhe, como a mim, a certeza" (LGC, p. 116). A esse reconhecimento de alguma verdade antes desconhecida os gregos chamavam anagnorisis, a qual é definida por Aristóteles (apud LUNA, 2005, p. 259) nos seguintes termos: "o ‘reconhecimento’, como indica o significado da própria palavra, é a passagem do ignorar ao conhecer, que se faz para amizade ou inimizade das personagens que estão designadas para a dita ou a desdita".&lt;br /&gt;Segundo Luna (2005), Aristóteles chama atenção para diversos tipos de reconhecimento, como, por exemplo, os que podem ocorrer através dos sinais do corpo ou do despertar da memória. Este último é o que se manifesta no conto em análise, pois foi relembrando que ouvira do chileno que a esposa deste estivera em Paris para tratar da mãe enferma que o narrador descobriu ser verdade aquilo que ele apenas intuíra. Já para o chileno, a história do espanhol lhe revela uma verdade antes desconhecida: a traição da esposa a quem ele, depois da morte dela, se mantivera fiel vestindo o luto. Essa espécie de reconhecimento, apesar dos vários tipos existentes, é a que se mostra como melhor, pois, urdido da própria trama, introduz um elemento surpresa que caracteriza uma situação inesperada e faz com que a surpresa resulte de modo natural.&lt;br /&gt;Diante dessa verdade que lhe era desconhecida, o chileno, cujo erro trágico foi ter ido participar daquela conversa banal, teve como ímpeto inicial atirar-se contra o espanhol, mas se conteve e recolheu-se ao seu camarote Nesta mesma noite de revelação, ele atirou ao mar o retrato de sua esposa cujo sorriso de amor e felicidade captado naquele retrato guardado na carteira dele não era para ele e, sim, para o outro, o amante dela, como única recordação daquela paixão fugaz. Jogando ao mar o retrato da esposa, a quem ele se manteve fiel e que lhe fora infiel, o chileno estava relegando-a ao esquecimento e, ao mesmo tempo, libertando-se daquele luto, ainda que, para isso, não tenha escapado de uma experiência trágica, pois o trágico é "uma descrição de certos tipos de experiência ou de traços básicos da existência humana, ou seja, está ligado à essência da condição humana, em sua estrutura imutável ou como se manifesta em circunstâncias, catastróficas" (MOST, 2001, p. 24).&lt;br /&gt;Nesse sentido, a existência do viúvo, de agora por diante, poderá ser mais trágica, pois, se antes do momento de revelação, ele sofria porque havia se separado fisicamente da esposa, agora, uma vez sabendo que ela lhe fora infiel, ele terá de separar-se definitivamente dela. Ou seja, ele terá de provocar a morte dela dentro dele mesmo, o que ele já fizera ao atirar para o mar o retrato dela. Essa separação afetiva fará com que a esposa, antes devotada, se torne um cadáver que nem sequer o fará mais sofrer, o viúvo, uma vez superado o luto, terá de viver uma outra fase, talvez mais dolorosa: a do esquecimento.&lt;br /&gt;REFERÊNCIAS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ARISTÓTELES. A poética clássica. Trad. Jaime Bruna. 7. ed. São Paulo: Cultrix, 1997.&lt;br /&gt;CARUSO, Igor. A separação dos amantes – uma fenomenologia da morte. 5.ed. Trad. José Silvério trevisan. São Paulo: Diadorim; Cortez, 1989.&lt;br /&gt;FREUD, Sigmund. Luto e melancolia. In: — Obras completas. Ed. Standard Brasileira. vol. XIV. Rio de Janeiro: Imago, 1980.&lt;br /&gt;LESKY, Albin. A tragédia grega. 3.ed. São Paulo: Perspectiva, 1996.&lt;br /&gt;LUNA, Sandra. A arqueologia da ação trágica – o legado grego. João Pessoa: Idéia, 2005.&lt;br /&gt;MOST, Glenn W. Da tragédia ao trágico. In: ROSENFIELD, Kathein Holzermayer. Filosofia e literatura – o trágico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2001.&lt;br /&gt;NABUCO, Carolina. O ladrão de guarda-chuvas e outras dez histórias. Rio de Janeiro: Record, 1969.&lt;br /&gt;NABUCO, Carolina. Oito décadas – memórias. 2.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2000.&lt;br /&gt;SCHUMAHER, Schuma e BRAZIL, Érico Vital. Dicionário de mulheres do Brasil de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2000.&lt;br /&gt;SÓFOCLES. Édipo rei – Antígona. Trad. Jean Melville. São Paulo: Martin Claret, 2006.&lt;br /&gt;STERZI, Eduardo. Formas residuais do trágico – alguns apontamentos. In: FINAZZI-AGRÒ, Ettore e VECCHI, Roberto (orgs.). Formas e mediações do trágico moderno – uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco Editora, 2004.&lt;br /&gt;SZONZI, Peter. Ensaio sobre o trágico. Trad. Pedro Süssekind. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2004.&lt;br /&gt;TOMACHEVSKI, B. Temática. In: EIKHENBAUM, B. et al. Teoria da literatura – os formalistas russos. Trad. Ana M. R. Filipousski, Maria A. Pereira, Regina L. Zilberman e Antônio C. Honlfeldt. 2. ed. Porto Alegre: Globo, 1976.&lt;br /&gt;VECCHI, Roberto. O que resta do trágico – uma abordagem da modernidade cultural brasileira. In: FINAZZI-AGRÒ, Ettore e VECCHI, Roberto (orgs.). Formas e mediações do trágico moderno – uma leitura do Brasil. São Paulo: Unimarco Editora, 2004.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-7487966616860598413?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/7487966616860598413/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=7487966616860598413' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7487966616860598413'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/7487966616860598413'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/06/variaes-do-trgico-em-carolina-nabuco.html' title='Variações do Trágico em Carolina Nabuco'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ9Uh40ljI/AAAAAAAAAEE/CsGZikuq4KU/s72-c/soneto.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-171515932504277459</id><published>2008-05-30T17:22:00.001-07:00</published><updated>2008-05-30T17:24:27.662-07:00</updated><title type='text'>A bela metáfora de um país de extremos</title><content type='html'>Marisa Lajolo&lt;br /&gt;(professora titular do Instituto de Estudos da Linguagem (Unicamp) e autora, entre outros títulos, de A Formação da Leitura no Brasil)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O Vôo da Guará Vermelha celebra a vida, sem pieguice O Vôo da Guará Vermelha, de Maria Valéria Rezende, é um livro sóbrio e envolvente. Um hino à vida, à beleza e ao amor, completamente desprovido da pieguice em que geralmente se banham romances que fazem desas matérias inconsúteis (amor, beleza e vida) a carpintaria da história que contam. Um belo livro! O enredo é simples: um homem e uma mulher se encontram nos extremos da vida e se juntam. Extremos de pobreza, de solidão e de doença, fundidos, se transfiguram. Transfigurados, parecem dar sentido à vida e até à morte. Pois embora celebre a vida, o enredo é entremeado de mortes, de desencontros, de sofrimentos. Seu enredo é entremeado sobretudo de histórias, que se destacam graficamente da fala do narrador, elaborando os entremeios. Nos títulos dos capítulos, engenhosamente dispostos na frente/verso das páginas, mencionam-se cores que se acentuam com o desenrolar da trama e que com ela dialogam: Cinzento e Encarnado, Ocre e Rosa, Verde e Ouro. Pairando na história, sabores e cheiros que arrematam o forte substrato sensorial do texto, onde é recorrente a imagem de um sagüi e de uma guará, lembranças fundamentais na vida das personagens centrais. Ela é Irene, ele é Rosálio da Conceição. Ela é prostituta, ele é servente de pedreiro. As humildes profissões deles, no entanto, são quase irrelevantes. Vivem ambos uma vida cinzenta e áspera como as pedras com que Rosálio marca – no início de sua trajetória – o itinerário pela cidade inóspita, mergulhada num silêncio estéril e letal. A história se narra pela boca de um narrador sofisticado, que ora empresta a voz para suas personagens, ora fala delas em terceira pessoa. Sempre de olho no leitor, a voz que narra não poupa artimanhas para envolver esta instável figura – nós, leitores! – em sua solidariedade para com Irene e Rosálio. Filho de mãe solteira, Rosálio começa por ter de adotar um nome: era conhecido como Nem Ninguém, nome sugestivo da negatividade quase absoluta de sua existência; depois passa a ser Curumim e, finalmente, Rosálio da Conceição na documentação que lhe dá existência civil. Esta invenção de um nome para si mesmo é o primeiro gesto pelo qual Rosálio começa a construir-se como sujeito de sua própria história. Esta história cifra-se em sua incansável busca por alguém que o ensine a ler os livros que herdou do falecido Bugre, índio desgarrado que terminou de criá-lo, depois de ser por ele salvo de morrer de febre, fome e sede. Os caminhos do aprendizado são tortuosos e cheios de curvas: com o protagonista, o leitor perambula por madeireiras, garimpos, canteiros da construção civil. Finalmente Rosálio se encontra com Irene. Irene é uma prostituta barata: doente e envelhecida, mal consegue os clientes necessários para o dinheiro que precisa levar semanalmente para a velha que lhe cria o filho. Embaixo do colchão deformado, um caderno e um lápis aguardam a história que ela acredita que um dia vai escrever. No passado, Romualdo,um grande amor desaparecido. E no futuro muito próximo, a morte inevitável por doença terminal. Finalmente Irene se encontra com Rosálio. Aos poucos, linguagem, escrita, livros, papéis, lápis e histórias de boca e de leitura vão crescendo no enredo, construindo o ponto de encontro dos protagonistas. Daí para frente, multiplicam-se e ficam cada vez mais encorpadas as formas de linguagem de que se valem as personagens. Aliás, a linguagem e os diálogos que ela engendra representam, talvez, a idéia fundadora e a tese do livro, se é que se pode falar de tese a propósito de um livro sutil como O Vôo da Guará Vermelha. Rosálio aprende a ler com Irene e juntos, na cama velha e estreita, decifram as letras dos livros herdados de Bugre. No caderno de Irene, ela registra a lápis as histórias que Rosálio conta. Homem e mulher que se fazem um na linguagem e no texto. No corpo e na cama, na vida e na morte. E que por isso podem alçar vôo para o azul sem fim, bela metáfora-título do último capítulo do livro. O leitor, ao fechar o livro, talvez tenha olhos e ouvidos mais abertos para o mar de histórias que se desentranham da história. No caso deste livro, da história anônima deste País de Rosálios e de Irenes e que um Poetinha, um dia, chamou de Pátria minha, tão pobrinha...&lt;br /&gt;(O Estado de S.Paulo - Caderno 2 - 08/01/06)&lt;br /&gt;                                                                             Assessoria de Comunicação e Imprensa - UNICAMP&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-171515932504277459?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/171515932504277459/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=171515932504277459' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/171515932504277459'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/171515932504277459'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/05/bela-metfora-de-um-pas-de-extremos.html' title='A bela metáfora de um país de extremos'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-2900917439831038241</id><published>2008-05-30T16:56:00.000-07:00</published><updated>2008-09-21T10:06:39.551-07:00</updated><title type='text'>Do espaço e da mulher em Chama e Cinzas de Carolina Nabuco</title><content type='html'>&lt;a href="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ-pRn6CDI/AAAAAAAAAEM/7VWJtAIiC_c/s1600-h/chama+e+cinzas.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5248521663317411890" style="FLOAT: right; MARGIN: 0px 0px 10px 10px; CURSOR: hand" alt="" src="http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ-pRn6CDI/AAAAAAAAAEM/7VWJtAIiC_c/s320/chama+e+cinzas.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;Marcelo Medeiros &lt;/div&gt;        &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;                                                                    &lt;br /&gt;                                                                                                            &lt;span style="font-family:georgia;"&gt;Primeira edição de Chama e cinzas&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na discussão entre o público e o privado, parece-nos que as abordagens caminharam para uma supervalorização do primeiro em detrimento do segundo. Uma vez que, ao longo da história, a mulher havia sido encarcerada na esfera privada, urgia que ela saísse do posto de rainha do lar e alcançasse espaços onde pudesse exercer outras funções que não apenas as das prendas domésticas. Avultaram, então, estudos sobre as mulheres do espaço público, como as jornalistas, as políticas, as escritoras. Neste caso, procurando dar visibilidade às mulheres, muitos estudos deixaram de lado aquelas mulheres que, restritas à esfera doméstica, já eram invisíveis: as donas-de-casa.&lt;br /&gt;Como decorrência disso, deixaram de ser produzidos estudos sobre as "donas-de-casa", ou, pelo menos, rarearam os trabalhos que se preocupassem com esse tipo de mulher. Isso, talvez, seja decorrente do fato de que, durante muito tempo, o privado ficou à margem dos trabalhos produzidos por estudiosos das mais diversas áreas. Esse quadro, entretanto, começou a alterar-se quando o privado deixou de ser "uma zona maldita, proibida e obscura: o local de nossas delícias e servidões, de nossos conflitos e sonhos; o centro, talvez provisório, de nossa vida, enfim reconhecido, visitado e legitimado" (PERROT, 2006, p. 09).&lt;br /&gt;A consideração crescente pela vida privada, familiar ou pessoal contribuiu, portanto, para o surgimento de trabalhos que procurassem, a partir da esfera privada, tida como prisão para muitas mulheres, estudar como o feminino se manifestava nesse local: submetendo-se às injunções de uma sociedade de base patriarcal ou buscando formas de ir de encontro a todo um aparato ideológico fomentado por essa mesma sociedade. Tanto num quanto noutro caso, verificou-se, em muitos casos, que as mulheres viveram, durante muito tempo, numa espécie de letargia que as impedia de criar, nomear-se, nomear as coisas e ser, sobretudo, procriadoras de seus próprios discursos, textos e pensamentos. Tudo isso para que o domínio masculino sobre o feminino permanecesse como algo imutável e natural, impedindo, assim, que as mulheres construíssem novos valores sociais, nova moral e nova cultura.&lt;br /&gt;Dentro dessa ideologia, que toma(va) o masculino como ponto de referência, as mulheres foram obrigadas a silenciarem-se e a assumirem como valores femininos outras marcas: a escuta, a espera, o guardar as palavras no fundo de si mesmas, aceitar, conformar-se, obedecer, submeter-se, calar-se (PERROT, 2005). Destinadas à obscuridade da reprodução ou postas fora do tempo ou dos acontecimentos, as mulheres foram, portanto, esquecidas, silenciadas ao longo da História. Neste sentido, o silêncio, sendo o Verbo Deus e, portanto, Homem, era o comum das mulheres: "o silêncio é um mandamento reiterado através dos séculos pelas religiões, pelos sistemas políticos e pelos manuais de comportamento" (PERROT, 2005, p. 09).&lt;br /&gt;Se o silêncio foi, então, a marca de muitas mulheres, é preciso, agora que "grande parte da revisão da produção cultural e literária das mulheres vem sendo feita a partir de perspectivas que buscam enfocar [...] diferentes construções identitárias ou que, no mínimo, não desconsideram sua importância em geral, e, especialmente, dos sujeitos femininos dentro delas" (ARAÚJO e SCHNEIDER, 2006, p. 123), que demos voz a esse silêncio e passemos a ouvir, pelo menos, os seus sussurros, o que pode, a nosso ver, ajudar na reescrita da própria história das mulheres e contribuir na escrita de uma memória feminina que foi tecida, muitas vezes, de silêncios e para o silêncio.&lt;br /&gt;Sendo assim, não podemos deixar de lado a esfera privada, já que ela foi, durante séculos, um espaço ao qual estiveram ligadas muitas mulheres. É preciso, portanto, voltar-se para essa esfera, entendê-la por uma óptica que esteja despida de idéias pré-concebidas, pois, se as mulheres em geral, foram, paulatinamente, margeadas, as que ocupam o espaço privado, e muitas dizem gostar dele, cabe-nos, portanto, entender essa opção, são, duplamente, margeadas: primeiro, por serem mulheres; segundo, por exercerem as funções de dona-de-casa.&lt;br /&gt;No entanto, nunca se pensou, como afirma Woolf (2004), que ser mulher dona-de-casa é exercer uma função social que não goza de prestígio elevado na sociedade. Ser dona de casa traz para as mulheres as marcas de uma angústia que é resultado do fato de saber que esta sua função é importante, mas que, por outro lado, é tida como atividade menor, menos positiva, ociosa. Apesar disso, quando muitas mulheres começaram a penetrar no terreno da escrita, foi justamente o espaço privado, onde permaneceram fechadas dentro de casas e sobrados, mocambos e senzalas, construídos por seus pais, maridos, senhores, que emergiu, em suas prosas, como cenário por onde desfilavam mulheres igualmente confinadas no mundo interior da família e mantidas sob o jugo patriarcal. Sendo assim, voltadas para o espaço doméstico, o privado, as mulheres, ao construírem o seu universo ficcional, deram prioridades aos laços familiares:&lt;br /&gt;Estes laços, protetores e constritivos, são, freqüentemente, elementos estruturantes dos conflitos narrados. A família é, de fato, um tema que se impõe àqueles(as) que se interessam pela problemática feminina, seja ela abordada pelos mais diferentes campos do saber (XAVIER, 1998, p. 13).&lt;br /&gt;A priorização das relações familiares nos escritos de algumas de nossas primeiras escritoras deve-se também ao fato de que às mulheres era permitido escrever desde que os seus escritos não ferissem "a moral e os bons costumes", daí serem recorrentes na produção delas temas sobre o amor, o cotidiano familiar, ou seja, temas que, sob a "esfera perfumada de sentimento e singeleza", não abordassem nada mais além do amor e flores. Caso fossem além e passassem a versar sobre assuntos sociais, políticos ou revolucionários, essas escritoras estavam transgredindo, já que estes eram assuntos da esfera pública, ou seja, assuntos de homem.&lt;br /&gt;Todavia, escrevendo sobre aquilo de que estavam mais próximas, as mulheres iam, paulatinamente, adentrando no universo da escrita, dominus masculino, mesmo que seus escritos fossem marginalizados ou desvalorizados, visto que versavam sobre atividades femininas que traziam em si as marcas que deveriam ser ocultadas: a desvalorização e a marginalização femininas. Para corroborar essa nossa fala, Perrot (2005, p. 13) afirma o seguinte:&lt;br /&gt;O uso [da escrita], essencial, repousa sobre o seu grau de alfabetização e o tipo de escrita que lhes é concedido. Inicialmente isoladas na escrita privada e familiar, autorizadas a formas específicas de escrita pública (educação, caridade, cozinha, etiqueta...), elas se apropriaram progressivamente de todos os campos da comunicação – o jornalismo por exemplo – e da criação: poesia, romance sobretudo, história às vezes, ciência e filosofia mais dificilmente. Debates e combates balizam estas travessias de uma fronteira que tende a se reconstituir, mudando de lugar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Assim, não nos causa estranheza o fato de que, vivendo, durante muito tempo, em espaços desenhados e planejados pela arquitetura masculina, as mulheres escolhessem justamente esses espaços para falarem, dizerem quem eram, são e foram. Como exemplo disso, podemos citar o romance Chama e Cinzas (1947) da escritora fluminense Carolina Nabuco. Escrito treze anos após a publicação de seu primeiro romance, A sucessora (1934), num estilo objetivo, com uma linguagem próxima à da crônica jornalística, Chama e Cinzas é um romance que narra o cotidiano de mulheres presas à esfera do lar e preocupadas em resolver, à sua maneira, os problemas presentes nessa esfera privada, ou seja, no espaço privilegiado para a realização de seus talentos e execução de sua carreira profissional: as lides domésticas, encarnando a esposa-dona-de-casa-mãe-de-família.&lt;br /&gt;Este romance, talvez, tenha sido, para a sua autora, o mais difícil de ter sido escrito, porque lhe faltava substância: "Fui reunindo fragmentos de diálogos e títulos de capítulos, mas essas notas não passavam de lascas espalhadas. Lutava com uma grande falta de detalhes" (NABUCO, 2000, p. 142). Em Oito décadas, livro de memórias que compõe a bagagem literária de Carolina Nabuco, ela registra, da seguinte forma, a maneira como havia trabalhado na elaboração de Chama e cinzas:&lt;br /&gt;Estou tecendo o enredo do meu futuro romance ainda sem título. O primeiro personagem que ideei e ao qual já estou me afeiçoando é o de um banqueiro e homem de negócios de meia-idade. Sua vida financeira e industrial está me saindo parecida com a do barão de Mauá e a de Percival Farquhar, o arrojado americano que conheci lutando em vão junto do governo Bernardes para, com os milhões americanos de que dispunha, estabelecer a indústria metalúrgica que engrandeceria o Brasil. Não deixarei meu personagem, o Rabelo, lutar em vão.&lt;br /&gt;Há muito tempo que elaborei o ambiente de família que aparece na primeira parte e que tracei o arcabouço dos últimos capítulos, cujo eixo é a ida forçada de Nica ao banquete, deixando o marido moribundo.&lt;br /&gt;Estes pontos não constituem ainda enredo. Quero uma rivalidade de amor entre as duas irmãs, mas os personagens masculinos ainda estão obscuros. Fiz pelo menos doze esquemas de enredo, para fixar os personagens Fernando e Evaristo. Enveredei por vários caminhos falsos, rasgando muitas páginas. Li a mamãe o rascunho. Li-o depois a João de Azevedo Macedo, operado da vista, a quem fui fazer companhia várias tardes. Recebi dele algumas sugestões, outras de Mariana, que bateu duas cópias na máquina, outras de Jim Chermont, que foi o primeiro leitor do original já mais ou menos terminado, todas as sugestões foram ótimas (NABUCO, 2000, p. 143).&lt;br /&gt;Chama e Cinzas, a partir do qual, neste artigo, procuraremos pensar em como se configura a representação feminina no espaço privado representado neste romance, pode ser visto, então, como uma longa crônica familiar onde estão registrados as intrigas familiares e os dramas íntimos. Nele está registrado o cotidiano da família Galhardo. Esta é uma família dentro dos moldes patriarcais, ou melhor, dentro do que, reduzindo-se as dimensões da família patriarcal, se "convencionou chamar de família nuclear burguesa, composta apenas do casal e dos filhos" (XAVIER, 1998, p. 113). Álvaro, o pai, é viúvo e tem quatro filhas: Ana, mais conhecida como Nica, Cristina, Iolanda e, a mais nova, Geninha. Todas elas moram na casa do bairro do Flamengo e são responsáveis pela manutenção e ordem dessa casa cujas necessidades são providas por Álvaro, que, antigo diplomata, cargo de que foi destituído após contrair muitas dívidas e não ter podido pagá-las, era descendente de família ilustre do Antigo Império, mas se encontra em decadência e vive de pedir emprestado dinheiro, que, muitas vezes não paga, ou da renda haurida com o jogo que realiza em sua casa e ao qual vinham muitas pessoas: umas desconhecidas pela família; outras eram bem próximas, como Nestor Rabelo, um grande banqueiro e velho amigo dos Galhardos.&lt;br /&gt;Os descalabros de Álvaro causavam vergonhas a suas filhas, e todas elas tiveram de passar por situações vergonhosas por causa do pai, que dilapidou com o jogo a sua fortuna e a deixada pela falecida esposa:&lt;br /&gt;[...] Geninha devia estar sentindo agora mais ou menos o que ela sentira então. Hoje Geninha chegara a maioridade como filha de Álvaro, como ela, Nica, chegara nesse dia de meirinhos, como Iolanda chegara, um pouco menos cedo talvez, na ocasião da ameaça de um credor insolente. Para Cristina, a mais velha, talvez não houvesse havido um momento preciso que, assim, de repente lhe abrisse os olhos. Depois da morte da mãe, Cristina tomara, ainda colegial, o governo da casa, dessa casa sem orçamento. Logo principiara a descobrir, através de pequenos vexames e da necessidade de fugir das contas dos fornecedores que não podia pagar, a verdadeira situação do pai (CC, p. 15).&lt;br /&gt;Álvaro, apesar de ser visto como o senhor da casa, aliás, a primeira parte do romance traz como título "a casa de Álvaro", não consegue cumprir com o papel que lhe é reservado por uma sociedade de base patriarcal, ou seja, ele não consegue cumprir, a contento, com o papel de provedor do lar. Apesar disso e dos apertos econômicos por que passava, era contrário ao fato de suas filhas trabalharem fora do lar:&lt;br /&gt;Álvaro opunha-se a que as meninas trabalhassem. Dizia que lugar de mulher é em casa. Tinha nisso o apoio de tia Chiquinha, a principal representante da família materna, uma tia-avó que não evoluíra com os tempos. Tia Chiquinha dispunha no caso de um argumento melhor que palavras. Viúva rica e sem filhos, era quem dava às meninas uma mesada para vestidos e passeios (CC, p. 28).&lt;br /&gt;Este fragmento corrobora o que vínhamos dizendo no começo deste texto, ou seja, dentro da ideologia do patriarcalismo, o lugar da mulher é o confinamento no mundo interior da família. Neste sentido, o romance em pauta registra uma época em que, sendo o lugar da mulher em casa, era "desnecessária" a sua entrada no mercado de trabalho, principalmente porque a presença feminina no espaço público era vista como uma possibilidade a que as mulheres queriam ter acesso para poderem conseguir dinheiro a ser gasto com futilidades, comprando vestidos e indo a passeios. O romance em pauta registra, portanto, o quanto era difícil para as mulheres, presas à esfera privada, romperem com idéias que, assim como a tia-avó das meninas Galhardo, "não evoluíram com o tempo".&lt;br /&gt;Além disso, devemos registrar que essa recusa à participação feminina no espaço público atendia a "um esforço de propagação de um modelo imaginário da família, orientado para a intimidade do lar, onde devem ser cultivadas as virtudes burguesas" (RAGO, 1997, p. 75). Por isso, avultaram vários procedimentos estratégicos masculinos que tentaram impedir a livre circulação das mulheres nos espaços públicos e lançaram, em consonância com todo um discurso moralista e filantrópico, sobre os ombros femininos "o anátema do pecado, o sentimento de culpa diante do abandono do lar, dos filhos carentes, do marido extenuado pelas longas horas de trabalho" (RAGO, 1997, p. 63). Noutras palavras, como a inserção da mulher na vida pública poderia corromper a sua pureza, o trabalho só lhe era permitido em situações excepcionais e de extrema necessidade como nos casos de viuvez ou de falência financeira.&lt;br /&gt;Neste cenário, em que a esfera pública era apresentada como fonte de corrupção da mulher e de desvio do seu destino sagrado: o de mãe, esposa, dona de casa, restava às meninas Galhardo, impedidas de trabalhar no espaço público, assim como a muitas mulheres como elas, apenas circular pelos espaços privados do lar. Aliás, Álvaro, apesar dos descalabros econômicos causados à família, não se descuidara da educação de suas filhas e soube educá-las dentro dos princípios dessa ideologia cujo objetivo era prepará-las não para a vida, mas, sim, para exercer a sua função essencial: a carreira doméstica. Sendo assim, integrando uma família do tipo nuclear burguesa, onde as relações de gênero são bem organizadas (XAVIER, 1998), cabia às meninas Galhardo ocupar-se com as lides domésticas, como costura, bordado e a arrumação da casa, ou preocupar-se com a sua própria beleza, atividades que não gozam de prestígio dentro de nossa sociedade, já que são vistas, em sua maioria, como meras futilidades femininas:&lt;br /&gt;Agora um trovão rompeu inopinadamente. O dia antes estivera bonito. Nica prestou pouca atenção à mudança do tempo, ocupada como estava com seus vestidos, com os usados que arrumava e com os futuros que planejava. Achava-se com muito pouca roupa, e queria, precisava ser mais elegante que nunca. Apesar de Fernando falar tanto contra o luxo e futilidade, ela descobrira que, na prática, ele era, pelo contrário, sensível a tudo isso na indumentária feminina (CC, 70).&lt;br /&gt;Neste caso, o trabalho da mulher deve ser voltado às atividades mais caseiras e sossegadas, tipicamente associadas à mulher. Sendo assim, as filhas de Álvaro têm, então, de cumprir esse papel que uma sociedade de base patriarcal reserva-lhes. Todas são mulheres que estão presas aos laços de família e, portanto, dentro de um sistema extremamente gendrado dentro do qual elas, sendo mulheres, têm de ficar confinadas à esfera do lar e assumir o governo da casa, preocupando-se apenas com as prendas domésticas, com os mínimos detalhes da vida cotidiana de cada um dos membros da família, com todos os pequenos fatos do dia-a-dia e com a prevenção de qualquer sinal de doença.&lt;br /&gt;Além disso, outra preocupação recorrente entre as irmãs Galhardo é com o casamento que era visto como a suprema aspiração das mulheres e para o qual elas se preparavam por toda a vida, sendo educadas nas lides domésticas e ensinadas, no caso das mulheres da classe dominante, a brilharem nos salões de bailes onde poderiam encontrar um pretendente que as retirassem do lar paterno e lhes concedesse o trono de rainhas do lar. Dessa forma, vivendo dentro de uma sociedade em que as mulheres eram educadas para se casarem, as filhas de Álvaro não podiam fugir ao seu "destino de fêmea": " – Se eu não estiver casada antes dos vinte e um anos, eu me emprego no escritório do Rabelo. Ele já disse que eu dou uma ótima secretária" (CC, p. 28).&lt;br /&gt;Esta fala de Nica torna-se importante porque não só reitera o fato de que, dentro da ideologia patriarcal, o único destino da mulher era o casamento como também nos ajuda a pensar nos papéis que eram destinados às mulheres no espaço público, já que o campo de atuação de muitas delas fora do lar circunscreveu-se "ao de ajudante, assistente, ou seja, a uma função de subordinação a um chefe masculinos em atividades que a colocaram desde sempre à margem de qualquer processo decisório" (RAGO, 1997, p. 65). Por isso, caso não venha a se casar, restava a Nica empregar-se no escritório de Rabelo para exercer o papel de secretária. Ademais, educadas para a domesticidade, as meninas Galhardo são instruídas para serem boas donas-de-casa, ótimas esposas e graciosas mães, estereótipos femininos construídos conforme a ideologia do patriarcalismo, ou seja, elas "eram mestras na arte de fazer as honras de casa, com gentileza e simplicidade" (CC, p. 42).&lt;br /&gt;Acrescentemos a isso que, dentro do casamento, cabia ao homem o papel principal enquanto à mulher era destinado o papel de coadjuvante em nome do qual ela deveria deixar de lado os seus sonhos para fazer parte, então, de um enredo que não foi construído para ela nem por ela, isto é, cabia-lhe o papel secundário de auxiliar do esposo:&lt;br /&gt;[Nica] via-se, no futuro que sonhava como esposa feliz de Fernando, às vezes em lugarejos perdidos do interior, onde o mandassem servir. Via-se ao lado dele, vivendo contente num lar muito simples, dentro de um orçamento apertado pelo soldo militar, com que teriam que viver.&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;[...] o que Nica queria sobretudo, e quase unicamente, era compartilhar da vida de Fernando, fosse qual fosse. Quer ele vencesse, quer não, quer fosse obscuro, quer chegasse, mesmo, a fazer-se um nome brilhante como o de Rabelo, o que ela queria era estar ao seu lado, auxiliando-o (CC, p. 54-55).&lt;br /&gt;Outra personagem que vislumbra o casamento como único objetivo na vida é Cristina. A mais velha das meninas Galhardo estava de noivado quase marcado quando o seu futuro esposo resolveu viajar para a Europa. A causa dessa viagem imprevista: a futura sogra, Dona Eufrásia, não queria ter uma nora cuja família, em especial o pai, Álvaro Galhardo, se revelaria um entrave para a ascensão social e econômica de seu filho, João Mário:&lt;br /&gt;Dona Eufrásia, a mãe do rapaz não tinha outra objeção senão Álvaro. Alegava que o filho não teria tão cedo situação para casar, mas isso era apenas pretexto. O que a velha não fazia cerimônia em dizer por fora acabou chegando aos ouvidos da família Galhardo.&lt;br /&gt;– Gosto muito de Cristina, mas não quero que meu filho seja genro de Álvaro Galhardo. No Brasil a gente casa com a família toda, e, para um rapaz no princípio da vida, amarrar-se a um sogro como Álvaro é o mesmo que atirar-se nágua com uma pedra no pescoço (CC, p.25-26).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como a história da cultura ocidental foi consolidada a partir da tradição do saber masculino, cristalizaram-se, em função disso, imagens de mulher segundo essa tradição. Muitas delas são encontradas em algumas obras de nossa literatura e reiteram a submissão, a resignação femininas ou, então, trazem como marcas femininas o sofrimento, a saudade. Dentro dessas imagens, Cristina representa aquela mulher que, passivamente, assume o papel de noiva que sonha eternamente com o regresso do noivo que ela sabe que, possivelmente, não mais voltará para ela:&lt;br /&gt;João Mário, que fora sempre dominado pela mãe, embarcara nessa época para uma viagem à Europa, sem esclarecer o caso com Cristina. Não tinha situação independente e tinha pego apego ao conforto da casa dos pais. Amava Cristina sem arroubos. Voltara de viagem mais afastado ainda da idéia do casamento. Cristina, porém, não mudara. Nunca pensara, e nunca pensaria, em outro. Guardava ainda uma esperança longínqua, uma confiança qualquer, na afeição de João Mário (CC, p. 26).&lt;br /&gt;Assim como esta sua irmã, Nica também é abandonada por seu namorado e quase futuro marido. Todavia, o motivo do abandono não foi o mesmo de Cristina. Fernando Gaveiro apaixonara-se por Iolanda, a mais bonita das irmãs Galhardo, quando eles se encontraram por acaso num dos passeios à praia, os quais Nica e seu ex-namorado sempre faziam:&lt;br /&gt;De repente Fernando parou, como se estivesse encontrado quem procurava. [...] Fernando confundira-as. Nica sorriu.&lt;br /&gt;De um golpe certeiro, Fernando atirou a bola leve, que trazia, em cheio contra as costas de Iolanda.&lt;br /&gt;[...] Iolanda voltou-se surpresa, em direção do golpe. Vendo um desconhecido, lançou-lhe um olhar fustigante, como se castigasse uma insolência.&lt;br /&gt;Fernando parou, petrificado, entre confuso pelo que fizera, e deslumbrado pela vista de Iolanda. No mesmo instante, Iolanda reconheceu Amália, ao lado dele, e percebeu o engano. Adivinhou que este era o Fernando Gaveiro, que a tomara por Nica por causa do pijama. Foi ao encontro dele, de mão estendida, sorrindo, gracejando (CC, p. 58).&lt;br /&gt;Após esse encontro em que um sentimento inusitado passou a existir entre Fernando e Iolanda, a relação dele com Nica tornou-se diferente, pois "se rompera algum fio na trama de seu namoro", e a conversa entre eles não os mais unia: "as frases esparsas não formavam ponte, e os silêncios, que de vez em quando caíam entre eles, também não eram de comunhão" (CC, p. 68). Depois de sofrer por ter descoberto que "esse Fernando, que Iolanda amava e por quem se afligia, não era mais dela [...]. Não era mais o Fernando das manhãs de dezembro, na praia ensolarada [...] (CC, p. 76)", Nica decide que "não seria uma tia triste para os filhos de Iolanda e Fernando" (CC, p. 99). Para tanto, ela resolve que a melhor solução seria encontrar alguém que substituísse o antigo noivo:&lt;br /&gt;Fernando costumava dizer que a vida era uma só. Tinha razão. Ela não ia perder a sua em queixumes. Não era mulher de lamúrias, de ficar parada, olhando para trás. Era uma mulher prática, mulher de ação, uma dessas pessoas que não aceitam a derrota. Faria sua vida. Casaria. Casaria agora com o primeiro que se apresentasse, contanto que não lhe fosse repugnante, e que também não fosse um fraco, como Álvaro (CC, p. 99).&lt;br /&gt;A rejeição de Nica faz com que esta personagem, em seu discurso, passe a ver o casamento de um outro ângulo. Destituído da áurea romântica segundo a qual casamento = amor, o casamento é visto como um jogo de interesses. Aceitando as regras desse jogo, Nica passa a escolher um pretendente que lhe traga vantagens matrimoniais:&lt;br /&gt;Nica confiava que o noivado de Iolanda não seria a única novidade [...]. Quanto mais cedo toda a gente soubesse, melhor.&lt;br /&gt;A surpresa seria geral. E todos pensariam o que ela queria que todos pensassem, especialmente Fernando, isto é, que o seu caso com Evaristo já viera quase resolvido de Petrópolis, portanto bem separado do romance de Iolanda, anterior até – um sem ligação nenhuma com o abandono de Fernando, um noivado que passara por fases e progressos graduais, com algumas raízes no passado, não a planta de crescimento súbito, da noite para o dia, que realmente fora para ela (CC, p. 109).&lt;br /&gt;Entretanto, escolhida a vítima que era Evaristo de Pádua, ministro da indústria, com quem Nica havia flertado algumas vezes, ela se arrepende do jogo que estava fazendo com o sentimento dele, "um sentimento muito digno, e até nobre, porque só um amor desinteressado podia aproximar um homem como ele de uma menina sem fortuna e filha de um pai bastante desmoralizado" (CC, p. 111). Neste caso, não é o arrependimento de Nica que nos chama atenção, mas as palavras com que ela elabora esse seu arrependimento, já que, em seu discurso, percebemos a presença de uma ideologia segundo a qual a mulher deveria oferecer bem mais do que si própria ao casamento, ou seja, além de uma família de caráter ilibado, ela deveria ter posses para oferecer como dote, o que ela, Nica, não possuía, já que era "uma menina sem fortuna e filha de um pai bastante desmoralizado". Neste sentido, as palavras de Nica revelam que a mulher era o local por onde circulavam os bens da família e que, sendo assim, ela deveria saber cumprir o seu dever.&lt;br /&gt;Reconhecendo que o casamento com Evaristo estava sendo movido mais por despeito e que, "quando se visse presa, por uma promessa irrevogável, a este homem que não significava nada para ela, sentiria um imenso vazio" (CC, p. 113), Nica desiste desse noivo e, surpreendendo a todos, resolve casar-se com Rabelo, o velho amigo da família:&lt;br /&gt;Rabelo continuou, com uma mescla de emoção e humorismo:&lt;br /&gt;– Se alguém disser a você [Álvaro] que Nica casa comigo por despeito ou por interesse, você pode responder que, longe de me queixar, eu sei muito bem que só mesmo por despeito ou por interesse é que uma menina como ela poderia casar comigo, e que eu considero que fiz um negócio da China&lt;br /&gt;[...] eu não quero mais turismo em minha vida... sou um homem que sempre morou em hotel. Agora quero ter casa (CC, p. 123).&lt;br /&gt;Os termos com que Rabelo explica a sua união com Nica demonstram bem a visão que se tinha sobre o casamento. Este era visto como algo economicamente vantajoso, ou seja, um verdadeiro negócio da China. Aliás, como afirma Xavier (1998), anterior à ascensão da burguesia, o matrimônio era visto como um contrato de natureza político-sócio-econômica feito, muitas vezes, à revelia das partes "envolvidas" e, portanto, não pressupunha afinidades afetivas tampouco sexuais. Entretanto, com o advento da burguesia, emerge, dentre outras coisas, o conceito de amor conjugal e, neste caso, casa-se não mais por interesses políticos, econômicos e sociais, mas por interesses do coração.&lt;br /&gt;Parece ser essa a atitude de Nica. Embora o seu casamento possa ser visto como um grande negócio da China, ela não se une a Rabelo por conveniência, mas porque, conhecendo-o de há muito tempo, entre eles confiança gerara intimidade, tanto que Nica se sente atraída por ele: "Mas, afinal, ela sempre sentira uma atração pelo Rabelo. Não era como as outras irmãs, que não seriam, nenhuma delas – Nica tinha certeza disso – capazes de casar com ele" (CC, p. 117). Sendo assim, acreditamos que vale a pena reproduzirmos as seguintes palavras de Ieda Porchat (1992 apud XAVIER, 1998, p. 116), as quais podem ilustrar muito bem o comportamento de Nica ante o seu casamento com Rabelo:&lt;br /&gt;Diferentemente do casamento na família patriarcal, sua finalidade não mais é a manutenção de propriedades, bens ou interesses políticos. Casa-se no casamento burguês para satisfazer impulsos afetivos e sexuais. Casa-se por amor e busca-se a felicidade. Casa-se porque se têm interesses e gostos iguais. É um casamento que tem como valores predominantes a escolha do parceiro por amor, a glorificação do amor materno, a visão de mulher como a ‘rainha do lar’.&lt;br /&gt;Além disso, o desejo expresso por Rabelo de ter uma casa, pois "eu não quero mais turismo em minha vida... sou um homem que sempre morou em hotel. Agora quero ter casa (CC, p. 123), é bastante interessante como ponto para reflexão, já que a casa é o espaço da construção do imaginário privado. Nela, as pessoas preservam as suas histórias cotidianas e deixam impressas marcas que revelam relações de saber, poder e prazer no âmbito doméstico.&lt;br /&gt;Em Chama e cinzas, a casa aparece, então, como esse espaço onde, em meio aos conflitos familiares, emergem relações de poder que demarcam espaços para o masculino e para o feminino. Como exemplo disso, podemos lembrar o fato de que o romance é dividido em duas partes que trazem em si o nominativo casa: a casa de Álvaro e a casa de Rabelo. Em ambas as partes, a casa acha-se modificada por um sintagma preposicionado em cujo núcleo há um substantivo próprio masculino. Neste caso, embora a casa seja, em nosso imaginário, um espaço eminentemente feminino, já que cabe às mulheres, dentro da ideologia do patriarcalismo, cuidar da manutenção e da ordem da casa, esta é vista, assim como as mulheres, como propriedade, posse masculina, ou seja, "a mulher ‘reina’ no lar dentro do privado da casa, delibera sobre as questões imediatas dos filhos, mas é o pai quem comanda em última instância" (ALMEIDA, 1987 apud XAVIER, 1998, p. 26).&lt;br /&gt;Sendo assim, apesar de estar, estruturalmente, dividido em duas partes, essa divisão não chega a constituir uma dicotomia, pois essas duas partes não se opõem, ao contrário do título do romance que traz o par antitético chama e cinzas. As duas casas não são, ideologicamente, distintas. Pelo contrário, elas representam uma contigüidade, são unas, constituem, assim, uma única simetria: a casa do macho. E o casamento de Nica é a representação de duas dimensões intrínsecas ao patriarcalismo, ou seja, a passagem da dominação do pai para a dominação do marido. Em outras palavras, Nica está mudando de casa, deixando ser uma simples filha e se tornando esposa, mas continuará na mesma esfera de dominação que é a do macho, uma vez que "o núcleo do poder patriarcal consistiu, acima de tudo, no poder do pai sobre a filha e no do marido sobre a mulher" (THERBORN, 2006, p. 30).&lt;br /&gt;Entre a passagem da vida de solteira para a de casada, decorrem oitos anos. Na segunda parte de Chama e Cinzas, vemos que tudo mudara para a família Galhardo. O velho casarão do Flamengo dera lugar a um grande edifício. Tia Chiquinha morrera e deixara uma boa herança para as sobrinhas, as quais conseguiram, todas, se casar, inclusive Cristina, que, depois da morte de D. Eufrásia, fora levada ao altar por João Mário, o antigo noivo.&lt;br /&gt;Nessa nova vida, se Nica cumpria antes com os papéis de boa filha, ela agora deverá ser um exemplo de boa esposa e dona de casa, papel com o qual se identificou ao longo dos seus oito anos de casa e pelo qual sentia prazer:&lt;br /&gt;O prazer, porém, que sentia ao ouvir as exclamações de surpresa e de admiração, este não variava. Vinha-lhe o mesmo calorzinho de contentamento ao recolher os comentários. Confirmava-lhe a certeza de que aquele ambiente seu, aquela quadro que a cercava, era de fato excepcional. Também não lhe era desagradável notar que, à admiração de suas visitas, se misturava, alguma vez, um laivozinho de inveja, disfarçado em sorrisos e elogios, e que cada mulher se imaginava no lugar dela, dona de uma casa assim (CC, p. 127-128).&lt;br /&gt;Nica aceita para si, sem se questionar, o papel de esposa e de dona de casa e se sente feliz, pois esse seu papel era invejado pelas suas amigas que não tinham uma casa como a dela tampouco um marido que lhe pudesse propiciar certas compensações na vida, principalmente se fosse bem mais velho do que a esposa, como era o caso de Rabelo. Assim, parece que, para compensar a diferença de idade, o homem deveria ter dinheiro suficiente que pudesse custear os caprichos da esposa jovem:&lt;br /&gt;Mas as visitas, voltando para a sala onde conversavam os homens, não deixavam de sentir, sobretudo as moças de sua idade, que havia compensações na vida, e que elas não eram, como Nica, casadas com homens mais idosos (CC, p. 128).&lt;br /&gt;Nica continua, assim como na casa de Álvaro, exercendo um papel em conformidade com o que delega às mulheres a ideologia patriarcal, ou seja, encontra-se exercendo atividades femininas como preocupar-se com as costureiras ou com os convites enviados às figuras mais importantes da sociedade. Nessas ocasiões ou mesmo em pequenas reuniões feitas na casa de Rabelo, havia demarcados os espaços e os assuntos sobre os quais homens e mulheres poderiam falar:&lt;br /&gt;Quando Nica e suas amigas voltaram para a sala, formaram em vez de se reunirem ao grupo que fumava, outro grupo, em separado, e começaram a discutir assuntos femininos. Nica teria preferido ouvir falar sobre a companhia. Procurava, embora estivesse de costas, e não muito próxima do outro grupo, ouvir o que podia da conversa dos homens. Respondia aqui, escutava lá (CC, p. 129; itálicos meus).&lt;br /&gt;No trecho acima, sintagmas como assuntos femininos e conversa dos homens apontam para a separação entre as esferas de atuação do masculino e do feminino em meio à sociedade. Ou seja, há assuntos de que as mulheres não podem participar, pois são de homens e, por isso, elas têm de se contentar em formar um subgrupo e ficar ouvindo os assuntos discutidos pelos homens sem poder participar deles. Sobre este aspecto, Woolf (2004), no início do século passado, escreveu as seguintes palavras:&lt;br /&gt;Mas, nesse ponto, eu já estava exatamente na porta de entrada da própria biblioteca. Devo tê-la aberto, pois instantaneamente emergiu, como um anjo da guarda a barrar o caminho com um agitar de túnica negra, e não de asas brancas, um cavalheiro reprovador, grisalho e gentil, que deplorou em voz baixa, e a fazer-me sinais para que saísse, que as damas só são admitidas na biblioteca acompanhadas por um fellow da faculdade ou providas de uma carta de apresentação (WOLF, 2004, p. 12).&lt;br /&gt;Embora haja um intervalo temporal um pouco largo entre essas palavras da escritora de Orlando e a publicação do romance Chama e Cinzas, a situação descrita acima é semelhante à por que passa a personagem Nica, que é obrigada, assim como as demais mulheres do seu grupo, a ficar de fora da conversa dos homens porque é mulher e, sem uma carta de aceite, não poderia fazer parte da discussão sobre a implantação da companhia de mineração e transporte, a M e T, empresa que seu esposo Rabelo queria implantar no Brasil. Dessa forma, ao logo de toda a trama desta segunda parte do romance, Nica se colocará sempre à margem das discussões da esfera pública, discutindo apenas aquilo que já vem traçado pela sua natureza: desenhar, bordar, cozinhar, arrumar; mas não se metendo nos negócios públicos. Ainda que se preocupe com o rumo dessas discussões que dizem respeito ao desenvolvimento econômico do Brasil, ela estará sempre ocupada com "assuntos femininos", ou seja, problemas relacionados à esfera privada, ao lar, os quais vão da execução das lides domésticas até a resolução de problemas familiares alguns dos quais causados por seu próprio pai.&lt;br /&gt;Álvaro, o patriarca da família Galhardo, continua dando dores de cabeça à família, mais precisamente a Nica, já que é a ela que ele sempre recorre quando está em situação bastante difícil de ser resolvida. E Nica, conhecendo a desonestidade de Álvaro, mas temendo "o risco de uma desmoralização pública ou de uma vingança direta" (CC, p. 149), procurava concertar os descalabros do pai:&lt;br /&gt;No fundo, fizesse o pai o que fizesse, ela não podia sentir por ele senão a afeição que lhe tivera desde pequenina, que ele bem merecera a ela e às irmãs, servindo-lhes de pai e mãe, com uma solicitude constante. E, como tantas vezes acontecera, veio a Nica uma conformidade com o que Álvaro era, e que seria sempre, que não podia deixar de ser, até o fim da vida. Perdoou-lhe mais uma vez, como lhe perdoara em tantas outras ocasiões, como sempre também lhe perdoaram as irmãs, e como ele antes disso se fizera perdoar por todos os que lhe queriam bem (CC, p. 149).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Dentre os problemas familiares para os quais Nica busca solução, o mais difícil seja, talvez, acabar com a animosidade de seu cunhado para com ela e Rabelo. Fernando, preso às suas idéias esquerdistas, reprovava "os gastos suntuários e a vida ostentosa dos Rabelo". Para Nica, essa atitude dele não passava de resquícios do amor que nutrira por ela ou inveja da vida de luxo que Rabelo pôde lhe propiciar, ao contrário de Fernando cujo ordenado apertado não podia oferecer o mesmo a Iolanda:&lt;br /&gt;Nunca Iolanda comparava seu padrão de vida com o de Nica. No entanto a diferença de condições havia aparecido, grande, desde o duplo noivado. Faltou então a Nica a auréola da visível felicidade que embelezava ainda mais Iolanda, mas Iolanda, por outro lado, não tivera presentes como os seus. Admirou, sem sombra de inveja, a barata de esporte que Nica, nos primeiros dias de noivado, ganhou e que aprendeu a guiar em poucas lições, as jóias que recebeu, além dos mil desejos realizados pelo Rabelo com[o] a magia dos contos de fada (CC, p. 139).&lt;br /&gt;Além disso, as diferenças entre as irmãs irão se acentuar não só pelo aspecto econômico, mas também pelo aspecto físico e comportamental. Na primeira parte do romance, quando ambas ainda eram as filhas de Álvaro Galhardo, Nica se apresentava como a irmã menos bonita e Iolanda como a mais bonita, de uma beleza que chegava a encantar todos que se aproximavam dela. Agora casada, Iolanda, ainda que conserve um pouco da beleza de solteira, pois "estava uma linda e tranqüila matrona", já sente as transformações em seu corpo, mas isso não a incomodava, já que "meus dois filhos valem bem os quilos que ganhei" (CC, p. 138).&lt;br /&gt;Nica, por sua vez, continua sendo nem feia nem bonita. Além disso, enquanto ela goza de uma liberalidade que lhe permite dirigir seu próprio carro ou ir sozinha a eventos sociais, sem a companhia de Rabelo, Iolanda se submete aos caprichos de Fernando e segue o seu papel de esposa submissa, devotada ao lar e aos filhos e incapaz de formular pensamentos próprios:&lt;br /&gt;Iolanda era incapaz de falar três minutos sem introduzir o nome de Fernando. Repetia, com convicção, frases que ele dissera, opiniões que ele externara. Não lhe encontrava defeitos. Não desejava nada na vida além da continuação da felicidade que lhe coubera. Para ela, o universo inteiro limitava-se ao marido e aos filhos. Tudo girava em torno dos seus três entes queridos e da relação que as pessoas ou acontecimentos pudessem ter com eles. Nem lhe ocorreria sentir descontentamento pela modéstia de seu lar, porque Fernando era, por teoria, contra a riqueza e o luxo (CC, p. 139).&lt;br /&gt;Noutras palavras, Iolanda, por causa do marido, é obrigada a viver uma vida marcada por privações materiais e afetivas e, assim, é impedida de desfrutar de alguns privilégios que Nica, sua irmã abastada e mulher "moderna" e "festiva", poderia lhe propiciar:&lt;br /&gt;– Desculpe-me se a aborreci demais, Nica. É preciso tomar-me como sou – um homem rude que diz o que pensa. E perdoe-me dizer-lhe ainda outra coisa de que você não vai gostar. Essa jóia que você trouxe para Iolanda é bonita demais. Aborrece-me que ela receba presentes como eu não lhe posso dar. Espero que você compreenda meu ponto de vista e não tome essa recusa como sendo falta de apreço pelo presente, ou de amizade por você.&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;– Iolanda é submissa demais, disse nica.&lt;br /&gt;– Demais, não. Iolanda é como dever ser. Só uma esposa submissa e sem modernismo, como ela, poderia ter-me feito feliz.&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;– Qual submissa! É porque combinamos bem.&lt;br /&gt;Não. É porque você gosta de mim (CC, p. 163-164).&lt;br /&gt;O discurso de Fernando está impregnado de idéias que reiteram a ideologia do patriarcalismo. A esposa deve ser fiel a seu marido, não contrariá-lo e seguir as suas ordens e desejos para que ele seja feliz, não importando se a vida que ela leva a torna feliz ou infeliz, já que o importante é fazer o marido feliz, independentemente do preço que a mulher é obrigada a pagar. Por isso, ao ser indagada pelo filho sobre por que, mesmo gostando do presente que recebera de Nica, não o aceitou, a resposta de Iolanda foi: "– Gostei muito, filhinho. São lindos. Mas gostei mais de fazer a vontade de papai" (CC, p. 165). A fala de Iolanda deixa entrever o pressuposto "de que a mulher em si não é nada, de que deve esquecer-se deliberadamente de si mesma e realizar-se através dos êxitos dos filhos e do marido" (RAGO, 1997, p. 65).&lt;br /&gt;Talvez a maior diferença entre Iolanda e Nica esteja no fato de uma ser mãe e a outra ter tido esse "direito" negado. A primeira tivera dois filhos, Fernandinho e Maria Iolanda, enquanto a segunda perdera o seu primogênito assim que ele nasceu e não pudera ter mais nenhum outro filho, pois ficara impossibilitada de engravidar novamente:&lt;br /&gt;Nica não tinha filhos. O menino que ela perdera teria agora seis anos, a idade de Fernandinho. Ela e Iolanda, que casara uns seis meses depois, haviam esperado, juntas, a primeira maternidade. Haviam-se ocupado juntas dos dois enxovaizinhos, e recebido, como presente de Tia Chiquinha, dois berços iguais. Nos planos de Nica, seu primogênito era homem e tinha o talento e o dinamismo de Rabelo. Queria que se chamasse Nestor, como o pai. Apesar de achar muito feio o nome, Nica dizia que ninguém tiraria ao pequeno a glória de ser Nestor Rabelo Filho.&lt;br /&gt;Veio a criança, homem, como esperava, grande e bem constituído, mas morreu ao nascer e, por pouco, a mãe não morreu também. Nica soube depois que nunca teria outro filho (CC, p. 131).&lt;br /&gt;O desejo de ser mãe e de cumprir com o seu "dever de fêmea", apesar das impossibilidades biológicas, é concretizado no acompanhamento do crescimento do sobrinho. Fernandinho será para Nica o filho que ela perdeu:&lt;br /&gt;Nica acreditava querê-lo como se fosse o Nestorzinho, com um afeto inteiramente diferente do que sentia pela sua irmãzinha, Maria Iolanda, dois anos mais moça ou pelo gordo bebê de Geninha. Com o passar do tempo chegou a confundi-lo perfeitamente com o filho que não vivera. Não imaginava o Nestorzinho senão igual em tudo ao Fernandinho, desempenado e garboso como ele, e com toda essa vivacidade que fazia o menino de Iolanda antes parecer filho que sobrinho (CC, p. 132).&lt;br /&gt;Nica devota-se tanto a esse sobrinho que é a ela que Iolanda, a mãe, sempre recorre quando ele adoece, pois "Nica tornou-se entendida em puericultura só de acompanhar os progressos e os sintomas [de Fernandinho] e de lhes procurar as explicações, em vários livros médicos para jovens mães" (CC, p. 131). Além disso, o nascimento de Fernandinho fez com que Nica estabelecesse uma intimidade no lar de Iolanda e Fernando. Apesar disso, continuava a existir animosidade do pai do menino pelos seus parentes capitalistas, a qual se torna mais intensa quando Fernando passa a liderar um movimento, dentro das forças armadas, de oposição às concessões feitas pelo governo brasileiro para a implantação da Companhia de Mineração e Transporte de Rabelo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Não há duvida, respondeu Fernando, em tom de quem não se retratava, nem cedia. Seu marido prestou grandes serviços, mas também não se empobreceu prestando-os. E neste negócio de agora, você sabe quanto ele deve ganhar? Você calcula sequer?&lt;br /&gt;[...]&lt;br /&gt;– Há muita gente boa, [...], gente de boa fé que pensa que a enorme extensão de terras que foi concedida a M. e T. para a abertura da estrada, poderia ser aproveitada pelo próprio governo. É um lucro seguro de o governo abre mão em favor de particulares, uma verdadeira capitania que é dada à M. e T., de mão beijada, como os Reis de Portugal davam aqui a seus amigos. Desculpe eu falar com essa franqueza, mas eu julgo que esconder a verdade aos amigos seja o pior modo de servi-los (CC, p. 160).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acreditando que a empresa de mineração pode prestar um desserviço à segurança nacional, Fernando se articula com uns amigos para pedirem ao Ministro da Guerra a anulação da concorrência. Inconformado com o fracasso dessa reunião, Fernando se oferece para proferir uma conferência na Sociedade Brasileira de Debates sobre a organização da empresa metalúrgica em solo brasileiro. Se antes as oposições de Fernando não poderiam surtir efeito contra a M. e T., agora, falando em um espaço público como o da Sociedade Brasileira de Debates, uma de cujas grandes vitórias foi obrigar uma companhia de seguros a "rever seus estatutos e a reduzir seus lucros em favor dos segurados" (CC, p. 180), elas iriam criar "um escândalo, um escândalo que seria ao mesmo tempo de família e financeiro" (CC, p. 181).&lt;br /&gt;Inamovível em sua posição, Fernando, para quem "crenças e opiniões não se governam por parentesco" (CC, p. 184), poderia trazer "grandes aborrecimentos e muita luta pela frente" adiando e, talvez, chegando a conseguir anular o contrato de concessão. Isso fez acentuar ainda mais as rusgas familiares entre Fernando/ Iolanda e Rabelo/Nica, principalmente porque Rabelo sabe que não tem mais tempo para esperar que negócios daquela magnitude demorassem a acontecer, pois ele não tem mais idade para isso, está velho e cansado, e o futuro tornou-se-lhe mais imprevisível:&lt;br /&gt;– Quando eu era mais moço, continuou Rabelo, eu não me incomodava com atrasos, porque podia esperar. Eles vinham sempre – atrasos, dificuldades, empecilhos. Eu dizia: "Se eu não fizer agora, faço mais tarde. Não desisto." Sempre tive muita paciência. Mas agora, na idade a que cheguei, não posso mais contar com o tempo. É um fator de menos que eu tenho do meu lado. Se isso não se fizer agora, não poderei mais fazer, e eu sempre disse que a instalação da metalúrgica no Brasil seria o último esforço de minha carreira (CC, p. 191).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No entanto, a maior preocupação de Rabelo é que, não sendo implantada a companhia, ele perderia toda a sua fortuna e, assim, deixaria Nica na miséria. Ao saber dessa preocupação, Nica "vexou-se de reconhecer, no fundo de si mesma, uma grande apego a esta vida de conforto e ostentação que levara desde seu casamento" (CC, p. 193) e passou a sentir repugnância por aquela vida, como se sua casa "que, nos menores detalhes, desde a escolha da decoração e dos arranjos, lhe deram tanto prazer, montar, governar, conservar, enfeitar, se tornasse subitamente velha [...]" (CC, p. 194).&lt;br /&gt;Diante da falência iminente, Nica, todavia, viu que "não lhe custaria deixar soçobrar esta riqueza supérflua e trocar seu papel de mulher parasita, ociosa, por outro, em que seria uma mulher de trabalho" (CC, p. 196). A atitude dessa personagem apresentada pelo narrador é importante porque nos apresenta uma dicotomia interessante: mulher de casa X mulher de trabalho. Segundo o que nos apresenta o narrador, a primeira é vista como ociosa enquanto a outra é valorizada uma vez que faz parte do mercado de trabalho.&lt;br /&gt;Dessa forma, no discurso do narrador, ser dona-de-casa é visto como um predicado menor para as mulheres. A abnegação que muitas delas "devotam" ao lar, ao marido e aos filhos, ou seja, às pequenas "bagatelas" domésticas, é considerado algo muito desvalorizada. Dedicar-se ao lar, assumir o posto de rainha e anjo do lar sempre foi visto como algo negativo não só porque é uma espécie de tortura, uma rotina interminável que, a cada dia, é recomeçada, mas também porque não propicia às mulheres status social. Essa é, então, uma instância de poder marcadamente insatisfatória para as mulheres. Essa insatisfação advém, talvez, do fato de que, apesar da complexidade que envolve o processo de cuidar da casa, dos filhos e do marido, essa atividade não só, conforme dissemos, não propicia às mulheres nem riqueza nem prestígio social, como também o controle que elas exercem dentro da esfera familiar é mediado pelo controle que o marido ou o pai, chefe do grupo familiar, exerce sobre elas. Por isso, Woolf (2004, p. 26) indagava: "O que estavam fazendo nossas mães que não tiveram nenhuma riqueza para nos legar? Empoando o nariz? Olhando as vitrinas das lojas?".&lt;br /&gt;Voltando à atitude de Fernando, que desencadeara toda a tensão por que Nica e Rabelo estavam passando, ela era vista por ela e por Álvaro como um dos piores defeitos: a deslealdade. Entretanto, os laços de família, aos quais Fernando se dizia indiferente, fizeram com que o seu posicionamento fosse revogado, o que aconteceu quando, adoecendo Fernandinho, que fora acometido por uma infecção laríngea aguda, ele fora salvo pelos cuidados de Nica: ela não só lhe adivinhou, devido ao hábito de ler, depois do nascimento do sobrinho, livros de medicina infantil, a causa da doença, chamada de crupe; como também trouxe um médico para administrar o tratamento.&lt;br /&gt;Dessa forma, destruindo o texto de sua conferência, isto é, dando fim ele mesmo ao projeto a que tanto se apegara, Fernando não só se sente quites com a cunhada como também se torna aos olhos dela um homem decente que deixou os laços familiares falarem mais alto: "Fora ele mesmo quem se deixara vencer, cedendo aos laços de família. Nica estendeu-lhe a mão em agradecimento. Nunca imaginara este final. Fernando, então, no fundo, era um homem decente" (CC, p. 211).&lt;br /&gt;Para Manoel Carlos, novelista brasileiro, o capítulo que retrata a doença de Fernandinho é um dos mais magistrais:&lt;br /&gt;[...] a doença de Fernandinho, filho de Fernando e Iolanda, nos aflige de tal maneira, com tanta força nos atinge e nos enternece, que chegamos a suspender a leitura por um instante, a recobrar o ar, tão angustiados ficamos. Trata-se de uma das madrugadas mais pungentes que um romance conseguiu retratar: o desespero mudo da mãe, a solidão do pai, a vigília da tia, a humanidade do médico, o olhar real do menino doente. Simplesmente magistral.&lt;br /&gt;Esse evento se revela também um elemento importante não só porque nos põe, como leitor, irmanados com o desespero dos pais e da tia diante do possível risco de morte do filho/sobrinho; mas também porque, do ponto de vista estrutural, ele desencadeará novos rumos para o enredo do romance, uma vez que, conforme já dito anteriormente, Fernando, antes indiferente aos laços de família, deixa-se ceder por eles: "[...] Fernandinho está vivo e eu me julgo obrigado a fazer isso, eu devo isso a você por tudo que passamos nesta noite horrível" (CC, p. 211), e rasgas as folhas da conferência que proferida contra a concessão feita a Rabelo para a implantação da empresa metalúrgica M. e T.&lt;br /&gt;Mais uma vez, os problemas ou incidentes que poderiam causar a vergonha ou a dissolução dos laços familiares são resolvidos por Nica. Entretanto, mal findado um desses problemas, outro logo se avizinha. "A vitória de Rabelo já era questão de dias, a concessão um caso resolvido. [...]. Parecia que não restava ninguém no Brasil que deixasse de compreender as vantagens que a Companhia de Transporte e Mineração ia trazer para o país" (CC, p. 227). Só que Rabelo, que apresentava uma fisionomia que "acusava o esforço desses lances finais da grande luta" e que já pressentira que estava chegando a sua hora, sofre um enfarte antes do jantar que seria oferecido na embaixada americana em homenagem a um banqueiro americano e ao qual ele não poderia faltar, já que a sua ausência poderia comprometer o decreto de concessão para a implantação da Companhia de Transportes e Mineração. Para impedir isso, Rabelo faz um último pedido a Nica: ir ao jantar sem a presença dele.&lt;br /&gt;Diante desse pedido inusitado, Nica, que queria estar acompanhando o marido moribundo, reluta em obedecer, mas ela "sofria dobradamente dessa hesitação por ser uma mulher que sabia sempre o que devia fazer em todas as circunstâncias, e não costumava conhecer hesitação" (CC, p. 249). Por isso, essa situação para Nica se torna mais dramática, pois ela está dividida entre prestar assistência ao marido ou ir ao jantar para evitar que desconfiem do estado grave de Rabelo. Mas a situação se torna ainda mais dramática, pois, diante da morte iminente do marido, Nica vê a sua vida passada a limpo e se arrepende do "tempo perdido em coisas inúteis, e que a privavam da companhia de Rabelo – em costureiras, em cabeleireiras, em relações sem interesse" (CC, p. 253).&lt;br /&gt;A percepção dessa sua condição feminina lhe traz "um gosto que lhe parecia de cinzas" (CC, p. 258). Nica vê, agora, que as chama que marcaram a sua juventude, que mantiveram em pé aquele mundo representado por sonhos e construído por futilidades, cessaram, reduziram-se a cinzas. Tudo, agora, passava a pertencer "a outra vida, a uma vida que passara". Noutras palavras, é possível afirmar que, diante dessa situação, a esfera (da vida) privada não só se revela como um espaço de poder (ou seria apenas da presença?) feminino, mas também como locus de alienação das mulheres.&lt;br /&gt;Devotadas à execução de atividades pré-determinadas, bordar, cozinhar, desenhar; as mulheres eram impedidas de refletirem sobre seu papel de coadjuvante, eram incapazes de assumirem a direção de suas vidas e de se perceberem como um grupo social oprimido. A falta dessa tomada de consciência contribuiu para o encarceramento da mulher da intimidade do lar. Com a morte de Rabelo, a vida de Nica, que vinha seguindo a ordem natural das coisas, isto é, cumprindo o papel sagrado de filha, esposa e dona-de-casa, sofre, portanto, uma grande transformação, e ela se vê obrigada a se queimar em sua própria chama, já que, como afirma Nietzsche, não podemos nos renovar sem primeiro nos tornarmos cinzas:&lt;br /&gt;Sentia-se realmente desligada do mundo, e de tudo a que [...] ela já dera muita [importância]. Repudiava agora aquilo a que antes dava valor. Dessa vida que ardera e já passara, não via mais senão as cinzas, que restavam do fulgor, e que se estendiam diante dela, sem nenhum traçado, submergindo o que fora seu universo (CC, p. 264).&lt;br /&gt;Mesmo assim, em meio às cinzas desse mundo que um dia fora chama, que tivera fulgor, Nica alimenta a esperança de um novo começo, já que ela "via, pela janela, que o dia estava claro e bonito" (CC, p. 264). &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-2900917439831038241?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/2900917439831038241/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=2900917439831038241' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/2900917439831038241'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/2900917439831038241'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/05/do-espao-e-da-mulher-em-chama-e-cinzas.html' title='Do espaço e da mulher em Chama e Cinzas de Carolina Nabuco'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://4.bp.blogspot.com/_hZEfvQ-6SWU/SNZ-pRn6CDI/AAAAAAAAAEM/7VWJtAIiC_c/s72-c/chama+e+cinzas.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-6759851934674962384</id><published>2008-05-30T16:52:00.000-07:00</published><updated>2008-05-30T16:54:19.979-07:00</updated><title type='text'>VOZES DA ALIMENTAÇÃO</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt; Marcelo Medeiros da Silva&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;I. INTRODUÇÃO&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante muito tempo, escrita e saber estiveram – e ainda, talvez, continuem – relacionados ao poder e foram usados como formas de dominação e de exclusão de determinadas vozes que tentassem ecoar algum som em meio ao silêncio que era imposto para que se mantivesse a ordem social em uma sociedade de base falocêntrica, patriarcal, machista e sexista. Mesmo assim, o discurso hegemônico do patriarcalismo não conseguiu abafar determinadas vozes, principalmente de algumas mulheres que não estavam contentes em serem rotuladas de o segundo sexo e que, por isso, se negaram à subordinação.&lt;br /&gt;Por causa, dentre outros fatores, das tentativas de subversão à ordem do pai, a integração de mulheres/escritoras ao universo da escrita foi marcada por uma trajetória bastante dolorosa, principalmente porque escrita e saber, além de serem usados como forma de dominação, "ao descreverem modos de socialização, papéis sociais e até mesmo sentimentos esperados em determinadas situações" (TELLES, 2002, p.402), eram tidas como ferramentas exclusivas do espaço masculino. Por isso, durante muito tempo, foram negadas às mulheres a autonomia e a subjetividade necessárias à criação.&lt;br /&gt;Dentro do cenário literário, a escrita produzida por mulheres teve – e continua tendo – de conviver com uma política de ocultamento que trouxe conseqüências quase que irreparáveis. Muitas foram as mulheres que, embora com a pena em riste, não puderam se expressar e tiveram sua obra, sua intelectualidade assujeitadas ao Outro, o sujeito masculino. Por isso, persiste a necessidade de estudos que possam, segundo Schneider (2000), reconstruir a história literária produzida por mulheres, pondo em evidência o percurso, as dificuldades, os temores, as estratégias para romper o confinamento em que viviam e, ao mesmo tempo, promover a revalorização dessa literatura que no passado não recebeu devida atenção.&lt;br /&gt;Nesse sentido, é preciso estudar os textos não-canônicos para que a história das mulheres e a de sua produção literária possam ser reconstruídas, o que pode transformar a visão tradicional da própria história literária a fim de que esta passe a levar em conta a produção literária de mulheres que, em meio às pressões de uma sociedade patriarcal, ousaram fazer da pena bandeira de luta, ainda que tenham, em seus escritos, registrado ou até mesmo sucumbido aos preconceitos dessa sociedade.&lt;br /&gt;Nessa empresa, ao nos debruçarmos sobre a produção literária de Carolina Nabuco (cf. SILVA, 2007a; SILVA, 2007b), esperamos estar contribuindo com os estudos que objetivam dar visibilidade às numerosas autoras que não figuraram nas histórias literárias brasileiras da época nem nas posteriores e, assim, trazer à tona uma memória literária feminina na literatura brasileira que vem sendo negligenciada ao longo dos séculos. O regaste de produções femininas é importante porque, por um lado, permite-nos a recuperação de uma identidade feminina há muito silenciada e, por outro lado, permite:&lt;br /&gt;o desenvolvimento de uma arqueologia literária que resgatasse os trabalhos das mulheres, que de diversas formas foram silenciados ou excluídos da história da literatura. Neste sentido, engaja-se no trabalho de recuperação de uma ‘identidade feminina’ que aponte para as diversas formas de sua experiência, rejeitando, enfaticamente, a repetição e reprodução dos pressupostos mitológicos da crítica literária tradicional, que, via de regra, identifica a escrita feminina com a "sensibilidade contemplativa", a "linguagem imaginativa" etc., bem como as diversas formas como a biologia, a lingüística e a psicanálise vêm definindo a especificidade da linguagem feminina (HOLLANDA, 1994, p.03).&lt;br /&gt;De acordo com Carvalho (2001), resgatar textos de escritoras, produzidos em períodos anteriores aos movimentos sociais da década de 60 do século passado, é, dentre outros aspectos, uma rara oportunidade de trazer a lume a produção intelectual de todo um grupo social marginalizado pela cultura patriarcal hegemônica para a qual as mulheres, não sendo capazes de construir e elaborar aspectos de nosso imaginário social, já que estas eram uma tarefa masculina, deveriam preocupar-se apenas com as prendas domésticas, visto que o lar era sobretudo o espaço de confinamento para muitas mulheres que eram incorporadas e consolidadas ao marido ou ao pai. Na empresa de resgate de textos de autoria feminina e de construção de uma memória literária feminina brasileira, este artigo procura estudar, a partir do Meu Livro de Cozinha (1977), da escritora fluminense Carolina Nabuco, como é possível perceber traços do feminino mediante a leitura de "simples" receitas culinárias.&lt;br /&gt;Aqui, cumpre esclareceremos em que sentido estamos usando o termo "feminino". Comprometido com uma carga semântica mistificadora, este vocábulo é visto, tradicionalmente, como equivalente a delicado, superficial, sentimentalóide. Entretanto, neste trabalho, deixando de lado essa carga pejorativa, usamos este termo para designar, por ora, tudo aquilo que diz respeito à mulher, ou seja, "‘feminino’ despojadamente se refere ao sexo feminino, e, quando um livro é de autoria feminina, significa, apenas, que foi escrito por uma mulher" (XAVIER, 1991, p.11), já que, como reitera essa autora, considerando-se a tênue relação ente sujeito e linguagem, "quando uma mulher articula um discurso, este traz a marca de suas experiências, de sua condição" (XAVIER, 1991, p.13). Experiências e condição femininas estão plasmadas no léxico que compõe uma receita, visto que esta resiste, na maioria das vezes incólume, ao tempo e, por isso, traz em si registros de uma época, de hábitos a que não é possível ter acesso exceto pelo que está registrado nas receitas:&lt;br /&gt;Em compensação, através das receitas – algumas delas segredos de família –, é uma arte que resiste ao tempo, repetindo-se ou recriando-se, com a constância das suas excelências e até das suas sutilezas de sabor; afirmando-se, por essa repetição ou por essa recriação. Numa velha receita de doce ou de bolo há uma vida, uma constância, uma capacidade de vir vencendo o tempo sem vir transigindo com as modas nem capitulando, senão em pormenores, antes as inovações, que faltam às receitas de outros gêneros (FREIRE, 2007, p.32; grifos meus).&lt;br /&gt;Esclarecido isso, o presente texto está dividido em três secções. Na primeira, construímos a biografia da escritora Carolina Nabuco ao mesmo tempo em que tecemos algumas considerações gerais sobre a sua obra que compreende romances, biografias, contos e ensaio. Na segunda, argumentamos sobre a relevância de, na empresa de construção de uma memória literária feminina, estudarmos outras fontes que, durante muito tempo, foram vistas como não-científicas. Por fim, analisamos, na última secção, o livro em pauta, evidenciando traços do feminino.&lt;br /&gt;II. Carolina Nabuco: esboços de uma fortuna crítica&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Romancista, memorialista, biógrafa e mulher de grande cultura, Maria Carolina Nabuco de Araújo nasceu em 1890 e faleceu em 1981 (COELHO, 2002). Filha de D. Evelina Torres Ribeiro Nabuco e de Joaquim Aurélio Nabuco de Araújo, escritor e senador do Império, a cujo nome sempre esteve atrelada como se fosse uma sombra do próprio pai, Carolina Nabuco, segundo Schumaher e Brazil (2000), consagrou-se por possuir um estilo simples e erudito, rico e profundo em conteúdo.&lt;br /&gt;Ao falar da história de seus livros, Carolina Nabuco afirmou que sua vocação pelas letras despontou assim que aprendeu a ler e a escrever. Ela atribui isso à influência do pai, "que sempre via com a pena à mão". Além disso, confessa em Oito décadas, livro de memórias que integra o seu acervo literário, que "entre os vários gêneros literários que tentei nenhum me atraía como o da ficção. Nos meus anos de adolescência, na primeira década do século, quando não existiam ainda nem cinema nem televisão, a juventude tinha de se satisfazer com a leitura de obras de ficção" (NABUCO, 2000, p.264).&lt;br /&gt;Esse seu desejo pela leitura de obras de ficção fomentou um outro: o de escrever ficção. Nessa empresa, ela empreendeu algumas tentativas vãs. Apesar dos insucessos de início, alimentava o desejo de se tornar escritora. Este era, conforme afirma em Oito décadas, a sua mais cara ambição de menina, embora reconhecesse que ainda lhe faltavam "experiência e técnica para fazer coisa prestável". Por isso, continuava, na busca pela experiência e técnica, escrevendo, primeiro em inglês e francês, línguas em que fizera seus estudos, e, depois da morte do pai, em português. Essas suas primeiras investidas literárias eram todas narrativas curtas com as quais não pensava em ganhar destaque.&lt;br /&gt;Para Carolina Nabuco, só pertenciam à classe de obras de arte, ou seja, ao que ela chamava de verdadeira literatura, a poesia e a ficção. Por isso, "quando eu contemplava a possibilidade de me tornar escritora [...], desejava infinitamente mais aparecer como romancista do que como historiadora ou ensaísta" (NABUCO, 2000, p.266). Entretanto, a sua estréia no campo das letras deu-se com o lançamento de uma biografia: A vida de Joaquim Nabuco (1929). Esta que é considerada por sua própria autora o seu livro e que lhe consumiu oito longos anos de intenso labor. A vida de Joaquim Nabuco, conforme afirmam Schumaher e Brazil (2000), fez com que o poeta Alberto de Oliveira liderasse um movimento para que Carolina Nabuco fosse eleita para a Academia Brasileira de Letras. No entanto, a escritora, "considerando que a academia, nos termos do estatuto, era reservada apenas a escritores, não aceitou o convite formalizado pelo poeta" (SCHUMAHER e BRAZIL, 2000, p.141).&lt;br /&gt;Após o lançamento de A vida de Joaquim Nabuco, que foi, à época, um êxito de livraria, pois foram vendidos, em duas edições, mais de quatro mil exemplares, vieram somar a essa pobre "bagagem literária", palavras de Carolina Nabuco, outros livros que não biografias: A sucessora (1934) e Chama e cinzas (1947). Sobre a gênese do primeiro, a sua autora afirmou que ele, inicialmente, foi planejado como um conto que se chamaria "O retrato da primeira esposa", mas que, aos poucos, foi crescendo até se tornar o romance.&lt;br /&gt;Apesar da boa recepção da crítica que lhe tecera alguns artigos elogiosos, A sucessora só alcançou "boa venda alguns anos mais tarde e por um motivo incidental": sua semelhança com o romance mais falado na época – Rebecca, da escritora inglesa Daphne du Maurier. Este livro alcançou um sucesso mundial quase sem precedentes e serviu como inspiração para um filme magistral: Rebecca, de Alfred Hitchcock. Para muitos, Carolina Nabuco havia sido plagiada pela escritora inglesa.&lt;br /&gt;Simultaneamente à composição de seu segundo romance, Carolina Nabuco desviou-se um pouco e escreveu um livro de instrução religiosa, Catecismo historiado – doutrina cristã para primeira comunhão (1940), e mais duas biografias: A vida de Virgílio de Melo Franco (1962) e Santa Catarina de Sena (1957). Estes dois últimos livros "nasceram de uma resolução súbita de minha parte, resultante, em ambos os casos, de uma emoção que me pôs logo a pena à mão, deixando por algum tempo o romance em que eu trabalhava" (NABUCO, 2000, p.270).&lt;br /&gt;Enquanto escrevia essas biografias, Carolina Nabuco, não abandonando inteiramente a ficção, escreveu uma história e outra que foram reunidas no livro O ladrão de guarda-chuvas e outras dez histórias (1969). Um outro livro escrito por ela foi Retrato dos Estados Unidos à luz de sua Literatura (1967). Este livro, pertencente ao gênero crítica literária, reúne, segundo a sua autora, textos sobre autores americanos, apontando o que existe de mais típico ou mais altamente americano nesses autores.&lt;br /&gt;Além de ficção, biografia e crítica literária, integram o acervo de Carolina Nabuco mais dois outros livros: Oito décadas (1973) e Meu livro de cozinha (1977). O primeiro, livro de memórias, espécie de testamento literário, reúne as reminiscências de Carolina Nabuco ao longo de oito décadas, uma a menos do que ela própria viveu. O segundo apresenta algumas imagens dos hábitos alimentares brasileiros no início do século vinte e, por isso, pode ser visto como uma obra sociológica e memorialística em que vêm à tona imagens de jantares, almoços e banquetes de que participaram a autora, seus familiares e amigos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;III Das receitas culinárias: fontes alternativas na construção de uma memória feminina&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há certo tempo, inúmeros estudiosos e estudiosas vêm mostrando que, ao longo da história, as mulheres foram silenciadas e as suas produções postas à margem. No campo da literatura, por exemplo, muitos são os estudos sobre obras de autoras esquecidas que, graças ao empenho desses estudiosos e estudiosas, verdadeiros arqueólogos perdidos entre "poeiras de arquivos", estão sendo recuperadas e podem, assim, contribuir para uma revisão de nossa história (oficial) da literatura e uma possível escritura de novos capítulos. Além disso, acreditamos que a revisão de nossa literatura e o seu desdobramento em novos capítulos podem ter uma função muito maior: ajudar na reescrita da própria história das mulheres e contribuir na escrita de uma memória feminina tecida, muitas vezes, de silêncios e para o silêncio. Destinadas à obscuridade da reprodução ou postas fora do tempo ou dos acontecimentos, as mulheres foram esquecidas, silenciadas ao longo da História.&lt;br /&gt;Neste sentido, o silêncio, sendo o Verbo Deus e, portanto, Homem, era, segundo Perrot (2005, p.09), o comum das mulheres: "o silêncio é um mandamento reiterado através dos séculos pelas religiões, pelos sistemas políticos e pelos manuais de comportamento". Entretanto, mesmo emparedadas por essa política de silenciamento, as mulheres procuraram formas de subvertê-la ou de resistir a ela, fazendo do silêncio uma arma a favor de si próprias. Sobre isso, afirma Perrot (2005, p.10):&lt;br /&gt;Evidentemente, as mulheres não respeitaram essas injunções. Seus sussurros e seus murmúrios correm na casa, insinuam-se nos vilarejos, fazedores de boas ou más reputações, circulam na cidade, misturados aos barulhos do mercado ou das lojas, inflado às vezes por suspeitos e insidiosos rumores que flutuam nas margens da opinião. Teme-se a sua conversa fiada e sua tagaralice, formas, no entanto, desvalorizadas da fala. Os dominados podem sempre esquivar-se, desviar as proibições, preencher os vazios do poder, as lacunas da História.&lt;br /&gt;No caso da literatura, vivendo numa espécie de letargia que as impedia de criar, nomear-se, nomear as coisas e ser, sobretudo, procriadoras de seus próprios discursos, textos e pensamentos, as mulheres/escritoras, ao adentrarem na cena literária, procuraram se insurgir contra uma sociedade falocêntrica responsável pela criação e perpetuação de formas discursivas por meio das quais os homens procuraram impedir a emancipação das mulheres. Estas, diante de uma sociedade que toma(va) o masculino como ponto de referência, foram, a princípio, obrigadas a silenciarem-se e a assumirem como valores femininos outras marcas: a escuta, a espera, o guardar as palavras no fundo de si mesmas, aceitar, conformar-se, obedecer, submeter-se, calar-se. Tudo isso para que o domínio masculino sobre o feminino permanecesse como algo imutável e natural, impedindo, assim, que as mulheres construíssem novos valores sociais, nova moral e nova cultura.&lt;br /&gt;Dessa forma, assim como não era em todo espaço social que as mulheres circulavam, a cena literária também não era espaço para muitas delas que, a partir do século XIX, quando muitas passaram a escrever e publicar tanto na Europa quanto na América, tiveram de ascender à palavra escrita numa época em que, apesar da valorização da erudição, lhes era negada educação superior, ou mesmo qualquer educação, a não ser a das prendas domésticas.&lt;br /&gt;Excluídas do processo de criação cultural, as mulheres estavam, portanto, enredadas e constritas pelos enredos da arte e ficção masculinas, já que estavam sujeitas à autoridade/autoria masculina. Isso fez com que, como afirma Telles (2002), a conquista do território da escrita fosse – e continue sendo – longa para as mulheres do Brasil cuja luta para fazer parte de um espaço, considerado essencialmente masculino, já dura mais de século.&lt;br /&gt;Se o acesso ao livro ou à escrita (literária, sobretudo), "modo de comunicação distanciada e serpentina, capaz de enganar as clausuras [e de] penetrar na intimidade mais bem guardada" (PERROT, 2005, p.10), foi-lhes negado, era preciso procurar outras formas para falarem de si mesmas e para deixarem, ao menos, indícios, vestígios de uma presença e memórias femininas que, apesar de esgarçadas, foram resistindo não só ao tempo mas sobretudo às políticas de silenciamento e ocultamento.&lt;br /&gt;Nesse sentido, a consideração crescente pela vida privada, familiar ou pessoal, fez com que, segundo Perrot (2005), os estudiosos e estudiosas lançassem olhares sobre fontes vistas, negligentemente, como não-oficiais: cadernos de receitas, álbuns de fotografias, diários íntimos, cadernos de anotações, cartas. Esses são alguns exemplos de fontes de que as mulheres se valeram para resistirem "à impossibilidade de falar[em] de si mesma[s] e do seu próprio ser, ou ao menos, o que se pode saber dele" (PERROT, 2005, p.10). Nessa perspectiva, essas fontes tidas como não-oficiais são uma via alternativa para o resgate do que Perrot (2005) denomina de práticas da memória feminina, as quais, por sua vez, acreditamos, podem revelar traços do feminino, sobretudo em esferas privadas.&lt;br /&gt;Dessa forma, como fomos forjados dentro de uma tradição que cristalizou certas formas de ser e existir e canonizou, por sua vez, determinadas fontes para estudos científicos, é preciso, pois, fazer ouvir os murmúrios de outras fontes, dar voz ao silêncio que, durante muito tempo, foi a marca que as singularizava. Sendo assim, se certas fontes foram credenciadas, outras, tidas como ordinárias, no sentido emprestado a este termo por Certeau (2005), não receberam as credenciais para serem reconhecidas como objeto de registro histórico e, portanto, tomadas como elementos de análises científicas, visto que foram, de chofre, denominadas como insignificantes. No entanto, como afirma Giard (2005, p.217), é preciso:&lt;br /&gt;aprender a olhar esses modos de fazer, fugidios e modestos, que muitas vezes são o único lugar da inventividade possível do sujeito: invenções precárias sem nada capaz de consolidá-las, sem língua que possa articulá-las, sem reconhecimento para enaltecê-las; biscates sujeitos ao peso dos constrangimentos econômicos, inscritos na rede das determinações concretas.&lt;br /&gt;Noutros termos, como as fontes "oficiais" não falam das mulheres, cujos traços foram, amiúde, apagados, tanto na esfera privada, quanto na pública, é preciso buscar fontes alternativas a partir das quais traços do feminino se fazem notar e mostram a resistência das mulheres às investidas da opressão masculina. Os livros de receitas, por exemplo, já que os tomamos como corpus deste trabalho, são fontes interessantes que nos proporcionam um raro momento para compreendermos, através de "simples" receitas ou dicas culinárias, "o que as mulheres chamadas de donas-de-casa faziam em seu cotidiano; e as vozes de seus desejos que, por sua vez, vão muito além de alimentar e alimentar-se, nos levam a muitas reflexões" (FERREIRA e MELLO, 2007).&lt;br /&gt;Vistos, erroneamente, como uma fonte de informações "simples", "rápidas", "baratas" e, muitas vezes, cheias de floreios femininos, os livros e os cadernos de receitas, se tomados como corpus de estudos sérios, revelam-se como uma fonte por meio da qual é possível dar atenção às ocupações cotidianas das mulheres, ou seja, dar visibilidade a um conjunto de "trabalhos que visivelmente nunca acabam, jamais suscetíveis de receber um arremate final: a manutenção dos bens do lar e a conservação da vida dos membros da família parecem extrapolar o campo de uma produtividade digna de ser levada em conta" (GIARD, 2005, p.217). Noutras palavras, pelas receitas é possível reconstruir uma memória feminina que traga as marcas de mulheres que, através de gestos, de sabores e de composições, nos legaram saberes, principalmente nutricionais, que não podem cair no esquecimento:&lt;br /&gt;Enquanto uma de nós conservar os saberes nutricionais de vocês, enquanto de mão em mão e de geração em geração se transmitirem as receitas da terna paciência de vocês, subsistirá uma memória fragmentária e obstinada da própria vida de vocês. A ritualização requintada dos gestos elementares tornou-se-me assim mais preciosa que a persistência das palavras e dos textos, porque as técnicas do corpo são mais bem protegidas da superficialidade da moda e porque aí entra em jogo uma fidelidade material mais profunda e mais densa, uma maneira de ser-no-mundo e de fazer aqui a própria morada (GIARD, 2005, p.216).&lt;br /&gt;Embora as práticas culinárias insiram-se no mais elementar da vida cotidiana, no nível mais necessário e, paradoxalmente, mais desprestigiado, elas são vistas como um trabalho monótono e repetitivo, desprovido de inteligência e de imaginação. São mantidas, portanto, fora do campo do saber e negligenciadas nos programas de educação dietética. Mesmo assim, "com exceção dos pensionários de coletividades (conventos, hospitais, presídios), quase todas as mulheres têm de cozinhar, quer só para suas necessidades, quer para alimentar os membros da família e seus convidados ocasionais" (GIARD, 2005, p.218). Por isso, os textos culinários produzidos por mulheres não só contribuem na busca ou reconstituição de uma memória feminina que traga à tona a importância das mulheres na formação de nossa cultura como também podem revelar muito sobre o processo mediante o qual se deu a inserção das mulheres no universo da escrita.&lt;br /&gt;Como a escrita era, conforme já dito, um fruto proibido para as mulheres, era-lhes permitido, nas raras exceções, aproximar-se desse fruto desde que ele não as fizesse cair em tentação (PERROT, 2005). As mulheres podiam escrever, então, desde que os seus escritos não ferissem a moral e os bons costumes. Dessa forma, escrever, por exemplo, receitas ou registrar como manter a casa em ordem era, dentro da óptica masculina, produzir "bagatelas", ou seja, não era uma atividade perigosa. Todavia, escrevendo sobre aquilo de que estavam mais próximas, as mulheres iam, paulatinamente, adentrando no universo da escrita, dominus masculino, mesmo que seus escritos fossem marginalizados ou desvalorizados, visto que versavam sobre atividades femininas que traziam em si as marcas que deveriam ser ocultadas: a desvalorização e a marginalização femininas. Para corroborar essa nossa fala, Perrot (2005, p.13) afirma o seguinte:&lt;br /&gt;O uso [da escrita], essencial, repousa sobre o seu grau de alfabetização e o tipo de escrita que lhes é concedido. Inicialmente isoladas na escrita privada e familiar, autorizadas a formas específicas de escrita pública (educação, caridade, cozinha, etiqueta...), elas se apropriaram progressivamente de todos os campos da comunicação – o jornalismo por exemplo – e da criação: poesia, romance sobretudo, história às vezes, ciência e filosofia mais dificilmente. Debates e combates balizam estas travessias de uma fronteira que tende a se reconstituir, mudando de lugar.&lt;br /&gt;Estudar textos culinários produzidos por mulheres é um bom exercício para entender as práticas da memória feminina, já que, como argutamente afirma Perrot (2005, p.33), "no teatro da memória, as mulheres são uma leve sombra", uma vez que não lhes foi dado poder gozar de espaço na narrativa histórica tradicional: "esta privilegia a cena pública – a política, a guerra – onde elas (as mulheres) aparecem pouco" (PERROT, 2005, p.33). Por isso, é preciso tomar como fonte textos em que a história oficial não foi escrita/inscrita e nos quais a presença feminina se faça notar, já que ela foi alijada da narrativa histórica tradicional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;IV Entre sabores e cheiros: o feminino em Meu Livro de Cozinha, de Carolina Nabuco&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estudando as intersecções entre a alimentação e as mulheres na Idade Média, Garretas (1995) chega a afirmar que, nesta época, assim como em muitas outras, as mulheres sempre controlaram os processos de produção e distribuição dos alimentos. Alimentar os filhos e os homens dos grupos familiares era, possivelmente, uma das poucas instâncias de poder econômico e social de que as mulheres dispunham com certa autonomia. Apesar disso, elas são mais associadas à preparação e armazenamento dos alimentos do que com ao próprio consumo deles: exercem um trabalho que é desfrutado por outros. Em decorrência disso, essa lhes é, então, uma instância de poder marcadamente insatisfatória.&lt;br /&gt;Essa insatisfação advém, talvez, do fato de que a preparação dos alimentos não propicia às mulheres, apesar da complexidade que envolve o processo de alimentar os outros, nem riqueza nem prestígio social. O produto de seu trabalho escapa cotidianamente de suas mãos, já que é integrado ao metabolismo dos membros de sua família. Além disso, o controle que elas exercem sobre os alimentos é mediado pelo controle que o marido ou o pai, chefe do grupo familiar, exerce sobre elas. Por isso, a atividade de nutrir, dentro do plano das representações, é associada à natureza, vista como algo inerente às mulheres e, portanto, dissociada da história. Isso faz com que a habilidade feminina de fazer a compra de mantimentos, de preparar e servir a comida seja vista como uma tarefa muito elementar, convencional e prosaica demais.&lt;br /&gt;Por isso, nutrir os outros, sendo visto como uma das experiências de comportamento do gênero feminino que a cultura patriarcal lhe reserva sem exceção e que cruza barreiras de classe, é recusado por muitas mulheres, uma vez que é visto como algo desgastante, menor e interminável. Todavia, se analisada por outro ângulo, a habilidade feminina de fazer a compra dos mantimentos, de preparar e servir a comida pode deixar de ser vista como uma tarefa muito elementar, convencional e prosaica demais. A cozinha, se vista como uma laboratório onde se combinam substâncias, massas, temperos e donde emanam sabores e cheiros, passa a ser um espaço onde, como revelam as receitas culinárias, o feminino se impõe e nega a passividade que lhe foi, historicamente, imposta como sua marca mais singular.&lt;br /&gt;Neste caso, as receitas são provas textuais que, por meio de seus modos de fazer contendo verbos no imperativo, revelam a presença de um feminino que, conforme já dissemos, se impõe, manda e marca presença. Isso faz com que deixemos de ver a cozinha como espaço de aprisionamento da mulher, mas como um espaço onde, por meio de cheiro e temperos, nos prendem, a homens e mulheres. Como decorrência disso, as atividades culinárias são para algumas mulheres um lugar de felicidade, prazer e invenção. O ato de cozinhar, portanto, constitui um dos pontos fortes da cultura comum porque, assim como as atividades tradicionalmente consideradas elevadas, por exemplo, a música ou a arte de tecer, exige inteligência, imaginação, memória e revela trajetos do feminino em meio a atividades cotidianas:&lt;br /&gt;[...] entrar na cozinha, manejar coisas comuns é pôr a inteligência sutil, cheia de nuanças, de descobertas iminentes, uma inteligência leve e viva que se revela sem dar a ver, em suma, uma inteligência bem comum (GIARD, 2005, p.220)&lt;br /&gt;Neste sentido, Meu Livro de Cozinha (1977), de Carolina Nabuco, pode ser visto como um registro desta prática elementar, humilde, obstinada, repetida no tempo e no espaço, que é a arte de cozinhar. Este livro, como está escrito em sua orelha, é mais do que a reunião de receitas de pratos raros, quitutes e petiscos. Ele é "um verdadeiro ensaio sob a forma ligeira de conselhos e opiniões de uma longa experiência sobre o que se poderia chamar ‘a arte de bem receber em sua casa’". Reunindo velhas receitas esquecidas, este livro não só "ensina a preparar os mais sofisticados e internacionais menus", sem que eles percam, no entanto, pelos condimentos, temperos e outros segredos, a marca brasileira; mas também ensina como preparar o arranjo da mesa e seus ornamentos, "tudo fazendo parte afinal das misteriosas e sutis combinações da arte de viver – o que é muito mais questão de qualidade do que de quantidade".&lt;br /&gt;O primeiro aspecto que chama a atenção, numa leitura mais detida, em Meu Livro de Cozinha, é a imagem presente em sua capa, reproduzida logo a seguir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se pode ver, embora escrito por uma mulher, o livro traz estampado em sua capa a figura de um chef de cousine de aparência imponente lendo um suposto livro de cozinha. Devemos atentar para esta imagem por dois motivos: o primeiro diz respeito à questão da própria autoria. Expliquemo-nos: como já dissemos, quem escreve o livro é uma mulher: Carolina Nabuco, cujo nome aparece quase que invisível na parte inferior da capa e logo abaixo da figura do chef de cousine. O segundo, ainda relacionado à questão da autoria, diz respeito à presença do pronome meu no título do livro que é: Meu Livro de cozinha. Diante disso, cumpre-nos perguntar: a quem se refere este possessivo? Ao chef de cousine cuja imagem aparece estampada na capa do livro ou à mulher que assina o livro como sendo de sua autoria? Neste caso, se a resposta for a segunda, esperava-se, como somos, por ora, levados a crer, que, sendo escrito por uma mulher, o livro trouxesse como ilustração de capa a figura de uma mulher, talvez até da própria autora, cuja foto aparece na contracapa.&lt;br /&gt;Outro aspecto interessante, ainda sobre a presença, ou melhor, a distribuição dos espaços das ilustrações, está ligado ao fato de que na página da introdução aparece a seguinte ilustração:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Como se pode ver, desta vez, não estamos mais diante de uma outra figura de um chef de cousine; mas, sim, a de uma mulher que, despojada da imponência que marcara a outra imagem, está com uma faca na mão cortando cebolas, ou seja, ao contrário do chef de cousine que está com um livro na mão, demonstrando ocupar uma posição mais elevada ou prestigiada do que a mulher que aparece nesta ilustração, ela está, como sugere a imagem, pondo as mãos na massa. Além desta imagem, aparece uma outra na seção intitulada de receitas. Trata-se de mais uma imagem de mulher, como podemos ver abaixo:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A mulher presente na imagem acima, embora vestida com trajes típicos ao ambiente da cozinha, traz na mão esquerda um menu enquanto, na direita, eleva um lápis à boca numa posição que transparece que esta mulher está indecisa, possivelmente sobre que receitas deverão constar no menu que ela, certamente, deverá organizar. Se lembrarmos que, como afirma Guilherme de Figueiredo, em prelibação ao livro A comida e a cozinha, que a literatura gastronômica esteve muito mais próxima dos homens, muito mais ligada ao macho, as observações feitas anteriormente não poderão sofrer objeções, sendo vistas, neste caso, como superinterpretações.&lt;br /&gt;Ao estampar na capa a figura de um chef, Carolina Nabuco, talvez, estivesse, ainda que inconscientemente, reproduzindo um fato que é cultural, ou, como argumenta com perspicácia Guilherme de Figueiredo, uma ancestral divisão do trabalho – não custa lembrarmos que das três figuras que aparecem apenas em duas há a presença de uma mulher e é esta que transparece estar pondo a mão na massa.&lt;br /&gt;Sob este aspecto, parece ser plausível afirmar que a cozinha também é um espaço marcado pelas relações de poder que trazem em si as marcas (das desigualdades das relações) de gênero. Para corroborar esta assertiva, cremos ser pertinente a seguinte afirmação de Guilherme de Figueiredo: "os livros de receitas contam quase sempre com a vasta contribuição feminina; os de cozinha profissional têm redação masculina, porque os machos aprenderam a escrever antes das fêmeas" (FIGUEIREDO, 1988, p.XIII).&lt;br /&gt;Por outro lado, esta afirmação nos leva, diante das imagens analisadas, a uma possível contradição: o livro em análise é intitulado de livro de cozinha, mas sua redação é feita por uma mulher que, aliás, tinha muita instrução nas artes de comer e servir. Então, por que trazer em sua capa uma imagem masculina e no seu interior imagens femininas? Estaria, aqui, posta a velha dicotomia entre o público (esfera masculina = capa do livro) e o privado (esfera feminina = interior do livro)? A resposta a mais essa pergunta, talvez, seja afirmativa, se levarmos em consideração que a cozinha revela o modo como uma sociedade se estrutura:&lt;br /&gt;[...] a cozinha constitui "uma linguagem na qual cada sociedade codifica mensagens que lhe permitem significar pelo menos uma parte do que ela é", isto é, "uma linguagem na qual ela traduz inconscientemente sua estrutura" (GIARD, 2005, p.246).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Neste caso, a linguagem, aqui compreendida de forma mais ampla possível, extrapolando, inclusive a esfera dos signos meramente verbais, o que nos permite incluir as imagens em pauta, "sendo parte da vida política e social, não só molda nossas percepções como é moldurada pelo social. Sendo capital na percepção da realidade, a linguagem tem sido canalizada para atender aos interesses dos grupos dominantes. Seria razoável escrever que as formações discursivas são uma réplica das estruturas da sociedade" (MOREIRA, 2002, p.121).&lt;br /&gt;Saindo da esfera das ilustrações e entrando na parte textual do livro, Meu livro de cozinha apresenta, além de uma nota da editora, duas partes: a da introdução e a das receitas. Na primeira, a autora, inicialmente, apresenta um conjunto de termos franceses e os seus respectivos significados, como por exemplo: blanchir que é "ferver os alimentos em água, salgada ou não, para endurecê-los, livra-los de impurezas, ou simplesmente cozinhá-los (legumes)"; bouillon que é "caldo de carne; consommé"; braiser, isto é, "corar um alimento em panela descoberta e com gordura. Cozinhar em seguida em panela coberta e acrescentando ligeira quantidade de líquido. É o processo que conhecemos como assado de panela" (NABUCO, 1977, p.15). Ao todo, nesta seção, são apresentados 35 termos que, recorrentes na maioria das receitas presentes no livro, demarcam o espírito francês presentes nelas e em que a sua autora teve sua formação forjada.&lt;br /&gt;Logo após essas dicas, segue-se uma outra seção cujo título é alguns princípios de cozinha. Aqui, está presente um conjunto de dicas que são formuladas a partir da experiência na cozinha, ou seja, a partir do pôr a mão na massa:&lt;br /&gt;Só a experiência permite saber, por exemplo, que a carne de carneiro requer forno mais brando do que a carne de vaca ou de aves; que empanada de frutas requerem mais calor do que bolos grandes...&lt;br /&gt;Conheço uma cozinheira que põe a mão dentro do forno e começa a contar. Se só consegue contar até 3, o forno está quentíssimo. Se vai até 20, o calor está bom para suspiros, isto é, quase frio (NABUCO, 1977, p.19).&lt;br /&gt;A partir do fragmento acima, podemos dizer que as receitas ou as dicas existentes nos livros de receitas não são frutos de um único indivíduo. Elas são resultantes de experiências passadas de um para outro. Isso fica evidente em mais este trecho do livro em pauta: "cozinhar duas horas em fogo brando. A cozinheira que preparou esta sopa [de cebolas] avisa que, cozinhando demais, a carne pode tomar mau gosto" (NABUCO, 1977, p.44). Este exemplo, assim como o da citação anterior, corrobora, portanto, a afirmação de que as receitas, embora possam ser coletadas por um único indivíduo, são fontes que trazem em si mesma um conjunto de experiências que, permeadas de cheiros e sabores, são passadas, ao longo dos tempos, de um indivíduo para outro numa eterna troca de experiências a partir das quais, dependendo muitas vezes do sucesso alcançado com determinado prato, as próprias receitas são reformuladas, refeitas.&lt;br /&gt;Isso decorre do fato de que o ato de cozinhar é "o suporte de uma prática elementar, humilde, obstinada, repetida no tempo e no espaço, com raízes na urdidura das relações com os outros e consigo mesmo, marcada pelo ‘romance familiar’ e pela história de cada uma, solidária das lembranças de infância como ritmos e estações" (GIARD, 2005, p.218). Nesse universo onde a experiência, na maioria das vezes, dita as normas e dela depende o sucesso final de cada receita, o contato entre a cozinheira e os ingredientes deve ser marcado por uma fina sintonia. Nesse processo, o tato, ao lado do olfato, parece, mais do que os demais sentidos, ser imprescindível: é pelo toque que verificamos se os alimentos estão prontos ou quanto tempo falta ainda para eles chegarem ao ponto.&lt;br /&gt;Além dessa base eminentemente empírica, as receitas culinárias, no dizer de Giard (2005), são textos que, entre o aparentemente trivial, trazem um conjunto de saberes que exigem algumas competências: saber fazer, aprender a fazer, dizer como fazer. Ou seja, as receitas culinárias, com uma língua e um corpo próprios, trazendo segredos e convivências, são a materialização textual de uma "sucessão [de] gestos que se encadeiam, [do] hábil movimento das mãos [que] necessitam por sua vez das palavras e do texto para circular entre os que lidam na cozinha" (GIARD, 2005, p.287).&lt;br /&gt;Ainda na introdução de seu livro, Carolina Nabuco apresenta uma lista com o nome de alguns temperos escrita em três línguas: português, francês e inglês, o que, conforme esclarece uma nota de rodapé, é para auxiliar aquelas "donas-de-casa que costumam procurar receitas em livros estrangeiros" (NABUCO, 1977, p.20). Seguem-se a essa lista umas notas sobre esses temperos, as quais procuram esclarecer com quais pratos eles combinam mais para que se possa realçar o gosto dos alimentos sem que as suas características sejam alteradas. Assim, é dito, por exemplo, que "coentro (parecido com a salsa) é o melhor tempero para peixe e camarão" ou que "a salsa é talvez o tempero de uso mais generalizado, deixando de contribuir ao gosto de qualquer prato e dando, com seu vivo verde, efeito mais cuidado aos pratos em que aparece picadinha" (NABUCO, 1977, p.20).&lt;br /&gt;Além disso, a autora procura mostrar que alguns desses temperos são preferidos por determinados por povos na composição de certos pratos, como é o caso dos "franceses [que] nunca omitem cenoura entre os temperos, nos refogados e na cozinha" e que "para os pratos doces preferem o açúcar guardado num vidro com favas de baunilha, às essências comerciais"; ou dos holandeses que "usam cominho no pão e no queijo. Vão bem com massas, sobretudo acompanhada goulash húngaro" (NABUCO, 1977, p.21).&lt;br /&gt;Após as notas sobre os temperos, segue-se uma secção denominada de menus e serviços. Nela, Carolina Nabuco, recorrendo a exemplos de uma época em que a sua casa recebiam grandes visitas ou em que ela era convidada para grandes jantares, registra mudanças nas regras de serviço de mesa e na variedade dos menus. Diante dessas alterações, ela procurou sorver "o movimento e o colorido culinário, próprios de cada época, levantando assim, para cada uma, um retrato característico" (NABUCO, 1977, p.22). A posição da autora, ao construir um retrato próprio para cada uma dessas épocas, é importante porque "os hábitos alimentares constituem um domínio em que a tradição e a inovação têm a mesma importância, em que o presente e o passado se entrelaçam para satisfazer a necessidade do momento, trazer a alegria de um instante e convir às circunstâncias" (GIARD, 2005, p.212).&lt;br /&gt;Carolina Nabuco parece ser coerente com isso ao registras as mudanças ocorridas na arte de comer e servir à mesa, as quais determinaram a passagem do hábito de servirem-se os pratos ao pares ao hábito de pratos circulantes em redor da mesa. Além disso, os menus deixaram de ser uma lista de várias páginas e emergiu uma nova figura: a dos "maîtres-d’hôtel, com seus agregados especializados". Entretanto, as mudanças apontadas por Carolina Nabuco não só demarca diferenças entre cozinhas, a da França e a da Inglaterra, por exemplo, cada uma com seus serviços singulares; mas também hábitos culturais entre determinados países. Neste último caso, tomando a Inglaterra como modelo de luxo na arte de comer e servir à mesa, Carolina Nabuco chega a fazer a seguinte afirmação:&lt;br /&gt;Uma das principais diferenças, em relação aos usos do resto da Europa, era o da criadagem não usar luvas. Não faltavam ingleses maliciosos para suspeitar que, nos países latinos, as luvas serviam para esconder sujeira. A seu ver, bastava lavar as mãos e unhas com sabão... (NABUCO, 1977, p.25).&lt;br /&gt;Como se pode perceber, o retrato apresentado por ela não só traz as marcas dos gostos e dos temperos de cada época, como também apresenta traços culturais diferentes de cada país, demarcando as relações de poder entre um país e outro. Veja-se que no exemplo citado anteriormente o fato de usar luvas nos países latinos era, aos olhos ingleses, uma forma que podia indicar estar escondendo sujeira entre as mãos. Além disso, ainda que, conscientemente, não seja o seu objetivo, é possível, aqui e acolá, encontrar passagens neste seu livro de cozinha que revelam os comportamentos das mulheres dentro da esfera privada da cozinha.&lt;br /&gt;Muitas delas, como afirma a própria Carolina Nabuco, preocupadas em, entre listas de várias páginas, saber quais receitas comporiam o menu do almoço ou o do jantar. Ou seja, os cadernos de receitas ou os livros de cozinha revelam, na opinião de Ferreira e Mello (2007), "fragmentos de uma escrita feminina e sua relação com o mundo". Como exemplo disso, podemos citar o seguinte trecho:&lt;br /&gt;Vejo agora muitas diferenças desde o meu tempo de jovem. Vejo, por exemplo, todas as mulheres, minhas contemporâneas, com a mesma silhueta delgada. Vejo em todas uma cintura finíssima, a realçar a redondeza dos quadris que traiam, alguns deles, bons apetites. A evolução que vi nascer na adolescência, e que minha admiração acompanhava, foi sempre no sentido da diminuição do peso e de centímetros, nunca no de aumento. Cabia-me apenas estranhar os cortes nas medidas que se tornavam necessários (NABUCO, 1977, p.22).&lt;br /&gt;Como se pode ver, o fragmento anterior mostra como é possível, a partir de registros presentes em um "simples" livro de cozinha, encontrar marcas de como uma sociedade modela costumes para o ser feminino. Percebemos, neste excerto, como foram ocorrendo mudanças nos modos de vestir, as quais, amiúde, fizeram com que as mulheres de quadris delgados passassem a ter formas menos salientes e mais esguias, pois, como argutamente percebe Carolina Nabuco, as mudanças nos hábitos de comer e de vestir ocorreram sempre no sentido de diminuir peso e centímetros, nunca no de aumentá-los.&lt;br /&gt;Neste caso, devemos reiterar que, vista como uma questão cultural, a comida, se estudada por esse viés, permite que cheguemos à memória de um grupo, de uma sociedade ao mesmo tempo em que revela o quanto ela mesma, a comida, é modelada pela cultura que revela:&lt;br /&gt;Como todo agir humano, essas tarefas femininas [as da cozinha] dependem da ordem cultural: diferem de uma sociedade a outra, sua hierarquia interna e seus modos de proceder; de uma geração a outra, transformam-se as técnicas que presidem essas tarefas como as regras de ação e os modelos de comportamento que dizem respeito a elas (GIARD, 2005, p.218).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta parte do livro em pauta, intitulada de menus e serviços, é importante também porque mostra como comida e memória estão entrelaçadas, ou seja, os territórios da memória não são feitos apenas de lembranças, mas também de gostos, cheiros, cores, sabores, pois "o prazer de um sabor centra-se na língua e no céu da boca, embora com freqüência não comece ali, mas na lembrança" (ZINN, 2002, p.16).&lt;br /&gt;Para corroborar isso, podemos trazer à tona mais um exemplo do livro em pauta no qual a sua autora diz que, quando jovem, havia sido convidada para um jantar de cujo menu ela apenas se lembrava de um épinards aux croûtons: "o preparo desta verdura deve ter sido magistral para explicar suas sobrevivências em minha memória, tantos anos depois" (NABUCO, 1977, p.27). Além desse, eis outro exemplo que demonstra como são contíguas as relações entre comida e memória:&lt;br /&gt;Mas talvez a mais bonita apresentação de frutas de que guardo lembrança é a de um verdadeiro monumento de frutas descascadas. Isto foi no Chile – onde as frutas são lindas – na Embaixada do Brasil. No centro um abacaxi também descascado formava um pedestal natural para as suas folhas. Repousava provavelmente sobre uma base invisível dando altura ao monumento. As frutas (só as uvas tinham casca) eram belas e variadas – laranjas, ameixas, grandes peras, lindos pêssegos e outras daquela terra privilegiada. Gelo picado e açúcar cristal davam uma notinha de prata (NABUCO, 1977, p.212).&lt;br /&gt;Nota-se, ainda na parte dos serviços e menus, uma grande recorrência de termos franceses seja para a denominação dos pratos, seja para as partes de que se compunha um menu àquela época, ou seja, um menu era, estruturalmente, composto pelos seguintes elementos: hors d’euvre d’office, premier service, coup du milieu, deuxième service, desserts assortis e , por último, vins. Entre os menus apresentados neste livro, podemos citar este que foi o do casamento de núpcias dos pais de Carolina Nabuco:&lt;br /&gt;MENU&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;HORS D’OEUVRE D’OFFICE – Beurre frais; radis; olives; sardines; anchois et saucissons&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PREMIER SERVICE – Crême de volaille à la Reine Margot; consommé de gibier à la rintanière; petites croustades à la Capucine; huîtres à la florentine; badejo à la Regence; bijupirá sauce ravigotte; longe de veau à la flamande; selle d’agneau à la purée de marrons; timballes de lapereau à la Toulouse; galantine de macuco à la Périgord; mayonnaise de poulard et salade russe.&lt;br /&gt;COUP DU MILLIEU – Punch au champagne.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DEUXIÈME SERVICE – Dindes à la brèsilienne et truffées, jambon d’York à la gelée, asperges sauce Mousseline, croutes à la Richelieu, galée au Dantzig e bombe à la Siciliènne.&lt;br /&gt;DESSERTS ASSORTIS –&lt;br /&gt;VINS – Madère, Xerez, Bordeaux, Chateau d’Yquem, Bourgogne, Rhin, Rhum, Champagne frapp&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A presença desses termos em francês é um dado importante não só porque Carolina Nabuco teve sua formação feita, em grande parte, na França; mas também porque traz em si registros de uma época, a belle époque, em que a França ditava os padrões de ser, comer e se vestir. Aliás, no campo da culinária, a supremacia francesa começou já no início do século XIX, exercendo, "graças à superioridade inconteste dos seus molhos sobre os molhos italianos" (QUEIROZ, 1988, p.55), sobre as demais cozinhas o seu domínio e influência.&lt;br /&gt;Ainda nesta secção, Carolina Nabuco traz, entre dicas e recordações de antigos jantares e almoços, registros de "um mundo perdido". Ou seja, pela comida, pelos hábitos culinários, vê-se desfilar as mudanças entre gerações:&lt;br /&gt;Eu sou da geração em que nenhum jantar, mesmo os de família, tinha menos de dois pratos, além da sopa. Vivi num mundo em que não faltavam bons domésticos, mesmo nas casas mais modestas. Os horários eram rigorosos e os programas de passeios não dispensavam os mais moços da pontualidade à mesa. O respeito aos pais assim o exigia e não existiam geladeiras para recurso de refeições fora de hora.&lt;br /&gt;Em todas as casas, as mesas eram postas com a indefectível toalha branca adamascada. No quadro familiar de minha infância nunca faltava também a sopeira fumegante colocada em frente à dona da casa. Hoje a sopa, quando aparece (coisa que está se tornando um tanto rara), é em geral trazida já nos pratos.&lt;br /&gt;A roupa de mesa que se usa hoje, sempre alegre e variada, não é tão sujeita ao trabalho especial das lavadeiras. Os tecidos brancos adamascados que ainda aparecem são apenas para servir o esnobismo (ou saudosismo) de alguns requintados... (NABUCO, 1977, p.27-28).&lt;br /&gt;Pelo excerto acima, podemos dizer que os cadernos de receitas ou os livros de cozinha são também territórios de confissão. Neste caso, o ato de comer pode ver visto como "um verdadeiro discurso do passado e o relato nostálgico do país, da região, da cidade ou do lugar em que se nasceu" (GIARD, 2005, p.250).&lt;br /&gt;A maior parte textual de Meu Livro de Cozinha, como já era de se esperar, é dedicada às receitas. Em cada uma das secções dessa parte, são apresentadas, de forma bastante concisa, informações, sejam culinárias, sejam "históricas", sobre os pratos que integram as receitas a serem apresentadas. Ao todo, o livro apresenta 246 receitas distribuídas, respectivamente, da seguinte forma: sopas (30); molhos (26); peixes e crustáceos (38); aves, terrines e galantines (19); vitela e carne de vaca (17); carneiro (07); porco e leitão (04); coelho e pequenos animais (06); miúdos em geral (12); ovos (05); legumes e verduras (18); soufflés (06); massas (22); aspics e chauds-froids (08); e sobremesas (28). Estas últimas estão divididas em duas secções. A primeira apresenta vinte e uma receitas de sobremesas e a segunda contém sete receitas de frutas naturais que podem ser servidas como sobremesas.&lt;br /&gt;Como todo texto, as receitas culinárias têm uma estrutura própria que, segundo Giard (2005), diz respeito a quatro domínios distintos de objetos e ações: os ingredientes; os utensílios e recipientes; as operações, "verbos de ação e descrições do hábil movimento das mãos"; "os produtos finais e a nomeação dos pratos obtidos". Esses quatro elementos, encontrados em uma mínima receita, são imprescindíveis para fazer "uma descrição do modo injuntivo que suscita e acompanha a passagem ao ato, gerando, depois, no tempo exigido pelos meios indicados, o resultado prometido" (GIARD, p.288).&lt;br /&gt;Sob este aspecto, podemos afirmar que as receitas presentes em Meu Livro de Cozinha (1977) não apresentam, grande parte delas, esses quatro elementos visíveis numa receita mínima. A autora, talvez isso seja uma marca de seu estilo, opta por romper com essa "estrutura padrão" para escrever receitas em que, às vezes, ficam bem nítidos os quatros domínios, como neste caso:&lt;br /&gt;Pâté Adélia&lt;br /&gt;(Para 10 pessoas)&lt;br /&gt;700 gramas de fígado de ave.&lt;br /&gt;400 gramas de carne de porco.&lt;br /&gt;200 gramas de carne de vaca.&lt;br /&gt;2 pães de 50 gramas (de molho&lt;br /&gt;em ½ xícara de leite).&lt;br /&gt;125 gramas de manteiga sem sal.&lt;br /&gt;400 gramas de toucinho.&lt;br /&gt;3 ovos cozidos passados na peneira ou, de preferência, no liquidificador.&lt;br /&gt;Temperos para o final&lt;br /&gt;3 cebolas, pimenta-do-reino, sal, noz-moscada, trufas, ½ copo de vinho Madeira.&lt;br /&gt;O fígado deve ficar no leite durante uma noite. Depois passar na peneira, deixando escorrer o leite (que não se guarda).&lt;br /&gt;Fritar as cebolas na manteiga até dourar. Retirar a cebola da manteiga e churrascar o fígado na mesma manteiga. Passar pela máquina ou pelo liquidificador. Uma vez se for no liquidificador, três vezes se for na máquina.&lt;br /&gt;Passar (juntas) as carnes de porco e vaca. Passar o toucinho separado, misturar e guardar um pouco para forrar a fôrma.&lt;br /&gt;Misturar todo o resto, menos os temperos, e passar na peneira de seda. Acrescentar os temperos; se for preciso, mais 10 gramas de manteiga derretida. Encher a fôrma (untada com toucinho). Cozinhar em banho-maria 1 hora e 15 minutos. Espetar um palito para verificar se está cozido. Não deixar escurecer demais.&lt;br /&gt;Cercar o patê com losangos de gelatina, feitos com um litro de caldo de galinha, 7 folhas de gelatina, ½ copo de vinho Madeira (NABUCO, 1977, p.149-150).&lt;br /&gt;Outras vezes, torna-se difícil perceber esses quatro domínios, principalmente o domínio dos utensílios e recipientes, aos quais quase não são feitas referências, mas que podem ser depreendidos a partir do que é dito, ordenado, aconselhado, relembrado nessas recitas. Como exemplo desse último caso, podemos citar a receita a seguir cuja estrutura é semelhante à da maioria das receitas existentes no livro em pauta:&lt;br /&gt;Outra sopa de alhos (de Júlia)&lt;br /&gt;Pôr em água fervendo os ossos e a carne de uso diário e acrescentar muito alho (uns doze dentes). Depois de ferver bem, acrescentar uma cebola, uma cenoura, um nabo, três tomates, alho-poro e aipo, se houver. Ferver bastante. Mais tarde, acrescentar um pedaço de abóbora e batata. Coar e servir (NABUCO, 1977, p.43).&lt;br /&gt;Essa receita, como se pode ver, não possui, em separado, os domínios dos ingredientes, dos utensílios, do fazer e do servir. Pelo contrário, ela possui uma estrutura muito concisa que, a nosso ver, valoriza mais o domínio do fazer, ou seja, dos "verbos de ação e descrições do hábil movimento das mãos" e é essa estrutura que apresentam a maioria das receitas de Meu livro de cozinha (1977), já que elas foram escritas, aventamos, como se o seu leitor estivesse cozinhando, isto é, em ação, pondo as mãos na massa.&lt;br /&gt;Apesar da concisão das receitas, o que exige um conhecimento prévio sobre a arte de cozinhar, Carolina Nabuco, colocando à parte termos técnicos como "escaldar", "refogar", "untar", consegue dizer estritamente o necessário, ou seja, exprimir-se sem dar margem a equívocos. Aliás, como afirma Queiroz (1988, p.47), além da arte da culinária, o que chama atenção em um escritor é o seu estilo, isto é, o saber "transmitir ao leitor, com clareza e segurança, as receitas a realizar: pesos, medidas, porções, proporções, tudo é assinalado com minúcia".&lt;br /&gt;Sendo a comida um produto tributário da cultura, as receitas culinárias trazem em si traços que revelam não só significados culturais como também interesses econômicos, poderes políticos, necessidades nutricionais, desenhando, assim, uma verdadeira geografia da sociedade ao registrarem os grupos e classes de pertencimento, marcados por diferenças, hierarquias, estilos e modos de comer. Esse amálgama cultural está presente não só na variedade de ingredientes, mas, sobretudo, nos nomes das próprias receitas, as quais "guardam histórias, tradições, tecnologias, procedimentos e ingredientes submersos em sistemas socioeconômicos, ecológicos e culturais complexos, cujas marcas territoriais, regionais ou de classe lhes conferem especificidade, além de alimentarem identidades sociais ou nacionais" (CANESQUI e GARCIA, 2005, p.12).&lt;br /&gt;Nesse sentido, embora nosso objetivo não seja fazer um estudo filológico, inventariando o léxico dos títulos das receitas de Meu livro de cozinha, vamos encontrar vocábulos que pertencem, em sua maioria, ao campo semântico da culinária, ou seja, nos títulos dessas receitas é recorrente a presença de termos que designam vegetais, legumes (creme de aspargos, sopa de tomates, velouté de alcachofras) ou remetem a hiperônimos como carne (sopa de carnes) ou peixe (velouté de peixes). Além disso, a referência a esses ingredientes é feita, em alguns casos, por vocábulos oriundos de outras línguas, geralmente o francês. Por isso, esclarece a autora, em uma das receitas, que "o nome Crécy é reservado aos pratos à base de cenoura, como o nome Mornay é reservado ao de queijo, Dubarry aos de couve-flor, Argenteuil aos de aspargos, etc." ou que "o nome parmentier é sinal de que se trata de um parto à base de batatas. Do mesmo modo, à la Conde indica que é à base de favas, à la Freneuse de nabos, Florentine de espinafre, etc." (NABUCO, 1997, p.42).&lt;br /&gt;Ao lado disso, os vocábulos dos títulos das receitas remetem a costumes alimentares regionais (peixe à baiana, galinha da roça, rebuchada pernambucana, panelada pernambucana) ou de outros países (sopa de feijão branco à portuguesa, bortsch – sopa russa –, sauce espagnole, sauce allemande – chamado hoje de sauce parisienne –, molho holandês, molho tártaro, filets de pescadinha à inglesa, miolo de vitela à romana). Ademais, o inventário desse léxico revela também não só a presença de relações de raça (torta preta e branca), de classes (consommé à la reine, consommé à la royale, consommé à la reine Jeanne, charlotte burguesa de maçãs) como também aspectos políticos (torta às direitas), nomes de logradouros (sopa real grandeza), desejos (massa para sonhos) ou nomes dos utensílios (bife de panela, assado de panela, perdiz de caçarola).&lt;br /&gt;Sendo a cozinha espaço habitualmente reservado às mulheres, mais do que aos homens, ainda que sejam registrados, ao longo da História, chefs e famosos cozinheiros, os títulos das receitas culinárias não podiam deixar de lado a presença feminina. Daí por que pululam nomes de mulheres em várias receitas: conssommé Joana, consommé à la reine Jeanne, outra sopa de alhos de Júlia, patê Adélia, charlotte Noêmia, charlotte Carmen, gnòcchi vienenses Maria José.&lt;br /&gt;CONSIDERAÇÕES FINAIS&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;As receitas culinárias não só nos legam um saber fazer, um aprender a fazer e um dizer como fazer, mas também, em meio à sucessão de gestos que se encadeiam e compõem uma sinfonia de cheiro, som e sabor, revelam o hábil movimento de mãos que são capazes de unir matéria e memória, presente e passado, tradição e inovação, sonhos e desejos, amor e morte. Isso, dada a sua relevância, aponta para a necessidade da criação de uma memória culinária. Sobre essa necessidade, é muito pertinente a seguinte indagação de Eça de Queiroz (apud QUEIROZ, 1988, p.14): "De Sófocles, temos as tragédias, de Teócrito, as éclogas... Onde estão os molhos de Aftonetes?" Por isso, o grande romancista português conclamava: "já vastamente exploramos a Antiguidade nas suas letras: é tempo de a esquadrinharmos nos seus petiscos". Para tanto, urge que "os estudiosos fechem os livros e preparem as caçarolas".&lt;br /&gt;Por outro lado, além da importância de registrar gostos, cheiros, cores, sabores, especiarias e condimentos, elementos importantes na construção de uma memória culinária, como bem queria Eça de Queiroz, as receitas culinárias trazem em si as marcas de "gestos de mulheres, vozes de mulheres que tornam a Terra mais habitável" (GIARD, 2005, p.297). Por isso, elas são fontes imprescindíveis na busca de traços do feminino e na construção de uma outra memória: uma memória feminina que ainda está imersa em muitas zonas mudas ou até mesmo num verdadeiro oceano de silêncio (PERROT, 2005). Por fim, num trabalho cujo corpus seja composto por manuscritos culinários, saber (do latim sapore) e sabor (do latim sapere "ter gosto"), palavras ligadas pelo mesmo étimo, passam a constituir, a um só tempo, entrada e prato principal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;BIBLIOGRAFIA&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;CANESQUI, Ana Maria e GARCIA, Rosa Wanda Diez (org.). Uma introdução à reflexão sobre a abordagem sociocultural da alimentação. In: __ Antropologia e nutrição: um diálogo possível. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2005.&lt;br /&gt;CARVALHO, Cláudio. Fadário de predestinada, destino de mulher – uma leitura de Celeste, de Maria Benedita Bormann (Délia). In: CUNHA, Helena Parente (org.). Desafiando o cânone (2): ecos de vozes femininas na literatura brasileira do século XIX. v. 2. Rio de Janeiro: Faculdade de Letras da UFRJ, 2001 (Coletâneas).&lt;br /&gt;COELHO, Nelly Novaes. 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São Paulo: Arx, 2002.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/8681241324606906682-6759851934674962384?l=leitordepoesia.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/feeds/6759851934674962384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=8681241324606906682&amp;postID=6759851934674962384' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6759851934674962384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/8681241324606906682/posts/default/6759851934674962384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://leitordepoesia.blogspot.com/2008/05/vozes-da-alimentao.html' title='VOZES DA ALIMENTAÇÃO'/><author><name>Amiel Nassar Rivera</name><uri>http://www.blogger.com/profile/04238289231078366678</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='21' src='http://bp0.blogger.com/_hZEfvQ-6SWU/R9qbZ6zFIGI/AAAAAAAAAAM/9zP8kWQ1Nto/S220/poesia.jpg'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-8681241324606906682.post-2830002271644456153</id><published>2008-05-30T16:46:00.000-07:00</published><updated>2008-05-31T16:20:45.759-07:00</updated><title type='text'>A CONSTRUÇÃO DA IDENTIDADE DA PROTAGONISTA</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Marcelo Medeiros da Silva – Doutorando – PPGL&lt;br /&gt;Universidade Federal da Paraíba&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;I. Entre o rural e o urbano: espaços antagônicos no processo de formação identitária da protagonista de A sucessora &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A questão da identidade sempre provocou debates bastante calorosos. Contemporaneamente, ela tem sido um dos assuntos da ordem do dia, principalmente porque as velhas identidades, forjadas sob as concepções de raça, gênero, classe, etnia ou nacionalidades, estão sendo postas em xeque. Essa crise por que passam as identidades é oriunda das transformações por que passa o conceito de sujeito. De acordo com Haal (2005), se antes o sujeito era visto como unificado, este mesmo sujeito, atualmente, encontra-se fragmentado. Essa cisão fez com que velhas identidades que, durante muito tempo, estabilizaram o mundo social entrassem em declínio e também se fragmentassem.&lt;br /&gt;Nesse sentido, aquele sujeito visto como possuidor de uma identidade unificada e estável está se tornando, cada vez mais, fragmentado. Ele não é composto de uma única identidade, mas de várias identidades. Em nossa modernidade tardia, a identidade tornou-se, portanto, uma "celebração móvel": "formada e transformada continuamente em relação às formas pelas as quais somos representados ou interpelados nos sistemas culturais que nos rodeiam" (HAAL, 2005, p. 13).&lt;br /&gt;Dessa forma, vista como uma convenção socialmente necessária, a identidade é um tema que tende a ser de graves preocupações e agitadas controvérsias. Ela "somente se torna uma questão quando está em crise quando algo que se supõe como fixo, coerente, estável é deslocado pela experiência da dúvida e da incerteza" (MERCER, 1990 apud HAAL, 2005, p.09).&lt;br /&gt;Dúvidas e incertezas são, portanto, uma constante na vida da personagem principal de A sucessora. Este romance, escrito em plena ascensão do regionalismo brasileiro, narra a dura inserção de uma mulher num ambiente que lhe é, aparentemente, hostil e ao qual ela também é avessa. Nesse caso, como afirma Baumann (2005, p. 19), "estar total ou parcialmente ‘deslocado’ em toda parte, não estar totalmente em lugar algum [...] pode ser uma experiência desconfortável, por vezes perturbadora". Isso faz com que a identidade da personagem Marina seja um dos aspectos relevantes do romance em 
